quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Pequena nota sobre os limites da Física
A Física é meramente o estudo das propriedades essenciais e acidentais, quantitativas, dos entes materiais, incluindo na definição de matéria os corpos massivos e a radiação.
A Física não esgota a realidade. Nem mesmo esgota a realidade dos entes materiais, pois as propriedades essenciais ou acidentais não quantitativas, embora existentes, não são objeto de estudo da Física.
Um dos grandes erros dos físicos é acreditar que a função de onda das partículas ou de um sistema de muitas partículas são as próprias partículas. O elétron não é sua função de onda. Na melhor das hipóteses, a função de onda representa um de seus possíveis estados, relativos a propriedades acidentais (posição, instante, energia, momento). Nem mesmo representam suas propriedades essenciais, tais como massa e carga, que são conhecidas por experimento, e nunca derivadas de uma função de onda, mas apenas da experimentação.
A Física, embora extremamente útil do ponto de vista prático, não tem alcance Metafísico nenhum. Ou seja, realmente está em uma esfera inferior do conhecimento, como já tinha identificado Aristóteles.
A idéia de que estamos em uma simulação é um dos maiores absurdos que apareceram nos últimos tempos. Ainda que a Física possa um dia fornecer as bases para uma simulação computacional quase perfeita da aparência das coisas (isto é, como elas refletem ou produzem luz e como se movimentam), ela por si só não pode trazer nada à existência.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Fake news na ciência: o caso Bohannon
A grande mídia frequentemente veicula opiniões em favor da ciência contra o obscurantismo ameaçador produzido por fantasmas que ela mesmo inventa para rotular seus inimigos. Na realidade, a dinâmica da ciência é muito complexa de modo que pouquíssimos jornalistas estão realmente habilitados para analisar a qualidade e a credibilidade de resultados científicos.
Prova disso foi o famoso estudo fabricado pelo biólogo e jornalista científico John Bohannon em 2013 sobre os efeitos da dieta baseada em chocolate amargo. Sua idéia foi fabricar um estudo enviesado que corroborasse a tese frequentemente difundida por gurus da nutrição de que chocolate amargo faz bem para saúde. Com isso, ele queria verificar a extensão da difusão dos resultados pela mídia e testar a eficácia dos mecanismos de verificação de fatos e versões.
Com um pequeno orçamento à sua disposição, Bohannon conseguiu alguns voluntários para sua pesquisa. Com uma pequena amostra de quinze pessoas, 11 mulheres e 4 homens, três grupos de cinco pessoas foram formados; a um dos grupos foi dada a instrução de seguir uma dieta de baixo nível de carboídrato; ao segundo grupo foi dada a mesma diretiva mas com o acréscimo de 42 g de chocolate amargo na dieta diária; ao terceiro grupo, chamado controle, não foi dada nenhuma instrução quanto à dieta.
Todos os participantes tiveram que responder antes de iniciar o programa a um questionário para verificar se as dietas não poderiam lhes ser prejudiciais à saúde. O tempo de duração da dieta seria de 21 dias, durante os quais os participantes teriam que se pesar todos os dias ao menos uma vez, inclusive os do grupo controle. Ao término desse período, os participantes fizeram alguns exames de sangue e responderam a um novo questionário, perguntando, por exemplo, sobre a qualidade do sono durante a realização do programa.
Com a assistência de um estatístico conhecido seu, Bohannon estabeleceu uma metodologia calibrada para produzir falsos positivos. De acordo com essa metodologia, um total de 18 variáveis foram testadas, entre elas o peso ao final do programa, velocidade de perda de peso, qualidade do sono, bem estar, concentração de colesterol e sódio no sangue etc. Chegaram à conclusão de que o grupo da dieta com chocolate amargo perdeu peso a uma velocidade 10% maior. Além de essa diferença ter sido estatisticamente significativa, este grupo também apresentou menores níveis de colesterol e relatou maiores níveis de bem-estar.
Esses resultados caíram como uma luva em um contexto do jornalismo em que notícias sobre fatos nutricionais dão imensa audiência. Bohannon contou com a ajuda de uma jornalista para produzir uma matéria simplificada e pictórica do estudo, que acabou sendo utilizada como fonte primária dos jornais e agência de notícias que passaram a difundir os resultados. Muitos acreditaram no estudo e me lembro que na época ele chegou a ser difundido no Brasil.
Mas por que o resultado de Bohannon não merece credibilidade? De fato, o que pode ser afirmado é que com grande probabilidade o estudo dele produziu um falso positivo, afinal de contas, seu método foi desenhado para aumentar a chance de produzi-lo. Como foram testadas muitas variáveis em uma amostra pequena, existia uma probabilidade não desprezível de que uma variação aleatória produzisse diferenças estatisticamente significativas. Sempre que médias de certos parâmetros - como o peso e nível de colesterol - de grupos distintos são comparadas, é necessário estabelecer um certo nível de significância em testes de hipótese. Tipicamente, o nível de significância adotado é de 5%, ou seja, existe uma chance em 20 de que um determinado teste resulte em falso positivo. Como foram realizados 18 testes no total, já que foram estabelecidos 18 parâmetros, a chance de obter um falso positivo pode ser calculada em 60%. O próprio Bohannon disse que tiveram sorte de que o provável falso positivo tenha ocorrido em parâmetros de maior relevância, como a velocidade da perda de peso.
Se Bohannon não tivesse admitido a farsa, certamente cedo ou tarde a comunidade científica teria percebido o engodo. Mas este processo é lento, deixando tempo suficiente para que resultados mirabolantes sejam difundidos pela grande mídia. Durante a fase de maior divulgação dos resultados pela grande mídia, Bohannon foi contatado por grandes agências de notícias, e também pelos seus investigadores. No entanto, a verificação limitava-se a assegurar a existência de Bohannon, ou de que era ele mesmo quem estava respondendo às perguntas. Não houve nenhum esforço de fazer uma revisão mais profunda do estudo ou de consulta aos pares.
Portanto, nós temos todo o direito e dever de questionar e duvidar das afirmações da grande mídia. O próprio Bohannon reconhece que foi possível enxergar alguma luz de esperança ao ler os comentários críticos e bem fundamentados de leitores dos sites em que os resultados fabricados foram anunciados.
Não é sem razão que muitos acusam a grande mídia de produzir "fake news". Se neste caso se verificou tamanha displicência e preguiça, o que esperar da cobertura sobre política e economia, por exemplo? Há muito tempo que guardo fortes reservas quanto às opiniões veiculadas na grande mídia em geral. Muitas vezes verifico facilmente a tendenciosidade que beira à pura militância mal disfarçada. Haveria ainda muito mais a afirmar sobre os maus hábitos da grande mídia. Por enquanto me limito a comemorar a sua gradual perda de influência e credibilidade, esperançoso de que algum dia todos estejam vacinados contra os seus vícios.
Prova disso foi o famoso estudo fabricado pelo biólogo e jornalista científico John Bohannon em 2013 sobre os efeitos da dieta baseada em chocolate amargo. Sua idéia foi fabricar um estudo enviesado que corroborasse a tese frequentemente difundida por gurus da nutrição de que chocolate amargo faz bem para saúde. Com isso, ele queria verificar a extensão da difusão dos resultados pela mídia e testar a eficácia dos mecanismos de verificação de fatos e versões.
Com um pequeno orçamento à sua disposição, Bohannon conseguiu alguns voluntários para sua pesquisa. Com uma pequena amostra de quinze pessoas, 11 mulheres e 4 homens, três grupos de cinco pessoas foram formados; a um dos grupos foi dada a instrução de seguir uma dieta de baixo nível de carboídrato; ao segundo grupo foi dada a mesma diretiva mas com o acréscimo de 42 g de chocolate amargo na dieta diária; ao terceiro grupo, chamado controle, não foi dada nenhuma instrução quanto à dieta.
Todos os participantes tiveram que responder antes de iniciar o programa a um questionário para verificar se as dietas não poderiam lhes ser prejudiciais à saúde. O tempo de duração da dieta seria de 21 dias, durante os quais os participantes teriam que se pesar todos os dias ao menos uma vez, inclusive os do grupo controle. Ao término desse período, os participantes fizeram alguns exames de sangue e responderam a um novo questionário, perguntando, por exemplo, sobre a qualidade do sono durante a realização do programa.
Com a assistência de um estatístico conhecido seu, Bohannon estabeleceu uma metodologia calibrada para produzir falsos positivos. De acordo com essa metodologia, um total de 18 variáveis foram testadas, entre elas o peso ao final do programa, velocidade de perda de peso, qualidade do sono, bem estar, concentração de colesterol e sódio no sangue etc. Chegaram à conclusão de que o grupo da dieta com chocolate amargo perdeu peso a uma velocidade 10% maior. Além de essa diferença ter sido estatisticamente significativa, este grupo também apresentou menores níveis de colesterol e relatou maiores níveis de bem-estar.
Esses resultados caíram como uma luva em um contexto do jornalismo em que notícias sobre fatos nutricionais dão imensa audiência. Bohannon contou com a ajuda de uma jornalista para produzir uma matéria simplificada e pictórica do estudo, que acabou sendo utilizada como fonte primária dos jornais e agência de notícias que passaram a difundir os resultados. Muitos acreditaram no estudo e me lembro que na época ele chegou a ser difundido no Brasil.
Mas por que o resultado de Bohannon não merece credibilidade? De fato, o que pode ser afirmado é que com grande probabilidade o estudo dele produziu um falso positivo, afinal de contas, seu método foi desenhado para aumentar a chance de produzi-lo. Como foram testadas muitas variáveis em uma amostra pequena, existia uma probabilidade não desprezível de que uma variação aleatória produzisse diferenças estatisticamente significativas. Sempre que médias de certos parâmetros - como o peso e nível de colesterol - de grupos distintos são comparadas, é necessário estabelecer um certo nível de significância em testes de hipótese. Tipicamente, o nível de significância adotado é de 5%, ou seja, existe uma chance em 20 de que um determinado teste resulte em falso positivo. Como foram realizados 18 testes no total, já que foram estabelecidos 18 parâmetros, a chance de obter um falso positivo pode ser calculada em 60%. O próprio Bohannon disse que tiveram sorte de que o provável falso positivo tenha ocorrido em parâmetros de maior relevância, como a velocidade da perda de peso.
Se Bohannon não tivesse admitido a farsa, certamente cedo ou tarde a comunidade científica teria percebido o engodo. Mas este processo é lento, deixando tempo suficiente para que resultados mirabolantes sejam difundidos pela grande mídia. Durante a fase de maior divulgação dos resultados pela grande mídia, Bohannon foi contatado por grandes agências de notícias, e também pelos seus investigadores. No entanto, a verificação limitava-se a assegurar a existência de Bohannon, ou de que era ele mesmo quem estava respondendo às perguntas. Não houve nenhum esforço de fazer uma revisão mais profunda do estudo ou de consulta aos pares.
Portanto, nós temos todo o direito e dever de questionar e duvidar das afirmações da grande mídia. O próprio Bohannon reconhece que foi possível enxergar alguma luz de esperança ao ler os comentários críticos e bem fundamentados de leitores dos sites em que os resultados fabricados foram anunciados.
Não é sem razão que muitos acusam a grande mídia de produzir "fake news". Se neste caso se verificou tamanha displicência e preguiça, o que esperar da cobertura sobre política e economia, por exemplo? Há muito tempo que guardo fortes reservas quanto às opiniões veiculadas na grande mídia em geral. Muitas vezes verifico facilmente a tendenciosidade que beira à pura militância mal disfarçada. Haveria ainda muito mais a afirmar sobre os maus hábitos da grande mídia. Por enquanto me limito a comemorar a sua gradual perda de influência e credibilidade, esperançoso de que algum dia todos estejam vacinados contra os seus vícios.
sábado, 8 de abril de 2017
Um alquimista no Acre
Ontem, fiquei sabendo por meio de um telejornal sobre o desaparecimento de um jovem de 24 anos de idade, no estado do Acre. Dentre os muitos desaparecimentos que ocorrem por ano no Brasil, o que surpreende nesse são as circunstâncias bastante peculiares. Bruno Borges, o desaparecido, transformou seu quarto em um livro aberto, tendo ilustrado as paredes, teto e chão com diagramas e códigos, além de alguns quadros com símbolos e figuras misteriosas e uma reprodução fac-símile da estátua de Giordano Bruno. Sobre a mesa, foram deixados 14 volumes de sua obra, todos em escrita criptografada.
Os pais não sabem do paradeiro do filho e demonstram consternação e sofrimento pelo ocorrido. Ao mesmo tempo, dão um testemunho positivo a respeito de seu comportamento ao longo da vida, por meio de muitos bons exemplos. Além disso, tratam com respeito e admiração a obra do filho, e acham que ela merece receber atenção e ser conhecida por estarem seguros de que contém uma mensagem boa e talvez nova para a humanidade.
Tem circulado nas redes sociais vídeos e opiniões sobre o assunto. O interesse de muitos foi despertado e, se o desaparecimento foi desejado por Bruno para chamar a atenção para a sua obra, certamente ele a conseguiu.
Diante dessa situação, é possível fazer muitas perguntas, entre elas, podemos destacar: há alguma mensagem nova nesses escritos?
Não será possível responder essa pergunta sem antes ler os livros. Mesmo assim, podemos partir da análise de uma página decriptografada para chegar a algumas conclusões. A análise dos símbolos e pinturas merece uma análise à parte, que talvez tratemos em um post futuro.
Reproduzo abaixo o texto decriptografado:
"Caminho difícil
Por milhares de anos o ser humano vem tentando encontrar respostas para perguntas como 'qual o sentido da vida'? A filosofia que, ao que tudo indica, parece ter se iniciado com Tales de Mileto em meados de 700 a.C. visa encontrar vestígios de perguntas sem respostas. A pesquisa profunda pela verdade absoluta advém da filosofia, e quando falamos a respeito de caminhos fáceis ou difíceis estamos nos referindo a esse tipo de teorema.
É fácil aceitar o que desde criança te ensinaram que é errado. Difícil é, quando adulto, entender que te ensinaram errado o que desde criança você suspeitou que fosse correto. Em outras palavras, se você se enquadra em algum cujos estímulos do meio lhe determinaram certo comportamento, fazendo com que estivesse à mercê de crenças já providas e bem estabelecidas em dogmas e rituais, com uma massa concentrada de pessoas nela; ou permitindo-o ficar no conformismo, aceitando o conceito de felicidade e de sentido da vida embutido pela mídia e pela sociedade, então claramente você faz parte do caminho fácil para a busca da verdade absoluta.
Acaso se enquadre na segunda opção, ou seja, aquele que suspeitava de todo conjunto de crenças que lhe foi enraizado, então este tem tudo para ser um investigador da veracidade nas coisas ao seu redor, entrando em um caminho mais complicado, no qual uma minoria se arrisca ou enfrenta com bravura."
Este texto parece ser introdutório e por esse mesmo motivo ajuda a compreender um pouco do sentido e objetivos do que vem a seguir (que nós ainda desconhecemos). Pelo título, "Caminho difícil", podemos entender o sentido do todo, como veremos a seguir. Qual é o caminho difícil a que o autor se refere?
No primeiro parágrafo, o autor afirma que convem à filosofia buscar a resposta para as questões mais fundamentais, como por exemplo, 'qual o sentido da vida?'. Isto é algo consensual, embora haja um enorme debate a respeito da possibilidade da filosofia, com seus métodos, ser capaz de dar uma resposta para elas. Há também hoje em dia um enorme debate, que divide opiniões, sobre o conceito de verdade ou verdade absoluta. Em todo caso, parece que o autor acredita na existência de uma verdade, isto é, uma resposta verdadeira para as perguntas da filosofia, embora o caminho para obtê-las seja difícil. A frase "quando falamos a respeito de caminhos fáceis ou difíceis estamos nos referindo a esse tipo de teorema" é obscura, pois filosofia não é um teorema, e o texto em nenhum momento fez referência a um teorema na acepção rigorosa da palavra, que se aplica ao campo da matemática apenas.
No segundo parágrafo, o autor manifesta sua opinião de que nos são dados ensinamentos errados na infância em oposição à intuição sobre a verdade nas crianças. O autor não dá nenhum exemplo aqui. Menciona também as respostas oferecidas pela sociedade e sobre os que se conformam e os que não se conformam com elas. Na opinião do autor, apenas uma minoria vai buscar suas próprias respostas, entre as quais ele se inclui.
No último parágrafo, o autor instiga a desconfiança a respeito de tudo o que foi ensinado, para que seja empreendida uma investigação pessoal a respeito da veracidade das coisas, caminho que ele considera ser mais complicado.
