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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Pequena nota sobre os limites da Física
A Física é meramente o estudo das propriedades essenciais e acidentais, quantitativas, dos entes materiais, incluindo na definição de matéria os corpos massivos e a radiação.
A Física não esgota a realidade. Nem mesmo esgota a realidade dos entes materiais, pois as propriedades essenciais ou acidentais não quantitativas, embora existentes, não são objeto de estudo da Física.
Um dos grandes erros dos físicos é acreditar que a função de onda das partículas ou de um sistema de muitas partículas são as próprias partículas. O elétron não é sua função de onda. Na melhor das hipóteses, a função de onda representa um de seus possíveis estados, relativos a propriedades acidentais (posição, instante, energia, momento). Nem mesmo representam suas propriedades essenciais, tais como massa e carga, que são conhecidas por experimento, e nunca derivadas de uma função de onda, mas apenas da experimentação.
A Física, embora extremamente útil do ponto de vista prático, não tem alcance Metafísico nenhum. Ou seja, realmente está em uma esfera inferior do conhecimento, como já tinha identificado Aristóteles.
A idéia de que estamos em uma simulação é um dos maiores absurdos que apareceram nos últimos tempos. Ainda que a Física possa um dia fornecer as bases para uma simulação computacional quase perfeita da aparência das coisas (isto é, como elas refletem ou produzem luz e como se movimentam), ela por si só não pode trazer nada à existência.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Fake news na ciência: o caso Bohannon
A grande mídia frequentemente veicula opiniões em favor da ciência contra o obscurantismo ameaçador produzido por fantasmas que ela mesmo inventa para rotular seus inimigos. Na realidade, a dinâmica da ciência é muito complexa de modo que pouquíssimos jornalistas estão realmente habilitados para analisar a qualidade e a credibilidade de resultados científicos.
Prova disso foi o famoso estudo fabricado pelo biólogo e jornalista científico John Bohannon em 2013 sobre os efeitos da dieta baseada em chocolate amargo. Sua idéia foi fabricar um estudo enviesado que corroborasse a tese frequentemente difundida por gurus da nutrição de que chocolate amargo faz bem para saúde. Com isso, ele queria verificar a extensão da difusão dos resultados pela mídia e testar a eficácia dos mecanismos de verificação de fatos e versões.
Com um pequeno orçamento à sua disposição, Bohannon conseguiu alguns voluntários para sua pesquisa. Com uma pequena amostra de quinze pessoas, 11 mulheres e 4 homens, três grupos de cinco pessoas foram formados; a um dos grupos foi dada a instrução de seguir uma dieta de baixo nível de carboídrato; ao segundo grupo foi dada a mesma diretiva mas com o acréscimo de 42 g de chocolate amargo na dieta diária; ao terceiro grupo, chamado controle, não foi dada nenhuma instrução quanto à dieta.
Todos os participantes tiveram que responder antes de iniciar o programa a um questionário para verificar se as dietas não poderiam lhes ser prejudiciais à saúde. O tempo de duração da dieta seria de 21 dias, durante os quais os participantes teriam que se pesar todos os dias ao menos uma vez, inclusive os do grupo controle. Ao término desse período, os participantes fizeram alguns exames de sangue e responderam a um novo questionário, perguntando, por exemplo, sobre a qualidade do sono durante a realização do programa.
Com a assistência de um estatístico conhecido seu, Bohannon estabeleceu uma metodologia calibrada para produzir falsos positivos. De acordo com essa metodologia, um total de 18 variáveis foram testadas, entre elas o peso ao final do programa, velocidade de perda de peso, qualidade do sono, bem estar, concentração de colesterol e sódio no sangue etc. Chegaram à conclusão de que o grupo da dieta com chocolate amargo perdeu peso a uma velocidade 10% maior. Além de essa diferença ter sido estatisticamente significativa, este grupo também apresentou menores níveis de colesterol e relatou maiores níveis de bem-estar.
Esses resultados caíram como uma luva em um contexto do jornalismo em que notícias sobre fatos nutricionais dão imensa audiência. Bohannon contou com a ajuda de uma jornalista para produzir uma matéria simplificada e pictórica do estudo, que acabou sendo utilizada como fonte primária dos jornais e agência de notícias que passaram a difundir os resultados. Muitos acreditaram no estudo e me lembro que na época ele chegou a ser difundido no Brasil.
Mas por que o resultado de Bohannon não merece credibilidade? De fato, o que pode ser afirmado é que com grande probabilidade o estudo dele produziu um falso positivo, afinal de contas, seu método foi desenhado para aumentar a chance de produzi-lo. Como foram testadas muitas variáveis em uma amostra pequena, existia uma probabilidade não desprezível de que uma variação aleatória produzisse diferenças estatisticamente significativas. Sempre que médias de certos parâmetros - como o peso e nível de colesterol - de grupos distintos são comparadas, é necessário estabelecer um certo nível de significância em testes de hipótese. Tipicamente, o nível de significância adotado é de 5%, ou seja, existe uma chance em 20 de que um determinado teste resulte em falso positivo. Como foram realizados 18 testes no total, já que foram estabelecidos 18 parâmetros, a chance de obter um falso positivo pode ser calculada em 60%. O próprio Bohannon disse que tiveram sorte de que o provável falso positivo tenha ocorrido em parâmetros de maior relevância, como a velocidade da perda de peso.
Se Bohannon não tivesse admitido a farsa, certamente cedo ou tarde a comunidade científica teria percebido o engodo. Mas este processo é lento, deixando tempo suficiente para que resultados mirabolantes sejam difundidos pela grande mídia. Durante a fase de maior divulgação dos resultados pela grande mídia, Bohannon foi contatado por grandes agências de notícias, e também pelos seus investigadores. No entanto, a verificação limitava-se a assegurar a existência de Bohannon, ou de que era ele mesmo quem estava respondendo às perguntas. Não houve nenhum esforço de fazer uma revisão mais profunda do estudo ou de consulta aos pares.
Portanto, nós temos todo o direito e dever de questionar e duvidar das afirmações da grande mídia. O próprio Bohannon reconhece que foi possível enxergar alguma luz de esperança ao ler os comentários críticos e bem fundamentados de leitores dos sites em que os resultados fabricados foram anunciados.
Não é sem razão que muitos acusam a grande mídia de produzir "fake news". Se neste caso se verificou tamanha displicência e preguiça, o que esperar da cobertura sobre política e economia, por exemplo? Há muito tempo que guardo fortes reservas quanto às opiniões veiculadas na grande mídia em geral. Muitas vezes verifico facilmente a tendenciosidade que beira à pura militância mal disfarçada. Haveria ainda muito mais a afirmar sobre os maus hábitos da grande mídia. Por enquanto me limito a comemorar a sua gradual perda de influência e credibilidade, esperançoso de que algum dia todos estejam vacinados contra os seus vícios.
Prova disso foi o famoso estudo fabricado pelo biólogo e jornalista científico John Bohannon em 2013 sobre os efeitos da dieta baseada em chocolate amargo. Sua idéia foi fabricar um estudo enviesado que corroborasse a tese frequentemente difundida por gurus da nutrição de que chocolate amargo faz bem para saúde. Com isso, ele queria verificar a extensão da difusão dos resultados pela mídia e testar a eficácia dos mecanismos de verificação de fatos e versões.
Com um pequeno orçamento à sua disposição, Bohannon conseguiu alguns voluntários para sua pesquisa. Com uma pequena amostra de quinze pessoas, 11 mulheres e 4 homens, três grupos de cinco pessoas foram formados; a um dos grupos foi dada a instrução de seguir uma dieta de baixo nível de carboídrato; ao segundo grupo foi dada a mesma diretiva mas com o acréscimo de 42 g de chocolate amargo na dieta diária; ao terceiro grupo, chamado controle, não foi dada nenhuma instrução quanto à dieta.
Todos os participantes tiveram que responder antes de iniciar o programa a um questionário para verificar se as dietas não poderiam lhes ser prejudiciais à saúde. O tempo de duração da dieta seria de 21 dias, durante os quais os participantes teriam que se pesar todos os dias ao menos uma vez, inclusive os do grupo controle. Ao término desse período, os participantes fizeram alguns exames de sangue e responderam a um novo questionário, perguntando, por exemplo, sobre a qualidade do sono durante a realização do programa.
Com a assistência de um estatístico conhecido seu, Bohannon estabeleceu uma metodologia calibrada para produzir falsos positivos. De acordo com essa metodologia, um total de 18 variáveis foram testadas, entre elas o peso ao final do programa, velocidade de perda de peso, qualidade do sono, bem estar, concentração de colesterol e sódio no sangue etc. Chegaram à conclusão de que o grupo da dieta com chocolate amargo perdeu peso a uma velocidade 10% maior. Além de essa diferença ter sido estatisticamente significativa, este grupo também apresentou menores níveis de colesterol e relatou maiores níveis de bem-estar.
Esses resultados caíram como uma luva em um contexto do jornalismo em que notícias sobre fatos nutricionais dão imensa audiência. Bohannon contou com a ajuda de uma jornalista para produzir uma matéria simplificada e pictórica do estudo, que acabou sendo utilizada como fonte primária dos jornais e agência de notícias que passaram a difundir os resultados. Muitos acreditaram no estudo e me lembro que na época ele chegou a ser difundido no Brasil.
Mas por que o resultado de Bohannon não merece credibilidade? De fato, o que pode ser afirmado é que com grande probabilidade o estudo dele produziu um falso positivo, afinal de contas, seu método foi desenhado para aumentar a chance de produzi-lo. Como foram testadas muitas variáveis em uma amostra pequena, existia uma probabilidade não desprezível de que uma variação aleatória produzisse diferenças estatisticamente significativas. Sempre que médias de certos parâmetros - como o peso e nível de colesterol - de grupos distintos são comparadas, é necessário estabelecer um certo nível de significância em testes de hipótese. Tipicamente, o nível de significância adotado é de 5%, ou seja, existe uma chance em 20 de que um determinado teste resulte em falso positivo. Como foram realizados 18 testes no total, já que foram estabelecidos 18 parâmetros, a chance de obter um falso positivo pode ser calculada em 60%. O próprio Bohannon disse que tiveram sorte de que o provável falso positivo tenha ocorrido em parâmetros de maior relevância, como a velocidade da perda de peso.
