sábado, 28 de julho de 2012
Não tenhais medo: lutar contra o aborto
Recentemente tive acesso a um documento que explica extensivamente o histórico das entidades empenhadas em promover o aborto no Brasil e suas redes de financiamento. Recomendo esse documento a todos os que se posicionam corajosamente a favor da vida, pois contém todas as informações que comprovam inequivocamente que o governo brasileiro está empenhado em legalizar o aborto. Esse documento foi preparado pelo pe. Paulo Ricardo, que tem se exposto corajosamente na linha de frente das batalhas a favor da vida.
O endereço que envio a seguir direcionará para a página que contém um áudio do próprio pe Paulo Ricardo com uma explicação mais sucinta do plano do governo de burlar sorrateiramente a legislação brasileira e, ao final da página, um link para o documento a que me referi:
http://padrepauloricardo.org/episodios/governo-dilma-prepara-se-para-implantar-aborto-no-brasil
Tenho dois breves comentários para fazer sobre o assunto. Em primeiro lugar, espanta-me dolorosamente perceber tão claramente como os grupos promotores do aborto sabem utilizar as palavras para encobrir vergonhosamente as suas verdadeiras intenções. Outro mecanismo devastador é a sua capacidade de distorcer a linguagem de modo a conseguir acusar os seus adversários dos crimes que eles mesmos cometem. Um exemplo dessa linguagem retorcida é a seguinte frase da Norma Técnica do Atendimento Humanizado ao Aborto Provocado publicado pelo governo Lula em 2005:
"A atenção humanizada às mulheres em abortamento pressupõe o respeito ao direito da mulher de decidir sobre as questões relacionadas ao seu corpo e à sua vida. Em todo caso de abortamento, a mulher deve ser respeitada na sua liberdade, dignidade, autonomia e autoridade moral e ética para decidir, afastando-se preconceitos, estereótipos e discriminações de qualquer natureza, e evitando-se que aspectos sociais, culturais, religiosos, morais ou outros interfiram na relação com a mulher. Esta prática não é fácil, uma vez que muitos cursos de graduação e formação em serviço não têm propiciado dissociação entre os valores individuais (morais, éticos, religiosos) e a prática
profissional".
É bem verdade que a mulher tem mesmo o direito de decidir sobre as questões relacionadas ao seu corpo e à sua vida. Mas isso engloba tantas realidades, que questões relacionadas ao seu corpo e à sua vida poderiam ser, em concreto, a decisão de se suicidar ou de cometer um homicídio. Por isso, todo o direito está acompanhado de um dever. Todos temos o direito de decidir sobre questões relacionadas ao nosso corpo e à nossa vida, mas com o dever de respeitar a justiça devida a nós e aos outros. Assim como é uma falta de justiça infinita para com o próximo praticar um homicídio, o suicídio é do mesmo modo uma falta de justiça contra si mesmo (também infinita). Portanto, além de pressupor o direito de decidir, deve-se também pressupor o dever e a responsabilidade da decisão.
Não vou entrar no mérito da questão de o feto ser ou não um ser humano dotado de direitos. Mas se há dúvida sobre tal questão, então há também a possibilidade de o feto ser realmente um ser humano, e, nesse caso, o aborto é um homicídio, por definição. Veja que no documento não há nenhuma discussão sobre isso. Todo e qualquer questionamento é simplesmente taxado de preconceitos, estereótipos e discriminações de qualquer natureza. Veja que essa linguagem tira o foco daquilo que está realmente em jogo e abafa autoritariamente toda possibilidade legítima de dissensão, pois a qualifica já de antemão como uma discriminação.
Pede-se que " aspectos sociais, culturais, religiosos, morais ou outros interfiram na relação com a mulher". Essa é uma falácia que salta aos olhos a qualquer ser humano inteligente. É absolutamente impossível, em qualquer caso, que na sua relação com outro ser humano não intervenham concomitantemente aspectos sociais, culturais, religiosos, morais. A linguagem e as atitudes de um ser humano estão sempre, sem exceção, dotadas de aspectos sociais, culturais, religiosos, morais. É absolutamente impossível destituir o ser humano desses aspectos na relação com o outro. O que se pode fazer, isso sim, e é isso o que o documento realmente pretende, é adulterar a verdadeira fisionomia social, cultural, religiosa e moral dos profissionais de saúde a fim de adequá-la às verdadeiras intenções do discurso: induzir o profissional de saúde a antepor uma legítima objeção de consciência. É verdade que o documento em questão está tratando de recomendações para a abordagem de uma paciente no pós-aborto, mas nada pode impedir o médico de alertá-la para a injustiça do ato cometido, e até repreende-la, se ele está convencido de que se trata de uma grave falta de justiça. Por outro lado, seria de fato uma injustiça da parte do médico negar-se a socorrer alguém em estado grave em decorrência de um pós aborto.
Esse tipo de recurso linguístico é altamente sorrateiro, na medida em que pretende aniquilar convicções induzindo aquele que aceita o discurso de que a coisa mais ética a ser feita é negar as suas próprias convicções sem se dar conta de que, na verdade, as está negando.
De todas as frases que li nesse texto, a que mais me chamou à atenção foi a última, pois deixa bem claro que uma das intenções do discurso é promover "a dissociação entre os valores individuais (morais, éticos, religiosos) e a prática
profissional". Essa intenção é de uma monstruosidade alarmante. O primeiro exemplo que me veio à imaginação de um profissional desse tipo foi o de um oficial alemão, instruído em uma educação cristã, à frente de um campo de concentração. E depois, em sua vida privada, gentil com a esposa e zeloso na educação dos filhos. Sim, esse é um exemplo bem claro de alguém que dissociou os seus valores individuais da prática profissional. E pode ter certeza, quem faz isso, se não acaba se corrompendo, acaba enlouquecendo.
Por último, gostaria de citar uma frase que está no Evangelho, tendo sido pronunciada por Cristo e utilizada pelo papa João Paulo II no momento em que se manifestou pela primeira vez como papa. "Não tenhais medo". A principal estratégia dos homens mal intencionados é utilizar o medo para intimidar. Fazem ameaças, a fim de calar a boca dos que apontam claramente as suas injustiças para que recebam a punição que merecem. Mas não podemos ter medo, pois, na verdade, não há motivo para temer. Para isso é necessário ter a convicção de que, ainda que possam até tirar as nossas vidas, jamais vão nos fazer escravos da mentira, da injustiça e cúmplices das suas iniquidades. É preferível ser livre até a morte, se necessário, do que escravos da mentira.
domingo, 22 de julho de 2012
Man's Search for Meaning de Viktor E. Frankl
Estou lendo um livro fabuloso, intitulado, na tradução para o português do Brasil pela editora Vozes, "Em Busca de Sentido", de Viktor E. Frankl. O título em inglês é "Man's Search for Meaning". A edição de 1984 possui três partes. A primeira é o relato da experiência do autor como prisioneiro em um campo de concentração. A segunda parte é um resumo dos fundamentos da logoterapia. A terceira parte é um apêndice intitulado a "Tese do Otimismo Trágico".
A logoterapia é um método de psicoterapia desenvolvido por Viktor E. Frankl. Ficou conhecida como terceira escola vienense de psicoterapia, depois da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler. Não vou me estender mais a respeito da logoterapia; para quem se interessar, recomendo fortemente a leitura desse livro.
Transcrevo aqui uma passagem do livro em que, através de um exemplo, Viktor Frankl mostra em que medida a psicanálise de Freud pode ser mal aplicada para resolver as angústias que decorrem de problemas existenciais.