De fato, parece-me mesmo possível fazer a distinção entre pessoas que apenas desistem quando estão convencidas com a resposta para um questão que formularam em seu interior e aquelas que estão propensas a aceitar uma resposta mesmo que não a convença completamente. No entanto, nós podemos estar ora no primeiro grupo ora no segundo. Pode ser que alguém seja indiferente à pergunta 'qual o sentido da vida?', aceitando qualquer resposta, sem ir à fundo na sua investigação, mas talvez não fiquem tão desinteressados quanto à pergunta 'qual a causa de minha doença e qual seu diagnóstico?', e queiram chegar à resposta verdadeira para obter a cura de seu mal. O autor parece delimitar aqui a busca por respostas às perguntas fundamentais, tais como 'qual o sentido da vida?'.
De fato, vários pensadores se debruçaram sobre essas questões, desde a antiguidade. Há várias respostas para elas. Ficaremos sabendo quais as respostas a que Bruno chegou e como elas se assemelham com a dos pensadores antigos após conhecermos todo o conteúdo de seus livros. Encontraremos alguma novidade?
Frequentemente, na história das religiões, surgem grupos que consideram possuir os conhecimentos necessários para a plena realização espiritual. Outro traço distintivo é o princípio de que tais conhecimentos devem ter uma dimensão esotérica, isto é, devem ser revelados, geralmente em etapas, apenas para indivíduos cuidadosamente selecionados, não sendo acessível ao grande público. Muitos grupos deste tipo ainda existem. Alguns autores (e.g. Réne Guénon) sustentam a tese de que até mesmo as religiões tradicionais, como o Cristianismo e Islamismo, tem ou tiveram uma dimensão esotérica e que ela seria necessária para a sustentação da dimensão exotérica, isto é, a dimensão dos ensinamentos e ritos destinados às massas.
A idéia de que a plena realização espiritual só é possível por meio de um empreendimento pessoal de busca do conhecimento está na raiz do que ficou conhecido como gnosticismo. Essa tendência vai na contra mão dos ensinamentos das religiões tradicionais. No cristianismo, por exemplo, a fonte da salvação é a Graça, um dom de Deus, que é capaz de atuar independentemente do empreendimento pessoal em busca de uma verdade transcendente. A própria história narrada no Novo Testamento comprova que o Messias não estabeleceu escolas iniciáticas e sistemas esotéricos, mas antes enviou o Espírito Santo para que abrisse a mente dos discípulos à compreensão de verdades transcendentes. Se São Tomás de Aquino chegou a compreender muito bem verdades filosóficas com o uso da sua razão natural, jamais poderia ter chegado a conhecer verdades mais elevadas sem a Luz do Espírito Santo.
O gnosticismo e as religiões mistéricas são tão antigas que hoje é difícil pensar que seria possível propor alguma doutrina nova. A Igreja desaconselha esse caminho, pois, com razão, identifica claramente os perigos.
Se alguém deseja entender a mensagem que o Bruno deixou, é aconselhável estar ciente sobre a profunda diferença que existe entre a busca de um Alquimista (gnóstico) e de um Santo. Ao passo que o Alquimista busca em conhecimentos ocultos e sistemas esotéricos respostas para os grandes mistérios, o Santo as busca na fonte de todos os conhecimentos, Deus. Será Bruno um Santo ou um Alquimista?
Os pais não sabem do paradeiro do filho e demonstram consternação e sofrimento pelo ocorrido. Ao mesmo tempo, dão um testemunho positivo a respeito de seu comportamento ao longo da vida, por meio de muitos bons exemplos. Além disso, tratam com respeito e admiração a obra do filho, e acham que ela merece receber atenção e ser conhecida por estarem seguros de que contém uma mensagem boa e talvez nova para a humanidade.
Tem circulado nas redes sociais vídeos e opiniões sobre o assunto. O interesse de muitos foi despertado e, se o desaparecimento foi desejado por Bruno para chamar a atenção para a sua obra, certamente ele a conseguiu.
Diante dessa situação, é possível fazer muitas perguntas, entre elas, podemos destacar: há alguma mensagem nova nesses escritos?
Não será possível responder essa pergunta sem antes ler os livros. Mesmo assim, podemos partir da análise de uma página decriptografada para chegar a algumas conclusões. A análise dos símbolos e pinturas merece uma análise à parte, que talvez tratemos em um post futuro.
Reproduzo abaixo o texto decriptografado:
"Caminho difícil
Por milhares de anos o ser humano vem tentando encontrar respostas para perguntas como 'qual o sentido da vida'? A filosofia que, ao que tudo indica, parece ter se iniciado com Tales de Mileto em meados de 700 a.C. visa encontrar vestígios de perguntas sem respostas. A pesquisa profunda pela verdade absoluta advém da filosofia, e quando falamos a respeito de caminhos fáceis ou difíceis estamos nos referindo a esse tipo de teorema.
É fácil aceitar o que desde criança te ensinaram que é errado. Difícil é, quando adulto, entender que te ensinaram errado o que desde criança você suspeitou que fosse correto. Em outras palavras, se você se enquadra em algum cujos estímulos do meio lhe determinaram certo comportamento, fazendo com que estivesse à mercê de crenças já providas e bem estabelecidas em dogmas e rituais, com uma massa concentrada de pessoas nela; ou permitindo-o ficar no conformismo, aceitando o conceito de felicidade e de sentido da vida embutido pela mídia e pela sociedade, então claramente você faz parte do caminho fácil para a busca da verdade absoluta.
Acaso se enquadre na segunda opção, ou seja, aquele que suspeitava de todo conjunto de crenças que lhe foi enraizado, então este tem tudo para ser um investigador da veracidade nas coisas ao seu redor, entrando em um caminho mais complicado, no qual uma minoria se arrisca ou enfrenta com bravura."
Este texto parece ser introdutório e por esse mesmo motivo ajuda a compreender um pouco do sentido e objetivos do que vem a seguir (que nós ainda desconhecemos). Pelo título, "Caminho difícil", podemos entender o sentido do todo, como veremos a seguir. Qual é o caminho difícil a que o autor se refere?
No primeiro parágrafo, o autor afirma que convem à filosofia buscar a resposta para as questões mais fundamentais, como por exemplo, 'qual o sentido da vida?'. Isto é algo consensual, embora haja um enorme debate a respeito da possibilidade da filosofia, com seus métodos, ser capaz de dar uma resposta para elas. Há também hoje em dia um enorme debate, que divide opiniões, sobre o conceito de verdade ou verdade absoluta. Em todo caso, parece que o autor acredita na existência de uma verdade, isto é, uma resposta verdadeira para as perguntas da filosofia, embora o caminho para obtê-las seja difícil. A frase "quando falamos a respeito de caminhos fáceis ou difíceis estamos nos referindo a esse tipo de teorema" é obscura, pois filosofia não é um teorema, e o texto em nenhum momento fez referência a um teorema na acepção rigorosa da palavra, que se aplica ao campo da matemática apenas.
No segundo parágrafo, o autor manifesta sua opinião de que nos são dados ensinamentos errados na infância em oposição à intuição sobre a verdade nas crianças. O autor não dá nenhum exemplo aqui. Menciona também as respostas oferecidas pela sociedade e sobre os que se conformam e os que não se conformam com elas. Na opinião do autor, apenas uma minoria vai buscar suas próprias respostas, entre as quais ele se inclui.
No último parágrafo, o autor instiga a desconfiança a respeito de tudo o que foi ensinado, para que seja empreendida uma investigação pessoal a respeito da veracidade das coisas, caminho que ele considera ser mais complicado.
De fato, parece-me mesmo possível fazer a distinção entre pessoas que apenas desistem quando estão convencidas com a resposta para um questão que formularam em seu interior e aquelas que estão propensas a aceitar uma resposta mesmo que não a convença completamente. No entanto, nós podemos estar ora no primeiro grupo ora no segundo. Pode ser que alguém seja indiferente à pergunta 'qual o sentido da vida?', aceitando qualquer resposta, sem ir à fundo na sua investigação, mas talvez não fiquem tão desinteressados quanto à pergunta 'qual a causa de minha doença e qual seu diagnóstico?', e queiram chegar à resposta verdadeira para obter a cura de seu mal. O autor parece delimitar aqui a busca por respostas às perguntas fundamentais, tais como 'qual o sentido da vida?'.
De fato, vários pensadores se debruçaram sobre essas questões, desde a antiguidade. Há várias respostas para elas. Ficaremos sabendo quais as respostas a que Bruno chegou e como elas se assemelham com a dos pensadores antigos após conhecermos todo o conteúdo de seus livros. Encontraremos alguma novidade?
Frequentemente, na história das religiões, surgem grupos que consideram possuir os conhecimentos necessários para a plena realização espiritual. Outro traço distintivo é o princípio de que tais conhecimentos devem ter uma dimensão esotérica, isto é, devem ser revelados, geralmente em etapas, apenas para indivíduos cuidadosamente selecionados, não sendo acessível ao grande público. Muitos grupos deste tipo ainda existem. Alguns autores (e.g. Réne Guénon) sustentam a tese de que até mesmo as religiões tradicionais, como o Cristianismo e Islamismo, tem ou tiveram uma dimensão esotérica e que ela seria necessária para a sustentação da dimensão exotérica, isto é, a dimensão dos ensinamentos e ritos destinados às massas.
A idéia de que a plena realização espiritual só é possível por meio de um empreendimento pessoal de busca do conhecimento está na raiz do que ficou conhecido como gnosticismo. Essa tendência vai na contra mão dos ensinamentos das religiões tradicionais. No cristianismo, por exemplo, a fonte da salvação é a Graça, um dom de Deus, que é capaz de atuar independentemente do empreendimento pessoal em busca de uma verdade transcendente. A própria história narrada no Novo Testamento comprova que o Messias não estabeleceu escolas iniciáticas e sistemas esotéricos, mas antes enviou o Espírito Santo para que abrisse a mente dos discípulos à compreensão de verdades transcendentes. Se São Tomás de Aquino chegou a compreender muito bem verdades filosóficas com o uso da sua razão natural, jamais poderia ter chegado a conhecer verdades mais elevadas sem a Luz do Espírito Santo.
O gnosticismo e as religiões mistéricas são tão antigas que hoje é difícil pensar que seria possível propor alguma doutrina nova. A Igreja desaconselha esse caminho, pois, com razão, identifica claramente os perigos.
Se alguém deseja entender a mensagem que o Bruno deixou, é aconselhável estar ciente sobre a profunda diferença que existe entre a busca de um Alquimista (gnóstico) e de um Santo. Ao passo que o Alquimista busca em conhecimentos ocultos e sistemas esotéricos respostas para os grandes mistérios, o Santo as busca na fonte de todos os conhecimentos, Deus. Será Bruno um Santo ou um Alquimista?
sexta-feira, 31 de março de 2017
O Projeto Condon e o UFO de Ubatuba
Na década de 60, um importante físico, chamado Edward Condon, nos EUA, foi encarregado pelo governo de conduzir a partir da Universidade de Colorado, uma investigação científica sobre os UFOs (ou OVNIs, objetos voadores não identificados).
Tendo reunido uma equipe de pesquisadores e com um orçamento adequado para a tarefa, em 1968 foi publicado um documento relatando os resultados das investigações, chamado "Scientific Study of Unidentified Flying Objects", mais conhecido como CONDON REPORT.
O documento é grande e pode ser acessado em http://www.bibliotecapleyades.net/sociopolitica/condonreport/full_report/.
A conclusão do relatório foi de que parte dos eventos estudados poderiam ser compreendidos como eventos naturais e que outra parte não produziram evidências suficientes para serem conclusivos. Além disso, conclui que a investigação de UFOs não poderia trazer nada de novo ou útil para a ciência e dessa forma estabaleceu a palavra final sobre o assunto no âmbito da ciência convencional. Nenhum estudo amplo e bem financiado sobre o assunto foi desenvolvido desde então nas universidades.
Teria sido essa a conclusão desejada pelos que encomendaram o estudo? Ou realmente o estudo chegou à melhor conclusão com os dados de que dispunha? Essas questões não são o tema do que segue, mas aos interessados há muito material na internet sobre elas.
Gostaria de tratar sobre o capítulo 3 da seção III, dedicado às evidências físicas existentes à época, em particular sobre uns fragmentos de magnésio que foram recolhidos em uma praia de Ubatuba após a explosão de um UFO sobre as águas.
De acordo com o relatório, um notório ufólogo brasileiro chamado Olavo Fontes relatou sobre a carta que um indivíduo que estava pescando em Ubatuba escreveu ao jornalista brasileiro Ibrahim Sued. Nesta carta, o pescador conta que não acreditava em UFOs, mas que teria mudado de opinião ao testemunhar um evento espetacular. Estavam ele e alguns amigos pescando em Ubatuba quando repentinemante avistaram um disco voador. O UFO se aproximou da praia a uma velocidade incrível e uma colisão parecia iminente, mas ao estar quase tocando as águas o objeto fez uma manobra brusca e começou a subir para cima. Eles estavam seguindo aquele espetáculo com os olhos quando a nave repentinamente explodiu, espalhando vários fragmentos que depois foram recolhidos e analisados por entidades brasileiras.
De acordo com o laudo das análises feitas no Brasil, tratavam-se de fragmentos de magnésio com uma pureza ímpar, que não poderiam ser produzidos com a tecnologia da época (anterior a 1957).
As amostras foram então analisadas no âmbito do projeto Condon, e comparadas com uma mostra da mesma época fabricada pela Dow Chemical, com o máximo de pureza que eles eram capazes de produzir. O resultado mostrou que as amostras da explosão continham impurezas de Mn, Zn, Cr, Cu, Ba e Sr em graus muito mais elevados (ver tabela). A análise foi realizada por meio de espectrometria gamma. Além disso, foi realizada uma análise por ativação de neutrons para verificar a composição isotópica, pois resultados anteriores pareciam indicar que o fragmento só continha Mg26. No entanto, neste novo estudo não foram encontradas diferenças significativas entre as amostras em seu conteúdo isotópico.
Aparentemente, se pudermos confiar nos resultados da análise, não havia nada de muito especial, salvo o fato de haver uma porcentagem apreciável de estrôncio, já que métodos tradicionais de produção do magnésio não geram esse tipo de impureza. Foram então feitas análises metalográficas e de microssondas nas amostras, nos laboratórios da Dow Chemical, da onde se concluiu que o estrôncio estava distribuído uniformemente e com toda probabilidade foi adicionado intencionalmente. No entanto, a análise metalográfica revelou a presença de grãos relativamente grandes e alongados de magnésio, da onde se concluiu que o material não foi trabalhado após a sua solidificação. O relatório colocou então em dúvida a possibilidade de tal material ter sido parte de um objeto de metal fabricado, em frontal contradição com o que tinha sido concluído a partir da distribuição uniforme do estrôncio. O relatório mencionou também que a Dow Chemical antes de 1957 produzia ligas de magnésio contendo estrôncio. Uma delas teria exatamente a mesma concentração de estrôncio que a amostra proveniente da explosão.
Por fim, o relatório concluiu que a alegação de se tratar de um material que não poderia ter sido fabricado à época teria sido definitivamente descartada. Além disso, acrescentou que a amostra não apresentava composição única e desconhecida, e que portanto não poderia ser utilizada como evidência válida de origem extra-terrestre.
Atualmente, um pequeno grupo chamado Rede Brasileira de Pesquisas Ufológicas tem em mãos algumas amostras dos fragmentos produzidos no evento citado acima e, até onde sei, estavam tentando arrecadar fundos para analisá-lo. Não sei se já conseguiram os resultados.
Terminamos o texto com a resposta do relatório Condon e deixamos ao leitor o encargo de tirar as suas próprias conclusões e seguir adiante com sua investigação pessoal.
De acordo com o relatório, um notório ufólogo brasileiro chamado Olavo Fontes relatou sobre a carta que um indivíduo que estava pescando em Ubatuba escreveu ao jornalista brasileiro Ibrahim Sued. Nesta carta, o pescador conta que não acreditava em UFOs, mas que teria mudado de opinião ao testemunhar um evento espetacular. Estavam ele e alguns amigos pescando em Ubatuba quando repentinemante avistaram um disco voador. O UFO se aproximou da praia a uma velocidade incrível e uma colisão parecia iminente, mas ao estar quase tocando as águas o objeto fez uma manobra brusca e começou a subir para cima. Eles estavam seguindo aquele espetáculo com os olhos quando a nave repentinamente explodiu, espalhando vários fragmentos que depois foram recolhidos e analisados por entidades brasileiras.
De acordo com o laudo das análises feitas no Brasil, tratavam-se de fragmentos de magnésio com uma pureza ímpar, que não poderiam ser produzidos com a tecnologia da época (anterior a 1957).