Se Bohannon não tivesse admitido a farsa, certamente cedo ou tarde a comunidade científica teria percebido o engodo. Mas este processo é lento, deixando tempo suficiente para que resultados mirabolantes sejam difundidos pela grande mídia. Durante a fase de maior divulgação dos resultados pela grande mídia, Bohannon foi contatado por grandes agências de notícias, e também pelos seus investigadores. No entanto, a verificação limitava-se a assegurar a existência de Bohannon, ou de que era ele mesmo quem estava respondendo às perguntas. Não houve nenhum esforço de fazer uma revisão mais profunda do estudo ou de consulta aos pares.
Portanto, nós temos todo o direito e dever de questionar e duvidar das afirmações da grande mídia. O próprio Bohannon reconhece que foi possível enxergar alguma luz de esperança ao ler os comentários críticos e bem fundamentados de leitores dos sites em que os resultados fabricados foram anunciados.
Não é sem razão que muitos acusam a grande mídia de produzir "fake news". Se neste caso se verificou tamanha displicência e preguiça, o que esperar da cobertura sobre política e economia, por exemplo? Há muito tempo que guardo fortes reservas quanto às opiniões veiculadas na grande mídia em geral. Muitas vezes verifico facilmente a tendenciosidade que beira à pura militância mal disfarçada. Haveria ainda muito mais a afirmar sobre os maus hábitos da grande mídia. Por enquanto me limito a comemorar a sua gradual perda de influência e credibilidade, esperançoso de que algum dia todos estejam vacinados contra os seus vícios.
sexta-feira, 31 de março de 2017
O Projeto Condon e o UFO de Ubatuba
Na década de 60, um importante físico, chamado Edward Condon, nos EUA, foi encarregado pelo governo de conduzir a partir da Universidade de Colorado, uma investigação científica sobre os UFOs (ou OVNIs, objetos voadores não identificados).
Tendo reunido uma equipe de pesquisadores e com um orçamento adequado para a tarefa, em 1968 foi publicado um documento relatando os resultados das investigações, chamado "Scientific Study of Unidentified Flying Objects", mais conhecido como CONDON REPORT.
O documento é grande e pode ser acessado em http://www.bibliotecapleyades.net/sociopolitica/condonreport/full_report/.
A conclusão do relatório foi de que parte dos eventos estudados poderiam ser compreendidos como eventos naturais e que outra parte não produziram evidências suficientes para serem conclusivos. Além disso, conclui que a investigação de UFOs não poderia trazer nada de novo ou útil para a ciência e dessa forma estabaleceu a palavra final sobre o assunto no âmbito da ciência convencional. Nenhum estudo amplo e bem financiado sobre o assunto foi desenvolvido desde então nas universidades.
Teria sido essa a conclusão desejada pelos que encomendaram o estudo? Ou realmente o estudo chegou à melhor conclusão com os dados de que dispunha? Essas questões não são o tema do que segue, mas aos interessados há muito material na internet sobre elas.
Gostaria de tratar sobre o capítulo 3 da seção III, dedicado às evidências físicas existentes à época, em particular sobre uns fragmentos de magnésio que foram recolhidos em uma praia de Ubatuba após a explosão de um UFO sobre as águas.
De acordo com o relatório, um notório ufólogo brasileiro chamado Olavo Fontes relatou sobre a carta que um indivíduo que estava pescando em Ubatuba escreveu ao jornalista brasileiro Ibrahim Sued. Nesta carta, o pescador conta que não acreditava em UFOs, mas que teria mudado de opinião ao testemunhar um evento espetacular. Estavam ele e alguns amigos pescando em Ubatuba quando repentinemante avistaram um disco voador. O UFO se aproximou da praia a uma velocidade incrível e uma colisão parecia iminente, mas ao estar quase tocando as águas o objeto fez uma manobra brusca e começou a subir para cima. Eles estavam seguindo aquele espetáculo com os olhos quando a nave repentinamente explodiu, espalhando vários fragmentos que depois foram recolhidos e analisados por entidades brasileiras.
De acordo com o laudo das análises feitas no Brasil, tratavam-se de fragmentos de magnésio com uma pureza ímpar, que não poderiam ser produzidos com a tecnologia da época (anterior a 1957).
As amostras foram então analisadas no âmbito do projeto Condon, e comparadas com uma mostra da mesma época fabricada pela Dow Chemical, com o máximo de pureza que eles eram capazes de produzir. O resultado mostrou que as amostras da explosão continham impurezas de Mn, Zn, Cr, Cu, Ba e Sr em graus muito mais elevados (ver tabela). A análise foi realizada por meio de espectrometria gamma. Além disso, foi realizada uma análise por ativação de neutrons para verificar a composição isotópica, pois resultados anteriores pareciam indicar que o fragmento só continha Mg26. No entanto, neste novo estudo não foram encontradas diferenças significativas entre as amostras em seu conteúdo isotópico.
Aparentemente, se pudermos confiar nos resultados da análise, não havia nada de muito especial, salvo o fato de haver uma porcentagem apreciável de estrôncio, já que métodos tradicionais de produção do magnésio não geram esse tipo de impureza. Foram então feitas análises metalográficas e de microssondas nas amostras, nos laboratórios da Dow Chemical, da onde se concluiu que o estrôncio estava distribuído uniformemente e com toda probabilidade foi adicionado intencionalmente. No entanto, a análise metalográfica revelou a presença de grãos relativamente grandes e alongados de magnésio, da onde se concluiu que o material não foi trabalhado após a sua solidificação. O relatório colocou então em dúvida a possibilidade de tal material ter sido parte de um objeto de metal fabricado, em frontal contradição com o que tinha sido concluído a partir da distribuição uniforme do estrôncio. O relatório mencionou também que a Dow Chemical antes de 1957 produzia ligas de magnésio contendo estrôncio. Uma delas teria exatamente a mesma concentração de estrôncio que a amostra proveniente da explosão.
Por fim, o relatório concluiu que a alegação de se tratar de um material que não poderia ter sido fabricado à época teria sido definitivamente descartada. Além disso, acrescentou que a amostra não apresentava composição única e desconhecida, e que portanto não poderia ser utilizada como evidência válida de origem extra-terrestre.
Atualmente, um pequeno grupo chamado Rede Brasileira de Pesquisas Ufológicas tem em mãos algumas amostras dos fragmentos produzidos no evento citado acima e, até onde sei, estavam tentando arrecadar fundos para analisá-lo. Não sei se já conseguiram os resultados.
Terminamos o texto com a resposta do relatório Condon e deixamos ao leitor o encargo de tirar as suas próprias conclusões e seguir adiante com sua investigação pessoal.
De acordo com o relatório, um notório ufólogo brasileiro chamado Olavo Fontes relatou sobre a carta que um indivíduo que estava pescando em Ubatuba escreveu ao jornalista brasileiro Ibrahim Sued. Nesta carta, o pescador conta que não acreditava em UFOs, mas que teria mudado de opinião ao testemunhar um evento espetacular. Estavam ele e alguns amigos pescando em Ubatuba quando repentinemante avistaram um disco voador. O UFO se aproximou da praia a uma velocidade incrível e uma colisão parecia iminente, mas ao estar quase tocando as águas o objeto fez uma manobra brusca e começou a subir para cima. Eles estavam seguindo aquele espetáculo com os olhos quando a nave repentinamente explodiu, espalhando vários fragmentos que depois foram recolhidos e analisados por entidades brasileiras.
De acordo com o laudo das análises feitas no Brasil, tratavam-se de fragmentos de magnésio com uma pureza ímpar, que não poderiam ser produzidos com a tecnologia da época (anterior a 1957).
As amostras foram então analisadas no âmbito do projeto Condon, e comparadas com uma mostra da mesma época fabricada pela Dow Chemical, com o máximo de pureza que eles eram capazes de produzir. O resultado mostrou que as amostras da explosão continham impurezas de Mn, Zn, Cr, Cu, Ba e Sr em graus muito mais elevados (ver tabela). A análise foi realizada por meio de espectrometria gamma. Além disso, foi realizada uma análise por ativação de neutrons para verificar a composição isotópica, pois resultados anteriores pareciam indicar que o fragmento só continha Mg26. No entanto, neste novo estudo não foram encontradas diferenças significativas entre as amostras em seu conteúdo isotópico.
Aparentemente, se pudermos confiar nos resultados da análise, não havia nada de muito especial, salvo o fato de haver uma porcentagem apreciável de estrôncio, já que métodos tradicionais de produção do magnésio não geram esse tipo de impureza. Foram então feitas análises metalográficas e de microssondas nas amostras, nos laboratórios da Dow Chemical, da onde se concluiu que o estrôncio estava distribuído uniformemente e com toda probabilidade foi adicionado intencionalmente. No entanto, a análise metalográfica revelou a presença de grãos relativamente grandes e alongados de magnésio, da onde se concluiu que o material não foi trabalhado após a sua solidificação. O relatório colocou então em dúvida a possibilidade de tal material ter sido parte de um objeto de metal fabricado, em frontal contradição com o que tinha sido concluído a partir da distribuição uniforme do estrôncio. O relatório mencionou também que a Dow Chemical antes de 1957 produzia ligas de magnésio contendo estrôncio. Uma delas teria exatamente a mesma concentração de estrôncio que a amostra proveniente da explosão.
Por fim, o relatório concluiu que a alegação de se tratar de um material que não poderia ter sido fabricado à época teria sido definitivamente descartada. Além disso, acrescentou que a amostra não apresentava composição única e desconhecida, e que portanto não poderia ser utilizada como evidência válida de origem extra-terrestre.
Atualmente, um pequeno grupo chamado Rede Brasileira de Pesquisas Ufológicas tem em mãos algumas amostras dos fragmentos produzidos no evento citado acima e, até onde sei, estavam tentando arrecadar fundos para analisá-lo. Não sei se já conseguiram os resultados.
Terminamos o texto com a resposta do relatório Condon e deixamos ao leitor o encargo de tirar as suas próprias conclusões e seguir adiante com sua investigação pessoal.
| Elemento | Dow Mg.(ppm) | Brazil UFO (ppm) |
| Mn | 4.8(5) | 35(5) |
| Al | não detectado (< 5) | não detectado (< 10) |
| Zn | 5.0(10) | 5.0(10).102 |
| Hg | 2.6(5) | não detectado |
| Cr | 5.9(12) | 32(10) |
| Cu | 0.40(20) | 3.3(10) |
| Ba | não detectado | 160(20) |
| Sr | não detectado | 5.0(10).102 |
quinta-feira, 30 de março de 2017
Seria a Física um Arbitrário Cultural?