"Quero citar um exemplo. Um diplomata americano de alto escalão dirigiu-se a meu escritório em Viena a fim de continuar o tratamento psicoanalítico iniciado cinco anos antes com um analista de Nova Iorque. Logo de início perguntei-lhe por que ele pensava que deveria ser analisado, por que, em si, começara com a análise. Revelou-se que o paciente estava descontente com sua carreira e tinha extrema dificuldade em concordar com a política exterior dos Estados Unidos. Seu analista, no entanto, lhe havia dito repetidamente que ele devia tentar reconciliar-se com seu pai, porque o governo dos Estados Unidos bem como seus superiores eram "nada mais" que imagens paternas, e, consequentemente, a insatisfação com o seu emprego se devia ao ódio inconsciente contra o pai. Uma análise que já vinha durando cinco anos induzira o paciente a aceitar cada vez mais as interpretações de seu analista, até que, de tantas árvores de símbolos e imagens, ele não mais conseguiu ver a floresta da realidade. Após algumas poucas entrevistas, ficou claro que a sua vontade de sentido estava sendo frustrada por sua profissão e que na realidade ansiava engajar-se em uma outra espécie de trabalho. Como não tinha motivo para ele não largar sua profissão e abraçar outra, assim o fez, com os mais gratificantes resultados. Em sua nova ocupação, ele está satisfeito já faz mais de cinco anos, conforme relatou há pouco tempo. Duvido que nesse caso eu estivesse lidando com um caso neurótico, e essa é a razão por que pensei que ele não precisava de qualquer psicoterapia, nem mesmo de logoterapia, pela simples razão de, ne realidade, nem ser um paciente. Nem todo conflito é necessariamente neurótico; certa dose de conflito é normal e sadia. De forma similar, o sofrimento não é sempre um fenômeno patológico; em vez de sintoma de neurose, o sofrimento pode ser perfeitamente uma realização humana, especialmente se o sofrimento emana de frustração existencial. Eu negaria categoricamente que a busca por um sentido para a existência da pessoa, ou mesmo sua dúvida a respeito, sempre provenha de alguma doença ou mesmo resulte em doença. A frustração existencial em si mesma não é patológica ou patogênica. A preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial, mas de forma alguma uma doença mental. É bem possível que interpretar aquela em termos desta motive um médico a soterrar o desespero existencial do seu paciente debaixo de um monte de tranquilizantes. Sua função, no entanto, é guiar o paciente através das suas crises existenciais da crescimento e desenvolvimento. "
(Viktor E. Frankl, Em Busca de Sentido, Ed Vozes, 31 Edição, p 127-128)
A logoterapia é um método de psicoterapia desenvolvido por Viktor E. Frankl. Ficou conhecida como terceira escola vienense de psicoterapia, depois da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler. Não vou me estender mais a respeito da logoterapia; para quem se interessar, recomendo fortemente a leitura desse livro.
Transcrevo aqui uma passagem do livro em que, através de um exemplo, Viktor Frankl mostra em que medida a psicanálise de Freud pode ser mal aplicada para resolver as angústias que decorrem de problemas existenciais.
"Quero citar um exemplo. Um diplomata americano de alto escalão dirigiu-se a meu escritório em Viena a fim de continuar o tratamento psicoanalítico iniciado cinco anos antes com um analista de Nova Iorque. Logo de início perguntei-lhe por que ele pensava que deveria ser analisado, por que, em si, começara com a análise. Revelou-se que o paciente estava descontente com sua carreira e tinha extrema dificuldade em concordar com a política exterior dos Estados Unidos. Seu analista, no entanto, lhe havia dito repetidamente que ele devia tentar reconciliar-se com seu pai, porque o governo dos Estados Unidos bem como seus superiores eram "nada mais" que imagens paternas, e, consequentemente, a insatisfação com o seu emprego se devia ao ódio inconsciente contra o pai. Uma análise que já vinha durando cinco anos induzira o paciente a aceitar cada vez mais as interpretações de seu analista, até que, de tantas árvores de símbolos e imagens, ele não mais conseguiu ver a floresta da realidade. Após algumas poucas entrevistas, ficou claro que a sua vontade de sentido estava sendo frustrada por sua profissão e que na realidade ansiava engajar-se em uma outra espécie de trabalho. Como não tinha motivo para ele não largar sua profissão e abraçar outra, assim o fez, com os mais gratificantes resultados. Em sua nova ocupação, ele está satisfeito já faz mais de cinco anos, conforme relatou há pouco tempo. Duvido que nesse caso eu estivesse lidando com um caso neurótico, e essa é a razão por que pensei que ele não precisava de qualquer psicoterapia, nem mesmo de logoterapia, pela simples razão de, ne realidade, nem ser um paciente. Nem todo conflito é necessariamente neurótico; certa dose de conflito é normal e sadia. De forma similar, o sofrimento não é sempre um fenômeno patológico; em vez de sintoma de neurose, o sofrimento pode ser perfeitamente uma realização humana, especialmente se o sofrimento emana de frustração existencial. Eu negaria categoricamente que a busca por um sentido para a existência da pessoa, ou mesmo sua dúvida a respeito, sempre provenha de alguma doença ou mesmo resulte em doença. A frustração existencial em si mesma não é patológica ou patogênica. A preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial, mas de forma alguma uma doença mental. É bem possível que interpretar aquela em termos desta motive um médico a soterrar o desespero existencial do seu paciente debaixo de um monte de tranquilizantes. Sua função, no entanto, é guiar o paciente através das suas crises existenciais da crescimento e desenvolvimento. "
(Viktor E. Frankl, Em Busca de Sentido, Ed Vozes, 31 Edição, p 127-128)
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Bulgária, o país das flores
Em um domingo entrei em uma van contratada pela organização da conferência para nos levar de Sofia para Kiten, uma pequena cidade na costa do mar negro, não muito longe de Istambul. O dia estava nublado, mas quente e abafado por causa da humidade. É verão na Europa, e na Bulgária faz calor. Não tão insuportável quanto o verão no Rio de Janeiro.
O trajeto perfaz uma estrada que corta o país de oeste a leste. O país é montanhoso, sobretudo a oeste, onde o território contém uma boa parcela das montanhas dos balcãs. Cadeias de montanhas rochosas de modesta altura se estendem de oeste a leste, até as proximidades do mar Negro. A estrada foi construída em um vale com belíssimos campos repletos de plantações de girassóis. As casas das vilas rurais nas proximidades da estrada são simples e pobres, mas bonitas. Tem flores nas janelas, hortas no quintal e parreiras para enfeitar a entrada das casas. Como são pobres, nem sempre contem revestimento externo, e, se tem, nem sempre são pintadas. Montanhas de feno fazem lembrar as pinturas européias dos séculos passados.
Em Kiten, um novo cenário se revela. Ruas movimentadas, pequenos prédios de cores vivas, parque de diversão improvisado, crianças nadando nas piscinas dos hotéis... Logo chegamos à entrada do hotel. Era um prédio que se destacava na pequena cidade de Kiten com os seus onze andares. De aparência simples e pouco acabamento, tinha uma arquitetura peculiar. Esse hotel pertencente a universidade me fez lembrar muito as colônias de férias da Associação de Funcionários Públicos de São Paulo. Apenas dois elevadores para todo o hotel, sendo que: (i) um deles estava quebrado; (ii) dois era o limite máximo de ocupantes no elevador e (iii) um deles fazia apenas andares ímpares e o outro apenas andares pares e, finalmente (iv) cada andar tinha seis apartamentos cada um com quatro camas! Mas o hotel não estava lotado nem os apartamentos. Fiquei sozinho no meu apartamento, pois o meu suposto colega de quarto mudou-se para o quarto do seu amigo. Menos mal...
Mas esses são apenas detalhes... Pelo preço da conferência estava até barato. As refeições eram boas e o quarto tinha até uma varanda com um largo varal para estender as roupas. Bom, a comida na Bulgária também é peculiar, mas bastante adaptável ao paladar brasileiro. Há uma diversidade muito grande de saladas. A salada de pepino com tomate não faltou em nenhuma refeição, nem mesmo no café da manhã. Com acréscimo de um queijo branco ralado típico da Bulgária, vira a "salada Chopska". Também é muito comum encontrar carne grelhada, de todos os tipos. Há que tomar certo cuidado, pois no caso de a carne não ser grelhada, pode ser gordurosa demais... Além disso, há que tomar cuidado com a quantidade inumerável de pequenos quiosques vendendo churrasco grego com batata frita. Não me arrisquei... Mas Bulgária é famosa também pelo seu Yogurt e o que experimentei de fato era bom. Fui informado de que existe uma variedade de bactéria típica da Bulgária para produzi-lo.
As primeiras impressões que tive sobre a Bulgária foram totalmente contrariadas após algum tempo em Kiten. Ali, onde a liberdade de um novo mundo livre deixou o verdadeiro espírito do povo aflorar, entendi melhor qual era a verdadeira fisionomia do povo búlgaro. E o que vi me lembrou um pouco um mundo de brinquedo, de menina, talvez. Cores muito vivas, muitas vezes o cor de rosa na fachada das casas, flores nas varandas, aromas de óleos e cosméticos de rosa, letreiros com fontes chamativas e cores quentes, bares com decoração extravagante, poltronas ostensivas em vez de bancos nos bares e restaurantes. Depois de um tempo, tudo começa a parecer irreal, quase ilusório, doce demais. Em todo canto, a cada metro quadrado, havia um quiosque repleto de roupas extravagantes à moda antiga penduradas em cabides para a montagem de fotos envelhecidas. Tão artificial que chegava a ser repulsivo.