As amostras foram então analisadas no âmbito do projeto Condon, e comparadas com uma mostra da mesma época fabricada pela Dow Chemical, com o máximo de pureza que eles eram capazes de produzir. O resultado mostrou que as amostras da explosão continham impurezas de Mn, Zn, Cr, Cu, Ba e Sr em graus muito mais elevados (ver tabela). A análise foi realizada por meio de espectrometria gamma. Além disso, foi realizada uma análise por ativação de neutrons para verificar a composição isotópica, pois resultados anteriores pareciam indicar que o fragmento só continha Mg26. No entanto, neste novo estudo não foram encontradas diferenças significativas entre as amostras em seu conteúdo isotópico.
Aparentemente, se pudermos confiar nos resultados da análise, não havia nada de muito especial, salvo o fato de haver uma porcentagem apreciável de estrôncio, já que métodos tradicionais de produção do magnésio não geram esse tipo de impureza. Foram então feitas análises metalográficas e de microssondas nas amostras, nos laboratórios da Dow Chemical, da onde se concluiu que o estrôncio estava distribuído uniformemente e com toda probabilidade foi adicionado intencionalmente. No entanto, a análise metalográfica revelou a presença de grãos relativamente grandes e alongados de magnésio, da onde se concluiu que o material não foi trabalhado após a sua solidificação. O relatório colocou então em dúvida a possibilidade de tal material ter sido parte de um objeto de metal fabricado, em frontal contradição com o que tinha sido concluído a partir da distribuição uniforme do estrôncio. O relatório mencionou também que a Dow Chemical antes de 1957 produzia ligas de magnésio contendo estrôncio. Uma delas teria exatamente a mesma concentração de estrôncio que a amostra proveniente da explosão.
Por fim, o relatório concluiu que a alegação de se tratar de um material que não poderia ter sido fabricado à época teria sido definitivamente descartada. Além disso, acrescentou que a amostra não apresentava composição única e desconhecida, e que portanto não poderia ser utilizada como evidência válida de origem extra-terrestre.
Atualmente, um pequeno grupo chamado Rede Brasileira de Pesquisas Ufológicas tem em mãos algumas amostras dos fragmentos produzidos no evento citado acima e, até onde sei, estavam tentando arrecadar fundos para analisá-lo. Não sei se já conseguiram os resultados.
Terminamos o texto com a resposta do relatório Condon e deixamos ao leitor o encargo de tirar as suas próprias conclusões e seguir adiante com sua investigação pessoal.
| Elemento | Dow Mg.(ppm) | Brazil UFO (ppm) |
| Mn | 4.8(5) | 35(5) |
| Al | não detectado (< 5) | não detectado (< 10) |
| Zn | 5.0(10) | 5.0(10).102 |
| Hg | 2.6(5) | não detectado |
| Cr | 5.9(12) | 32(10) |
| Cu | 0.40(20) | 3.3(10) |
| Ba | não detectado | 160(20) |
| Sr | não detectado | 5.0(10).102 |
quinta-feira, 30 de março de 2017
Seria a Física um Arbitrário Cultural?
Recentemente me deparei com um trabalho intitulado "A Física como uma construção cultural arbitrária: Um exemplo da controvérsia sobre o status ontológico das forças inerciais", publicado na Revista Brasileira de Educação em Ciências (link no final). O artigo procura argumentar a favor da tese de que a física é uma construção cultural arbitrária.
O conceito de arbitrário cultural foi extraído do trabalho do sociólogo Pierre Bordieu. Arbitrário aqui não tem o significado de aleatório. Está mais próximo do exercício de um juiz em um jogo de futebol, isto é, o exercício do juízo com base em um código mediado ou criado pela cultura.
Neste sentido da palavra, a ciência tem algo de arbitrário. Assim como um juiz se baseia em uma regra, a ciência também tem suas próprias regras para arbitrar. Mas essas regras não são exclusivamente culturais, pois é necessário que haja um elemento transcendente à cultura na metodologia científica. Sem este elemento, não há como conectar ciência com realidade. Realidade, por sua vez, não pode ser arbitrada e não é um arbitrário cultural.
Voltamos ao exemplo do jogo de futebol. O fato a ser arbitrado não é arbitrário. Dois juízes apenas podem discordar nos seguintes casos, a saber: fatos mal entendidos; fatos sem punição prevista; desvios simultâneos e intensidade da punição. Mas concordam quanto à regra. E concordam quanto à existência de apenas um entendimento possível e válido do fato. Por exemplo: se o bandeirinha diz que um jogador pois a mão na bola, o juiz vai querer saber quem foi, quando e onde. Se o outro bandeirinha disser que não houve mão na bola, então o juiz não poderá aceitar as duas versões como sendo interpretações igualmente válidas do fato. Uma delas é verdadeira. O fato é único.
Os cientistas precisam acreditar na existência da realidade objetiva e da ordem subjacente ao seu objeto de estudo. Se não fosse assim, o empreendimento científico não teria razão de ser, pois se os fenômenos físicos não tivessem uma ordem intrínseca, seria inútil e infrutífera a busca por ela.
Agora, se de fato não existisse tal ordem, o cientista teria que se limitar apenas ao arbítrio ou mera escolha em suas teorias. Mas que formulação teórica arbitrária de uma ordem imaginada seria capaz de realizar previsões acertadas a respeito de uma ordem ontologicamente inexistente?
Portanto, a ciência e a física em particular não é um arbitrário cultural, embora possa ter elementos arbitrários em suas teorias. Tais elementos podem deixar de ser arbitrários. Consideremos o seguinte exemplo.
A ciência acumulou uma quantidade enorme de evidências indiretas quanto à existência de átomos. Nos seus estágios mais primordiais, a hipótese atômica ainda tinha um caráter arbitrário. Mas hoje os efeitos físicos em escala atômica detectados pelos microscópios de força atômica não deixam dúvida quanto à realidade objetiva do modelo atômico. Trata-se de evidência direta.
O arbítrio quanto à realidade do modelo atômico deixou de ser "cultural" para ser "factual".
Os elementos da cultura de uma civilização sem dúvida desempenham um papel importante na ciência. No entanto, reduzir a ciência e sua metodologia ao conceito de arbitrário cultural é inaceitável.
Caso fosse aceitável, seríamos obrigados a reconhecer que a teoria atômica só prevaleceu por causa do grito de seus proponentes. Mas a história da ciência jamais poderia ser lida nessa óptica sem com isso desrespeitar a veracidade dos acontecimentos. A teoria atômica teve muitos oponentes. No entanto, o número de evidências experimentais era tão grande, tão vasta, que muitos deles foram convencidos pela força dos fatos e não da cultura. E se hoje há evidências diretas, então teria sido uma feliz coincidência a vitória dos atomistas?
Apresentar a física como um arbitrário cultural a qualquer um, quanto mais um estudante, não poderia ser feito sem ferir desde a base o seu potencial para a produção de ciência. Se a física é um arbitrário cultural, qual o sentido de seguir uma carreira que consiste em dar suporte à arbitrariedade ou criar novas?
A aplicação de tal conceito ao ensino pode ser profundamente prejudicial. No entanto, não queremos com isso desqualificar ou desmerecer o trabalho. Tais esforços contribuem para a percepção dos professores e alunos quanto à existência de elementos arbitrários na teoria, trazendo à tona problemas mal resolvidos, que, por sua vez, ao serem trazidos à tona, podem engendrar aperfeiçoamentos ou favorecer mudanças de paradigmas. Se por um lado reconhecemos este mérito, por outro, rejeitamos terminantemente a tese de que a Física é um arbitrário cultural tal como entendido por Pierre Bourdieu.
Se no passado a Física era tomada como modelo para as ciências humanas, não deixa de ser curioso que cientistas das humanidades estejam preocupados em modelar ou caracterizar as ciências naturais com conceitos engendrados nas ciências humanas, em contextos bem diversos. Haveria uma arbitrariedade cultural neste esforço?
link: https://seer.ufmg.br/index.php/rbpec/article/view/2512
Nota posterior (fev/2019): Por teoria atômica entende-se aqui sua versão moderna, de acordo com a qual a matéria é composta por pequenas partes potencialmente isoláveis do todo macroscópico, de carga elétrica neutra, composta por um núcleo positivo pesado e uma distribuição de partículas leves, chamadas de elétrons - de carga negativa. Não se deve confundir com o atomismo grego, de acordo com a qual tais partes são efetivamente indestrutíveis, inseparáveis e precisamente localizadas no espaço. Até hoje, não há consenso sobre a existência de partículas totalmente inseparáveis, e a teoria atual sobre as partículas as descrevem como campos.
Nota posterior (fev/2019): Por teoria atômica entende-se aqui sua versão moderna, de acordo com a qual a matéria é composta por pequenas partes potencialmente isoláveis do todo macroscópico, de carga elétrica neutra, composta por um núcleo positivo pesado e uma distribuição de partículas leves, chamadas de elétrons - de carga negativa. Não se deve confundir com o atomismo grego, de acordo com a qual tais partes são efetivamente indestrutíveis, inseparáveis e precisamente localizadas no espaço. Até hoje, não há consenso sobre a existência de partículas totalmente inseparáveis, e a teoria atual sobre as partículas as descrevem como campos.
Sobre a fusão a frio
Em 23 de Março de 1989 Martin Fleishmann e Stanley Pons teriam
divulgado ao mundo uma das descobertas com maior potencial tecnológico e
científico de todos os tempos: a fusão a frio. Os alquimistas estariam
de volta!
De acordo com a ciência atual, acredita-se que para que as reações de fusão nuclear ocorram, é necessário aquecer um meio (um plasma) contendo deutério a uma temperatura da ordem de um milhão de kelvin. Esse número poderia ser menor, dependendo da densidade ou tempo confinamento desse meio, mas em todo caso sempre envolveriam temperaturas muito mais elevadas do que a temperatura ambiente.
À época, muitos cientistas chegaram a acreditar na autenticidade dos resultados. Nada mais nada menos do que Julian Swinger, prêmio Nobel e lendária figura na física chegou a submeter um artigo dando embasamento teórico para a descoberta. Seu artigo foi recusado, o que teria levado Swinger à época a sair da sociedade americana de física.
Hoje ainda há alguns cientistas que continuam acreditando nos resultados da fusão a frio. No entanto, a ciência "mainstream" já clássifica a fusão a frio como "ciência patológica" e dificilmente um governo aprovaria verba para pesquisa nesta área.
Ao que tudo indica, há boas evidências contra a fusão a frio. No entanto, seus proponentes, incluindo Fleishmann e Pons, não se retrataram apesar de terem enfrentado um duro opróbrio da comunidade científica do "mainstream". Depois disso, ainda foram apoiados pela Toyota para continuar sua pesquisa, mas aparentemente não chegaram a resultados conclusivos.
Algo me faz suspeitar que nem todo conhecimento e tecnologia desenvolvidos pelas empresas se tornam públicos. Estariam as indústrias à frente das Universidades não só em termos de tecnologia, mas de conhecimento científico?
De acordo com a ciência atual, acredita-se que para que as reações de fusão nuclear ocorram, é necessário aquecer um meio (um plasma) contendo deutério a uma temperatura da ordem de um milhão de kelvin. Esse número poderia ser menor, dependendo da densidade ou tempo confinamento desse meio, mas em todo caso sempre envolveriam temperaturas muito mais elevadas do que a temperatura ambiente.
À época, muitos cientistas chegaram a acreditar na autenticidade dos resultados. Nada mais nada menos do que Julian Swinger, prêmio Nobel e lendária figura na física chegou a submeter um artigo dando embasamento teórico para a descoberta. Seu artigo foi recusado, o que teria levado Swinger à época a sair da sociedade americana de física.
Hoje ainda há alguns cientistas que continuam acreditando nos resultados da fusão a frio. No entanto, a ciência "mainstream" já clássifica a fusão a frio como "ciência patológica" e dificilmente um governo aprovaria verba para pesquisa nesta área.
Ao que tudo indica, há boas evidências contra a fusão a frio. No entanto, seus proponentes, incluindo Fleishmann e Pons, não se retrataram apesar de terem enfrentado um duro opróbrio da comunidade científica do "mainstream". Depois disso, ainda foram apoiados pela Toyota para continuar sua pesquisa, mas aparentemente não chegaram a resultados conclusivos.
Algo me faz suspeitar que nem todo conhecimento e tecnologia desenvolvidos pelas empresas se tornam públicos. Estariam as indústrias à frente das Universidades não só em termos de tecnologia, mas de conhecimento científico?
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terça-feira, 28 de março de 2017
Crítica sobre a Mecânica Relacional
Em 2001, os professores Carlos Escobar e Vicente Pleitez escreveram
um artigo na Revista Brasiliera de Ensino de Fìsica contendo uma crítica
ácida e contundente a uma revisão favorável ao livro "Mecânica
Relacional" de André Assis publicada na mesma revista.
A crítica deles pode ser acessada gratuitamente em http://www.scielo.br/pdf/rbef/v23n3/v23n3a02.pdf.
Os autores não moderaram as palavras; disseram explicitamente que o autor, prof. André Assis, não tem credibilidade em razão do fato de não publicar nas revistas especializadas de maior prestígio e reconhecimento nas comunidades especializadas da física.
Eles utilizam o argumento válido de que a eletrodinâmica de Weber, defendida por André Assis, parece não casar bem com a teoria quântica de campos e a eletrodinâmica quântica. A última é a teoria da física cujos historiadores da ciência consideram a mais bem sucedida em suas previsões.
No entanto, não analisaram os detalhes da Mecânica Relacional, não fizeram nenhuma busca por inconsistências internas, não comentaram sobre os possíveis méritos da nova abordagem, etc. Simplesmente afirmaram que tal teoria não produz nenhum resultado novo já que seus resultados coincidem com a mecânica Newtoniana em um referencial na superfície terrestre.
Pouco tempo depois, os Graneaus, pai (Peter) e filho (Neal) escreveram um artigo para a revista "General Relativity and Gravitation", em que fazem uma revisão das teorias que implementaram o princípio de Mach, incluindo a de Assis.
Vale a pena conferir.
link: http://rdcu.be/qsdy
A crítica deles pode ser acessada gratuitamente em http://www.scielo.br/pdf/rbef/v23n3/v23n3a02.pdf.
Os autores não moderaram as palavras; disseram explicitamente que o autor, prof. André Assis, não tem credibilidade em razão do fato de não publicar nas revistas especializadas de maior prestígio e reconhecimento nas comunidades especializadas da física.
Eles utilizam o argumento válido de que a eletrodinâmica de Weber, defendida por André Assis, parece não casar bem com a teoria quântica de campos e a eletrodinâmica quântica. A última é a teoria da física cujos historiadores da ciência consideram a mais bem sucedida em suas previsões.
No entanto, não analisaram os detalhes da Mecânica Relacional, não fizeram nenhuma busca por inconsistências internas, não comentaram sobre os possíveis méritos da nova abordagem, etc. Simplesmente afirmaram que tal teoria não produz nenhum resultado novo já que seus resultados coincidem com a mecânica Newtoniana em um referencial na superfície terrestre.
Pouco tempo depois, os Graneaus, pai (Peter) e filho (Neal) escreveram um artigo para a revista "General Relativity and Gravitation", em que fazem uma revisão das teorias que implementaram o princípio de Mach, incluindo a de Assis.
Vale a pena conferir.
link: http://rdcu.be/qsdy
quarta-feira, 22 de março de 2017
Mecanica Relacional, Mach e eletrodinâmica de Weber
De acordo com o princípio de Mach, a massa do Universo, incluindo as galáxias distantes, afetam os movimentos dos objetos na Terra.
Leibnitz, contemporâneo de Newton, acreditava que a única grandeza que poderia importar na descrição dos movimentos era a distância relativa entre os corpos.
A mecânica de Newton nos acostumou a ver o universo como um grande aquário imaginário no qual o Universo está imerso. Mas seria possível descrever toda a dinâmica dos corpos apenas pela relação entre as distâncias dos corpos?
De acordo com a Mecânica Relacional de André Assis, sim.
Sua teoria é uma aplicação radical do princípio de Mach, acrescida de uma versão gravitacional da eletrodinâmica de Weber.
Um de seus principais resultados é que a massa inercial é igual à massa gravitacional, por primeiros princípios. Mais do que isso, o termo (massa x aceleração) da segunda lei de Newton resulta de uma espécie de reação da massa do Universo distante ao movimento da partícula local.
A teoria é consistente e merece ser levada à sério. Pode ser falsa, mas um pequeno esforço para compreendê-la e buscar suas possíveis inconsistências vale como um exercício mental.
link:
http://www.ifi.unicamp.br/~assis/Mecanica-Relacional.pdf
terça-feira, 21 de março de 2017
Sobre Einstein e a fórmula E0 = m0c2
Você e eu fomos ensinados que Einstein provou a equivalência entre massa e energia $E_{0} = m_{0}c^{2}$.