Recentemente me deparei com um trabalho intitulado "A Física como uma construção cultural arbitrária: Um exemplo da controvérsia sobre o status ontológico das forças inerciais", publicado na Revista Brasileira de Educação em Ciências (link no final). O artigo procura argumentar a favor da tese de que a física é uma construção cultural arbitrária.
O conceito de arbitrário cultural foi extraído do trabalho do sociólogo Pierre Bordieu. Arbitrário aqui não tem o significado de aleatório. Está mais próximo do exercício de um juiz em um jogo de futebol, isto é, o exercício do juízo com base em um código mediado ou criado pela cultura.
Neste sentido da palavra, a ciência tem algo de arbitrário. Assim como um juiz se baseia em uma regra, a ciência também tem suas próprias regras para arbitrar. Mas essas regras não são exclusivamente culturais, pois é necessário que haja um elemento transcendente à cultura na metodologia científica. Sem este elemento, não há como conectar ciência com realidade. Realidade, por sua vez, não pode ser arbitrada e não é um arbitrário cultural.
Voltamos ao exemplo do jogo de futebol. O fato a ser arbitrado não é arbitrário. Dois juízes apenas podem discordar nos seguintes casos, a saber: fatos mal entendidos; fatos sem punição prevista; desvios simultâneos e intensidade da punição. Mas concordam quanto à regra. E concordam quanto à existência de apenas um entendimento possível e válido do fato. Por exemplo: se o bandeirinha diz que um jogador pois a mão na bola, o juiz vai querer saber quem foi, quando e onde. Se o outro bandeirinha disser que não houve mão na bola, então o juiz não poderá aceitar as duas versões como sendo interpretações igualmente válidas do fato. Uma delas é verdadeira. O fato é único.
Os cientistas precisam acreditar na existência da realidade objetiva e da ordem subjacente ao seu objeto de estudo. Se não fosse assim, o empreendimento científico não teria razão de ser, pois se os fenômenos físicos não tivessem uma ordem intrínseca, seria inútil e infrutífera a busca por ela.
Agora, se de fato não existisse tal ordem, o cientista teria que se limitar apenas ao arbítrio ou mera escolha em suas teorias. Mas que formulação teórica arbitrária de uma ordem imaginada seria capaz de realizar previsões acertadas a respeito de uma ordem ontologicamente inexistente?
Portanto, a ciência e a física em particular não é um arbitrário cultural, embora possa ter elementos arbitrários em suas teorias. Tais elementos podem deixar de ser arbitrários. Consideremos o seguinte exemplo.
A ciência acumulou uma quantidade enorme de evidências indiretas quanto à existência de átomos. Nos seus estágios mais primordiais, a hipótese atômica ainda tinha um caráter arbitrário. Mas hoje os efeitos físicos em escala atômica detectados pelos microscópios de força atômica não deixam dúvida quanto à realidade objetiva do modelo atômico. Trata-se de evidência direta.
O arbítrio quanto à realidade do modelo atômico deixou de ser "cultural" para ser "factual".
Os elementos da cultura de uma civilização sem dúvida desempenham um papel importante na ciência. No entanto, reduzir a ciência e sua metodologia ao conceito de arbitrário cultural é inaceitável.
Caso fosse aceitável, seríamos obrigados a reconhecer que a teoria atômica só prevaleceu por causa do grito de seus proponentes. Mas a história da ciência jamais poderia ser lida nessa óptica sem com isso desrespeitar a veracidade dos acontecimentos. A teoria atômica teve muitos oponentes. No entanto, o número de evidências experimentais era tão grande, tão vasta, que muitos deles foram convencidos pela força dos fatos e não da cultura. E se hoje há evidências diretas, então teria sido uma feliz coincidência a vitória dos atomistas?
Apresentar a física como um arbitrário cultural a qualquer um, quanto mais um estudante, não poderia ser feito sem ferir desde a base o seu potencial para a produção de ciência. Se a física é um arbitrário cultural, qual o sentido de seguir uma carreira que consiste em dar suporte à arbitrariedade ou criar novas?
A aplicação de tal conceito ao ensino pode ser profundamente prejudicial. No entanto, não queremos com isso desqualificar ou desmerecer o trabalho. Tais esforços contribuem para a percepção dos professores e alunos quanto à existência de elementos arbitrários na teoria, trazendo à tona problemas mal resolvidos, que, por sua vez, ao serem trazidos à tona, podem engendrar aperfeiçoamentos ou favorecer mudanças de paradigmas. Se por um lado reconhecemos este mérito, por outro, rejeitamos terminantemente a tese de que a Física é um arbitrário cultural tal como entendido por Pierre Bourdieu.
Se no passado a Física era tomada como modelo para as ciências humanas, não deixa de ser curioso que cientistas das humanidades estejam preocupados em modelar ou caracterizar as ciências naturais com conceitos engendrados nas ciências humanas, em contextos bem diversos. Haveria uma arbitrariedade cultural neste esforço?
link: https://seer.ufmg.br/index.php/rbpec/article/view/2512
Nota posterior (fev/2019): Por teoria atômica entende-se aqui sua versão moderna, de acordo com a qual a matéria é composta por pequenas partes potencialmente isoláveis do todo macroscópico, de carga elétrica neutra, composta por um núcleo positivo pesado e uma distribuição de partículas leves, chamadas de elétrons - de carga negativa. Não se deve confundir com o atomismo grego, de acordo com a qual tais partes são efetivamente indestrutíveis, inseparáveis e precisamente localizadas no espaço. Até hoje, não há consenso sobre a existência de partículas totalmente inseparáveis, e a teoria atual sobre as partículas as descrevem como campos.
Nota posterior (fev/2019): Por teoria atômica entende-se aqui sua versão moderna, de acordo com a qual a matéria é composta por pequenas partes potencialmente isoláveis do todo macroscópico, de carga elétrica neutra, composta por um núcleo positivo pesado e uma distribuição de partículas leves, chamadas de elétrons - de carga negativa. Não se deve confundir com o atomismo grego, de acordo com a qual tais partes são efetivamente indestrutíveis, inseparáveis e precisamente localizadas no espaço. Até hoje, não há consenso sobre a existência de partículas totalmente inseparáveis, e a teoria atual sobre as partículas as descrevem como campos.
Sobre a fusão a frio
Em 23 de Março de 1989 Martin Fleishmann e Stanley Pons teriam
divulgado ao mundo uma das descobertas com maior potencial tecnológico e
científico de todos os tempos: a fusão a frio. Os alquimistas estariam
de volta!
De acordo com a ciência atual, acredita-se que para que as reações de fusão nuclear ocorram, é necessário aquecer um meio (um plasma) contendo deutério a uma temperatura da ordem de um milhão de kelvin. Esse número poderia ser menor, dependendo da densidade ou tempo confinamento desse meio, mas em todo caso sempre envolveriam temperaturas muito mais elevadas do que a temperatura ambiente.
À época, muitos cientistas chegaram a acreditar na autenticidade dos resultados. Nada mais nada menos do que Julian Swinger, prêmio Nobel e lendária figura na física chegou a submeter um artigo dando embasamento teórico para a descoberta. Seu artigo foi recusado, o que teria levado Swinger à época a sair da sociedade americana de física.
Hoje ainda há alguns cientistas que continuam acreditando nos resultados da fusão a frio. No entanto, a ciência "mainstream" já clássifica a fusão a frio como "ciência patológica" e dificilmente um governo aprovaria verba para pesquisa nesta área.
Ao que tudo indica, há boas evidências contra a fusão a frio. No entanto, seus proponentes, incluindo Fleishmann e Pons, não se retrataram apesar de terem enfrentado um duro opróbrio da comunidade científica do "mainstream". Depois disso, ainda foram apoiados pela Toyota para continuar sua pesquisa, mas aparentemente não chegaram a resultados conclusivos.
Algo me faz suspeitar que nem todo conhecimento e tecnologia desenvolvidos pelas empresas se tornam públicos. Estariam as indústrias à frente das Universidades não só em termos de tecnologia, mas de conhecimento científico?
De acordo com a ciência atual, acredita-se que para que as reações de fusão nuclear ocorram, é necessário aquecer um meio (um plasma) contendo deutério a uma temperatura da ordem de um milhão de kelvin. Esse número poderia ser menor, dependendo da densidade ou tempo confinamento desse meio, mas em todo caso sempre envolveriam temperaturas muito mais elevadas do que a temperatura ambiente.
À época, muitos cientistas chegaram a acreditar na autenticidade dos resultados. Nada mais nada menos do que Julian Swinger, prêmio Nobel e lendária figura na física chegou a submeter um artigo dando embasamento teórico para a descoberta. Seu artigo foi recusado, o que teria levado Swinger à época a sair da sociedade americana de física.
Hoje ainda há alguns cientistas que continuam acreditando nos resultados da fusão a frio. No entanto, a ciência "mainstream" já clássifica a fusão a frio como "ciência patológica" e dificilmente um governo aprovaria verba para pesquisa nesta área.
Ao que tudo indica, há boas evidências contra a fusão a frio. No entanto, seus proponentes, incluindo Fleishmann e Pons, não se retrataram apesar de terem enfrentado um duro opróbrio da comunidade científica do "mainstream". Depois disso, ainda foram apoiados pela Toyota para continuar sua pesquisa, mas aparentemente não chegaram a resultados conclusivos.
Algo me faz suspeitar que nem todo conhecimento e tecnologia desenvolvidos pelas empresas se tornam públicos. Estariam as indústrias à frente das Universidades não só em termos de tecnologia, mas de conhecimento científico?
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terça-feira, 28 de março de 2017
Crítica sobre a Mecânica Relacional
Em 2001, os professores Carlos Escobar e Vicente Pleitez escreveram
um artigo na Revista Brasiliera de Ensino de Fìsica contendo uma crítica
ácida e contundente a uma revisão favorável ao livro "Mecânica
Relacional" de André Assis publicada na mesma revista.
A crítica deles pode ser acessada gratuitamente em http://www.scielo.br/pdf/rbef/v23n3/v23n3a02.pdf.