O povo búlgaro é bonito, mas sempre há exceções, como em todo o lugar. Encontra-se ali uma variedade muito grande de fenótipos, o que é reflexo da confluência muito grande de diferentes povos na região ao longo da história. Mas o perfil dominante é europeu, e não turco ou asiático. Não há dúvida; milagrosamente, os búlgaros sobreviveram a uma dominação do império turco-otomano de mais de 500 anos. Mas sobre isso voltarei a falar depois.
Pelo incrível que pareça, o Mar Negro não é negro. Suas águas esverdeadas são mais transparentes e limpas do que a média das nossas praias paulistanas. E, no verão, as águas são quentes, como a do Nordeste. Acho que não se fica muito longe da verdade ao imaginar a costa do Mar Negro como a Flórida da antiga União Soviética. Eu e mais dois estudantes vindos da Suécia, um de origem australiana e outro de origem tcheca, no Mar Negro. E imaginar que esses dois estudantes descendiam de homens que tinham sido prisioneiros de guerra... Não era só imaginação, era fato. Um dos avós do Australiano foi prisioneiro dos japoneses; era obrigado a andar agachado na frente dos soldados japoneses para não por em evidência sua superioridade em estatura; caso contrário, era castigado com tapas e humilhações.
Um estudante búlgaro me surpreendeu ao me perguntar sobre a fábrica de motores elétricos WEG. Fiquei quase emocionado quando ele me falou sobre as qualidades desses motores, elogiando as soluções propostas por seus engenheiros e implorando por mais informações a respeito dessa empresa. Não pude dizer nada além de que ela ficava em algum lugar de Santa Catarina. Acho que se me tivesse perguntado sobre samba poderia ter-lhe dado mais informações. Era um sujeito um tanto quanto peculiar, simpático, levemente autista, apaixonado pela engenharia dos motores elétricos. De acordo com ele, a Bulgária já foi uma grande potência em motores elétricos. Ao comentar com ele sobre a impressão que tive ao conhecer Sofia, me fez ver as coisas com outra perspectiva mais uma vez. Aqueles prédios toscos, que tinham me transmitido uma impressão não muito agradável, teriam sido construídos, segundo ele, em um período de pós-guerra, quando a uma grande quantidade de migrantes do campo arruinados pela guerra foi dada um chance de reconstruir a vida na cidade, trabalhando nas fábricas. De acordo com ele, embora os prédios não sejam lá essas coisas em beleza, são robustos o suficiente para aguentar os abalos sísmicos. Sua visão favorável ao regime socialista ficou clara; na sua perspectiva, durante seus 23 anos de vida testemunhou e assistiu o país cair em uma grande depressão e mediocridade. A admirável indústria de motores elétricos simplesmente acabou. Uma significativa parcela da população búlgara emigrou para fora. Sobraram muitos ciganos e turcos, que, de acordo com ele, formam uma sociedade a parte. A propriedade dos búlgaros estaria constantemente ameaçada pelos ciganos.
Ao entrar em uma rede de restaurante "fast food" espalhada por vários pontos do país fiquei pasmado com as fotos de mulheres sensuais seminuas espalhadas por todos os cantos. Acho que isso faria qualquer brasileiro médio corar de pudor. Que a mulher seja explorada como objeto em propagandas na civilização ocidental moderna não é novidade para ninguém, mas aquilo era descarado demais para aquele tipo de ambiente, onde a qualquer momento poderia entrar marido e mulher com seus filhos. Nas propagandas e nas ruas de Sofia, nota-se em alguns lugares, à plena luz do dia, um ambiente carregado desse tipo de comércio sujo. Os guias que me foram distribuídos junto com o material da conferência mostravam, ao lado da propaganda de um restaurante, uma propaganda de baixo nível como se fosse a coisa mais normal do mundo. Em alguns lugares sente-se no ar um clima de hedonismo corrosivo e putrefaço. Suspeito que o mesmo ocorra em muitos outros lugares desse universo do leste europeu. E também deste universo tupiniquim.
No entanto, vi também muitas famílias jovens, com mais de um filho, passando suas férias em Kiten. Suspeito que o mundo sempre foi palco de grandes contrastes. A loucura do mundo moderno é pensar que pode relativizá-los. Ao entrar em uma loja que vendia ícones orientais e jóias, uma belíssima atendente que falava inglês comentou um pouco sobre o modo como encarava o cristianismo. Diferentemente de nós, católicos, as verdades de fé e a crença em Jesus Cristo Filho de Deus não são tão relevantes. O cristianismo é apenas uma atitude, uma roupagem indispensável para a composição da cultura búlgara. Alguns santos búlgaros, com os seus atos heróicos de defesa aos pobres e à pátria, poderiam ser colocados no mesmo patamar ou acima de Jesus. Enfim, Jesus seria apenas mais um entre esses homens santos, admiráveis, dignos de simpatia e veneração. O que o meu amigo búlgaro fez ao comentar a respeito do assunto foi apenas generalizar aquela atitude particular; a sua impressão, na perspectiva de alguém que se declarou agnóstico, era a de que o cristianismo era encarado pela maior parte das pessoas na Bulgária apenas como uma roupagem, sem a menor influência em suas vidas.
Há ainda tantas outras coisas para falar, mas vou deixar para a próxima postagem... To be continued...
O trajeto perfaz uma estrada que corta o país de oeste a leste. O país é montanhoso, sobretudo a oeste, onde o território contém uma boa parcela das montanhas dos balcãs. Cadeias de montanhas rochosas de modesta altura se estendem de oeste a leste, até as proximidades do mar Negro. A estrada foi construída em um vale com belíssimos campos repletos de plantações de girassóis. As casas das vilas rurais nas proximidades da estrada são simples e pobres, mas bonitas. Tem flores nas janelas, hortas no quintal e parreiras para enfeitar a entrada das casas. Como são pobres, nem sempre contem revestimento externo, e, se tem, nem sempre são pintadas. Montanhas de feno fazem lembrar as pinturas européias dos séculos passados.
Em Kiten, um novo cenário se revela. Ruas movimentadas, pequenos prédios de cores vivas, parque de diversão improvisado, crianças nadando nas piscinas dos hotéis... Logo chegamos à entrada do hotel. Era um prédio que se destacava na pequena cidade de Kiten com os seus onze andares. De aparência simples e pouco acabamento, tinha uma arquitetura peculiar. Esse hotel pertencente a universidade me fez lembrar muito as colônias de férias da Associação de Funcionários Públicos de São Paulo. Apenas dois elevadores para todo o hotel, sendo que: (i) um deles estava quebrado; (ii) dois era o limite máximo de ocupantes no elevador e (iii) um deles fazia apenas andares ímpares e o outro apenas andares pares e, finalmente (iv) cada andar tinha seis apartamentos cada um com quatro camas! Mas o hotel não estava lotado nem os apartamentos. Fiquei sozinho no meu apartamento, pois o meu suposto colega de quarto mudou-se para o quarto do seu amigo. Menos mal...
Mas esses são apenas detalhes... Pelo preço da conferência estava até barato. As refeições eram boas e o quarto tinha até uma varanda com um largo varal para estender as roupas. Bom, a comida na Bulgária também é peculiar, mas bastante adaptável ao paladar brasileiro. Há uma diversidade muito grande de saladas. A salada de pepino com tomate não faltou em nenhuma refeição, nem mesmo no café da manhã. Com acréscimo de um queijo branco ralado típico da Bulgária, vira a "salada Chopska". Também é muito comum encontrar carne grelhada, de todos os tipos. Há que tomar certo cuidado, pois no caso de a carne não ser grelhada, pode ser gordurosa demais... Além disso, há que tomar cuidado com a quantidade inumerável de pequenos quiosques vendendo churrasco grego com batata frita. Não me arrisquei... Mas Bulgária é famosa também pelo seu Yogurt e o que experimentei de fato era bom. Fui informado de que existe uma variedade de bactéria típica da Bulgária para produzi-lo.