Na realidade, as provas que Einstein apresentou ao longo de toda sua carreira são inconclusivas. Ele estava convencido da validade do resultado, mas a idéia de que todos os resultados da relatividade restrita podem ser deduzidos de alguns poucos teoremas básicos foi desafiada pela dificuldade de obter uma dedução geral de que $E_{0} = m_{0}c^{2}$.
Até hoje, não encontrei uma só dedução, mesmo em livros, que não pudesse ser colocada em dúvida. Você já?
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Pequena nota sobre o EmDrive
O EmDrive é um aparato proposto pelo engenheiro Roger Shawyer que gera propulsão por meio de uma cavidade de microondas em forma de tronco de cone.
É comum ler artigos afirmando que o EmDrive não pode funcionar pois viola a conservação do momento linear.
É comum ler artigos afirmando que o EmDrive não pode funcionar pois viola a conservação do momento linear.
Na realidade, o criador do EmDrive está certo ao afirmar que sua idéia NÃO CONTRADIZ a mecânica Newtoniana e que, além disso, pode ser totalmente explicado por meio da física clássica.
O ponto aqui é que o EmDrive não é um sistema totalmente fechado. Parte do momento linear é levado embora pela radiação eletromagnética. O momento linear do aparato mais o campo eletromagnético se conserva, de fato. No entanto, o aparato, tomado isoladamente, pode sofrer uma variação do momento linear.
Talvez não seja factível como solução tecnológica para a exploração espacial. Talvez nem mesmo funcione. No entanto, não violaria, necessariamente, a conservação do momento linear.
Para mais informação:
https://www.youtube.com/watch?v=4hTdSg47h3k
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Tecnologia
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Sobre a possibilidade de um conservadorismo racional
Recentemente, Joel Pinheiro publicou um pequeno artigo em que faz uma crítica ao pensamento do conservador norte americano Russel Kirk ("Crítica aos dez princípios conservadores"). Desconheço a obra e o pensamento de Kirk, então não escrevo com a intenção de defender as idéias deste autor. No entanto, Joel julga Kirk como um expoente do conservadorismo acima da maior parte dos outros, de modo que, se sua crítica vai dirigida a apenas um, considerado entre os mais inteligentes e moderados, na verdade termina por abranger o conservadorismo como um todo.
Entre as várias críticas formuladas, respondo aqui apenas uma: a de que o conservadorismo tem o irracionalismo como fim. Em poucas palavras, o argumento de Joel pode ser formulado da seguinte maneira. (1) O conservadorismo tem como fim ensinar que a ação política deve somente se pautar pelos preceitos do passado e pela impossibilidade de aperfeiçoamento da sociedade. (2) A aplicação desses critérios é automática, isto é, prescinde da inteligência operante no ato da decisão. (3) Portanto, o conservadorismo tem o irracionalismo como fim.
Formulado nesses termos, seria impossível negar a crítica. No entanto, os pressupostos que levaram a essa conclusão não são essenciais ao conservadorismo, a não ser que ele seja entendido de maneira muito restritiva, isto é, entendido como uma doutrina que necessariamente inclui esses pressupostos. O objetivo desse breve texto é mostrar que esses pressupostos não são necessários ao conservadorismo.
Em primeiro lugar, o princípio da prescrição não exige uma interpretação tão restritiva. Ele apenas afirma que a prescrição tem muita importância, mas não diz que não se deva pensar sobre a razão da prescrição nem diz que ela deva sempre ser seguida. O que é crucial no pensamento conservador é a percepção de que a prescrição geralmente está baseada em uma adaptação social a um desequilíbrio. Consequentemente, é importante levar em conta a prescrição, pois há uma grande chance de que ela seja imprescindível para a manutenção do equilíbrio da sociedade e do indivíduo. O que o conservadorismo aconselha não é a obediência irrefletida a ela, mas sim a cautela e reflexão antes de modificar ou ignorar um preceito, caso pareça necessário.
O segundo ponto equivocado é a noção de que o princípio da imperfeição tenha como implicação necessária a impossibilidade do aperfeiçoamento. O princípio da imperfeição simplesmente assume que não há possibilidade de perfeição absoluta no campo político ou pessoal. Em termos práticos, isso significa que é impossível formular um projeto político que tenha como implicação necessária a satisfação de todos os indivíduos. Um outro corolário desse princípio é a noção de que é vã toda e qualquer solução que assuma a perfeição pessoal de todos os indivíduos.
No entanto, o conservadorismo assume que de fato existem uma ou muitas soluções boas, dependendo das circunstâncias reais. Ao contrário do marxismo e do liberalismo absoluto, que partem do princípio de que há essencialmente uma única receita para todos os problemas sociais e econômicos, o conservadorismo parte do princípio de que cada problema concreto tem uma boa solução, não perfeita, mas peculiar. Evidentemente, para encontrar a solução ao problema concreto, faz-se necessário o uso da razão. Ao contrário das doutrinas de método fechado, não são impostas tantas restrições, e a razão pode ser aplicada aos problemas concretos com maior versatilidade, e chegar de modo mais eficaz à solução ótima do problema.
Fica demonstrada portanto a possibilidade da racionalidade no conservadorismo. Mais do que isso, fica demonstrada a possibilidade do exercício mais livre da racionalidade no conservadorismo em comparação com as doutrinas de método fechado. Ao mesmo tempo, também foi esclarecido que o princípio da prescrição, quando corretamente entendido, pode ser perfeitamente compatível com a razão, dependendo apenas de quais são as suposições sobre a natureza da prescrição. Esperamos que os argumentos aqui apresentados tenham sido suficientemente claros e que já não haja mais possibilidade, pelo menos dentro do exercício legítimo da lógica, de questionar a racionalidade do conservadorismo.
Entre as várias críticas formuladas, respondo aqui apenas uma: a de que o conservadorismo tem o irracionalismo como fim. Em poucas palavras, o argumento de Joel pode ser formulado da seguinte maneira. (1) O conservadorismo tem como fim ensinar que a ação política deve somente se pautar pelos preceitos do passado e pela impossibilidade de aperfeiçoamento da sociedade. (2) A aplicação desses critérios é automática, isto é, prescinde da inteligência operante no ato da decisão. (3) Portanto, o conservadorismo tem o irracionalismo como fim.
Formulado nesses termos, seria impossível negar a crítica. No entanto, os pressupostos que levaram a essa conclusão não são essenciais ao conservadorismo, a não ser que ele seja entendido de maneira muito restritiva, isto é, entendido como uma doutrina que necessariamente inclui esses pressupostos. O objetivo desse breve texto é mostrar que esses pressupostos não são necessários ao conservadorismo.
Em primeiro lugar, o princípio da prescrição não exige uma interpretação tão restritiva. Ele apenas afirma que a prescrição tem muita importância, mas não diz que não se deva pensar sobre a razão da prescrição nem diz que ela deva sempre ser seguida. O que é crucial no pensamento conservador é a percepção de que a prescrição geralmente está baseada em uma adaptação social a um desequilíbrio. Consequentemente, é importante levar em conta a prescrição, pois há uma grande chance de que ela seja imprescindível para a manutenção do equilíbrio da sociedade e do indivíduo. O que o conservadorismo aconselha não é a obediência irrefletida a ela, mas sim a cautela e reflexão antes de modificar ou ignorar um preceito, caso pareça necessário.
O segundo ponto equivocado é a noção de que o princípio da imperfeição tenha como implicação necessária a impossibilidade do aperfeiçoamento. O princípio da imperfeição simplesmente assume que não há possibilidade de perfeição absoluta no campo político ou pessoal. Em termos práticos, isso significa que é impossível formular um projeto político que tenha como implicação necessária a satisfação de todos os indivíduos. Um outro corolário desse princípio é a noção de que é vã toda e qualquer solução que assuma a perfeição pessoal de todos os indivíduos.
No entanto, o conservadorismo assume que de fato existem uma ou muitas soluções boas, dependendo das circunstâncias reais. Ao contrário do marxismo e do liberalismo absoluto, que partem do princípio de que há essencialmente uma única receita para todos os problemas sociais e econômicos, o conservadorismo parte do princípio de que cada problema concreto tem uma boa solução, não perfeita, mas peculiar. Evidentemente, para encontrar a solução ao problema concreto, faz-se necessário o uso da razão. Ao contrário das doutrinas de método fechado, não são impostas tantas restrições, e a razão pode ser aplicada aos problemas concretos com maior versatilidade, e chegar de modo mais eficaz à solução ótima do problema.
Fica demonstrada portanto a possibilidade da racionalidade no conservadorismo. Mais do que isso, fica demonstrada a possibilidade do exercício mais livre da racionalidade no conservadorismo em comparação com as doutrinas de método fechado. Ao mesmo tempo, também foi esclarecido que o princípio da prescrição, quando corretamente entendido, pode ser perfeitamente compatível com a razão, dependendo apenas de quais são as suposições sobre a natureza da prescrição. Esperamos que os argumentos aqui apresentados tenham sido suficientemente claros e que já não haja mais possibilidade, pelo menos dentro do exercício legítimo da lógica, de questionar a racionalidade do conservadorismo.
sábado, 5 de abril de 2014
Religião x Ciência: uma equiparação inadequada
Comentário ao texto "Em que devo crer", de Júlio Lemos, publicado no blog da revista Dicta e Contradicta
A aparente força do argumento de Júlio Lemos vem da equiparação inadequada da ciência natural com a religião.
A equiparação é inadequada pois a ciência natural e religião operam sobre âmbitos distintos da realidade. A ciência natural apenas opera sobre objetos que tem alguma propriedade física. Isso é assim por que suas conclusões são derivadas e testadas por algum tipo de medida sobre objetos materiais. A medida pressupõe a materialidade do objeto, pois ela é necessária para que seja possível a interação entre o instrumento de medida, que é material, e o próprio objeto.
A não ser que se postule um universo onde apenas o que é passível de ser medido exista, há espaço dentro da racionalidade para a especulação sobre a existência do imensurável. Entre as muitas possibilidades de objetos ou entidades imensuráveis, seja por carecerem de materialidade, ou por possuírem uma materialidade distinta da matéria conhecida, não interagente com ela, está Deus. Sendo imensurável, está absolutamente fora do âmbito da ciência natural a possibilidade de derivar ou testar qualquer conhecimento a respeito dele.
A Religião, pela própria definição, é a relação do homem com Deus. Na medida em que está fora da possibilidade da ciência natural ter como objeto de conhecimento o incomensurável, não pode nem endossar nem negar a religião. Para negar a religião é necessário, na verdade, postular a priori a inexistência do incomensurável.
Não podendo recorrer à ciência natural para alcançar uma resposta sobre o que a transcende, aquele que não aceita tal restrição apriorística tem de buscar respostas na Metafísica e na Religião.
Julio Lemos tem razão ao afirmar que a impossibilidade da comprovação empírica das verdades que transcendem o mundo empíreo dá margem a uma multiplicação enorme de sistemas doutrinários. No entanto, é possível aplicar critérios racionais para verificar qual delas deve ser escolhida. Os critérios são os seguintes
(1) Excelência moral entre os que praticam e ensinam aquela doutrina
(2) Comprovação pessoal de que a prática dos preceitos ensinados resultaram em um aperfeiçoamento pessoal
(3) Percepção de que a influência histórica daquela doutrina foi positiva para a civilização
(4) Perenidade e unidade
Muitos outros critérios úteis e válidos são possíveis, alguns dos quais foram bem destacados por Renato Rocha.
A aparente força do argumento de Júlio Lemos vem da equiparação inadequada da ciência natural com a religião.
A equiparação é inadequada pois a ciência natural e religião operam sobre âmbitos distintos da realidade. A ciência natural apenas opera sobre objetos que tem alguma propriedade física. Isso é assim por que suas conclusões são derivadas e testadas por algum tipo de medida sobre objetos materiais. A medida pressupõe a materialidade do objeto, pois ela é necessária para que seja possível a interação entre o instrumento de medida, que é material, e o próprio objeto.
A não ser que se postule um universo onde apenas o que é passível de ser medido exista, há espaço dentro da racionalidade para a especulação sobre a existência do imensurável. Entre as muitas possibilidades de objetos ou entidades imensuráveis, seja por carecerem de materialidade, ou por possuírem uma materialidade distinta da matéria conhecida, não interagente com ela, está Deus. Sendo imensurável, está absolutamente fora do âmbito da ciência natural a possibilidade de derivar ou testar qualquer conhecimento a respeito dele.
A Religião, pela própria definição, é a relação do homem com Deus. Na medida em que está fora da possibilidade da ciência natural ter como objeto de conhecimento o incomensurável, não pode nem endossar nem negar a religião. Para negar a religião é necessário, na verdade, postular a priori a inexistência do incomensurável.
Não podendo recorrer à ciência natural para alcançar uma resposta sobre o que a transcende, aquele que não aceita tal restrição apriorística tem de buscar respostas na Metafísica e na Religião.
Julio Lemos tem razão ao afirmar que a impossibilidade da comprovação empírica das verdades que transcendem o mundo empíreo dá margem a uma multiplicação enorme de sistemas doutrinários. No entanto, é possível aplicar critérios racionais para verificar qual delas deve ser escolhida. Os critérios são os seguintes
(1) Excelência moral entre os que praticam e ensinam aquela doutrina
(2) Comprovação pessoal de que a prática dos preceitos ensinados resultaram em um aperfeiçoamento pessoal
(3) Percepção de que a influência histórica daquela doutrina foi positiva para a civilização
(4) Perenidade e unidade
Muitos outros critérios úteis e válidos são possíveis, alguns dos quais foram bem destacados por Renato Rocha.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Perché burli? Perché tieni?
A Divina Comédia, de Dante Aliguieri, oferece ao leitor uma enorme quantidade de imagens repletas de significado simbólico. A aplicabilidade delas é ampla, pois remetem às constantes da natureza humana cujos efeitos são repetidamente observados nos eventos da história. Muita dessas imagens são apresentadas com brevidade, obrigando também o leitor a seguir o passo rápido imposto pelo guia de Dante, Virgílio. No entanto, nesses rápidos encontros algumas imagem podem impregnar poderosamente a memória do leitor, sendo inesperadamente resgatadas pela mente em outros momentos para serem aplicadas em situações concretas.
No canto VII, Dante relata a visão do quarto círculo, chamado o da Avareza. Neste círculo, dois grupos se confrontam, atirando-se uns sobre os outros com pesos, à semelhança de duas enormes ondas em colisão. Voltam a se separar e depois entram novamente em rota de colisão. Um grupo brada ao outro "Perché tieni?" (Porque retendes?), e este para o primeiro, "Perché burli?" (Por que dissipais?). Indagado por Dante sobre a procedência daquelas almas, Virgílio responde que todos foram guerci sì de la mente, vesgos da mente, na sua vida terrena, por não terem feito uso judicioso das riquezas. Um dos grupos desviou-se para o extremo da prodigalidade, isto é, o da dissipação irresponsável dos bens, enquanto que o outro grupo desviou-se para o extremo oposto, o da avareza.
Dante também perguntou se algumas daquelas figuras, desprovidos de cabelo, chercuti, tonsados, eram clérigos. Virgílio confirmou, dizendo que tinham sido papas e bispos. Dante, talvez curioso para identificar algum dentre eles, afirma que deveria haver muitos ali a quem conhecia. Virgílio responde que seria inútil tentar encontrar algum, pois tão grave foi a sua falta de discernimento, que a imundície do seu aspecto os tinha tornado irreconhecíveis.
A aplicabilidade dessa imagem pode abrir-se em um inesgotável leque de possibilidades. Antes de deixar-se levar pelo automático instinto anti-clerical que nos faz reduzir todo o significado dessa imagem à crítica do uso irresponsável dos bens por parte dos administradores da Igreja, seria mais justo primeiro avaliar a si mesmo e à sociedade em que vivemos.
O princípio universal da caridade, tal como nos foi ensinado por Cristo, que consiste em Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si, fornece critérios claros sobre o uso dos bens materiais. Em primeiro lugar, não podem ser buscados em si mesmos, pois a obstinação pelo dinheiro desvia o coração do homem da única finalidade da sua existência. Essa obstinação suprime também o amor ao próximo, pois é impossível acumular bens e ao mesmo tempo amar ao próximo. Não que um rico não possa amar a Deus e ao próximo, mas apenas na medida em que seus bens são compartilhados e que tenham sido conquistados não por motivação vaidosa e obstinada, mas como fruto do trabalho e da providência generosa de Deus.