Os autores não moderaram as palavras; disseram explicitamente que o autor, prof. André Assis, não tem credibilidade em razão do fato de não publicar nas revistas especializadas de maior prestígio e reconhecimento nas comunidades especializadas da física.
Eles utilizam o argumento válido de que a eletrodinâmica de Weber, defendida por André Assis, parece não casar bem com a teoria quântica de campos e a eletrodinâmica quântica. A última é a teoria da física cujos historiadores da ciência consideram a mais bem sucedida em suas previsões.
No entanto, não analisaram os detalhes da Mecânica Relacional, não fizeram nenhuma busca por inconsistências internas, não comentaram sobre os possíveis méritos da nova abordagem, etc. Simplesmente afirmaram que tal teoria não produz nenhum resultado novo já que seus resultados coincidem com a mecânica Newtoniana em um referencial na superfície terrestre.
Pouco tempo depois, os Graneaus, pai (Peter) e filho (Neal) escreveram um artigo para a revista "General Relativity and Gravitation", em que fazem uma revisão das teorias que implementaram o princípio de Mach, incluindo a de Assis.
Vale a pena conferir.
link: http://rdcu.be/qsdy
A crítica deles pode ser acessada gratuitamente em http://www.scielo.br/pdf/rbef/v23n3/v23n3a02.pdf.
Os autores não moderaram as palavras; disseram explicitamente que o autor, prof. André Assis, não tem credibilidade em razão do fato de não publicar nas revistas especializadas de maior prestígio e reconhecimento nas comunidades especializadas da física.
Eles utilizam o argumento válido de que a eletrodinâmica de Weber, defendida por André Assis, parece não casar bem com a teoria quântica de campos e a eletrodinâmica quântica. A última é a teoria da física cujos historiadores da ciência consideram a mais bem sucedida em suas previsões.
No entanto, não analisaram os detalhes da Mecânica Relacional, não fizeram nenhuma busca por inconsistências internas, não comentaram sobre os possíveis méritos da nova abordagem, etc. Simplesmente afirmaram que tal teoria não produz nenhum resultado novo já que seus resultados coincidem com a mecânica Newtoniana em um referencial na superfície terrestre.
Pouco tempo depois, os Graneaus, pai (Peter) e filho (Neal) escreveram um artigo para a revista "General Relativity and Gravitation", em que fazem uma revisão das teorias que implementaram o princípio de Mach, incluindo a de Assis.
Vale a pena conferir.
link: http://rdcu.be/qsdy
quarta-feira, 22 de março de 2017
Mecanica Relacional, Mach e eletrodinâmica de Weber
De acordo com o princípio de Mach, a massa do Universo, incluindo as galáxias distantes, afetam os movimentos dos objetos na Terra.
Leibnitz, contemporâneo de Newton, acreditava que a única grandeza que poderia importar na descrição dos movimentos era a distância relativa entre os corpos.
A mecânica de Newton nos acostumou a ver o universo como um grande aquário imaginário no qual o Universo está imerso. Mas seria possível descrever toda a dinâmica dos corpos apenas pela relação entre as distâncias dos corpos?
De acordo com a Mecânica Relacional de André Assis, sim.
Sua teoria é uma aplicação radical do princípio de Mach, acrescida de uma versão gravitacional da eletrodinâmica de Weber.
Um de seus principais resultados é que a massa inercial é igual à massa gravitacional, por primeiros princípios. Mais do que isso, o termo (massa x aceleração) da segunda lei de Newton resulta de uma espécie de reação da massa do Universo distante ao movimento da partícula local.
A teoria é consistente e merece ser levada à sério. Pode ser falsa, mas um pequeno esforço para compreendê-la e buscar suas possíveis inconsistências vale como um exercício mental.
link:
http://www.ifi.unicamp.br/~assis/Mecanica-Relacional.pdf
terça-feira, 21 de março de 2017
Sobre Einstein e a fórmula E0 = m0c2
Você e eu fomos ensinados que Einstein provou a equivalência entre massa e energia $E_{0} = m_{0}c^{2}$.
Na realidade, as provas que Einstein apresentou ao longo de toda sua carreira são inconclusivas. Ele estava convencido da validade do resultado, mas a idéia de que todos os resultados da relatividade restrita podem ser deduzidos de alguns poucos teoremas básicos foi desafiada pela dificuldade de obter uma dedução geral de que $E_{0} = m_{0}c^{2}$.
Até hoje, não encontrei uma só dedução, mesmo em livros, que não pudesse ser colocada em dúvida. Você já?
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Pequena nota sobre o EmDrive
O EmDrive é um aparato proposto pelo engenheiro Roger Shawyer que gera propulsão por meio de uma cavidade de microondas em forma de tronco de cone.
É comum ler artigos afirmando que o EmDrive não pode funcionar pois viola a conservação do momento linear.
É comum ler artigos afirmando que o EmDrive não pode funcionar pois viola a conservação do momento linear.
Na realidade, o criador do EmDrive está certo ao afirmar que sua idéia NÃO CONTRADIZ a mecânica Newtoniana e que, além disso, pode ser totalmente explicado por meio da física clássica.
O ponto aqui é que o EmDrive não é um sistema totalmente fechado. Parte do momento linear é levado embora pela radiação eletromagnética. O momento linear do aparato mais o campo eletromagnético se conserva, de fato. No entanto, o aparato, tomado isoladamente, pode sofrer uma variação do momento linear.
Talvez não seja factível como solução tecnológica para a exploração espacial. Talvez nem mesmo funcione. No entanto, não violaria, necessariamente, a conservação do momento linear.
Para mais informação:
https://www.youtube.com/watch?v=4hTdSg47h3k
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domingo, 3 de novembro de 2013
A arrogância dos macacos pelados
O espírito da sociedade moderna parece ter se tornado completamente cega para a potência monumental da natureza. Engana-se na ilusão de que já está completamente dominada pela ciência humana. Imerso em um universo totalmente artificial, quase sempre protegido das adversidades naturais, perdeu a noção da sua impotência em face das forças brutais do universo que o cerca.
Como consequência, perdeu o contato com a realidade e vive inconsciente de que logo será engolido por um turbilhão monstruoso que o reduzirá a pó. No passado, tanto as grandes civilizações quanto as culturas de pequeno porte, deram testemunho através de sua produção cultural da sensibilidade para os grandes problemas da existência e os seus mistérios; a saber, a morte, a origem da vida e o poder brutal da natureza.
Para a perplexidade geral, em nossos tempos, declaramos superadas todas essas preocupações do antepassados. Pensamos que eles eram apenas homens primitivos, amendrotados diante de uma natureza que não podiam controlar e entender. Trivializamos a realidade.
O que antes parecia grande, belo, amedrontador, quase infinito, nada mais é do que algo trivial em grande escala. Tomemos como exemplo o mar, tão grande, tão misterioso, tão irregular, que no passado fascinou todas as sociedades. Hoje, nada mais é do que um meio contínuo, perfeitamente descritível por meio da mecânica dos fluidos. Em princípio, a ciência é capaz de mimetizar perfeitamente todas as ondas e seus fenômenos outrora tão misteriosos. A sua bela cor nada mais é do que o efeito do padrão de absorção e espalhamento da luz das moléculas ali presentes.
Em poucas palavras, o universo inteiro foi reduzido a um amontoado enorme de partículas, com regras de interação bem definidas, e com simetrias e estruturas periódicas que se estendem por todo o espaço. Como escreveu Gustavo Corção no segundo volume de Dois Amores e Duas Cidades, o universo, nessa perspectiva, parece uma imensa cadeia, com um número enorme de celas, todas iguais, monotonamente iguais. Tanto é verdade que até hoje nada se conseguiu além de uma literatura insossa quando tentaram fazer divulgação científica através de estorinhas (Contato de Carl Sagan é um bom exemplo). Essa perspectiva reducionista da realidade é um veneno mortífero para a imaginação.
Ou seja, já não há mais espaço para o mistério. Está tudo compreendido, tipificado. O ser humano nada mais é do que um amontoado de moléculas escolhidas e dispostas sabiamente pela evolução de modo a interagir para compor um organismo. A vida nada mais é do que uma organização originada do "acaso". Somos frutos do acaso, compostos apenas de matéria.
Sendo tudo fruto do acaso e pura matéria, já não há mais por que buscar uma razão para o ser. As coisas simplesmente existem, as que tem vida nascem e morrem. Não há um criador, apenas a matéria e suas leis, que tudo cria, recria e tranforma.
Muito bem, nesse ponto, não posso deixar de manifestar a minha recusa a adotar tal visão de mundo.
Em primeiro lugar, a ciência ainda é incapaz de responder e prever uma infinidade de fenônemos, isso sem mencionar os fenômenos que na verdade ela não explica, apesar de muitos pensarem o contrário. Já há quase um século que a teoria que melhor descreve os fenômenos microscópicos, a mecânica quântica, ainda não tem uma interpretação "clara e distinta". Quem é físico sabe bem: ao especialista da área pouco interessa a interpretação para o sucesso de suas aplicações, o importante é saber utilizá-la.
A teoria da evolução é ainda muito mais frágil, sem contar o fato de que ela não é capaz de prever nada que não seja trivial. Essa teoria não satisfaz todos os pré-requisitos do método científico, em particular o da experimentação. Isso pelo simples fato de que, por assumir uma escala de tempo enorme, nenhum experimento pode ser feito para verificá-la. O ponto fraco da teoria é habilmente escondido, enquanto que o ponto forte é apresentado como a sua demonstração completa e irrefutável. O ponto forte é a seleção natural: ela ocorre e isso pode ser demonstrado experimentalmente. Mas isso quando a diversidade genética já está presente na espécie: ninguém até hoje explicou como, magicamente, no momento da necessidade de adaptação, havia uns indivíduos com as mutações exatamente necessárias. A mutação e a mudança no ambiente são eventos não correlacionados, de modo que a probabilidade de acontecerem simultaneamente é baixa. Por isso, a teoria exige uma quantidade monstruosa de recombinações genéticas e mutações aleatórias, isto é, muitas reproduções e muito tempo. É estranho, pois a escala de tempo da mudança ambiental é muito menor do que a exigida para a ocorrência de mutações. Talvez não no caso de bactérias e "algoritmos genéticos", mas isso está muito longe de se aplicar igualmente a seres mais complexos.