As primeiras impressões que tive sobre a Bulgária foram totalmente contrariadas após algum tempo em Kiten. Ali, onde a liberdade de um novo mundo livre deixou o verdadeiro espírito do povo aflorar, entendi melhor qual era a verdadeira fisionomia do povo búlgaro. E o que vi me lembrou um pouco um mundo de brinquedo, de menina, talvez. Cores muito vivas, muitas vezes o cor de rosa na fachada das casas, flores nas varandas, aromas de óleos e cosméticos de rosa, letreiros com fontes chamativas e cores quentes, bares com decoração extravagante, poltronas ostensivas em vez de bancos nos bares e restaurantes. Depois de um tempo, tudo começa a parecer irreal, quase ilusório, doce demais. Em todo canto, a cada metro quadrado, havia um quiosque repleto de roupas extravagantes à moda antiga penduradas em cabides para a montagem de fotos envelhecidas. Tão artificial que chegava a ser repulsivo.
O povo búlgaro é bonito, mas sempre há exceções, como em todo o lugar. Encontra-se ali uma variedade muito grande de fenótipos, o que é reflexo da confluência muito grande de diferentes povos na região ao longo da história. Mas o perfil dominante é europeu, e não turco ou asiático. Não há dúvida; milagrosamente, os búlgaros sobreviveram a uma dominação do império turco-otomano de mais de 500 anos. Mas sobre isso voltarei a falar depois.
Pelo incrível que pareça, o Mar Negro não é negro. Suas águas esverdeadas são mais transparentes e limpas do que a média das nossas praias paulistanas. E, no verão, as águas são quentes, como a do Nordeste. Acho que não se fica muito longe da verdade ao imaginar a costa do Mar Negro como a Flórida da antiga União Soviética. Eu e mais dois estudantes vindos da Suécia, um de origem australiana e outro de origem tcheca, no Mar Negro. E imaginar que esses dois estudantes descendiam de homens que tinham sido prisioneiros de guerra... Não era só imaginação, era fato. Um dos avós do Australiano foi prisioneiro dos japoneses; era obrigado a andar agachado na frente dos soldados japoneses para não por em evidência sua superioridade em estatura; caso contrário, era castigado com tapas e humilhações.
Um estudante búlgaro me surpreendeu ao me perguntar sobre a fábrica de motores elétricos WEG. Fiquei quase emocionado quando ele me falou sobre as qualidades desses motores, elogiando as soluções propostas por seus engenheiros e implorando por mais informações a respeito dessa empresa. Não pude dizer nada além de que ela ficava em algum lugar de Santa Catarina. Acho que se me tivesse perguntado sobre samba poderia ter-lhe dado mais informações. Era um sujeito um tanto quanto peculiar, simpático, levemente autista, apaixonado pela engenharia dos motores elétricos. De acordo com ele, a Bulgária já foi uma grande potência em motores elétricos. Ao comentar com ele sobre a impressão que tive ao conhecer Sofia, me fez ver as coisas com outra perspectiva mais uma vez. Aqueles prédios toscos, que tinham me transmitido uma impressão não muito agradável, teriam sido construídos, segundo ele, em um período de pós-guerra, quando a uma grande quantidade de migrantes do campo arruinados pela guerra foi dada um chance de reconstruir a vida na cidade, trabalhando nas fábricas. De acordo com ele, embora os prédios não sejam lá essas coisas em beleza, são robustos o suficiente para aguentar os abalos sísmicos. Sua visão favorável ao regime socialista ficou clara; na sua perspectiva, durante seus 23 anos de vida testemunhou e assistiu o país cair em uma grande depressão e mediocridade. A admirável indústria de motores elétricos simplesmente acabou. Uma significativa parcela da população búlgara emigrou para fora. Sobraram muitos ciganos e turcos, que, de acordo com ele, formam uma sociedade a parte. A propriedade dos búlgaros estaria constantemente ameaçada pelos ciganos.
Ao entrar em uma rede de restaurante "fast food" espalhada por vários pontos do país fiquei pasmado com as fotos de mulheres sensuais seminuas espalhadas por todos os cantos. Acho que isso faria qualquer brasileiro médio corar de pudor. Que a mulher seja explorada como objeto em propagandas na civilização ocidental moderna não é novidade para ninguém, mas aquilo era descarado demais para aquele tipo de ambiente, onde a qualquer momento poderia entrar marido e mulher com seus filhos. Nas propagandas e nas ruas de Sofia, nota-se em alguns lugares, à plena luz do dia, um ambiente carregado desse tipo de comércio sujo. Os guias que me foram distribuídos junto com o material da conferência mostravam, ao lado da propaganda de um restaurante, uma propaganda de baixo nível como se fosse a coisa mais normal do mundo. Em alguns lugares sente-se no ar um clima de hedonismo corrosivo e putrefaço. Suspeito que o mesmo ocorra em muitos outros lugares desse universo do leste europeu. E também deste universo tupiniquim.
No entanto, vi também muitas famílias jovens, com mais de um filho, passando suas férias em Kiten. Suspeito que o mundo sempre foi palco de grandes contrastes. A loucura do mundo moderno é pensar que pode relativizá-los. Ao entrar em uma loja que vendia ícones orientais e jóias, uma belíssima atendente que falava inglês comentou um pouco sobre o modo como encarava o cristianismo. Diferentemente de nós, católicos, as verdades de fé e a crença em Jesus Cristo Filho de Deus não são tão relevantes. O cristianismo é apenas uma atitude, uma roupagem indispensável para a composição da cultura búlgara. Alguns santos búlgaros, com os seus atos heróicos de defesa aos pobres e à pátria, poderiam ser colocados no mesmo patamar ou acima de Jesus. Enfim, Jesus seria apenas mais um entre esses homens santos, admiráveis, dignos de simpatia e veneração. O que o meu amigo búlgaro fez ao comentar a respeito do assunto foi apenas generalizar aquela atitude particular; a sua impressão, na perspectiva de alguém que se declarou agnóstico, era a de que o cristianismo era encarado pela maior parte das pessoas na Bulgária apenas como uma roupagem, sem a menor influência em suas vidas.
Há ainda tantas outras coisas para falar, mas vou deixar para a próxima postagem... To be continued...
sábado, 23 de junho de 2012
Crônica sobre um casamento em Sofia, Bulgária, junho de 2012
Em um sábado cheguei em Sofia, capital da Bulgária. O tempo que dediquei aprendendo o alfabeto cirílico valeu a pena. É verdade que ainda não consigo ler com fluência, mas se não soubesse as regras para decodificá-lo ficaria boiando o tempo todo e uma sensação de estar em outro planeta poderia atingir fatalmente meu estado de ânimo. Além disso, ganhei algo a mais ao compreender que os alfabetos na verdade foram originalmente planejados para adequadequar-se a uma língua, cada letra correspondendo exatamente ao som dos fonemas. De fato, o alfabeto latino é únivoco para o latim, e o grego para o grego, mas para tantas outras línguas, como a nossa, uma mesma sílaba pode ter diversos sons diferentes (e.g. lixo e prolixo). Esse tipo de ambiguidade muito dificilmente acontece com essas línguas eslávicas para as quais o alfabeto cirílico foi "projetado".
De qualquer modo, muitos outros aspectos dessa cidade me fizeram ter a impressão de estar em um outro mundo. E suspeito que isso tem muito a ver com o fato de essa cidade ter pertencido a um outro universo no passado recente: o universo do mundo socialista. Mas, além de fazer algum comentários a respeito disso, não poderia deixar de expressar nesse texto minhas impressões sobre um acontecimento da vida pública e privada que testemunhei com meus próprios olhos: um casamento em uma Igreja Católica Romana. Deixarei para o leitor o trabalho de estabelecer a relação desse fato com as realidades do mundo socialista.
Assim que me instalei no hotel em Sofia, por volta das quatro horas da tarde, procurei me informar sobre a Igreja Católica de Sofia. Já sabia que havia uma lá, na região central da cidade. Na verdade, a Igreja cristã ortodoxa é maioria no país, mas há uma pequena porcentagem de católicos. Pedi ajuda à atendente do hotel e ela foi muitíssimo solícita; mesmo não sabendo onde ficava, fez uma rápida pesquisa na Internet, encontrou o endereço e me explicou como fazer para chegar lá de bonde. Parênteses: o bonde faz em Sofia o mesmo papel que o Metro faz em São Paulo, mas não imaginem que Sofia tem a mesma demanda e dinamismo que São Paulo; muito, mais muito longe mesmo está disso.