A condição essencial do ser humano é a pobreza. A riqueza é dada a cada um na medida da generosidade daqueles que amam. Quem possui riqueza, sempre tem a possibilidade de compartilhá-la com aqueles que são pobres. Não me refiro apenas à riqueza material, mas também às riquezas abstratas, como o amor e o conhecimento, por exemplo. Quem age com generosidade e gasta seus bens com os outros se assemelha a Deus, que "faz chover sobre justos e iníquos". Por outro lado, quem os guarda para si, encerrando-os em um tesouro pessoal, acaba perdendo-se a si mesmo no afã de preservar-se.
Uma das principais causas da avareza é o medo de perder, como se a posse de bens materiais fosse uma garantia da felicidade. As pessoas tem medo de ficarem sem casa, sem roupa, sem comida, sem dinheiro para viajar no final do ano, sem cosméticos, sem perfumes, sem beleza, sem status social, sem aposentadoria, sem um tratamento de saúde de qualidade, sem importância, sem filhos e sem cônjuge, enfim, medo de ficarem pobres e enfrentar todas as privações e humilhações que daí derivam. Quem realmente acredita no Evangelho, bem sabe que todos esses bens não são nada, e menos do que nada, em comparação com a Graça. Antes seria preferível perder todos aqueles bens do que viver sem o Amor de Deus. Afinal de contas, cedo ou tarde, no momento da morte, todos perderão tudo. Somente a Graça de Deus permanecerá, para aqueles que a tenham conservado.
Mesmo tendo todos esses ensinamentos bem claros, não deveria surpreender a ninguém que as famílias cristãs e do clero sertir-se-iam tentadas a tergiversar de mil formas para si e para os outros um comportamento mundano. Não deveria surpreender pois esse medo da pobreza deriva de uma fraqueza que está presente na natureza humana. Estes, frequentemente acusados de hipocrisia pelas vozes secularistas, não fazem nada mais grave do que os próprios acusadores...
Em um local qualquer e em um tempo desses, vozes beatas ouviram-se reclamando do bairro pobre construído nas imediações de sua rica casa de retiros. Em uma outra dimensão, ouviu-se a voz de um pensador adepto das idéias mais progressistas dizer que gostaria de comprar todos os terrenos à volta de sua casa de campo para impedir a invasão da plebe. Não digo isso para condenar essas vozes, pois apenas falar não é tão grave quanto fazer, e, talvez, na hora de agir, elas tenham sido sempre muito generosas, mas uso esse exemplo para que estejamos sempre atentos à necessidade da humildade.
Não é difícil encontrar grupos de orientações tão distintas, muitas vezes inimigas, cometendo exatamente o mesmo pecado. Não seria surpreendente encontrar socialistas e libertários naquele mesmo círculo descrito por Dante, inclusive no mesmo grupo (mais adiante falaremos sobre a aplicabilidade no campo econômico da imagem de Dante). Deus quer que a maioria deles não se encontrem lá, mas no Paraíso! Bem sabemos que essa fraqueza, isto é, essa obstinação por "salvar-se a si mesmo" pela avareza, está muito presente em cada um de nós. Mesmo assim, é certo que, sendo verdadeiras as palavras de Cristo, apenas serão bem-aventurados os que gastarem a própria vida por amor a Deus e ao próximo. O caminho da perfeição, tal como ensinado por Cristo, passa pelo despojamento.
Todas as imagens do purgatório de Dante são provações que ensinam os caminhantes a despojar-se de algum tipo de apegamento. Em muitas das provas do Purgatório de Dante, almas precisam ajudar-se mutuamente para avançar. Deixarei para um outro momento a exploração do significado dessa imagem, mas trago para esse contexto esse exemplo para relembrar que também aqui nesse mundo existe uma densa rede de colaboração entre os homens, através da qual bens são dispensados e recebidos.
No campo político e econômico, temos acompanhado o violento embate entre socialistas e liberais acerca da política a ser adotada no governo de uma nação. Na Europa, socialistas são acusados de terem criado um enorme débito nas contas públicas com excessivos gastos em encargos sociais, que por fim produziria a crise atual. Os liberais, por outro lado, que em alguns países acabaram por assumir o governo na situação de crise, são acusados pelos socialistas de sobrecarregarem os mais pobres com corte de benefícios sociais.
Se por um lado é bem verdade que a política econômica deve ter como princípio a responsabilidade nos gastos, isto é, despesas nunca acima das receitas, por outro há um risco real de abandono dos mais necessitados. Quando uso o termo necessitado, refiro-me àquelas pessoas da sociedade que, por alguma condição permanente ou momentânea, não conseguem encontrar meios de subsistência.
Uma economia em crise sempre tem altas taxas de desemprego, o que acaba por tornar mais duras as medidas de austeridade econômica. A necessidade do trabalho resulta da necessidade que cada um tem do seu produto. Não seria incorreto afirmar que quanto mais necessidades alguém tem, maior também é a quantidade de trabalho necessária para supri-las. Uma comunidade que consome muitos bens, precisa também de muitos que trabalhem para fabricá-los. Para que as relações sejam justas e equilibradas, a "quantidade de trabalho" fornecida à sociedade deve ser igual à "quantidade de trabalho" recebida dela. Exceção faça-se apenas para aqueles que não estão em condições de "fornecer" trabalho, apenas por força das circunstâncias.
Tendo tudo isso em conta, se uma sociedade deixa-se dominar pela avareza, comete-se ao mesmo tempo um ato de desamor, pois recusa-se o bem que o trabalho do outro pode trazer. Um avarento prefere passar necessidade para acumular riqueza em vez de deixar-se ajudar pelos outros e pagar-lhes em troca o devido salário.
Mas isso não implica então que a prodigalidade redundaria em um bem para a sociedade. O pródigo gasta mais do que tem, ou, em outras palavras, quer ser servido mais do que serve à sociedade. Quando uma sociedade permite a manutenção de uma pequena classe de pródigos, ao mesmo tempo ofende a dignidade daqueles que trabalham. Além disso, prejudica-os materialmente, pois parte do trabalho que deveria ser distribuído de forma equitativa, fica excessivamente centrado nas necessidades dos pródigos. Dessa forma, estes retiram dos que trabalham o direito de receber ao seu tempo o trabalho que a sociedade lhes devia em troca.
Os problemas econômicos não tem como causa a "perversidade do sistema", como diriam os marxistas, nem a excessiva regulamentação estatal, como diriam os liberais. mas aquela falta de discernimento que condenou os avarentos ao quarto círculo do inferno: tutti quanti fuor guerci sì de la mente in la vita primaia, che con misura nullo spendio ferci, todos foram vesgos no discernimento na vida terrena, por não terem sido judiciosos nos gastos. Isso inclui não só os que trabalham muito para acumular, mas também os que trabalham pouco (ou nada) e gastam tudo. Esses outros ainda tem um outro pecado, pois se têm mais do que seria razoável pelo seu trabalho, então certamente estão a usurpar os bens de outros.
Como mencionado anteriormente, as possibilidades de desdobramento das imagens relatadas por Dante na Divina Comédia são imensas. Tenho acompanhado com pesar o baixíssimo nível no debate entre fiéis da Igreja de esquerda e de direita, pois o que tenho visto mais se assemelha com o "choque de pesos" entre os avarentos e pródigos do quarto círculo do inferno do que um verdadeiro debate. É preocupante que entre cristãos encontrem-se manifestações nas redes sociais de pueril arrogância do tipo "ser de direita é estar no pecado, converta-se" ou "ser de esquerda é pecado" etc. Na fiel leitura do Evangelho é possível encontrar uma resposta comum. Com a ajuda da sabedoria cristã expressa na Divina Comédia de Dante, talvez encontremos uma solução que impeça uma nova briga intestina entre guelfos e guibelinos nos tempos modernos.
No canto VII, Dante relata a visão do quarto círculo, chamado o da Avareza. Neste círculo, dois grupos se confrontam, atirando-se uns sobre os outros com pesos, à semelhança de duas enormes ondas em colisão. Voltam a se separar e depois entram novamente em rota de colisão. Um grupo brada ao outro "Perché tieni?" (Porque retendes?), e este para o primeiro, "Perché burli?" (Por que dissipais?). Indagado por Dante sobre a procedência daquelas almas, Virgílio responde que todos foram guerci sì de la mente, vesgos da mente, na sua vida terrena, por não terem feito uso judicioso das riquezas. Um dos grupos desviou-se para o extremo da prodigalidade, isto é, o da dissipação irresponsável dos bens, enquanto que o outro grupo desviou-se para o extremo oposto, o da avareza.
Dante também perguntou se algumas daquelas figuras, desprovidos de cabelo, chercuti, tonsados, eram clérigos. Virgílio confirmou, dizendo que tinham sido papas e bispos. Dante, talvez curioso para identificar algum dentre eles, afirma que deveria haver muitos ali a quem conhecia. Virgílio responde que seria inútil tentar encontrar algum, pois tão grave foi a sua falta de discernimento, que a imundície do seu aspecto os tinha tornado irreconhecíveis.
A aplicabilidade dessa imagem pode abrir-se em um inesgotável leque de possibilidades. Antes de deixar-se levar pelo automático instinto anti-clerical que nos faz reduzir todo o significado dessa imagem à crítica do uso irresponsável dos bens por parte dos administradores da Igreja, seria mais justo primeiro avaliar a si mesmo e à sociedade em que vivemos.
O princípio universal da caridade, tal como nos foi ensinado por Cristo, que consiste em Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si, fornece critérios claros sobre o uso dos bens materiais. Em primeiro lugar, não podem ser buscados em si mesmos, pois a obstinação pelo dinheiro desvia o coração do homem da única finalidade da sua existência. Essa obstinação suprime também o amor ao próximo, pois é impossível acumular bens e ao mesmo tempo amar ao próximo. Não que um rico não possa amar a Deus e ao próximo, mas apenas na medida em que seus bens são compartilhados e que tenham sido conquistados não por motivação vaidosa e obstinada, mas como fruto do trabalho e da providência generosa de Deus.
A condição essencial do ser humano é a pobreza. A riqueza é dada a cada um na medida da generosidade daqueles que amam. Quem possui riqueza, sempre tem a possibilidade de compartilhá-la com aqueles que são pobres. Não me refiro apenas à riqueza material, mas também às riquezas abstratas, como o amor e o conhecimento, por exemplo. Quem age com generosidade e gasta seus bens com os outros se assemelha a Deus, que "faz chover sobre justos e iníquos". Por outro lado, quem os guarda para si, encerrando-os em um tesouro pessoal, acaba perdendo-se a si mesmo no afã de preservar-se.
Uma das principais causas da avareza é o medo de perder, como se a posse de bens materiais fosse uma garantia da felicidade. As pessoas tem medo de ficarem sem casa, sem roupa, sem comida, sem dinheiro para viajar no final do ano, sem cosméticos, sem perfumes, sem beleza, sem status social, sem aposentadoria, sem um tratamento de saúde de qualidade, sem importância, sem filhos e sem cônjuge, enfim, medo de ficarem pobres e enfrentar todas as privações e humilhações que daí derivam. Quem realmente acredita no Evangelho, bem sabe que todos esses bens não são nada, e menos do que nada, em comparação com a Graça. Antes seria preferível perder todos aqueles bens do que viver sem o Amor de Deus. Afinal de contas, cedo ou tarde, no momento da morte, todos perderão tudo. Somente a Graça de Deus permanecerá, para aqueles que a tenham conservado.
Mesmo tendo todos esses ensinamentos bem claros, não deveria surpreender a ninguém que as famílias cristãs e do clero sertir-se-iam tentadas a tergiversar de mil formas para si e para os outros um comportamento mundano. Não deveria surpreender pois esse medo da pobreza deriva de uma fraqueza que está presente na natureza humana. Estes, frequentemente acusados de hipocrisia pelas vozes secularistas, não fazem nada mais grave do que os próprios acusadores...
Em um local qualquer e em um tempo desses, vozes beatas ouviram-se reclamando do bairro pobre construído nas imediações de sua rica casa de retiros. Em uma outra dimensão, ouviu-se a voz de um pensador adepto das idéias mais progressistas dizer que gostaria de comprar todos os terrenos à volta de sua casa de campo para impedir a invasão da plebe. Não digo isso para condenar essas vozes, pois apenas falar não é tão grave quanto fazer, e, talvez, na hora de agir, elas tenham sido sempre muito generosas, mas uso esse exemplo para que estejamos sempre atentos à necessidade da humildade.
Não é difícil encontrar grupos de orientações tão distintas, muitas vezes inimigas, cometendo exatamente o mesmo pecado. Não seria surpreendente encontrar socialistas e libertários naquele mesmo círculo descrito por Dante, inclusive no mesmo grupo (mais adiante falaremos sobre a aplicabilidade no campo econômico da imagem de Dante). Deus quer que a maioria deles não se encontrem lá, mas no Paraíso! Bem sabemos que essa fraqueza, isto é, essa obstinação por "salvar-se a si mesmo" pela avareza, está muito presente em cada um de nós. Mesmo assim, é certo que, sendo verdadeiras as palavras de Cristo, apenas serão bem-aventurados os que gastarem a própria vida por amor a Deus e ao próximo. O caminho da perfeição, tal como ensinado por Cristo, passa pelo despojamento.
Todas as imagens do purgatório de Dante são provações que ensinam os caminhantes a despojar-se de algum tipo de apegamento. Em muitas das provas do Purgatório de Dante, almas precisam ajudar-se mutuamente para avançar. Deixarei para um outro momento a exploração do significado dessa imagem, mas trago para esse contexto esse exemplo para relembrar que também aqui nesse mundo existe uma densa rede de colaboração entre os homens, através da qual bens são dispensados e recebidos.
No campo político e econômico, temos acompanhado o violento embate entre socialistas e liberais acerca da política a ser adotada no governo de uma nação. Na Europa, socialistas são acusados de terem criado um enorme débito nas contas públicas com excessivos gastos em encargos sociais, que por fim produziria a crise atual. Os liberais, por outro lado, que em alguns países acabaram por assumir o governo na situação de crise, são acusados pelos socialistas de sobrecarregarem os mais pobres com corte de benefícios sociais.
Se por um lado é bem verdade que a política econômica deve ter como princípio a responsabilidade nos gastos, isto é, despesas nunca acima das receitas, por outro há um risco real de abandono dos mais necessitados. Quando uso o termo necessitado, refiro-me àquelas pessoas da sociedade que, por alguma condição permanente ou momentânea, não conseguem encontrar meios de subsistência.
Uma economia em crise sempre tem altas taxas de desemprego, o que acaba por tornar mais duras as medidas de austeridade econômica. A necessidade do trabalho resulta da necessidade que cada um tem do seu produto. Não seria incorreto afirmar que quanto mais necessidades alguém tem, maior também é a quantidade de trabalho necessária para supri-las. Uma comunidade que consome muitos bens, precisa também de muitos que trabalhem para fabricá-los. Para que as relações sejam justas e equilibradas, a "quantidade de trabalho" fornecida à sociedade deve ser igual à "quantidade de trabalho" recebida dela. Exceção faça-se apenas para aqueles que não estão em condições de "fornecer" trabalho, apenas por força das circunstâncias.
Tendo tudo isso em conta, se uma sociedade deixa-se dominar pela avareza, comete-se ao mesmo tempo um ato de desamor, pois recusa-se o bem que o trabalho do outro pode trazer. Um avarento prefere passar necessidade para acumular riqueza em vez de deixar-se ajudar pelos outros e pagar-lhes em troca o devido salário.
Mas isso não implica então que a prodigalidade redundaria em um bem para a sociedade. O pródigo gasta mais do que tem, ou, em outras palavras, quer ser servido mais do que serve à sociedade. Quando uma sociedade permite a manutenção de uma pequena classe de pródigos, ao mesmo tempo ofende a dignidade daqueles que trabalham. Além disso, prejudica-os materialmente, pois parte do trabalho que deveria ser distribuído de forma equitativa, fica excessivamente centrado nas necessidades dos pródigos. Dessa forma, estes retiram dos que trabalham o direito de receber ao seu tempo o trabalho que a sociedade lhes devia em troca.
Os problemas econômicos não tem como causa a "perversidade do sistema", como diriam os marxistas, nem a excessiva regulamentação estatal, como diriam os liberais. mas aquela falta de discernimento que condenou os avarentos ao quarto círculo do inferno: tutti quanti fuor guerci sì de la mente in la vita primaia, che con misura nullo spendio ferci, todos foram vesgos no discernimento na vida terrena, por não terem sido judiciosos nos gastos. Isso inclui não só os que trabalham muito para acumular, mas também os que trabalham pouco (ou nada) e gastam tudo. Esses outros ainda tem um outro pecado, pois se têm mais do que seria razoável pelo seu trabalho, então certamente estão a usurpar os bens de outros.
