Recentemente, Joel Pinheiro publicou um pequeno artigo em que faz uma crítica ao pensamento do conservador norte americano Russel Kirk ("Crítica aos dez princípios conservadores"). Desconheço a obra e o pensamento de Kirk, então não escrevo com a intenção de defender as idéias deste autor. No entanto, Joel julga Kirk como um expoente do conservadorismo acima da maior parte dos outros, de modo que, se sua crítica vai dirigida a apenas um, considerado entre os mais inteligentes e moderados, na verdade termina por abranger o conservadorismo como um todo.
Entre as várias críticas formuladas, respondo aqui apenas uma: a de que o conservadorismo tem o irracionalismo como fim. Em poucas palavras, o argumento de Joel pode ser formulado da seguinte maneira. (1) O conservadorismo tem como fim ensinar que a ação política deve somente se pautar pelos preceitos do passado e pela impossibilidade de aperfeiçoamento da sociedade. (2) A aplicação desses critérios é automática, isto é, prescinde da inteligência operante no ato da decisão. (3) Portanto, o conservadorismo tem o irracionalismo como fim.
Formulado nesses termos, seria impossível negar a crítica. No entanto, os pressupostos que levaram a essa conclusão não são essenciais ao conservadorismo, a não ser que ele seja entendido de maneira muito restritiva, isto é, entendido como uma doutrina que necessariamente inclui esses pressupostos. O objetivo desse breve texto é mostrar que esses pressupostos não são necessários ao conservadorismo.
Em primeiro lugar, o princípio da prescrição não exige uma interpretação tão restritiva. Ele apenas afirma que a prescrição tem muita importância, mas não diz que não se deva pensar sobre a razão da prescrição nem diz que ela deva sempre ser seguida. O que é crucial no pensamento conservador é a percepção de que a prescrição geralmente está baseada em uma adaptação social a um desequilíbrio. Consequentemente, é importante levar em conta a prescrição, pois há uma grande chance de que ela seja imprescindível para a manutenção do equilíbrio da sociedade e do indivíduo. O que o conservadorismo aconselha não é a obediência irrefletida a ela, mas sim a cautela e reflexão antes de modificar ou ignorar um preceito, caso pareça necessário.
O segundo ponto equivocado é a noção de que o princípio da imperfeição tenha como implicação necessária a impossibilidade do aperfeiçoamento. O princípio da imperfeição simplesmente assume que não há possibilidade de perfeição absoluta no campo político ou pessoal. Em termos práticos, isso significa que é impossível formular um projeto político que tenha como implicação necessária a satisfação de todos os indivíduos. Um outro corolário desse princípio é a noção de que é vã toda e qualquer solução que assuma a perfeição pessoal de todos os indivíduos.
No entanto, o conservadorismo assume que de fato existem uma ou muitas soluções boas, dependendo das circunstâncias reais. Ao contrário do marxismo e do liberalismo absoluto, que partem do princípio de que há essencialmente uma única receita para todos os problemas sociais e econômicos, o conservadorismo parte do princípio de que cada problema concreto tem uma boa solução, não perfeita, mas peculiar. Evidentemente, para encontrar a solução ao problema concreto, faz-se necessário o uso da razão. Ao contrário das doutrinas de método fechado, não são impostas tantas restrições, e a razão pode ser aplicada aos problemas concretos com maior versatilidade, e chegar de modo mais eficaz à solução ótima do problema.
Fica demonstrada portanto a possibilidade da racionalidade no conservadorismo. Mais do que isso, fica demonstrada a possibilidade do exercício mais livre da racionalidade no conservadorismo em comparação com as doutrinas de método fechado. Ao mesmo tempo, também foi esclarecido que o princípio da prescrição, quando corretamente entendido, pode ser perfeitamente compatível com a razão, dependendo apenas de quais são as suposições sobre a natureza da prescrição. Esperamos que os argumentos aqui apresentados tenham sido suficientemente claros e que já não haja mais possibilidade, pelo menos dentro do exercício legítimo da lógica, de questionar a racionalidade do conservadorismo.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Sobre a possibilidade de um conservadorismo racional
sábado, 5 de abril de 2014
Religião x Ciência: uma equiparação inadequada
Comentário ao texto "Em que devo crer", de Júlio Lemos, publicado no blog da revista Dicta e Contradicta
A aparente força do argumento de Júlio Lemos vem da equiparação inadequada da ciência natural com a religião.