A viagem de bonde me fez percorrer aquele cenário de pequenos prédios cinzentos, muito parecidos, modestamente dotados de beleza arquitetônica, quase todos pixados ou repletos de ilustrações proveniente da "arte" dos graviteiros. Quase todos com roupas estendidadas na varanda, mas sem o mesmo colorido e alegria de Lisboa. Alguns rapazes treinando boxe em praça pública, sem camiseta - parece ser esse um esporte muito popular no país. O calor intenso e húmido do verão lembra muito Porto Alegre na mesma época do ano. As lojinhas, mercearias, bares e restaurantes no térreo dos prédios ora dão um aspecto atrativo, ora lembram mais o comércio brega dos centros das cidades do Brasil, mas sem chegar, nem de perto, àquele nível, quase insuperável, de mau gosto. Uma ou outra construção moderna, shopping ou prédio comercial, aparece de repente, destoando do conjunto e sem oferecer nem mesmo uma beleza própria para compensar. E, de repente, uma grande construção chapada, cinzenta, larga, toda pixada com um monumento ao lado da sua imensa porta retratando uma mãe robusta e peituda com vários filhos a ela agarrados... Lembrança dos tempos "áureos" de socialismo!
Ao descer na penúltima estação (Jenski Pazar - "Mercado da mulher"), fui pedir informação a um casal de jovens que encontrei na rua. Estava seguindo a dica dada por um jovem com quem falei em inglês no bonde de que boa parte dos jovens de lá sabiam falar inglês. Disto tenho quase certeza: não deve ser muito difícil, em qualquer lugar do mundo em que se esteja, discernir dentre a multidão os jovens bem educados que provavelmente sabem falar inglês... Conseguimo-nos comunicar maravilhosamente e me explicou o melhor caminho para chegar onde queria. O rapaz era muito simpático, mas para minha decepção, e de sua namorada, perguntou-me se era verdade que as meninas do Brasil dormem de bruços para não ficar com a bunda chata. Fiz de conta que não entendi a piada, e respondi que nunca tinha ouvido tal explicação e com toda a fleuma atribui tal fenômeno à mistura afro-européia típica do Brasil. "I don't believe you have asked it", foi tudo o que disse a namorada... E tudo isso depois de dizer que estava procurando a Igreja para ir à Missa...
Muito bem, logo encontrei a Igreja, sem antes ficar bastante atordoado com o som dos sinos das seis horas, que, refletindo nas paredes dos prédios, parecia vir de todos os lados. Fenômeno físico muito interessante, 100% análogo ao fenômeno do homem que pretende confundir o seu perseguidor refletindo sua imagem em uma sala com muitos espelhos (cena típica de muitos e muitos filmes, não é verdade?).
Aviso: nesse parágrafo, não serei irônico ou algo pior do que isso. Quando cheguei à Igreja, 17h00, um casamento tinha acabado de terminar. Era uma cena bonita, com pessoas elegantes, mas não muitas. Em um momento jogaram pétalas de flor sobre os cônjuges. Noutro reuniram-se todos para tirar uma grande foto.
Dessa vez o jovem casal que encontrei não sabia falar inglês (nota: o não, "ne", em búlgaro, é respondido com um movimento vertical da cabeça. E o sim, "da", advinhem só com que movimento é respondido...). Mas havia um placa com a tabela de horários em inglês. Para minha alegria, haveria uma Missa às 18h00! Então fiquei esperando e logo descobri que durante aquela Missa seria celebrado um outro casamento (um outro casal que sabia falar inglês me informou). Os noivos estavam do lado de fora. Um senhor americano a quem dessa vez ajudei a encontrar a informação sobre os horários da Missa não pode deixar de observar que a noiva estava bonita. E era verdade; embora a noiva não tivesse uma beleza acima do normal para um mulher, mesmo sendo alta, havia algo nela como noiva realmente belo. Pareceu-me uma noiva realmente autêntica. Seu vestido era simples, mas perfeito. Não havia uma multidão, mas aquelas pessoas que ali estavam realmente impressionavam pela elegância. Os noivos - e nós também - tiveram a sorte de contar com um excelente organista e um excelente cantor durante toda a celebração litúrgica. O jovem frei franciscano que celebrou a Missa - de casula - o fez com rigor e piedade, transmitindo paz e alegria. Cantos em latim e comunhão na boca ("Deo Gratias")! Uma senhora quis "pegar" a hóstia com a mão e foi impedida ("please wake me my Lord, I said, it must be a dream!"). Depois, ao fim da Missa, vi o confessionário sendo utilizado ("that is definitely a dream, not real world!").
A maior parte das pessoas que foram para o casamento não estavam entendendo nada do que estava acontecendo, apenas alguns poucos lá no fundo a estavam acompahando e provavelmente desses a maior parte tinha ido lá só para a Missa, como eu. Esse mesmo tipo de fenômeno é agora observado em todos os casamentos no Brasil. A diferença é que no Brasil, teoricamente, somos uma maioria de católicos. E, podemos ter certeza; transformar a Missa em um "show da Xuxa" só agrava a situação. Quem é ignorante fica mais ignorante, pois nem mesmo lhe é dada a chance de testemunhar a beleza da liturgia, e o fiel, que teve a sorte de conhecer essa beleza, acaba ficando muito frustrado. Pior para todos.
Não pude deixar de observar que as moças usavam uns penteados sofisticados muito bonitos e estavam muito elegantes, sem apelar para a sensualidade. Ao contrário do Brasil, parece que a maioria na Bulgária tem o mínimo de 'semancol' para escolher um vestido apropriado para um casamento, sem que isso diminua em nada a sua elegância (na verdade, a maiorira no Brasil tem esse "semancol", mas há umas poucas que acabam fazendo a má fama de todas). E, para ser bem sincero, elas ficam bem mais elegantes do que as que não tem "semancol". Outra coisa que não me passou despercebida foi a riqueza das fragrâncias dos perfurmes. Nunca senti algo igual antes; perfumes muito agradáveis, que não despertam a sensualidade, não são enjoativos e no entanto não se parecem com os perfurmes "para senhoras mais velhas". Como disse, nunca senti nem mesmo algo semelhante antes.
Enfim, saí daquele pedaço de sonho, para voltar à realidade do mundo cão. E não deixei de observar alguns cães na rua, alguns grandes, que me fizeram lembrar daquelas numerosas matilhas uspianas de cachorro. Então passou pela minha cabeça que, se me perguntassem como é Sofia, por analogia, responderia: "conheces as residências universitárias das Universidades Públicas do Brasil, como o CRUSP (USP) ou a residência da Unicamp? Imagine que elas fossem uma cidade inteira; o resultado seria então uma cidade de um país socialista. Acrescenta aí algumas belas construções anteriores ao mundo socialista (Igrejas, óperas, palácios) e algum lixo descartável do mundo capitalista atual (shoppings) e você terá uma cidade como Sofia."
Por isso, me pergunto: qual é a verdadeira fonte para uma cultura capaz de desenvolver toda a potencialidade de cada ser humano? Não tenho dúvida que boa parte dos homens que construíram aquelas residências no mundo comunista o fizeram com idealismo, desejosos de ver todos desfrutando de uma moradia de qualidade. Mas o melhor que conseguiram fazer, e não por sua culpa, foi um "huge" CRUSP. Por quê?
De qualquer modo, muitos outros aspectos dessa cidade me fizeram ter a impressão de estar em um outro mundo. E suspeito que isso tem muito a ver com o fato de essa cidade ter pertencido a um outro universo no passado recente: o universo do mundo socialista. Mas, além de fazer algum comentários a respeito disso, não poderia deixar de expressar nesse texto minhas impressões sobre um acontecimento da vida pública e privada que testemunhei com meus próprios olhos: um casamento em uma Igreja Católica Romana. Deixarei para o leitor o trabalho de estabelecer a relação desse fato com as realidades do mundo socialista.
Assim que me instalei no hotel em Sofia, por volta das quatro horas da tarde, procurei me informar sobre a Igreja Católica de Sofia. Já sabia que havia uma lá, na região central da cidade. Na verdade, a Igreja cristã ortodoxa é maioria no país, mas há uma pequena porcentagem de católicos. Pedi ajuda à atendente do hotel e ela foi muitíssimo solícita; mesmo não sabendo onde ficava, fez uma rápida pesquisa na Internet, encontrou o endereço e me explicou como fazer para chegar lá de bonde. Parênteses: o bonde faz em Sofia o mesmo papel que o Metro faz em São Paulo, mas não imaginem que Sofia tem a mesma demanda e dinamismo que São Paulo; muito, mais muito longe mesmo está disso.