Como mencionado anteriormente, as possibilidades de desdobramento das imagens relatadas por Dante na Divina Comédia são imensas. Tenho acompanhado com pesar o baixíssimo nível no debate entre fiéis da Igreja de esquerda e de direita, pois o que tenho visto mais se assemelha com o "choque de pesos" entre os avarentos e pródigos do quarto círculo do inferno do que um verdadeiro debate. É preocupante que entre cristãos encontrem-se manifestações nas redes sociais de pueril arrogância do tipo "ser de direita é estar no pecado, converta-se" ou "ser de esquerda é pecado" etc. Na fiel leitura do Evangelho é possível encontrar uma resposta comum. Com a ajuda da sabedoria cristã expressa na Divina Comédia de Dante, talvez encontremos uma solução que impeça uma nova briga intestina entre guelfos e guibelinos nos tempos modernos.
domingo, 10 de novembro de 2013
O filho pródigo do Brasil
Recentemente, muitas pessoas da nossa sociedade se escandalizaram diante da divulgação, nos meios de comunicação de grande difusão, da reportagem sobre um indivíduo que dissipa uma enorme quantidade de dinheiro na noite. Se fosse uma sociedade que ainda cultivasse as virtudes da temperança, da modéstia e do pudor, teria sido fácil de entender a razão da desaprovação. Não sendo esses os reais valores em questão, resta saber por que a sensibilidade das pessoas foi afetada.
A julgar pela vida da maior parte das pessoas da geração mais jovem e pelos valores que tem sido difundidos pela indústria cultural no últimos anos, não há mesmo nenhum motivo de escândalo. No entanto, há também uma outra esfera de valores, defendida e propagandeada sobretudo pelas ideologias de tonalidade mais à esquerda. Em linhas gerais, defendem que o homem virtuoso deve ser solidário, sensível aos problemas sociais, ativo na promoção dos direitos dos desfavorecidos e, portanto, não tão centrado em si mesmo, menos individualista.
Nesse sentido, esses valores frequentemente definem como o seu mais preciso oposto o comportamento humano que coloca em primeiro lugar a satisfação pessoal, o consumo desenfreado e os interesses pessoais. Aqui no Brasil, cunharam um termo para os que são enquadrados nesse estado, dando-lhes a alcunha de "coxinha". Além disso, costumam apontar o sistema capitalista como o grande responsável pela difusão desses valores individualistas, consumistas e opressores.
Na prática, no entanto, essa separação nunca é precisa na vida cotidiana das pessoas. Muitos daqueles que defendem as teses mais à esquerda tem, na vida privada, um comportamento incompatível com o seu sistema de valores. O que temos visto na vida concreta da maior parte dessas pessoa é uma forte sobreposição entre o usufruto das vaidades oferecidas pela "propaganda capitalista" e a adoção religiosa de um discurso politicamente correto, isto é, em sintonia com aquilo que a mentalidade mais à esquerda defende.
Quem é bem experimentado na vida sabe bem que as reações de escândalo diante de fatos como esse geralmente afloram dos desejos recalcados. Quem conhece o ser humano, sabe que, não estando amparado por um bom preparo espiritual, sempre cai na tentação de dar vazão às suas paixões quando na posse do poder que o permita. Não há modelo mais preciso e verdadeiro para a condição humana do que o seu estado propício à desordem e à perversidade em decorrência do pecado original.
Sabendo que as seguintes palavras poderão causar um segundo escândalo em muitos, afirmo que a inveja foi a principal razão da reação apaixonada contra o comportamento desse filho pródigo do Brasil. Bem encoberta por um discurso moralista de tonalidade vermelha, diga-se de passagem.
No entanto, no discurso de vozes de tonalidade mais azulada, alguns chegaram a repetir a velha crença de que os vícios privados são virtudes para a economia. É difícil de acreditar que alguém realmente acredite nisso; nas entrelinhas desse refrão é difícil deixar de ler uma boa dose de provocação e cinismo.
Um dos argumentos difundidos pelo mundo afora para defender aquele comportamento (ou talvez para provocar o povo da esquerda) se baseia no fato de que esses esbanjadores, para conservarem seu estilo de vida, empregam muitas pessoas, dando-lhes trabalho, e, portanto, fazendo-lhes o bem. Acrescentando aí o fato de que esses empregados são pobres, tem ainda a cara-de-pau de dizer que os desregrados ajudam mais os desfavorecidos do que os propagadores de discursos esquerdistas.
Esse tipo de discurso é típico de quem é incapaz de se colocar no lugar do outro. Entre as duas opções, o que é melhor, servir a um senhor bom, virtuoso e honesto ou a um senhor escravo das suas paixões? Qual dos dois seria mais confiável, qual dos dois saberia motivar melhor o seu empregado para desenvolver ao máximo suas potencialidades humanas? O que é melhor, ser "senhor de um outro senhor", ou "um servo de um outro servo"?
Na verdade, são nefastas as implicações para a economia e para a sociedade de senhores que contratam pessoas para trabalhar na edificação de seus vícios pessoais. Esse tipo de atividade é incapaz de construir riqueza de valor perdurável. Ao mesmo tempo, ao reforçar exemplos de pouca laboriosidade e virtude, desistimula as pessoas ao trabalho, espalhando em todas as classes sociais o desprezo pela excelência moral em favor da vida regalada. Consequentemente, o potencial de riqueza de uma nação, como um todo, fica prejudicado, pois o trabalho das pessoas tende a ficar muito aquém de sua real potencialidade. Ao mesmo tempo, produz uma deseducação cultural, pois corrói uma parte importante do capital cultural de uma sociedade, que são as suas tradições e costumes. Essas são transmitidas pelos seus antepessados como soluções genuínas e eficazes contra o caos social gerado pelos vícios privados. Em outras palavras, atividades econômicas à serviço de comportamento viciosos sempre conduzem à desintegração da sociedade, que por sua vez, voltam a ter impactos negativos na economia.
De certa forma, todas essas reações, independentemente de sua causa, e ainda que farisaicas, sempre tem o efeito positivo de desencorajar um tipo de comportamento vicioso que não pode ser enquadrado como crime. Ao contrário, quem afirma que esse tipo de comportamento é positivo para a economia, só está atrasando o processo natural de eliminação de um foco de desintegração social. O problema pode aumentar, minando efetivamente a moral e a capacidade de uma sociedade. E, se isso acontecesse, parte dos responsáveis terão sido aqueles que, em vez de condenar o vício, louvaram-no com a falsa justificativa de utilidade econômica.
A julgar pela vida da maior parte das pessoas da geração mais jovem e pelos valores que tem sido difundidos pela indústria cultural no últimos anos, não há mesmo nenhum motivo de escândalo. No entanto, há também uma outra esfera de valores, defendida e propagandeada sobretudo pelas ideologias de tonalidade mais à esquerda. Em linhas gerais, defendem que o homem virtuoso deve ser solidário, sensível aos problemas sociais, ativo na promoção dos direitos dos desfavorecidos e, portanto, não tão centrado em si mesmo, menos individualista.
Nesse sentido, esses valores frequentemente definem como o seu mais preciso oposto o comportamento humano que coloca em primeiro lugar a satisfação pessoal, o consumo desenfreado e os interesses pessoais. Aqui no Brasil, cunharam um termo para os que são enquadrados nesse estado, dando-lhes a alcunha de "coxinha". Além disso, costumam apontar o sistema capitalista como o grande responsável pela difusão desses valores individualistas, consumistas e opressores.
Na prática, no entanto, essa separação nunca é precisa na vida cotidiana das pessoas. Muitos daqueles que defendem as teses mais à esquerda tem, na vida privada, um comportamento incompatível com o seu sistema de valores. O que temos visto na vida concreta da maior parte dessas pessoa é uma forte sobreposição entre o usufruto das vaidades oferecidas pela "propaganda capitalista" e a adoção religiosa de um discurso politicamente correto, isto é, em sintonia com aquilo que a mentalidade mais à esquerda defende.
Quem é bem experimentado na vida sabe bem que as reações de escândalo diante de fatos como esse geralmente afloram dos desejos recalcados. Quem conhece o ser humano, sabe que, não estando amparado por um bom preparo espiritual, sempre cai na tentação de dar vazão às suas paixões quando na posse do poder que o permita. Não há modelo mais preciso e verdadeiro para a condição humana do que o seu estado propício à desordem e à perversidade em decorrência do pecado original.
Sabendo que as seguintes palavras poderão causar um segundo escândalo em muitos, afirmo que a inveja foi a principal razão da reação apaixonada contra o comportamento desse filho pródigo do Brasil. Bem encoberta por um discurso moralista de tonalidade vermelha, diga-se de passagem.
No entanto, no discurso de vozes de tonalidade mais azulada, alguns chegaram a repetir a velha crença de que os vícios privados são virtudes para a economia. É difícil de acreditar que alguém realmente acredite nisso; nas entrelinhas desse refrão é difícil deixar de ler uma boa dose de provocação e cinismo.
Um dos argumentos difundidos pelo mundo afora para defender aquele comportamento (ou talvez para provocar o povo da esquerda) se baseia no fato de que esses esbanjadores, para conservarem seu estilo de vida, empregam muitas pessoas, dando-lhes trabalho, e, portanto, fazendo-lhes o bem. Acrescentando aí o fato de que esses empregados são pobres, tem ainda a cara-de-pau de dizer que os desregrados ajudam mais os desfavorecidos do que os propagadores de discursos esquerdistas.
Esse tipo de discurso é típico de quem é incapaz de se colocar no lugar do outro. Entre as duas opções, o que é melhor, servir a um senhor bom, virtuoso e honesto ou a um senhor escravo das suas paixões? Qual dos dois seria mais confiável, qual dos dois saberia motivar melhor o seu empregado para desenvolver ao máximo suas potencialidades humanas? O que é melhor, ser "senhor de um outro senhor", ou "um servo de um outro servo"?
Na verdade, são nefastas as implicações para a economia e para a sociedade de senhores que contratam pessoas para trabalhar na edificação de seus vícios pessoais. Esse tipo de atividade é incapaz de construir riqueza de valor perdurável. Ao mesmo tempo, ao reforçar exemplos de pouca laboriosidade e virtude, desistimula as pessoas ao trabalho, espalhando em todas as classes sociais o desprezo pela excelência moral em favor da vida regalada. Consequentemente, o potencial de riqueza de uma nação, como um todo, fica prejudicado, pois o trabalho das pessoas tende a ficar muito aquém de sua real potencialidade. Ao mesmo tempo, produz uma deseducação cultural, pois corrói uma parte importante do capital cultural de uma sociedade, que são as suas tradições e costumes. Essas são transmitidas pelos seus antepessados como soluções genuínas e eficazes contra o caos social gerado pelos vícios privados. Em outras palavras, atividades econômicas à serviço de comportamento viciosos sempre conduzem à desintegração da sociedade, que por sua vez, voltam a ter impactos negativos na economia.
De certa forma, todas essas reações, independentemente de sua causa, e ainda que farisaicas, sempre tem o efeito positivo de desencorajar um tipo de comportamento vicioso que não pode ser enquadrado como crime. Ao contrário, quem afirma que esse tipo de comportamento é positivo para a economia, só está atrasando o processo natural de eliminação de um foco de desintegração social. O problema pode aumentar, minando efetivamente a moral e a capacidade de uma sociedade. E, se isso acontecesse, parte dos responsáveis terão sido aqueles que, em vez de condenar o vício, louvaram-no com a falsa justificativa de utilidade econômica.
domingo, 3 de novembro de 2013
A arrogância dos macacos pelados
O espírito da sociedade moderna parece ter se tornado completamente cega para a potência monumental da natureza. Engana-se na ilusão de que já está completamente dominada pela ciência humana. Imerso em um universo totalmente artificial, quase sempre protegido das adversidades naturais, perdeu a noção da sua impotência em face das forças brutais do universo que o cerca.
Como consequência, perdeu o contato com a realidade e vive inconsciente de que logo será engolido por um turbilhão monstruoso que o reduzirá a pó. No passado, tanto as grandes civilizações quanto as culturas de pequeno porte, deram testemunho através de sua produção cultural da sensibilidade para os grandes problemas da existência e os seus mistérios; a saber, a morte, a origem da vida e o poder brutal da natureza.
Para a perplexidade geral, em nossos tempos, declaramos superadas todas essas preocupações do antepassados. Pensamos que eles eram apenas homens primitivos, amendrotados diante de uma natureza que não podiam controlar e entender. Trivializamos a realidade.
O que antes parecia grande, belo, amedrontador, quase infinito, nada mais é do que algo trivial em grande escala. Tomemos como exemplo o mar, tão grande, tão misterioso, tão irregular, que no passado fascinou todas as sociedades. Hoje, nada mais é do que um meio contínuo, perfeitamente descritível por meio da mecânica dos fluidos. Em princípio, a ciência é capaz de mimetizar perfeitamente todas as ondas e seus fenômenos outrora tão misteriosos. A sua bela cor nada mais é do que o efeito do padrão de absorção e espalhamento da luz das moléculas ali presentes.
Em poucas palavras, o universo inteiro foi reduzido a um amontoado enorme de partículas, com regras de interação bem definidas, e com simetrias e estruturas periódicas que se estendem por todo o espaço. Como escreveu Gustavo Corção no segundo volume de Dois Amores e Duas Cidades, o universo, nessa perspectiva, parece uma imensa cadeia, com um número enorme de celas, todas iguais, monotonamente iguais. Tanto é verdade que até hoje nada se conseguiu além de uma literatura insossa quando tentaram fazer divulgação científica através de estorinhas (Contato de Carl Sagan é um bom exemplo). Essa perspectiva reducionista da realidade é um veneno mortífero para a imaginação.
Ou seja, já não há mais espaço para o mistério. Está tudo compreendido, tipificado. O ser humano nada mais é do que um amontoado de moléculas escolhidas e dispostas sabiamente pela evolução de modo a interagir para compor um organismo. A vida nada mais é do que uma organização originada do "acaso". Somos frutos do acaso, compostos apenas de matéria.
Sendo tudo fruto do acaso e pura matéria, já não há mais por que buscar uma razão para o ser. As coisas simplesmente existem, as que tem vida nascem e morrem. Não há um criador, apenas a matéria e suas leis, que tudo cria, recria e tranforma.
Muito bem, nesse ponto, não posso deixar de manifestar a minha recusa a adotar tal visão de mundo.
Em primeiro lugar, a ciência ainda é incapaz de responder e prever uma infinidade de fenônemos, isso sem mencionar os fenômenos que na verdade ela não explica, apesar de muitos pensarem o contrário. Já há quase um século que a teoria que melhor descreve os fenômenos microscópicos, a mecânica quântica, ainda não tem uma interpretação "clara e distinta". Quem é físico sabe bem: ao especialista da área pouco interessa a interpretação para o sucesso de suas aplicações, o importante é saber utilizá-la.
A teoria da evolução é ainda muito mais frágil, sem contar o fato de que ela não é capaz de prever nada que não seja trivial. Essa teoria não satisfaz todos os pré-requisitos do método científico, em particular o da experimentação. Isso pelo simples fato de que, por assumir uma escala de tempo enorme, nenhum experimento pode ser feito para verificá-la. O ponto fraco da teoria é habilmente escondido, enquanto que o ponto forte é apresentado como a sua demonstração completa e irrefutável. O ponto forte é a seleção natural: ela ocorre e isso pode ser demonstrado experimentalmente. Mas isso quando a diversidade genética já está presente na espécie: ninguém até hoje explicou como, magicamente, no momento da necessidade de adaptação, havia uns indivíduos com as mutações exatamente necessárias. A mutação e a mudança no ambiente são eventos não correlacionados, de modo que a probabilidade de acontecerem simultaneamente é baixa. Por isso, a teoria exige uma quantidade monstruosa de recombinações genéticas e mutações aleatórias, isto é, muitas reproduções e muito tempo. É estranho, pois a escala de tempo da mudança ambiental é muito menor do que a exigida para a ocorrência de mutações. Talvez não no caso de bactérias e "algoritmos genéticos", mas isso está muito longe de se aplicar igualmente a seres mais complexos.
O problema está em acreditar que a ciência realmente explica tudo. Penso que o mesmo se pode afirmar a respeito da esperança de que um dia irá explicar tudo. No fundo, o verdadeiro motivo para que muitos se apeguem a essa crença é a necessidade pessoal de negar o fato de que o universo tem uma finalidade. Pois se tem uma finalidade, necessariamente teve que ser criado por um Ser inteligente. Se assim for, toda criatura deve a ele sua existência e de alguma forma está implicada no Seu projeto.
Há um enorme medo do transcendental, do grandioso, daquilo que supera a pequenez evidente da humanidade. Para os espíritos acomodados, é mais confortável se iludir na sua convicção de que sua inteligência e vontade é o que há de maior na natureza. Mas a verdade patente é que não passamos de homens pobres, nus e pateticamente frágeis. Fechamos os olhos para essa realidade e, de alguma forma, nos tornamos mais burros do que os nossos antepassados, que desprezamos.