O problema está em acreditar que a ciência realmente explica tudo. Penso que o mesmo se pode afirmar a respeito da esperança de que um dia irá explicar tudo. No fundo, o verdadeiro motivo para que muitos se apeguem a essa crença é a necessidade pessoal de negar o fato de que o universo tem uma finalidade. Pois se tem uma finalidade, necessariamente teve que ser criado por um Ser inteligente. Se assim for, toda criatura deve a ele sua existência e de alguma forma está implicada no Seu projeto.
Há um enorme medo do transcendental, do grandioso, daquilo que supera a pequenez evidente da humanidade. Para os espíritos acomodados, é mais confortável se iludir na sua convicção de que sua inteligência e vontade é o que há de maior na natureza. Mas a verdade patente é que não passamos de homens pobres, nus e pateticamente frágeis. Fechamos os olhos para essa realidade e, de alguma forma, nos tornamos mais burros do que os nossos antepassados, que desprezamos.
Uma farsa monstruosa não vai anular o fato de que todos um dia terão que responder perante o tribunal do Criador pelo que fez. É bom pensar bem, pois, como sugere a analogia de Pascal, o risco de "apostar" na tese materialista é imensamente maior.
Como consequência, perdeu o contato com a realidade e vive inconsciente de que logo será engolido por um turbilhão monstruoso que o reduzirá a pó. No passado, tanto as grandes civilizações quanto as culturas de pequeno porte, deram testemunho através de sua produção cultural da sensibilidade para os grandes problemas da existência e os seus mistérios; a saber, a morte, a origem da vida e o poder brutal da natureza.
Para a perplexidade geral, em nossos tempos, declaramos superadas todas essas preocupações do antepassados. Pensamos que eles eram apenas homens primitivos, amendrotados diante de uma natureza que não podiam controlar e entender. Trivializamos a realidade.
O que antes parecia grande, belo, amedrontador, quase infinito, nada mais é do que algo trivial em grande escala. Tomemos como exemplo o mar, tão grande, tão misterioso, tão irregular, que no passado fascinou todas as sociedades. Hoje, nada mais é do que um meio contínuo, perfeitamente descritível por meio da mecânica dos fluidos. Em princípio, a ciência é capaz de mimetizar perfeitamente todas as ondas e seus fenômenos outrora tão misteriosos. A sua bela cor nada mais é do que o efeito do padrão de absorção e espalhamento da luz das moléculas ali presentes.
Em poucas palavras, o universo inteiro foi reduzido a um amontoado enorme de partículas, com regras de interação bem definidas, e com simetrias e estruturas periódicas que se estendem por todo o espaço. Como escreveu Gustavo Corção no segundo volume de Dois Amores e Duas Cidades, o universo, nessa perspectiva, parece uma imensa cadeia, com um número enorme de celas, todas iguais, monotonamente iguais. Tanto é verdade que até hoje nada se conseguiu além de uma literatura insossa quando tentaram fazer divulgação científica através de estorinhas (Contato de Carl Sagan é um bom exemplo). Essa perspectiva reducionista da realidade é um veneno mortífero para a imaginação.
Ou seja, já não há mais espaço para o mistério. Está tudo compreendido, tipificado. O ser humano nada mais é do que um amontoado de moléculas escolhidas e dispostas sabiamente pela evolução de modo a interagir para compor um organismo. A vida nada mais é do que uma organização originada do "acaso". Somos frutos do acaso, compostos apenas de matéria.
Sendo tudo fruto do acaso e pura matéria, já não há mais por que buscar uma razão para o ser. As coisas simplesmente existem, as que tem vida nascem e morrem. Não há um criador, apenas a matéria e suas leis, que tudo cria, recria e tranforma.
Muito bem, nesse ponto, não posso deixar de manifestar a minha recusa a adotar tal visão de mundo.
Em primeiro lugar, a ciência ainda é incapaz de responder e prever uma infinidade de fenônemos, isso sem mencionar os fenômenos que na verdade ela não explica, apesar de muitos pensarem o contrário. Já há quase um século que a teoria que melhor descreve os fenômenos microscópicos, a mecânica quântica, ainda não tem uma interpretação "clara e distinta". Quem é físico sabe bem: ao especialista da área pouco interessa a interpretação para o sucesso de suas aplicações, o importante é saber utilizá-la.
A teoria da evolução é ainda muito mais frágil, sem contar o fato de que ela não é capaz de prever nada que não seja trivial. Essa teoria não satisfaz todos os pré-requisitos do método científico, em particular o da experimentação. Isso pelo simples fato de que, por assumir uma escala de tempo enorme, nenhum experimento pode ser feito para verificá-la. O ponto fraco da teoria é habilmente escondido, enquanto que o ponto forte é apresentado como a sua demonstração completa e irrefutável. O ponto forte é a seleção natural: ela ocorre e isso pode ser demonstrado experimentalmente. Mas isso quando a diversidade genética já está presente na espécie: ninguém até hoje explicou como, magicamente, no momento da necessidade de adaptação, havia uns indivíduos com as mutações exatamente necessárias. A mutação e a mudança no ambiente são eventos não correlacionados, de modo que a probabilidade de acontecerem simultaneamente é baixa. Por isso, a teoria exige uma quantidade monstruosa de recombinações genéticas e mutações aleatórias, isto é, muitas reproduções e muito tempo. É estranho, pois a escala de tempo da mudança ambiental é muito menor do que a exigida para a ocorrência de mutações. Talvez não no caso de bactérias e "algoritmos genéticos", mas isso está muito longe de se aplicar igualmente a seres mais complexos.
O problema está em acreditar que a ciência realmente explica tudo. Penso que o mesmo se pode afirmar a respeito da esperança de que um dia irá explicar tudo. No fundo, o verdadeiro motivo para que muitos se apeguem a essa crença é a necessidade pessoal de negar o fato de que o universo tem uma finalidade. Pois se tem uma finalidade, necessariamente teve que ser criado por um Ser inteligente. Se assim for, toda criatura deve a ele sua existência e de alguma forma está implicada no Seu projeto.
Há um enorme medo do transcendental, do grandioso, daquilo que supera a pequenez evidente da humanidade. Para os espíritos acomodados, é mais confortável se iludir na sua convicção de que sua inteligência e vontade é o que há de maior na natureza. Mas a verdade patente é que não passamos de homens pobres, nus e pateticamente frágeis. Fechamos os olhos para essa realidade e, de alguma forma, nos tornamos mais burros do que os nossos antepassados, que desprezamos.
Uma farsa monstruosa não vai anular o fato de que todos um dia terão que responder perante o tribunal do Criador pelo que fez. É bom pensar bem, pois, como sugere a analogia de Pascal, o risco de "apostar" na tese materialista é imensamente maior.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
A Lógica Genética
Uma idéia em circulação nos dias de hoje ensina que as ações de todas as pessoas tem uma finalidade imposta pela necessidade de reprodução e conservação da própria vida. Não há exceções. Essas necessidades são impulsos irrefreáveis, que derivam da própria constituição biológica da espécie animal homo sapiens.
Utilizando esse princípio e algumas hipóteses ad hoc, não há nenhum fenômeno humano que não possa ser facilmente explicado. A receita é bem simples. Primeiro, crie uma suposição sobre o comportamento do ser humano primitivo claramente associado a um desses impulsos. Depois, simplesmente relacione o comportamento atual com aquele comportamento primitivo por meio de um argumento heurístico plausível. Se o raciocínio for bem feito, a conclusão é capaz de se impor como se tivesse sido enunciado por uma testemunha imortal e onisciente.
Há inúmeros exemplos. Por que o ser humano sorri? Simples; o sorriso era um mecanismo que o homem primitivo, que ainda não dominava a linguagem falada, utilizava para comunicar a sua submissão ao indivíduo mais forte ou a abertura à relação sexual com o indivíduo do sexo oposto. Com o tempo, o sorriso foi sendo incorporado às percepções inatas como um sinal de que o outro não quer o confronto ou de que o outro quer a aproximação sexual. Assim, o cérebro "aprendeu" a tranquilizar-se ao ver um sorriso.
Por que razão, mesmo depois de tanta tentativa de incutir na sociedade os pressupostos do movimento feminista, a mulheres na maioria dos casos dão prioridades em sua escolha a sujeitos fortes, ricos e poderosos e os homens maior prioridade às mulheres bonitas? Simples também. Para a mulher primitiva, em um ambiente de brutalidade e ameaça constante, era-lhe vantajoso encontrar um homem capaz de proteger a ela e a sua prole (força e poder) e lhes dar sustento (riqueza). Para o homem, a vantagem seria maior quanto mais fértil fosse a mulher e menor fosse a sua carga de defeitos genéticos. A própria evolução ensinou o cérebro do homem (e também o da mulher) a reconhecer essas qualidades e a disparar o desejo sexual no momento oportuno, gerando uma fixação (ou o que nós chamamos de apaixonamento).
O mais curioso desses explicações é a sua capacidade de trivializar impiedosamente toda arte, toda poesia e toda suposta importância que o ser humano costuma atribuir às suas paixões. Em outras palavras, é como se tais explicações estivessem sempre a escarnecer as pobres criaturas, dizendo: "ei, você aí, que pensa que o mundo se curva às suas paixões, que são as mais intensas, as mais importantes, e que são o sentido da sua vida, não vê que isso não é nada, que você é pó, que todos os outros que são pó como você sentem o mesmo e que incuti em ti essas paixões para que com a sua tolice não se deixe perecer facilmente e nem se desinteresse da reprodução da sua espécie?".
Esse processo natural de moldagem da espécie pode ser observada em todas as espécies animais. O surpreendente a respeito do ser humano é que ele tenha sido capaz de adquirir consciência disso. Historicamente, essa conscientização foi expressa de muitas formas. A linguagem é imperfeita, mas a intuição é capaz de perceber a descrição da mesma realidade na aparente diversidade de plataformas culturais. Ao tomar consciência da existência desses processos inatos, que influem na origem das aparentes vontades pessoais, o homem consciente encontrou-se diante da possibilidade de simplesmente dizer não aos impulsos de origem animal. Mas é de fato surpreendente, pois esses desejos não são vãos, se levarmos em conta que foram precisamente eles que garantiram a perpetuação da espécie e o saldo positivo no processo evolutivo. Estaria esse ser humano se revoltando contra os mecanismos que o geraram, obstruindo por rebeldia e desejo de auto-afirmação a normalidade do processo evolutivo?