A viagem de bonde me fez percorrer aquele cenário de pequenos prédios cinzentos, muito parecidos, modestamente dotados de beleza arquitetônica, quase todos pixados ou repletos de ilustrações proveniente da "arte" dos graviteiros. Quase todos com roupas estendidadas na varanda, mas sem o mesmo colorido e alegria de Lisboa. Alguns rapazes treinando boxe em praça pública, sem camiseta - parece ser esse um esporte muito popular no país. O calor intenso e húmido do verão lembra muito Porto Alegre na mesma época do ano. As lojinhas, mercearias, bares e restaurantes no térreo dos prédios ora dão um aspecto atrativo, ora lembram mais o comércio brega dos centros das cidades do Brasil, mas sem chegar, nem de perto, àquele nível, quase insuperável, de mau gosto. Uma ou outra construção moderna, shopping ou prédio comercial, aparece de repente, destoando do conjunto e sem oferecer nem mesmo uma beleza própria para compensar. E, de repente, uma grande construção chapada, cinzenta, larga, toda pixada com um monumento ao lado da sua imensa porta retratando uma mãe robusta e peituda com vários filhos a ela agarrados... Lembrança dos tempos "áureos" de socialismo!
Ao descer na penúltima estação (Jenski Pazar - "Mercado da mulher"), fui pedir informação a um casal de jovens que encontrei na rua. Estava seguindo a dica dada por um jovem com quem falei em inglês no bonde de que boa parte dos jovens de lá sabiam falar inglês. Disto tenho quase certeza: não deve ser muito difícil, em qualquer lugar do mundo em que se esteja, discernir dentre a multidão os jovens bem educados que provavelmente sabem falar inglês... Conseguimo-nos comunicar maravilhosamente e me explicou o melhor caminho para chegar onde queria. O rapaz era muito simpático, mas para minha decepção, e de sua namorada, perguntou-me se era verdade que as meninas do Brasil dormem de bruços para não ficar com a bunda chata. Fiz de conta que não entendi a piada, e respondi que nunca tinha ouvido tal explicação e com toda a fleuma atribui tal fenômeno à mistura afro-européia típica do Brasil. "I don't believe you have asked it", foi tudo o que disse a namorada... E tudo isso depois de dizer que estava procurando a Igreja para ir à Missa...
Muito bem, logo encontrei a Igreja, sem antes ficar bastante atordoado com o som dos sinos das seis horas, que, refletindo nas paredes dos prédios, parecia vir de todos os lados. Fenômeno físico muito interessante, 100% análogo ao fenômeno do homem que pretende confundir o seu perseguidor refletindo sua imagem em uma sala com muitos espelhos (cena típica de muitos e muitos filmes, não é verdade?).
Aviso: nesse parágrafo, não serei irônico ou algo pior do que isso. Quando cheguei à Igreja, 17h00, um casamento tinha acabado de terminar. Era uma cena bonita, com pessoas elegantes, mas não muitas. Em um momento jogaram pétalas de flor sobre os cônjuges. Noutro reuniram-se todos para tirar uma grande foto.
Dessa vez o jovem casal que encontrei não sabia falar inglês (nota: o não, "ne", em búlgaro, é respondido com um movimento vertical da cabeça. E o sim, "da", advinhem só com que movimento é respondido...). Mas havia um placa com a tabela de horários em inglês. Para minha alegria, haveria uma Missa às 18h00! Então fiquei esperando e logo descobri que durante aquela Missa seria celebrado um outro casamento (um outro casal que sabia falar inglês me informou). Os noivos estavam do lado de fora. Um senhor americano a quem dessa vez ajudei a encontrar a informação sobre os horários da Missa não pode deixar de observar que a noiva estava bonita. E era verdade; embora a noiva não tivesse uma beleza acima do normal para um mulher, mesmo sendo alta, havia algo nela como noiva realmente belo. Pareceu-me uma noiva realmente autêntica. Seu vestido era simples, mas perfeito. Não havia uma multidão, mas aquelas pessoas que ali estavam realmente impressionavam pela elegância. Os noivos - e nós também - tiveram a sorte de contar com um excelente organista e um excelente cantor durante toda a celebração litúrgica. O jovem frei franciscano que celebrou a Missa - de casula - o fez com rigor e piedade, transmitindo paz e alegria. Cantos em latim e comunhão na boca ("Deo Gratias")! Uma senhora quis "pegar" a hóstia com a mão e foi impedida ("please wake me my Lord, I said, it must be a dream!"). Depois, ao fim da Missa, vi o confessionário sendo utilizado ("that is definitely a dream, not real world!").
A maior parte das pessoas que foram para o casamento não estavam entendendo nada do que estava acontecendo, apenas alguns poucos lá no fundo a estavam acompahando e provavelmente desses a maior parte tinha ido lá só para a Missa, como eu. Esse mesmo tipo de fenômeno é agora observado em todos os casamentos no Brasil. A diferença é que no Brasil, teoricamente, somos uma maioria de católicos. E, podemos ter certeza; transformar a Missa em um "show da Xuxa" só agrava a situação. Quem é ignorante fica mais ignorante, pois nem mesmo lhe é dada a chance de testemunhar a beleza da liturgia, e o fiel, que teve a sorte de conhecer essa beleza, acaba ficando muito frustrado. Pior para todos.
Não pude deixar de observar que as moças usavam uns penteados sofisticados muito bonitos e estavam muito elegantes, sem apelar para a sensualidade. Ao contrário do Brasil, parece que a maioria na Bulgária tem o mínimo de 'semancol' para escolher um vestido apropriado para um casamento, sem que isso diminua em nada a sua elegância (na verdade, a maiorira no Brasil tem esse "semancol", mas há umas poucas que acabam fazendo a má fama de todas). E, para ser bem sincero, elas ficam bem mais elegantes do que as que não tem "semancol". Outra coisa que não me passou despercebida foi a riqueza das fragrâncias dos perfurmes. Nunca senti algo igual antes; perfumes muito agradáveis, que não despertam a sensualidade, não são enjoativos e no entanto não se parecem com os perfurmes "para senhoras mais velhas". Como disse, nunca senti nem mesmo algo semelhante antes.
Enfim, saí daquele pedaço de sonho, para voltar à realidade do mundo cão. E não deixei de observar alguns cães na rua, alguns grandes, que me fizeram lembrar daquelas numerosas matilhas uspianas de cachorro. Então passou pela minha cabeça que, se me perguntassem como é Sofia, por analogia, responderia: "conheces as residências universitárias das Universidades Públicas do Brasil, como o CRUSP (USP) ou a residência da Unicamp? Imagine que elas fossem uma cidade inteira; o resultado seria então uma cidade de um país socialista. Acrescenta aí algumas belas construções anteriores ao mundo socialista (Igrejas, óperas, palácios) e algum lixo descartável do mundo capitalista atual (shoppings) e você terá uma cidade como Sofia."
Por isso, me pergunto: qual é a verdadeira fonte para uma cultura capaz de desenvolver toda a potencialidade de cada ser humano? Não tenho dúvida que boa parte dos homens que construíram aquelas residências no mundo comunista o fizeram com idealismo, desejosos de ver todos desfrutando de uma moradia de qualidade. Mas o melhor que conseguiram fazer, e não por sua culpa, foi um "huge" CRUSP. Por quê?
sexta-feira, 8 de junho de 2012
"Why I am a Christian" de Henry Margenau
Esse texto, Henry Margenau, um físico que participou dos avanços da física no começo do século XX, entitulado "Why I am a Christian", contem muitos fatos interessantes. Não o divulgo por proselitismo, mas pelo interesse histórico. Até os 22 anos ele não entendia nada de física; apenas de latim. Não é por nada que Gleb Wataghin lamentou o fim do latim nas escolas. Entre muitos fatos interessantes que divulga, está o testemunho de Heisenberg, que deliberadamente impediu o desenvolvimento da bomba atômica na Alemanha. E podem ter certeza, os alemães naquela época eram melhores em física do que os americanos; eles teriam conseguido se os melhores físicos quisessem.
Vale à pena ler esse texto.
http://www.leaderu.com/truth/1truth16.html
Vale à pena ler esse texto.
http://www.leaderu.com/truth/1truth16.html
domingo, 29 de abril de 2012
O Caminho da Física. Parte I
Costuma-se dizer que a física é uma ciência fundamentada sobre o princípio da indução. Em poucas palavras, isso significa que todas as suas conclusões universalmente válidas são formuladas depois de um número finito de experimentos que sempre conduzem aos mesmos resultados. Desse modo, afirmações universalmente válidas, como por exemplo, "não havendo obstáculos, todo objeto abandonado por um observador na terra executa uma trajetória de queda", ou, "sempre que uma corrente elétrica flui por um fio condutor, um campo magnético pode ser medido nas imediações do fio", são verdadeiras porque sempre que se realizou o experimento, o mesmo efeito se observou. Essas afirmações não garantem que os efeitos enunciados se cumprirão necessariamente em um próximo experimento, pois a conclusão indutiva sempre se baseia em um número finito de experimentos anteriores.