A equiparação é inadequada pois a ciência natural e religião operam sobre âmbitos distintos da realidade. A ciência natural apenas opera sobre objetos que tem alguma propriedade física. Isso é assim por que suas conclusões são derivadas e testadas por algum tipo de medida sobre objetos materiais. A medida pressupõe a materialidade do objeto, pois ela é necessária para que seja possível a interação entre o instrumento de medida, que é material, e o próprio objeto.
A não ser que se postule um universo onde apenas o que é passível de ser medido exista, há espaço dentro da racionalidade para a especulação sobre a existência do imensurável. Entre as muitas possibilidades de objetos ou entidades imensuráveis, seja por carecerem de materialidade, ou por possuírem uma materialidade distinta da matéria conhecida, não interagente com ela, está Deus. Sendo imensurável, está absolutamente fora do âmbito da ciência natural a possibilidade de derivar ou testar qualquer conhecimento a respeito dele.
A Religião, pela própria definição, é a relação do homem com Deus. Na medida em que está fora da possibilidade da ciência natural ter como objeto de conhecimento o incomensurável, não pode nem endossar nem negar a religião. Para negar a religião é necessário, na verdade, postular a priori a inexistência do incomensurável.
Não podendo recorrer à ciência natural para alcançar uma resposta sobre o que a transcende, aquele que não aceita tal restrição apriorística tem de buscar respostas na Metafísica e na Religião.
Julio Lemos tem razão ao afirmar que a impossibilidade da comprovação empírica das verdades que transcendem o mundo empíreo dá margem a uma multiplicação enorme de sistemas doutrinários. No entanto, é possível aplicar critérios racionais para verificar qual delas deve ser escolhida. Os critérios são os seguintes
(1) Excelência moral entre os que praticam e ensinam aquela doutrina
(2) Comprovação pessoal de que a prática dos preceitos ensinados resultaram em um aperfeiçoamento pessoal
(3) Percepção de que a influência histórica daquela doutrina foi positiva para a civilização
(4) Perenidade e unidade
Muitos outros critérios úteis e válidos são possíveis, alguns dos quais foram bem destacados por Renato Rocha.
A aparente força do argumento de Júlio Lemos vem da equiparação inadequada da ciência natural com a religião.
A equiparação é inadequada pois a ciência natural e religião operam sobre âmbitos distintos da realidade. A ciência natural apenas opera sobre objetos que tem alguma propriedade física. Isso é assim por que suas conclusões são derivadas e testadas por algum tipo de medida sobre objetos materiais. A medida pressupõe a materialidade do objeto, pois ela é necessária para que seja possível a interação entre o instrumento de medida, que é material, e o próprio objeto.
A não ser que se postule um universo onde apenas o que é passível de ser medido exista, há espaço dentro da racionalidade para a especulação sobre a existência do imensurável. Entre as muitas possibilidades de objetos ou entidades imensuráveis, seja por carecerem de materialidade, ou por possuírem uma materialidade distinta da matéria conhecida, não interagente com ela, está Deus. Sendo imensurável, está absolutamente fora do âmbito da ciência natural a possibilidade de derivar ou testar qualquer conhecimento a respeito dele.
A Religião, pela própria definição, é a relação do homem com Deus. Na medida em que está fora da possibilidade da ciência natural ter como objeto de conhecimento o incomensurável, não pode nem endossar nem negar a religião. Para negar a religião é necessário, na verdade, postular a priori a inexistência do incomensurável.
Não podendo recorrer à ciência natural para alcançar uma resposta sobre o que a transcende, aquele que não aceita tal restrição apriorística tem de buscar respostas na Metafísica e na Religião.
Julio Lemos tem razão ao afirmar que a impossibilidade da comprovação empírica das verdades que transcendem o mundo empíreo dá margem a uma multiplicação enorme de sistemas doutrinários. No entanto, é possível aplicar critérios racionais para verificar qual delas deve ser escolhida. Os critérios são os seguintes
(1) Excelência moral entre os que praticam e ensinam aquela doutrina
(2) Comprovação pessoal de que a prática dos preceitos ensinados resultaram em um aperfeiçoamento pessoal
(3) Percepção de que a influência histórica daquela doutrina foi positiva para a civilização
(4) Perenidade e unidade
Muitos outros critérios úteis e válidos são possíveis, alguns dos quais foram bem destacados por Renato Rocha.
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