Alguns pensadores modernos acreditam que na maior parte de sua existência, o ser humano vivia em completa entrega aos seus impulsos de origem animal. Acrescentaria que ainda hoje a maior parte das pessoas vive assim, pois o conhecimento da verdadeira motivação de suas ações exige a difícil habilidade de sair de si para buscar a realidade a respeito da própria natureza. Esse é precisamente o primeiro passo do filósofo. Um passo que terá conseqüências drásticas no seu modo de viver e sentir. Nietzche culpava a racionalidade desenvolvida pelos filósofos gregos pelo que considerou uma covarde recusa de viver de acordo com a sabedoria da própria natureza. De qualquer modo, uma vez adquirido o conhecimento a respeito de si, um passo irreversível foi dado, e nenhuma escolha na vida poderá ser realizada sem que se desconfie das verdadeiras forças que a impulsiona.
As respostas materialistas para o problema da consciência de si sempre vai esbarrar em alguma dificuldade. Uma resposta materialista tem que dar uma volta em torno de si mesma para encontrar um modo de explicar como a consciência das leis evolutivas naturais beneficia um indivíduo que simplesmente se recusa a seguí-las. Uma saída para o problema é dizer que a atitude dos indivíduos que agem desse modo é patológica. E então afirmar que um homem que resolveu deixar suas riquezas, seu poder e sua potencialidade sexual por desejar algo além dos impulsos naturais é um doente, um desvio acidental no trajeto evolutivo que deve ser eliminado. Ou um fraco e covarde, que teve medo de perecer na luta por riqueza e poder. De qualquer modo, alguém a ser eliminado.
Seguindo esse raciocínio, é necessária a conclusão de que Cristo e sua doutrina têm que ser eliminados. É por isso que tanto Nietzsche quanto os evolucionistas dos nossos dias, têm se empenhado em destruir o cristianismo. Mas essa perseguição cai por terra e revela uma face verdadeiramente diabólica se de fato existe uma realidade que transcende os prazeres e bens terrenos, pela qual valha à pena abandonar as promessas de felicidade mundana.
Bem, como já mostramos, esses bens e prazeres da terra nada mais são do que os recursos que garantem a sobrevivência do indivíduo e sua perpetuação. Esses desejo não é próprio do indivíduo, isto é, ninguém pode efetivamente dizer eu quero ser rico, ter poder e uma mulher/homem do meu gosto, mas deve dizer eu herdei esses desejos, que são a garantia natural de que conservarei a minha vida e a transmitirei. Não são meus desejos, são os desejos da minha espécie. Resta então encontrar qual é o verdadeiro desejo do ser humano.
Se o ser humano fosse de fato apenas um animal, não existiria a vontade própria do indivíduo. É o que dizem os evolucionistas modernos, conduzidos pela aplicação logicamente rigorosa de seus princípios. Se Sartre chegou à conclusão de que o homem é uma paixão inútil, todos os evolucionistas deveriam chegar à conclusão de que as paixões são úteis para a espécie. Mas nesse caso, resta um problema a ser resolvido, que é o problema do próprio evolucionista que chegou à sua conclusão e se pergunta o que fazer então.
Para ser rigorosamente coerente com os seus próprios princípios, o melhor a fazer é entregar-se à realização das paixões. Nessa perspectiva, a felicidade é um artifício natural alcançada apenas pelos homens que realizam os impulsos naturais. Mas não pensemos que entregar-se às paixões significa passar o resto da vida comendo (entenda-se no duplo sentido) e bebendo. Significa utilizar toda a força intelectual e física para obter segurança, riqueza, poder e filhos. O bem e o mal não estão em discussão; o que importa é obter segurança, riqueza, poder e filhos, qualquer que seja o método, contanto que o método não venha a destruir a própria vida. Não há espaço para discutir se uma ação é intrinsecamente boa ou má; é boa ou má na medida em que a ação possa construir ou destruir aqueles valores.
Mas esse raciocínio cairia por terra se o pressuposto de que o ser humano é apenas um animal não fosse válido. De fato, o ser humano tem uma natureza espiritual, que é a única e verdadeira explicação para o fato de conseguir adquirir consciência da sua condição animal. Essa consciência da própria condição não é de modo algum um acidente nocivo à evolução, como sugeri anteriormente, mas um impulso interior que resgata o indivíduo de aspirações meramente animais para as aspirações verdadeiramente humanas. Toda a evolução existiu tendo em vista a formação do ser humano, uma criatura animal e espiritual, sujeita às leis da evolução, mas também às leis da natureza espiritual, imortal e indestrutível. Essa natureza espiritual aspira o que lhe é próprio, assim como a animal, mas suas aspirações são diferentes. A animal aspira ao que é, como ela, perecível e passageira, a espiritual aspira ao que é, como ela, eterna e permanente.
Alguém poderia exigir nesse ponto provas e evidências da existência dessa natureza espiritual. São provas e evidências análogas a que qualquer um teria para provar que o céu é azul. A evidência é a história humana, compilada nas manifestações de consciência da realidade espiritual presentes em todas as culturas. Os evolucionistas buscam todas as causas materiais possíveis para essas manifestações, tudo para não admitir a realidade espiritual. Não é difícil encontrar explicações tampão. Para isso existe até receita pronta.
Demonstrar que a realidade espiritual é verdadeira é uma tarefa tão impossível quanto demonstrar que tudo o que experienciamos é real. Alguém pode acreditar que a realidade espiritual não existe, mas isso é tão absurdo quanto acreditar que a vida é um sonho. A lógica genética tem sido utilizada como o método padrão para excluir do campo intelectual qualquer referência à transcendência da realidade humana, em uma tentativa pretensiosamente científica de dar respostas definitivas para fatos que ela está muito longe de explicar. Se de fato alguma de suas explicações tem fornecido alguma luz sobre a origem do comportamento humano, sua maior contribuição foi eliminar o que ainda restava de romantismo e idealismo no modo de ver as paixões, substituindo-os por uma visão objetiva e trivial do que antes parecia ter uma origem nobre. No entanto, além de negar a natureza espiritual, esse evolucionismo também nega a existência de qualquer sentido transcendente no universo e no homem.
Não é nada fácil explicar como foi possível que processos totalmente desprovidos de sentido tenham sido capazes de produzir indivíduos inteligentes desejosos de encontrar um sentido para a sua existência. Há dois grupos de explicações possíveis; o primeiro simplesmente admite a existência de uma realidade transcendente; o segundo, sendo materialista, não tem uma resposta simples para a questão. Entre duas explicações para um mesmo fenômeno, na impossibilidade de aferir diretamente as hipóteses, a ciência sempre optou pela mais simples. E, para esse caso, é bem claro qual das duas hipóteses é a mais simples.
Utilizando esse princípio e algumas hipóteses ad hoc, não há nenhum fenômeno humano que não possa ser facilmente explicado. A receita é bem simples. Primeiro, crie uma suposição sobre o comportamento do ser humano primitivo claramente associado a um desses impulsos. Depois, simplesmente relacione o comportamento atual com aquele comportamento primitivo por meio de um argumento heurístico plausível. Se o raciocínio for bem feito, a conclusão é capaz de se impor como se tivesse sido enunciado por uma testemunha imortal e onisciente.
Há inúmeros exemplos. Por que o ser humano sorri? Simples; o sorriso era um mecanismo que o homem primitivo, que ainda não dominava a linguagem falada, utilizava para comunicar a sua submissão ao indivíduo mais forte ou a abertura à relação sexual com o indivíduo do sexo oposto. Com o tempo, o sorriso foi sendo incorporado às percepções inatas como um sinal de que o outro não quer o confronto ou de que o outro quer a aproximação sexual. Assim, o cérebro "aprendeu" a tranquilizar-se ao ver um sorriso.
Por que razão, mesmo depois de tanta tentativa de incutir na sociedade os pressupostos do movimento feminista, a mulheres na maioria dos casos dão prioridades em sua escolha a sujeitos fortes, ricos e poderosos e os homens maior prioridade às mulheres bonitas? Simples também. Para a mulher primitiva, em um ambiente de brutalidade e ameaça constante, era-lhe vantajoso encontrar um homem capaz de proteger a ela e a sua prole (força e poder) e lhes dar sustento (riqueza). Para o homem, a vantagem seria maior quanto mais fértil fosse a mulher e menor fosse a sua carga de defeitos genéticos. A própria evolução ensinou o cérebro do homem (e também o da mulher) a reconhecer essas qualidades e a disparar o desejo sexual no momento oportuno, gerando uma fixação (ou o que nós chamamos de apaixonamento).
O mais curioso desses explicações é a sua capacidade de trivializar impiedosamente toda arte, toda poesia e toda suposta importância que o ser humano costuma atribuir às suas paixões. Em outras palavras, é como se tais explicações estivessem sempre a escarnecer as pobres criaturas, dizendo: "ei, você aí, que pensa que o mundo se curva às suas paixões, que são as mais intensas, as mais importantes, e que são o sentido da sua vida, não vê que isso não é nada, que você é pó, que todos os outros que são pó como você sentem o mesmo e que incuti em ti essas paixões para que com a sua tolice não se deixe perecer facilmente e nem se desinteresse da reprodução da sua espécie?".
Esse processo natural de moldagem da espécie pode ser observada em todas as espécies animais. O surpreendente a respeito do ser humano é que ele tenha sido capaz de adquirir consciência disso. Historicamente, essa conscientização foi expressa de muitas formas. A linguagem é imperfeita, mas a intuição é capaz de perceber a descrição da mesma realidade na aparente diversidade de plataformas culturais. Ao tomar consciência da existência desses processos inatos, que influem na origem das aparentes vontades pessoais, o homem consciente encontrou-se diante da possibilidade de simplesmente dizer não aos impulsos de origem animal. Mas é de fato surpreendente, pois esses desejos não são vãos, se levarmos em conta que foram precisamente eles que garantiram a perpetuação da espécie e o saldo positivo no processo evolutivo. Estaria esse ser humano se revoltando contra os mecanismos que o geraram, obstruindo por rebeldia e desejo de auto-afirmação a normalidade do processo evolutivo?