No entanto, alguém poderia imaginar que a física deveria também ter exemplos de conclusões fundamentadas no princípio da dedução. Einstein criou uma teoria postulando que a velocidade da luz é constante e que as leis da física são as mesmas qualquer que seja o referencial inercial no qual um observador realize um experimento. A partir desses postulados, chega-se à conclusão de que o espaço e o tempo são necessariamente relativos.
Antes de Einstein ter chegado à essa conclusão, nunca nenhum observador tinha percebido que o tempo e o espaço dependem do referencial. Além disso, Einstein alegou que tinha desconhecimento dos experimentos de sua época que não identificaram diferenças na velocidade da luz ao ser medida em diferentes referenciais. Apesar disso, depois da sua formulação, nunca foi obtido nenhum resultado experimental inconsistente com as conclusões da teoria da relatividade restrita.
Isso significa então que a física quebrou o paradigma do processo indutivo como método único para chegar às suas conclusões? Sim, mas é necessário entender que foram necessárias muitas conclusões fundamentadas em processos indutivos para que tenha chegado a essa possibilidade. Isso porque a teoria de Einstein pressupõe a existência de leis físicas, postuladas invariantes pela sua teoria. Em particular, a teoria de Einstein se refere às leis expressas pelas equações de Maxwell. Essas equações se estabeleceram na física como a ferramenta que descreve de maneira mais simples e completa as observações experimentais envolvendo campos elétricos e magnéticos, correntes elétricas e carga elétrica. Foram obtidas a partir de um processo indutivo, isto é, sua única justificativa é experimental, não havendo nenhuma dedução partindo de algum enunciado mais geral a partir da qual elas tenham sido deduzidas.
Já se sabia antes de Einstein que as equações de Maxwell só poderiam ser invariantes com relação ao referencial se o espaço e o tempo fossem relativos. Einstein postulou sem provar a invariância das leis da física e aceitou a relatividade do espaço e do tempo que decorrem como conclusão lógica de seus postulados. Se não havia nenhuma evidência experimental a respeito da relatividade do espaço e do tempo, o que deu segurança para Einstein estabelecer aqueles postulados?
Einstein fez uma escolha -- que talvez alguns possam considerar arbitrária e subjetiva -- fundamentada em uma expectativa de que a natureza deve ser de um modo e não de outro. E essa expectativa é a de que deve existir uma lógica ou ordem intrínseca à propria natureza. Se as leis variassem de acordo com o referencial, então simplesmente deixariam de ser leis universais. Não haveria apenas uma lei, mas muitas leis, uma para cada referencial. Em outras palavras, Einstein preferiu preservar a existência das leis universais à imutabilidade do espaço e do tempo. E, ao que tudo indica, nenhum experimento foi capaz de contestar as conclusões decorrentes da sua escolha.
Infelizmente, até hoje muitos utilizam a teoria de Einstein para justificar o enunciado "tudo é relativo" em contextos estranhos à física. Em primeiro lugar, a teoria da relatividade não postula e nem chega à conclusão de que "tudo é relativo". Pelo contrário, postula que a velocidade da luz e as leis da física são absolutas e não relativas e que portanto nem tudo é relativo. Sem querer entrar no mérito da questão relativa à aplicação do enunciado "tudo é relativo" em outros contextos, como a ética, pode-se dizer com toda a certeza que utilizar a teoria da relatividade para justificar esse enunciado nesse contexto é uma falácia grosseira.
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domingo, 1 de abril de 2012
O argumento moral a favor da existência de Deus de William Lane Craig
Alguém já ouviu falar em William Lane Craig? É um filósofo que ficou conhecido do grande público pelo excelente desempenho como apologista da fé em debates com ateus e agnósticos. Costuma deixar os seus adversários sem respostas para os seus argumentos. Christopher Hitchens amargou uma desastrosa derrota em debate com ele promovido pela Biola University em 4 de abril de 2009. Dawkins se recusa a debater com ele, alegando que "o que poderia ser excelente para o seu CV, talvez não seja tão bom para o meu" (ref http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/oct/20/richard-dawkins-william-lane-craig). E ao contrário do que se costuma imaginar a respeito de apologistas, sabe expor seus argumentos de maneira clara e perfeitamente lógica, sem deixar transparecer nenhum sinal das paixões pessoais ou fazer uso de argumentos sentimentalistas e fideístas.
Sua estratégia é utilizar um enfoque filosófico-analítico para as questões em debate. Esse enfoque é muito simples e extremamente eficaz. Consiste em apresentar os argumentos a favor do seu ponto de vista expondo claramente todas as premissas de modo que a conclusão deriva delas como necessidade lógica. Então convida o oponente a rebater as suas conclusões através da invalidação das premissas. Dessa forma, a defesa fica concentrada nas premissas, pois se as premissas permanecerem intactas, então a conclusão permanece irrefutada.
Os argumentos que William Craig utiliza são bem conhecidos, pois estão todos completamente expostos em seu site http://www.reasonablefaith.org. Mesmo assim, ainda não vi nenhum oponente que tenha sido capaz de invalidar uma de suas premissas. Em vez disso, costumam expor os argumentos a favor do seu ponto de vista, geralmente sem a mesma clareza e objetividade. E, ainda assim, não vi nenhum caso em que William Craig tenha se saído mal na refutação dos argumentos contrários. Tampouco o vi perder a calma e a serenidade no decorrer do debate, o que não ocorreu nos casos de Hitchens e Stephen Law. A transcrição dos debates mostra claramente isso, pois nota-se claramente como os seus oponentes vão perdendo a capacidade de concatenar coerentemente as suas idéias.
Ao ver dois de seus debates, cuja questão em discussão era "Does God exist?" (Deus existe?), um com Stephen Law e outro com Christopher Hitchens, chamou-me a atenção um dos argumentos que ele apresentou para defender racionalmente a resposta afirmativa. É um argumento moral, que pode ser resumido no seguinte silogismo:
1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem.
2. O mal existe.
3. Portanto, valores morais objetivos existem.
4. Portanto, Deus existe.
Esse argumento é tão eficaz pois toca no senso moral que existe em nós e que precisa necessarimente ser abandonado para que as premissas possam ser refutadas. Então vamos lá, analisemos cada uma das premissas.
Primeira premissa: de fato, se Deus não existe, como podemos afirmar que valores morais objetivos existem? Com base em que critério pode-se afirmar a existência de valores morais objetivos? Muito bem, quando falamos em valores morais objetivos estamos dizendo que existem atos humanos objetivamente maus e atos humanos objetivamente bons. Mas como então determinar quais atos são bons e quais são maus se Deus não existe? Se estabeleço que o critério de objetividade sou eu, então tenho que explicar por que o meu critério é objetivo e o do outro que julga diferente não é. Esse argumento não se sustenta, pois seria necessário um terceiro juízo para discernir a objetividade entre opiniões opostas. Se esse terceiro juízo não é absoluto, então a objetividade desse juízo também poderia ser questionada. Também é possível estabelecer como critério o consenso social. Isso também é difícil de sustentar, pois é preciso provar que o consenso social sempre é objetivo. Outra possibilidade é estabelecer como critério a natureza biológica humana, isto é, aqueles atos que correspondem aos costumes naturais e instintivos do homem, assim como corresponde à natureza dos cachorros e lobos viverem em matilha e dos tigres viverem sozinhos. Mas primeiro é necessário identificar qual é essa natureza. Isso é impossível, pois uma das diferenças dos homens com relação aos animais é não ter todas as suas ações condicionadas pela sua natureza biológica. Há quem acredite nisso, mas então forçosamente terá que negar o livre-arbítrio, pois todas as suas ações estariam condicionadas pela sua natureza biológica, e além disso explicar como atos contrapostos podem ter a mesma origem biológica.
Se alguém tem algum outro argumento para refutar a primeira premissa, ficaria muito contente de conhecê-lo. Vamos então para a segunda premissa. Negar essa premissa é o que há de mais comprometedor em todo o argumento. Dizer que o mal não existe impede que qualquer ateu utilize o tão frequente argumento de que havendo tanto mal no universo então é pouco plausível que Deus exista. Pois negando a existência do mal, então não pode dizer que há mal no universo. A grande "sacada" desse argumento é mostrar que o mal pesa mais a favor do que contra a existência de Deus. Mas negar que o mal existe é comprometedor por outros motivos. Por exemplo, o que autorizaria então um ateu afirmar que as ações dos nazistas foram más? O que autorizaria um ateu a afirmar que um crime hediondo - por favor, imaginem o crime que quiserem, não vou dar exemplos - é um mal?