Uma farsa monstruosa não vai anular o fato de que todos um dia terão que responder perante o tribunal do Criador pelo que fez. É bom pensar bem, pois, como sugere a analogia de Pascal, o risco de "apostar" na tese materialista é imensamente maior.
Como consequência, perdeu o contato com a realidade e vive inconsciente de que logo será engolido por um turbilhão monstruoso que o reduzirá a pó. No passado, tanto as grandes civilizações quanto as culturas de pequeno porte, deram testemunho através de sua produção cultural da sensibilidade para os grandes problemas da existência e os seus mistérios; a saber, a morte, a origem da vida e o poder brutal da natureza.
Para a perplexidade geral, em nossos tempos, declaramos superadas todas essas preocupações do antepassados. Pensamos que eles eram apenas homens primitivos, amendrotados diante de uma natureza que não podiam controlar e entender. Trivializamos a realidade.
O que antes parecia grande, belo, amedrontador, quase infinito, nada mais é do que algo trivial em grande escala. Tomemos como exemplo o mar, tão grande, tão misterioso, tão irregular, que no passado fascinou todas as sociedades. Hoje, nada mais é do que um meio contínuo, perfeitamente descritível por meio da mecânica dos fluidos. Em princípio, a ciência é capaz de mimetizar perfeitamente todas as ondas e seus fenômenos outrora tão misteriosos. A sua bela cor nada mais é do que o efeito do padrão de absorção e espalhamento da luz das moléculas ali presentes.
Em poucas palavras, o universo inteiro foi reduzido a um amontoado enorme de partículas, com regras de interação bem definidas, e com simetrias e estruturas periódicas que se estendem por todo o espaço. Como escreveu Gustavo Corção no segundo volume de Dois Amores e Duas Cidades, o universo, nessa perspectiva, parece uma imensa cadeia, com um número enorme de celas, todas iguais, monotonamente iguais. Tanto é verdade que até hoje nada se conseguiu além de uma literatura insossa quando tentaram fazer divulgação científica através de estorinhas (Contato de Carl Sagan é um bom exemplo). Essa perspectiva reducionista da realidade é um veneno mortífero para a imaginação.
Ou seja, já não há mais espaço para o mistério. Está tudo compreendido, tipificado. O ser humano nada mais é do que um amontoado de moléculas escolhidas e dispostas sabiamente pela evolução de modo a interagir para compor um organismo. A vida nada mais é do que uma organização originada do "acaso". Somos frutos do acaso, compostos apenas de matéria.
Sendo tudo fruto do acaso e pura matéria, já não há mais por que buscar uma razão para o ser. As coisas simplesmente existem, as que tem vida nascem e morrem. Não há um criador, apenas a matéria e suas leis, que tudo cria, recria e tranforma.
Muito bem, nesse ponto, não posso deixar de manifestar a minha recusa a adotar tal visão de mundo.
Em primeiro lugar, a ciência ainda é incapaz de responder e prever uma infinidade de fenônemos, isso sem mencionar os fenômenos que na verdade ela não explica, apesar de muitos pensarem o contrário. Já há quase um século que a teoria que melhor descreve os fenômenos microscópicos, a mecânica quântica, ainda não tem uma interpretação "clara e distinta". Quem é físico sabe bem: ao especialista da área pouco interessa a interpretação para o sucesso de suas aplicações, o importante é saber utilizá-la.
A teoria da evolução é ainda muito mais frágil, sem contar o fato de que ela não é capaz de prever nada que não seja trivial. Essa teoria não satisfaz todos os pré-requisitos do método científico, em particular o da experimentação. Isso pelo simples fato de que, por assumir uma escala de tempo enorme, nenhum experimento pode ser feito para verificá-la. O ponto fraco da teoria é habilmente escondido, enquanto que o ponto forte é apresentado como a sua demonstração completa e irrefutável. O ponto forte é a seleção natural: ela ocorre e isso pode ser demonstrado experimentalmente. Mas isso quando a diversidade genética já está presente na espécie: ninguém até hoje explicou como, magicamente, no momento da necessidade de adaptação, havia uns indivíduos com as mutações exatamente necessárias. A mutação e a mudança no ambiente são eventos não correlacionados, de modo que a probabilidade de acontecerem simultaneamente é baixa. Por isso, a teoria exige uma quantidade monstruosa de recombinações genéticas e mutações aleatórias, isto é, muitas reproduções e muito tempo. É estranho, pois a escala de tempo da mudança ambiental é muito menor do que a exigida para a ocorrência de mutações. Talvez não no caso de bactérias e "algoritmos genéticos", mas isso está muito longe de se aplicar igualmente a seres mais complexos.
O problema está em acreditar que a ciência realmente explica tudo. Penso que o mesmo se pode afirmar a respeito da esperança de que um dia irá explicar tudo. No fundo, o verdadeiro motivo para que muitos se apeguem a essa crença é a necessidade pessoal de negar o fato de que o universo tem uma finalidade. Pois se tem uma finalidade, necessariamente teve que ser criado por um Ser inteligente. Se assim for, toda criatura deve a ele sua existência e de alguma forma está implicada no Seu projeto.
Há um enorme medo do transcendental, do grandioso, daquilo que supera a pequenez evidente da humanidade. Para os espíritos acomodados, é mais confortável se iludir na sua convicção de que sua inteligência e vontade é o que há de maior na natureza. Mas a verdade patente é que não passamos de homens pobres, nus e pateticamente frágeis. Fechamos os olhos para essa realidade e, de alguma forma, nos tornamos mais burros do que os nossos antepassados, que desprezamos.
Uma farsa monstruosa não vai anular o fato de que todos um dia terão que responder perante o tribunal do Criador pelo que fez. É bom pensar bem, pois, como sugere a analogia de Pascal, o risco de "apostar" na tese materialista é imensamente maior.
domingo, 27 de outubro de 2013
Modernismo, pós-modernismo e tradição
A modernidade nasceu com a promessa de transformar a vida das pessoas para melhor. Havia a convicção de que apenas a ciência seria suficiente para guiar um processo de aperfeiçoamento contínuo da qualidade de vida. De fato, o impulso sem precedentes que a ciência deu à tecnologia permitiu à sociedade um maior conforto. Por outro lado, essa mesma ciência foi aplicada como um instrumento eficaz de dominação e exterminação.
O otimismo e a euforia que esses grandes avanços produziram nos homens do século XIX foram massacrados pela irrupção das duas grandes guerras mundiais. A promessa do modernismo fracassou peremptoriamente. Desorientada e desiludida, a classe pensante ligada à tradição modernista foi obrigada a rever suas premissas e reformular as antigas promessas. Assim nasceu o pós-modernismo.
Para restaurar o projeto gerado pela modernidade, era necessário compreender os motivos que conduziram àquele trágico desfecho. Dessa vez, já não era mais possível culpar as instituições tradicionais, pois já tinham perdido influência sobre o agir da classe dirigente. Mesmo a monarquia, tendo sido sem dúvida uma instituição tradicional envolvida nos acontecimentos, sobretudo durante a primeira guerra mundial, já há muito tempo tinha cedido espaço ao projeto modernista, na esperança de sobreviver ao tempo.
Ainda que a classe pensante tenha permanecido majoritariamente ligada à tradição iluminista, há uma percepção lavrada no espírito pós-moderno de que as possibilidades da razão são limitadas. Tendo perdido a esperança nela, poucos parecem ainda acreditar que seu empenho pessoal pela realização da causa irá dar bom fruto. Nesse cenário, e diante das possibilidades de conforto à sua disposição, a sociedade fez a opção pelo ideal de uma vida dedicada principamente à satisfação dos desejos pessoais.
No final das contas, qual era mesmo a promessa da modernidade? A promessa de um mundo, uma sociedade e um homem novo . Um mundo que produziria tudo aquilo de que se necessita, em abundância, de modo que nada falte a ninguém. Uma sociedade perfeita, solidária e fraterna, onde a guerra e os pequenos conflitos de interresses deixariam de existir. Um homem novo, comprometido de corpo e alma com a manutenção desse mundo novo.
Essa esperança permanece radiante no firmamento cultural da pós-modernidade, mas não parece razoável supor que a classe dirigente e pensante realmente acredite na sua realização. Na verdade, é do interesse dessas mesmas classes, sobretudo das dirigentes, utilizar a utopia como instrumento político para a dominação e cooptação da massa de manobra.
De qualquer modo, a esperança pós-modernista está na maior parte dos casos presente nos corações apenas como um desejo difuso, incapaz de cristalizar-se em ações concretas. Na prática, os corações permanecem confinados à espiral do egoísmo, incapazes de colocar em prática os valores que lhes foram inculcados.
A falha monstruosa que conduziu ao fracasso desse projeto não pode ser entendida dentro das categorias da tradição iluminista que o gerou. Na realidade, a razão dos modernistas esconde no rigor da técnica e do método o caos teleológico de suas propostas. Aos ingênuos, elas sugeriam que a aplicação do rigor científico a todas as esferas da vida pública e privada acabaria com todos os males sociais e pessoais. Mas o olhar mais aguçado, cultivado pela educação na tradição, logo percebeu que a verdadeira força motriz da modernidade eram as paixões.
A razão dos modernistas sempre se recusou a aceitar a existência da desordem nas paixões. Paradoxalmente, tanto no modernismo quanto no pós-modernismo, sua classe pensante preferiu sacrificar a razão caso isso fosse necessário para salvar a legitimidade das paixões, identificada com a liberdade. Isso não é de espantar, pois nessa perspectiva seguir os impulsos das paixões é ser livre. Não que a razão seja pouco valorizada no modernismo; ela é de fato exaltada, mas uma noção limitada de liberdade está no topo da hierarquia de valores.
É difícil ser tão ingênuo a ponto de acreditar que o indivíduo que dá vazão desenfreada aos seus apetites é a mais angelical e inocente das criaturas da terra. Mas pelo incrível que pareça o mito do bom selvagem persiste no firmamento cultural dos nossos tempos
A verdadeira causa do fracasso do projeto modernista foi ignorar a motivação caótica por trás do uso eficaz da ciência e da técnica. A razão não reformou o coração do homem, mas foi apropriada por ele para amplificar a capacidade de concretização das suas perversidades.
Os pensadores pós-modernos se debruçaram sobre o problema, tendo inevitavelmente afogado os ânimos no definitivo desencanto. Por outro lado, essa dinâmica da natureza humana foi identificada com precisão pela classe dirigente e pelas grandes forças econômicas. Vivemos imersos em um mundo que se transformou em uma imensa e lucrativa fábrica de sonhos e espetáculos para saciar todos os seus apetites, inclusive suas perversidades.
Nesse novo cenário, há ainda espaço para a razão? O uso da razão está atualmente ainda mais restrito à dominação e à satisfação da insaciável concupiscência humana. Isso é verdade em todos os estratos da sociedade.
Os apetites geram uma tensão interior, fornecendo uma energia potencial que só é liberada no momento da sua satisfação. Como fenômeno de massa, essa tensão representa um perigo real para a ordem vigente, sendo, ao mesmo tempo, uma arma poderosa nas mãos de políticos hábeis. Há muitos anos, o ocidente vive em uma paz instável, conquistada por meio de uma perigosa política de estímulo à satisfação imediata dos desejos pessoais.
É bem verdade que ao aliviar a tensão, os ânimos arrefecem. No entanto, as paixões humanas não tem um limite bem definido, pois é próprio da natureza humana sempre aspirar mais. O estímulo à satisfação dos apetites desordenados é uma medida perigosa, fadada a uma situação insustentável, em que a máquina produtiva já não dará mais conta de satisfazer uma grande massa de insatisfeitos e revoltados.
Não seria honesto deixar de reconhecer que mutilar todas as aspirações do coração também seria perigoso para a sociedade, além de desumano. Bem sabemos que a conquista dos corações para uma causa tem sido o meio mais eficaz para concretizar projetos políticos nefastos. Por isso, uma educação baseada na supressão total das paixões pessoais pode ter uma motivação manipuladora.
O objetivo que uma sociedade mais humana deve almejar é a educação das paixões. Esse aspecto do ser humano tem sido negligenciado pelo modelo moderno de educação. Em geral, a paixão é vista como uma força caótica e destruidora, e pouco é feito de maneira eficaz para canalizá-la à realização de grandes empreendimentos. As forças do mercado, logicamente, sabem canalizá-las. Mas infelizmente são empreendimentos totalmente voltados à produção de bens para retroalimentar a espiral do consumismo. Em outros termos, o trabalho duro é ainda tolerado, contanto que tenha como recompensa a satisfação plena dos apetites pessoais. Nessa lógica, o trabalho não tem um sentido transcendental. Além disso, se firma sobre a premissa de que não há nada melhor para aspirar nessa vida do que o prazer material.
A educação das paixões é um tópico à parte. É essa a resposta fundamental para a superação do desencanto pós-modernista. O grande desvio do modernismo foi ter subestimado ou até ignorado essa força que movia as ações humanas. Pois no campo da vida prática, das decisões, a paixão desempenha um papel muito forte. Ela é capaz de torcer a razão, derrubando facilmente as conclusões puramente racionais do sistema moral adotado. Sendo desumano suprimir a paixão, uma importante componente da natureza humana, fortemente relacionada com a felicidade, é necessário educá-la e harmonizá-la com a razão. Eis o grande desafio.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
O pecado, os pecadores e os condenados
Se Deus é Misericordioso e Bom, como é possível então que Ele consinta com o terrível suplício eterno das almas condenadas? Essa é uma questão frequentemente dirigida pelos que não possuem a Fé nos Evangelhos.
Também para mim é uma questão difícil. Santa Teresa D'Àvila descrevia o inferno como um lugar onde se tem a sensação de estar morrendo a todo momento. Sem cessar e para sempre. Por ser tão aterradora, essa realidade nos parece absurda.
À primeira vista, parece que o inferno é totalmente incompatível com a noção de um Deus Bom e Misericordioso. Se Deus é Bom, então Ele não deveria permitir que ninguém sofresse. Desde o instante inicial, todas as suas criaturas deveriam gozar de delícias sem fim especialmente preparadas para elas.
Mas se fosse assim, quem poderia dizer-se realmente livre? Ninguém, pois seriam todas as criaturas meros títeres nas mãos de Deus. Títeres não amam, apenas respondem automaticamente a estímulos.
Pelo que nos revelam as Sagradas Escrituras em Genesis, o projeto inicial era mesmo que os homens desfrutassem de uma vida sem sofrimentos, no jardim do Éden. Mas foi deixada uma possibilidade à liberdade do homem. Não me refiro à liberdade que Adão e Eva tinham de ora comer uma laranja, ora uma maçã. Mas à liberdade de amar a Deus. Pois quem ama, confia. Se amassem, jamais teriam duvidado de Deus. Jamais teriam acreditado que Deus estava querendo lhes trapacear.
O sofrimento humano nasceu no mundo e permanece no mundo por causa do pecado. Para vencê-lo, é necessário fazer o caminho inverso: confiar em Deus, apesar do sofrimento. Cristo abriu essa via, vencendo o pecado, quando, confiando em Deus, foi fiel até o último instante. Se a queda da humanidade foi consequência da desobediência, a sua salvação foi conquistada pela obediência.
Depois da queda original, fazer o bem em situações concretas pode exigir sofrimentos pessoais. Nesses casos, perseverar no bem exige confiança em Deus, a mesma confiança que os nossos primeiros pais deveriam ter conservado.
E o que dizer dos que não estão dispostos a assumir esses sofrimentos pessoais? Nas situações concretas, são inúmeras as vezes em que rejeitamos o bem por fraqueza. É possível reconhecer, pedir perdão e tentar o sucesso nas próximas vezes. Se, apesar do fracasso, há um reconhecimento sincero das faltas pessoais e o propósito de continuar buscando o bem, ainda existe uma confiança sincera em Deus.
Sobram ainda os que não estão dispostos a assumir esses sofrimentos pessoais por não acreditar que exista um bem maior do que o seu prazer. Nesse caso, já fizeram a sua opção. A opção por não amar a Deus, não querer o Bem e não buscar a Verdade.
Ao entrar na eternidade, levam consigo suas convicções, sacramentadas pelos atos de suas vidas. Já não há novas opções a serem feitas. Não é Deus que as condenam: são elas mesmas que escolhem o seu destino e escrevem a sua sentença.
Mas não seria o suplício do inferno suficiente para movê-las ao arrependimento? Não. Para se arrepender, é necessário sentir-se condoído dos que foram injustiçados pelas más ações. Esse é o verdadeiro arrependimento. O que elas têm é um desejo de sair do suplício. Somente para se livrar do suplício é que desejariam não ter realizado aquelas más ações. Nesse arrependimento não há nenhum outro ingrediente que não seja o amor próprio. Além disso, o arrependimento na caridade é também uma graça: o inferno está, por definição, privado dela.