Alguns pensadores modernos acreditam que na maior parte de sua existência, o ser humano vivia em completa entrega aos seus impulsos de origem animal. Acrescentaria que ainda hoje a maior parte das pessoas vive assim, pois o conhecimento da verdadeira motivação de suas ações exige a difícil habilidade de sair de si para buscar a realidade a respeito da própria natureza. Esse é precisamente o primeiro passo do filósofo. Um passo que terá conseqüências drásticas no seu modo de viver e sentir. Nietzche culpava a racionalidade desenvolvida pelos filósofos gregos pelo que considerou uma covarde recusa de viver de acordo com a sabedoria da própria natureza. De qualquer modo, uma vez adquirido o conhecimento a respeito de si, um passo irreversível foi dado, e nenhuma escolha na vida poderá ser realizada sem que se desconfie das verdadeiras forças que a impulsiona.
As respostas materialistas para o problema da consciência de si sempre vai esbarrar em alguma dificuldade. Uma resposta materialista tem que dar uma volta em torno de si mesma para encontrar um modo de explicar como a consciência das leis evolutivas naturais beneficia um indivíduo que simplesmente se recusa a seguí-las. Uma saída para o problema é dizer que a atitude dos indivíduos que agem desse modo é patológica. E então afirmar que um homem que resolveu deixar suas riquezas, seu poder e sua potencialidade sexual por desejar algo além dos impulsos naturais é um doente, um desvio acidental no trajeto evolutivo que deve ser eliminado. Ou um fraco e covarde, que teve medo de perecer na luta por riqueza e poder. De qualquer modo, alguém a ser eliminado.
Seguindo esse raciocínio, é necessária a conclusão de que Cristo e sua doutrina têm que ser eliminados. É por isso que tanto Nietzsche quanto os evolucionistas dos nossos dias, têm se empenhado em destruir o cristianismo. Mas essa perseguição cai por terra e revela uma face verdadeiramente diabólica se de fato existe uma realidade que transcende os prazeres e bens terrenos, pela qual valha à pena abandonar as promessas de felicidade mundana.
Bem, como já mostramos, esses bens e prazeres da terra nada mais são do que os recursos que garantem a sobrevivência do indivíduo e sua perpetuação. Esses desejo não é próprio do indivíduo, isto é, ninguém pode efetivamente dizer eu quero ser rico, ter poder e uma mulher/homem do meu gosto, mas deve dizer eu herdei esses desejos, que são a garantia natural de que conservarei a minha vida e a transmitirei. Não são meus desejos, são os desejos da minha espécie. Resta então encontrar qual é o verdadeiro desejo do ser humano.
Se o ser humano fosse de fato apenas um animal, não existiria a vontade própria do indivíduo. É o que dizem os evolucionistas modernos, conduzidos pela aplicação logicamente rigorosa de seus princípios. Se Sartre chegou à conclusão de que o homem é uma paixão inútil, todos os evolucionistas deveriam chegar à conclusão de que as paixões são úteis para a espécie. Mas nesse caso, resta um problema a ser resolvido, que é o problema do próprio evolucionista que chegou à sua conclusão e se pergunta o que fazer então.
Para ser rigorosamente coerente com os seus próprios princípios, o melhor a fazer é entregar-se à realização das paixões. Nessa perspectiva, a felicidade é um artifício natural alcançada apenas pelos homens que realizam os impulsos naturais. Mas não pensemos que entregar-se às paixões significa passar o resto da vida comendo (entenda-se no duplo sentido) e bebendo. Significa utilizar toda a força intelectual e física para obter segurança, riqueza, poder e filhos. O bem e o mal não estão em discussão; o que importa é obter segurança, riqueza, poder e filhos, qualquer que seja o método, contanto que o método não venha a destruir a própria vida. Não há espaço para discutir se uma ação é intrinsecamente boa ou má; é boa ou má na medida em que a ação possa construir ou destruir aqueles valores.
Mas esse raciocínio cairia por terra se o pressuposto de que o ser humano é apenas um animal não fosse válido. De fato, o ser humano tem uma natureza espiritual, que é a única e verdadeira explicação para o fato de conseguir adquirir consciência da sua condição animal. Essa consciência da própria condição não é de modo algum um acidente nocivo à evolução, como sugeri anteriormente, mas um impulso interior que resgata o indivíduo de aspirações meramente animais para as aspirações verdadeiramente humanas. Toda a evolução existiu tendo em vista a formação do ser humano, uma criatura animal e espiritual, sujeita às leis da evolução, mas também às leis da natureza espiritual, imortal e indestrutível. Essa natureza espiritual aspira o que lhe é próprio, assim como a animal, mas suas aspirações são diferentes. A animal aspira ao que é, como ela, perecível e passageira, a espiritual aspira ao que é, como ela, eterna e permanente.
Alguém poderia exigir nesse ponto provas e evidências da existência dessa natureza espiritual. São provas e evidências análogas a que qualquer um teria para provar que o céu é azul. A evidência é a história humana, compilada nas manifestações de consciência da realidade espiritual presentes em todas as culturas. Os evolucionistas buscam todas as causas materiais possíveis para essas manifestações, tudo para não admitir a realidade espiritual. Não é difícil encontrar explicações tampão. Para isso existe até receita pronta.
Demonstrar que a realidade espiritual é verdadeira é uma tarefa tão impossível quanto demonstrar que tudo o que experienciamos é real. Alguém pode acreditar que a realidade espiritual não existe, mas isso é tão absurdo quanto acreditar que a vida é um sonho. A lógica genética tem sido utilizada como o método padrão para excluir do campo intelectual qualquer referência à transcendência da realidade humana, em uma tentativa pretensiosamente científica de dar respostas definitivas para fatos que ela está muito longe de explicar. Se de fato alguma de suas explicações tem fornecido alguma luz sobre a origem do comportamento humano, sua maior contribuição foi eliminar o que ainda restava de romantismo e idealismo no modo de ver as paixões, substituindo-os por uma visão objetiva e trivial do que antes parecia ter uma origem nobre. No entanto, além de negar a natureza espiritual, esse evolucionismo também nega a existência de qualquer sentido transcendente no universo e no homem.
Não é nada fácil explicar como foi possível que processos totalmente desprovidos de sentido tenham sido capazes de produzir indivíduos inteligentes desejosos de encontrar um sentido para a sua existência. Há dois grupos de explicações possíveis; o primeiro simplesmente admite a existência de uma realidade transcendente; o segundo, sendo materialista, não tem uma resposta simples para a questão. Entre duas explicações para um mesmo fenômeno, na impossibilidade de aferir diretamente as hipóteses, a ciência sempre optou pela mais simples. E, para esse caso, é bem claro qual das duas hipóteses é a mais simples.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
O caminho da física. Parte 2: física e sociedade
Nos dias de hoje, tenho a impressão de que a imagem do físico no Brasil ainda está associada à do cientista maluco perdido em especulações estapafúrdias que o deixam totalmente e permanentemente desconectado da realidade que o cerca. Dessa visão estereotipada muitos concluem que esses cientistas fazem parte de uma classe de pessoas dedicadas a tarefas sem o menor impacto na sociedade e cuja existência é absolutamente dispensável. Na melhor das hipótese, a sua mais notável contribuição para história foi o desenvolvimento da famigerada bomba atômica.
Sim, sua existência é absolutamente dispensável para todo aquele que se dispusesse a voltar a viver no tempo em que todas as tecnologias baseadas na eletricidade e na mecânica industrial simplesmente não existiam. Nada de carro, roupas baratas, luz elétrica, televisão, computador, celular, eletrodomésticos etc. Alguns acham tudo isso um grande exagero e chegam a afirmar que esses avanços são apenas o resultado do esforço de homens empreendedores que no fundo do quintal de suas casas deram à luz todos esses produtos como em um passe de mágica. Outros atribuem tudo isso apenas às forças econômicas que impulsionaram inevitavelmente todo o desenvolvimento tecnológico. Por qualquer que seja a razão, todas essas explicações não querem atribuir importância para o único fator que teve papel decisivo: as ciências físicas, pois não existindo esse método de trabalho e investigação teria sido absolutamente impossível o desenvolvimento dessas tecnologias.
Há uma visão de mundo que tende a desprezar totalmente o papel dos indíviduos na formulação de novas tecnologias. Quem usa um computador ou um celular, ou o seu idolatrado iPhone, dificilmente parou para pensar que tudo isso seria impossível se não fosse resultado de anos de trabalho e pesquisa de muitos físicos, químicos e engenheiros. Há uma densidade tão grande de conhecimento e trabalho acumulado dentro de uma placa mãe de um computador que nem mesmo a cabeça do tecnólogo com a mais vasta formação científica é capaz de abarcar. É lógico que esse trabalho precisou e sempre precisará do suporte financeiro. Mas o investimento por si só não é garantia de nada. Os verdadeiros agentes das grandes revoluções científicas e tecnológicas são os cientistas e não os empreendedores que investiram o seu dinheiro nisso.
A quantidade de tecnologias hoje consideradas indispensáveis no dia-a-dia que saíram diretamente dos laboratórios desses físicos "malucos" é tão grande que espanta que a sociedade brasileira seja incapaz de entender a importância desse profissional. Nossa sociedade tem demorado muito tempo para se dar conta da sua relevância para a economia. Em parte, isso se deve a incapacidade do ensino de física no nosso país de mostrar aos alunos o impacto da física na sociedade através de exemplos das tecnologias presentes no dia-a-dia.
A regulamentação da profissão do físico, cuja aprovação legal já está em fase avançada, é um passo que poderá ajudar a criar um ambiente favorável para esse profissional na economia do nosso país. No entanto, é sempre bom lembrar que a lei não pode por si só criar uma cultura de prestígio ao físico nos mais diversos ramos do mercado de trabalho. Esse prestígio deve ser conquistado pelos próprios físicos, ao mostrar que seu trabalho pode fazer muita diferença. Esse reconhecimento tem sido conquistado pelos físicos em muitos ramos da atividade profissional, mas ainda falta muito para que sua importância seja amplamente reconhecida aqui no Brasil.
A dimensão do impacto que esse profissional teve nas grandes mudanças tecnológicas no último século pode ser aferida pelo trabalho dos laureados pelo prêmio Nobel. Logo na sua primeira versão, em 1901, o alemão Wilhelm Conrad Röntgen recebeu o prêmio pela descoberta dos raios X . Quem nunca passou por uma radiografia? Em 1956, os americanos John Bardeeen, Walter Houser Bratain, Willian Bradford Shokley receberam o premio pela descoberta do transistor e suas propriedades. Ninguem sabe o que é um transistor, é bem verdade, talvez por ser intrinsecamente complicados. Mas eles são utilizados em todos os dispositivos eletrônicos modernos, do computador, passando pela máquina de lavar, ao radinho de pilha. Em 2009, a dupla de americanos Willar Boyle e George Smith compartilharam o prêmio pela invenção do sensor CCD (charge-coupled device), utilizado nas câmeras digitais modernas. No mesmo ano, Charles K. Kao, nascido em Hong Kong, recebeu o prêmio pelas suas investigações que levaram ao desenvolvimento da fibra óptica. E isso tudo é apenas uma minúscula amostra das invenções tecnológicas de grande impacto que aconteceram graças ao trabalho experimental do físico.
Digo tudo isso pois já está na hora de a sociedade reconhecer uma importante vocação de muitos físicos: enfrentar os grandes problemas tecnológicos de grande relevância para o destino da sociedade. Para isso, não é necessário destruir aquela imagem pitoresca do físico maluco e genial, unicamente envolvido em suas especulações esotéricas. Mas é desejável sim tornar presente nas mentes do grande público uma imagem que corresponda a um profissional profundamente envolvido nos problemas tecnológicos reais, palpáveis, cujos desdobramentos podem ter um impacto brutal no dia-a-dia de todos nós.
Sim, sua existência é absolutamente dispensável para todo aquele que se dispusesse a voltar a viver no tempo em que todas as tecnologias baseadas na eletricidade e na mecânica industrial simplesmente não existiam. Nada de carro, roupas baratas, luz elétrica, televisão, computador, celular, eletrodomésticos etc. Alguns acham tudo isso um grande exagero e chegam a afirmar que esses avanços são apenas o resultado do esforço de homens empreendedores que no fundo do quintal de suas casas deram à luz todos esses produtos como em um passe de mágica. Outros atribuem tudo isso apenas às forças econômicas que impulsionaram inevitavelmente todo o desenvolvimento tecnológico. Por qualquer que seja a razão, todas essas explicações não querem atribuir importância para o único fator que teve papel decisivo: as ciências físicas, pois não existindo esse método de trabalho e investigação teria sido absolutamente impossível o desenvolvimento dessas tecnologias.
Há uma visão de mundo que tende a desprezar totalmente o papel dos indíviduos na formulação de novas tecnologias. Quem usa um computador ou um celular, ou o seu idolatrado iPhone, dificilmente parou para pensar que tudo isso seria impossível se não fosse resultado de anos de trabalho e pesquisa de muitos físicos, químicos e engenheiros. Há uma densidade tão grande de conhecimento e trabalho acumulado dentro de uma placa mãe de um computador que nem mesmo a cabeça do tecnólogo com a mais vasta formação científica é capaz de abarcar. É lógico que esse trabalho precisou e sempre precisará do suporte financeiro. Mas o investimento por si só não é garantia de nada. Os verdadeiros agentes das grandes revoluções científicas e tecnológicas são os cientistas e não os empreendedores que investiram o seu dinheiro nisso.
A quantidade de tecnologias hoje consideradas indispensáveis no dia-a-dia que saíram diretamente dos laboratórios desses físicos "malucos" é tão grande que espanta que a sociedade brasileira seja incapaz de entender a importância desse profissional. Nossa sociedade tem demorado muito tempo para se dar conta da sua relevância para a economia. Em parte, isso se deve a incapacidade do ensino de física no nosso país de mostrar aos alunos o impacto da física na sociedade através de exemplos das tecnologias presentes no dia-a-dia.
A regulamentação da profissão do físico, cuja aprovação legal já está em fase avançada, é um passo que poderá ajudar a criar um ambiente favorável para esse profissional na economia do nosso país. No entanto, é sempre bom lembrar que a lei não pode por si só criar uma cultura de prestígio ao físico nos mais diversos ramos do mercado de trabalho. Esse prestígio deve ser conquistado pelos próprios físicos, ao mostrar que seu trabalho pode fazer muita diferença. Esse reconhecimento tem sido conquistado pelos físicos em muitos ramos da atividade profissional, mas ainda falta muito para que sua importância seja amplamente reconhecida aqui no Brasil.
A dimensão do impacto que esse profissional teve nas grandes mudanças tecnológicas no último século pode ser aferida pelo trabalho dos laureados pelo prêmio Nobel. Logo na sua primeira versão, em 1901, o alemão Wilhelm Conrad Röntgen recebeu o prêmio pela descoberta dos raios X . Quem nunca passou por uma radiografia? Em 1956, os americanos John Bardeeen, Walter Houser Bratain, Willian Bradford Shokley receberam o premio pela descoberta do transistor e suas propriedades. Ninguem sabe o que é um transistor, é bem verdade, talvez por ser intrinsecamente complicados. Mas eles são utilizados em todos os dispositivos eletrônicos modernos, do computador, passando pela máquina de lavar, ao radinho de pilha. Em 2009, a dupla de americanos Willar Boyle e George Smith compartilharam o prêmio pela invenção do sensor CCD (charge-coupled device), utilizado nas câmeras digitais modernas. No mesmo ano, Charles K. Kao, nascido em Hong Kong, recebeu o prêmio pelas suas investigações que levaram ao desenvolvimento da fibra óptica. E isso tudo é apenas uma minúscula amostra das invenções tecnológicas de grande impacto que aconteceram graças ao trabalho experimental do físico.
Digo tudo isso pois já está na hora de a sociedade reconhecer uma importante vocação de muitos físicos: enfrentar os grandes problemas tecnológicos de grande relevância para o destino da sociedade. Para isso, não é necessário destruir aquela imagem pitoresca do físico maluco e genial, unicamente envolvido em suas especulações esotéricas. Mas é desejável sim tornar presente nas mentes do grande público uma imagem que corresponda a um profissional profundamente envolvido nos problemas tecnológicos reais, palpáveis, cujos desdobramentos podem ter um impacto brutal no dia-a-dia de todos nós.
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domingo, 29 de abril de 2012
O Caminho da Física. Parte I
Costuma-se dizer que a física é uma ciência fundamentada sobre o princípio da indução. Em poucas palavras, isso significa que todas as suas conclusões universalmente válidas são formuladas depois de um número finito de experimentos que sempre conduzem aos mesmos resultados. Desse modo, afirmações universalmente válidas, como por exemplo, "não havendo obstáculos, todo objeto abandonado por um observador na terra executa uma trajetória de queda", ou, "sempre que uma corrente elétrica flui por um fio condutor, um campo magnético pode ser medido nas imediações do fio", são verdadeiras porque sempre que se realizou o experimento, o mesmo efeito se observou. Essas afirmações não garantem que os efeitos enunciados se cumprirão necessariamente em um próximo experimento, pois a conclusão indutiva sempre se baseia em um número finito de experimentos anteriores.
No entanto, alguém poderia imaginar que a física deveria também ter exemplos de conclusões fundamentadas no princípio da dedução. Einstein criou uma teoria postulando que a velocidade da luz é constante e que as leis da física são as mesmas qualquer que seja o referencial inercial no qual um observador realize um experimento. A partir desses postulados, chega-se à conclusão de que o espaço e o tempo são necessariamente relativos.
Antes de Einstein ter chegado à essa conclusão, nunca nenhum observador tinha percebido que o tempo e o espaço dependem do referencial. Além disso, Einstein alegou que tinha desconhecimento dos experimentos de sua época que não identificaram diferenças na velocidade da luz ao ser medida em diferentes referenciais. Apesar disso, depois da sua formulação, nunca foi obtido nenhum resultado experimental inconsistente com as conclusões da teoria da relatividade restrita.
Isso significa então que a física quebrou o paradigma do processo indutivo como método único para chegar às suas conclusões? Sim, mas é necessário entender que foram necessárias muitas conclusões fundamentadas em processos indutivos para que tenha chegado a essa possibilidade. Isso porque a teoria de Einstein pressupõe a existência de leis físicas, postuladas invariantes pela sua teoria. Em particular, a teoria de Einstein se refere às leis expressas pelas equações de Maxwell. Essas equações se estabeleceram na física como a ferramenta que descreve de maneira mais simples e completa as observações experimentais envolvendo campos elétricos e magnéticos, correntes elétricas e carga elétrica. Foram obtidas a partir de um processo indutivo, isto é, sua única justificativa é experimental, não havendo nenhuma dedução partindo de algum enunciado mais geral a partir da qual elas tenham sido deduzidas.
Já se sabia antes de Einstein que as equações de Maxwell só poderiam ser invariantes com relação ao referencial se o espaço e o tempo fossem relativos. Einstein postulou sem provar a invariância das leis da física e aceitou a relatividade do espaço e do tempo que decorrem como conclusão lógica de seus postulados. Se não havia nenhuma evidência experimental a respeito da relatividade do espaço e do tempo, o que deu segurança para Einstein estabelecer aqueles postulados?
Einstein fez uma escolha -- que talvez alguns possam considerar arbitrária e subjetiva -- fundamentada em uma expectativa de que a natureza deve ser de um modo e não de outro. E essa expectativa é a de que deve existir uma lógica ou ordem intrínseca à propria natureza. Se as leis variassem de acordo com o referencial, então simplesmente deixariam de ser leis universais. Não haveria apenas uma lei, mas muitas leis, uma para cada referencial. Em outras palavras, Einstein preferiu preservar a existência das leis universais à imutabilidade do espaço e do tempo. E, ao que tudo indica, nenhum experimento foi capaz de contestar as conclusões decorrentes da sua escolha.
Infelizmente, até hoje muitos utilizam a teoria de Einstein para justificar o enunciado "tudo é relativo" em contextos estranhos à física. Em primeiro lugar, a teoria da relatividade não postula e nem chega à conclusão de que "tudo é relativo". Pelo contrário, postula que a velocidade da luz e as leis da física são absolutas e não relativas e que portanto nem tudo é relativo. Sem querer entrar no mérito da questão relativa à aplicação do enunciado "tudo é relativo" em outros contextos, como a ética, pode-se dizer com toda a certeza que utilizar a teoria da relatividade para justificar esse enunciado nesse contexto é uma falácia grosseira.
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