Não é que Deus não queira ser Misericordioso com a alma dos condenadas pertinazes; na verdade, são esses que não quiseram recorrer à Misericórdia divina. Quem não quiser ser perdoado, não será.
Ninguém pode ter certeza de que será salvo. Isso seria pecar por presunção. No entanto, podemos nos confortar na certeza de que Deus não despreza um pecador realmente arrependido.
Ninguém pode ter certeza de que será salvo. Isso seria pecar por presunção. No entanto, podemos nos confortar na certeza de que Deus não despreza um pecador realmente arrependido.
domingo, 6 de outubro de 2013
Papa Francisco, aristocracia e tradicionalismo
As palavras do papa Francisco tem causado reações apaixonadas entre pessoas das mais diversas orientações. A grande mídia tem ecoado suas palavras dando maior acento às declarações que poderiam indicar mudanças na Igreja em direção à sua agenda comum. Pergunto-me por que motivo pessoas tão profundamente indiferentes à religião se preocupam tanto com as palavras do papa. Tudo leva-me a crer que, na incapacidade de neutralizar totalmente a influência da Igreja, estão empenhados na estratégia de influenciar mudanças para converter a influência da Igreja a seu favor.
Será que, se a Igreja cedesse em todos os pontos dessa agenda, muitas pessoas então se sentiriam atraídas a aderir à Fé? Pergunto-me, ao mesmo tempo: se a Igreja cedesse nesses pontos, o que restaria da Fé?
Será que, se a Igreja cedesse em todos os pontos dessa agenda, muitas pessoas então se sentiriam atraídas a aderir à Fé? Pergunto-me, ao mesmo tempo: se a Igreja cedesse nesses pontos, o que restaria da Fé?
***
Há, por outro lado, muitas manifestações de desaprovação às palavras do papa da parte de fiéis. Em geral, tenho a impressão que, da mesma forma como a grande mídia, estão fazendo um leitura seletiva das palavras do papa. Há várias declarações e escritos que atestam a total adesão do papa aos ensinamentos de Fé e Moral da Igreja. Ao mesmo tempo, tem frisado, desde o discurso inicial, que não existe cristianismo sem Cruz.
No entanto, muitos que se dizem fiéis não têm dado atenção a essas palavras. Às vezes parece que escondem por trás do zelo litúrgico e doutrinário uma resistência para se entregar de fato a algumas exigências evangélicas. Tendo resumido toda religião cristã à adesão às normas litúrgicas e à mera repetição das formulações dogmáticas da Fé, esquecem de viver no seu dia-a-dia as virtudes cristãs, sobretudo aquelas relacionadas com o desapego dos bens materiais e do conforto pessoal.
Mais grave do que isso, causa procupação a manifestação de fiéis que ainda querem estender seu dogmatismo despojado da piedade ao campo político. Longe de estarem em consonância com os princípios que regem a Doutrina Social da Igreja, querem impor um sistema político como a única solução compatível com o catolicismo. Confundem os canais, e pensam que se ofende a Deus e a integridade da Fé sempre que alguém questiona o seu posicionamente político pessoal.
Não é fácil saber se realmente raciocinavam desse modo. Desconheço qualquer documento que o ateste. Ao que tudo indica, pelos muitos atos exteriores de piedade, como o suporte financeiro às ordens religiosas e obras de caridade, e à frequência ao confessionário, havia sim uma fé entre esses homens, mas um tanto quanto incoerente e pouco convincente.
Diante desse péssimo exemplo das côrtes européias católicas, e da desastrada associação de parte da hierarquia com elas, nasceu um anticlericalismo violento generalizado. É necessário reconhecer que mesmo um católico de boa vontade, que realmente leva a sério o exemplo de Cristo, está obrigado a ser anticlerical, quando clericalismo significa essa simbiose nefasta da hierarquia com uma corte vergonhosamente imoral. Mas não violentamente anticlerical. É necessário empreender uma verdadeira reforma, começando pela reforma pessoal do caráter.
Mais grave do que isso, causa procupação a manifestação de fiéis que ainda querem estender seu dogmatismo despojado da piedade ao campo político. Longe de estarem em consonância com os princípios que regem a Doutrina Social da Igreja, querem impor um sistema político como a única solução compatível com o catolicismo. Confundem os canais, e pensam que se ofende a Deus e a integridade da Fé sempre que alguém questiona o seu posicionamente político pessoal.
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Meu caro padre, não somos cegos, somos apenas homens. Vivemos numa realidade móvel à qual procuramos adaptar-nos como as algas que se dobram sob o ímpeto das ondas do mar. À Santa Madre Igreja foi explicitamente prometida à imortalidade, mas a nós, como classe social, não. Para nós, qualquer paliativo que nos garanta mais cem anos de vida equivale à eternidade (palavras de D. Fabrizio ao padre Pirrone, em Gattopardo, de Tomasi di Lampedusa ).
Os palácios e castelos ainda conservados na Europa são testemunho ainda vivos da magnitude do poder da sua antiga aristocracia. De uma idade média em que o poder da aristocracia estava fragmentado em pequenos reinos e feudos, cuja autonomia administrativa e jurídica ainda era respeitada pelos imperadores, a modernidade nasceu com a concretização do afã centralizador de monarcas católicos.
Mesmo sob o pretexto de estender o reinado de Cristo para todo o mundo, a sede de poder absoluto desses monarcas teve consequências trágicas para a história da Igreja. O Sacro Imperio Romano-Germânico (SIRG) teria sido uma das primeiras experiências histórica de coexistência de reinos cristãos sob um império fundado no princípio da subsidiariedade, não fosse a difícil queda-de-braços com os imperadores sedentos de poder. Nesse embate, os grandes monarcas saíram vencedores, tendo reduzido o poder da aristocracia e cooptado a hierarquia local da Igreja a seu favor.
Um dos exemplos trágicos foram as guerras empreendidas pelos reis católicos espanhóis para anexar os reinados dos países baixos. A nobreza local, àquela altura, era católica, assim como a maior parte da população, tendo deixado o testemunho histórico da sua devoção legando-nos uma belíssima arte sacra. Mesmo não se opondo à vassalagem devida ao imperador do SIRG, àquela altura também rei da Espanha (Carlos I), era natural que se opusessem a uma política que diminuia uma autonomia legítima na direção dos seus reinados. Depois da desastrosa campanha do duque de Alba, em que até mesmo populações católicas tiveram suas cidades saqueadas pelos seus exércitos de mercenários, era difícil para qualquer católico holandês acreditar realmente na retidão do "rei católico". As consequências desta triste inabilidade política foram demasiadamente ruins para a história do cristianismo.
Mesmo sob o pretexto de estender o reinado de Cristo para todo o mundo, a sede de poder absoluto desses monarcas teve consequências trágicas para a história da Igreja. O Sacro Imperio Romano-Germânico (SIRG) teria sido uma das primeiras experiências histórica de coexistência de reinos cristãos sob um império fundado no princípio da subsidiariedade, não fosse a difícil queda-de-braços com os imperadores sedentos de poder. Nesse embate, os grandes monarcas saíram vencedores, tendo reduzido o poder da aristocracia e cooptado a hierarquia local da Igreja a seu favor.
Um dos exemplos trágicos foram as guerras empreendidas pelos reis católicos espanhóis para anexar os reinados dos países baixos. A nobreza local, àquela altura, era católica, assim como a maior parte da população, tendo deixado o testemunho histórico da sua devoção legando-nos uma belíssima arte sacra. Mesmo não se opondo à vassalagem devida ao imperador do SIRG, àquela altura também rei da Espanha (Carlos I), era natural que se opusessem a uma política que diminuia uma autonomia legítima na direção dos seus reinados. Depois da desastrosa campanha do duque de Alba, em que até mesmo populações católicas tiveram suas cidades saqueadas pelos seus exércitos de mercenários, era difícil para qualquer católico holandês acreditar realmente na retidão do "rei católico". As consequências desta triste inabilidade política foram demasiadamente ruins para a história do cristianismo.
Infelizmente, esse não é único exemplo. Na mesma época, Maria I da Inglaterra foi coroada com forte apoio popular. No entanto, os ingleses, muito conscientes das pretensões imperialistas dos espanhóis, com razão viram com desconfiança o seu casamento com Filipe da Espanha. Ao que tudo indica, foi realmente apaixonada por seu marido, de modo que é mais provável que não estivesse interessada em trair o seu povo. Não fosse pelo seu imperialismo agressivo, uma aliança com a Espanha seria realmente interessante para a Inglaterra. Deixou-se influenciar por conselheiros que a isolaram politicamente e fomentaram uma política de revanchismo. Maria I, que poderia ter passado à história como rainha santa, infelizmente ficou conhecida como bloody Mary, em grande parte pela historiografia enviesada dos anglicanos (Maria I não foi mais "bloody" do que seu pai, Henrique VIII). Nesse ponto crucial da história, a misericórdia e o perdão teriam salvado a Igreja Católica na Inglaterra.
Até hoje, os ingleses nutrem uma secreta admiração pelo catolicismo. Mas infelizmente, as políticas desastrosas, autoritárias e atrapalhadas de Jaime II só vieram a sepultar definitivamente o catolicismo da Inglaterra.
Até hoje, os ingleses nutrem uma secreta admiração pelo catolicismo. Mas infelizmente, as políticas desastrosas, autoritárias e atrapalhadas de Jaime II só vieram a sepultar definitivamente o catolicismo da Inglaterra.
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A coexistência da frivolidade, da opulência e do adultério com uma devoção deslumbrante e pretensamente ortodoxa nas côrtes dos monarcas absolutistas católicos fez um mal brutal para o cristianismo, cujas consequências ainda vivemos. Ficou a belíssima arte da época, cuja qualidade deve ser antes atribuída aos artistas, decoradores e pedreiros e à sua piedade sincera.
O adultério praticado pelos reis era quase regra, cujas exceções podem ser encontradas apenas entre os poucos reis santos. Fica mesmo a impressão de que aqueles reis realmente tinham pouca piedade interior. Pior do que isso, parece que no fundo consideravam a piedade uma coisa para damas e padres. Mas ser católico era-lhes interessante pois o prestígio da Igreja legitimava o seu poder diante do povo e facilitava-lhes a dominação sobre as mulheres.
O adultério praticado pelos reis era quase regra, cujas exceções podem ser encontradas apenas entre os poucos reis santos. Fica mesmo a impressão de que aqueles reis realmente tinham pouca piedade interior. Pior do que isso, parece que no fundo consideravam a piedade uma coisa para damas e padres. Mas ser católico era-lhes interessante pois o prestígio da Igreja legitimava o seu poder diante do povo e facilitava-lhes a dominação sobre as mulheres.
Não é fácil saber se realmente raciocinavam desse modo. Desconheço qualquer documento que o ateste. Ao que tudo indica, pelos muitos atos exteriores de piedade, como o suporte financeiro às ordens religiosas e obras de caridade, e à frequência ao confessionário, havia sim uma fé entre esses homens, mas um tanto quanto incoerente e pouco convincente.
Diante desse péssimo exemplo das côrtes européias católicas, e da desastrada associação de parte da hierarquia com elas, nasceu um anticlericalismo violento generalizado. É necessário reconhecer que mesmo um católico de boa vontade, que realmente leva a sério o exemplo de Cristo, está obrigado a ser anticlerical, quando clericalismo significa essa simbiose nefasta da hierarquia com uma corte vergonhosamente imoral. Mas não violentamente anticlerical. É necessário empreender uma verdadeira reforma, começando pela reforma pessoal do caráter.
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Ao andar pelos palácios da Europa, sobretudo aqueles que pertenceram aos imperadores absolutistas (e.g. El Escorial, na Espanha, ou até mesmo o palácio de Sintra), com o seu cheiro de mofo, ao lado de turistas que desembarcam aos borbotões, sente-se uma grande decepção. Pecebe-se que aquele local foi um dia um poderoso símbolo de poder, com mobília e pinturas em perfeito estado, que fervilhava com a atividade incessante de criados ao serviço da corte, cenário de incansáveis banquetes, fofocas e conspirações.
Era isso o que valeria à pena ter conhecido, mas a barreira do tempo impõe um obstáculo intransponível. No entanto, da minha perspectiva, se hoje já sinto aflição e tristeza de saber que um dia o mundo foi assim (meu consolo era que Santa Teresa D'Ávila sentia o mesmo quando visitava as côrtes), se tivesse presenciado isso, com a mentalidade de hoje, teria morrido de tristeza. Um mundo em que a liberdade estava confinada e asfixiada pela bajulação de uma corte medíocre à autoridade de um homem imperfeito. Pelo menos, essa mediocridade ajudou muitos homens a perceber que antes era preferível servir à autoridade do verdadeiro Rei.
Inacreditavelmente, essa mentalidade aristocrática ainda sobrevive, e reminescências dela ainda podem ser encontradas em muitas instituições da Igreja, inclusive dentro de algumas cuja fundação data do século XX. São toleráveis, enquanto pelo menos fomentam todas as virtudes cristãs entre os seus membros e não tenham a pretensão de generalizar uma mentalidade aristocrática estranha ao Evangelho para toda a Igreja. Em poucas palavras, generalizar a idéia de que a reta ordem universal querida por Deus consiste em um mundo formado por aristocratas, a quem se deve servir, e servos, a quem não resta outra possibilidade a não ser servir os primeiros. E, mais do que isso, incluir aí a falsa noção de que se é servo ou aristocrata pela Vontade de Deus e que querer mudar a situação é ir contra a sua Vontade. Boa doutrina essa, para os aristocratas!
***
Essa realidade estranha aos olhos do homem de nosso tempo, de côrtes e reis, com todas as suas incongruências e contradições, sobreviveu no mundo. Onde? Em alguns nichos dentro da Igreja.
O nosso papa Francisco tem se esforçado para adequar a estrutura da Igreja a uma prática mais fiel ao Evangelho. Alguns erroneamente o acusam de querer esvaziar a autoridade papal somente por que escolheu não utilizar alguns acessórios externos simbólicos. Ora, o papa poderia se vestir de calça jeans e camiseta polo diante dos fiéis, mas isso, ainda que extremamente inconveniente, não diminuiria em nada a autoridade que Cristo conferiu ao sucessor de Pedro. Os símbolos não são absolutos e seu significados mudam em função dos tempos. É de total liberdade do papa fazer uso daqueles símbolos que melhor expressam, dentro da mentalidade de seu tempo, os valores evangélicos. Ao papa não cabe entrar em jogo político para agradar "tradicionalistas", "conservadores" ou "progressistas", mas sim apenas agradar a Deus.
Paradoxalmente, esses mesmos que tão intensamente se apegam à doutrina da infabilidade papal, são os primeiros a criticar suas ações e pregações. Imagino até que, tendo vivido na época em que Pio X instituiu a Primeira Comunhão para as crianças pequenas (tão logo atingissem a idade da razão), teriam sido os primeiros a levantar suas vozes para contrariar.
Há relatos de diálogos entre demônios e exorcistas em que aqueles atestam que o motivo de sua rebelião foi o pedido que Deus lhes fez para adorá-Lo em natureza humana. Os anjos entenderam, ao adorar Deus escondido sob a natureza humana, que pertencia aos planos de Deus criar um animal espiritual à sua imagem e semelhança, destinado à bem-aventurança. Entenderam também que deveriam estar dispostos a servir criaturas inferiores em natureza. Alguns anjos não quiseram se curvar e não aceitaram isso, tendo sido necessária uma guerra celeste para expulsá-los da presença de Deus.
Em alguns momentos, não consigo evitar o paralelo entre uma mentalidade aristocrática mal orientada, que se recusa a descer do seu troninho e sair do oratório pessoal para servir ao próximo necessitado, e a atitude dos anjos rebeldes. Não seria mau avaliar em nosso exame de consciência pessoal se também nós não estaríamos agindo da mesma forma.
Em alguns momentos, não consigo evitar o paralelo entre uma mentalidade aristocrática mal orientada, que se recusa a descer do seu troninho e sair do oratório pessoal para servir ao próximo necessitado, e a atitude dos anjos rebeldes. Não seria mau avaliar em nosso exame de consciência pessoal se também nós não estaríamos agindo da mesma forma.
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As palavras do papa Francisco transmitem ensinamentos valiosos. Não há ressalvas nem matizes a serem feitos. São palavras que devem ser entendidas mesmo tal como foram ditas. Não há nada ali que fere a Tradição, nada que fere o Evangelho, nada que fere a Verdade. Os que mais a estão criticando, são os que mais necessidade têm de uma verdadeira metanóia. O papa Francisco tocou na ferida de muitos.
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