Uma possível saída desse problema consiste em afirmar que aquelas ações são más na medida em que põe em risco a minha própria segurança, ainda que não sejam más em sentido objetivo. Especificando mais, podem dizer que se uma pessoa fere a outra, autoriza então que outras façam o mesmo com ela. Como não quer ser ferida, então é preferível não ferir a outra. Essa atitude é bem representada pela regra de ouro, que ensina "a agir com os outros do mesmo modo como gostaria que os outros agissem comigo". Mas para um ateu que nega a objetividade do mal, esse princípio está baseado apenas na necessidade pessoal de salvaguardar a própria segurança. Mas basta propor uma situação em que uma atitude má - matar, por exemplo - não colocaria em risco a própria segurança. Por exemplo, alguém poderia ser esperto o suficiente para construir uma sociedade em torno de si que lhe daria segurança e ao mesmo tempo lhe daria apoio para cometer qualquer crime que desejasse contra outras. Era por exemplo o que faziam muitas tribos nômades no passado. Viviam em grande número, muito bem armadas e soltas pelas terras ermas. Estavam seguras portanto. Ao mesmo tempo, sobreviviam do saque e da destruição das sociedades sedentárias. Para essas sociedades nômades era errado matar, estuprar e saquear? Não. Se essa tribo nômade encontrasse um grupo de pessoas indefesas trabalhando no campo, o princípio da garantia da segurança própria poderia ter algum efeito sobre a decisão desses nômades? Não, pois aniquilar essas pessoas não diminui a sua segurança. Diria até que aumenta sua segurança, pois quanto mais fracos e amedrontados estiverem os povos sedentários, maior será a sua dificuldade para fazer frente às suas invasões.
Agora, sendo você ateu, imagine-se na posição de líder desses nômades. Imagine também que em uma certa ocasião você e seu grupo encontram em lugar isolado uma única pessoa portando um diamante extremamente valioso disposta a defendê-lo até a morte, mesmo sabendo que será facilmente derrotada. Nessa situação, qualquer ateu coerente com os seus próprios princípios não encontraria outra solução a não ser matar o sujeito. Por que não o faria? Em primeiro lugar, realizando esse ato, não coloca em risco sua segurança. Se não o realiza, sabe que provavelmente outro de seu grupo o fará e talvez queira apenas para si o diamante. Isso poderia gerar disputas, colocando em risco a unidade do grupo e a sua autoridade. Do ponto de vista da segurança pessoal, o melhor nesse caso é unir todos para a conquista do diamante e depois dividir os bens do espólio de acordo com o código do grupo.
Esse exemplo é apenas ilustrativo. Poderia tratar-se também de um grupo de cavaleiros templários do tempo das cruzadas que se encontram na mesma situação. Quis apenas mostrar que há situações em que uma escolha objetivamente má é a melhor escolha do ponto de vista da segurança pessoal e dos próprios interesses. Agora, convido-o a responder a seguinte questão: quem tem a maior chance de respeitar a vida e propriedade daquele sujeito, um homem que não acredita na objetividade do valor de seus atos, ou um homem que acredita, e que além disso sabe que seus atos estão sujeitos ao julgamento e à condenação por parte de Deus?
Todo esse raciocínio tinha como objetivo mostrar como é extremamente comprometedor negar a objetividade dos valores morais. Há ainda outros argumentos muito fortes para mostrar isso. Por exemplo, com que autoridade alguém que nega a objetividade dos valores morais poderia condenar a atitude dos nazistas? Afinal de contas, eles não estavam agindo de acordo com os seus próprios valores? Como posso julgá-los e até condená-los à morte com base nos meus valores? Se o faço, o faço pois acredito que os meus valores são melhores do que os deles. Mas se eles não tinham os meus valores, qual é o fundamento da sua culpabilidade? Por outro lado, se admito a objetividade dos valores morais, então o seu julgamento é possível, pois existe uma base de valores objetivos que poderia ser reconhecido pelos nazistas e que torna culpável as suas atitudes, pois tinham a possibilidade de reconhecer a maldade de seus atos. Portanto, se não existe mal objetivo, tampouco existe culpabilidade e qualquer julgamento é inviável. Apenas na condição de existência do mal objetivo, um julgamento é viável.
Enfim, para concluir, digo que o que faz forte o argumento moral de William Lane Craig não é a sua irrefutabilidade, mas o mal estar profundo que qualquer refutação às suas premissas necessariamente provoca.
Sua estratégia é utilizar um enfoque filosófico-analítico para as questões em debate. Esse enfoque é muito simples e extremamente eficaz. Consiste em apresentar os argumentos a favor do seu ponto de vista expondo claramente todas as premissas de modo que a conclusão deriva delas como necessidade lógica. Então convida o oponente a rebater as suas conclusões através da invalidação das premissas. Dessa forma, a defesa fica concentrada nas premissas, pois se as premissas permanecerem intactas, então a conclusão permanece irrefutada.
Os argumentos que William Craig utiliza são bem conhecidos, pois estão todos completamente expostos em seu site http://www.reasonablefaith.org. Mesmo assim, ainda não vi nenhum oponente que tenha sido capaz de invalidar uma de suas premissas. Em vez disso, costumam expor os argumentos a favor do seu ponto de vista, geralmente sem a mesma clareza e objetividade. E, ainda assim, não vi nenhum caso em que William Craig tenha se saído mal na refutação dos argumentos contrários. Tampouco o vi perder a calma e a serenidade no decorrer do debate, o que não ocorreu nos casos de Hitchens e Stephen Law. A transcrição dos debates mostra claramente isso, pois nota-se claramente como os seus oponentes vão perdendo a capacidade de concatenar coerentemente as suas idéias.
Ao ver dois de seus debates, cuja questão em discussão era "Does God exist?" (Deus existe?), um com Stephen Law e outro com Christopher Hitchens, chamou-me a atenção um dos argumentos que ele apresentou para defender racionalmente a resposta afirmativa. É um argumento moral, que pode ser resumido no seguinte silogismo:
1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem.
2. O mal existe.
3. Portanto, valores morais objetivos existem.
4. Portanto, Deus existe.
Esse argumento é tão eficaz pois toca no senso moral que existe em nós e que precisa necessarimente ser abandonado para que as premissas possam ser refutadas. Então vamos lá, analisemos cada uma das premissas.
Primeira premissa: de fato, se Deus não existe, como podemos afirmar que valores morais objetivos existem? Com base em que critério pode-se afirmar a existência de valores morais objetivos? Muito bem, quando falamos em valores morais objetivos estamos dizendo que existem atos humanos objetivamente maus e atos humanos objetivamente bons. Mas como então determinar quais atos são bons e quais são maus se Deus não existe? Se estabeleço que o critério de objetividade sou eu, então tenho que explicar por que o meu critério é objetivo e o do outro que julga diferente não é. Esse argumento não se sustenta, pois seria necessário um terceiro juízo para discernir a objetividade entre opiniões opostas. Se esse terceiro juízo não é absoluto, então a objetividade desse juízo também poderia ser questionada. Também é possível estabelecer como critério o consenso social. Isso também é difícil de sustentar, pois é preciso provar que o consenso social sempre é objetivo. Outra possibilidade é estabelecer como critério a natureza biológica humana, isto é, aqueles atos que correspondem aos costumes naturais e instintivos do homem, assim como corresponde à natureza dos cachorros e lobos viverem em matilha e dos tigres viverem sozinhos. Mas primeiro é necessário identificar qual é essa natureza. Isso é impossível, pois uma das diferenças dos homens com relação aos animais é não ter todas as suas ações condicionadas pela sua natureza biológica. Há quem acredite nisso, mas então forçosamente terá que negar o livre-arbítrio, pois todas as suas ações estariam condicionadas pela sua natureza biológica, e além disso explicar como atos contrapostos podem ter a mesma origem biológica.
Se alguém tem algum outro argumento para refutar a primeira premissa, ficaria muito contente de conhecê-lo. Vamos então para a segunda premissa. Negar essa premissa é o que há de mais comprometedor em todo o argumento. Dizer que o mal não existe impede que qualquer ateu utilize o tão frequente argumento de que havendo tanto mal no universo então é pouco plausível que Deus exista. Pois negando a existência do mal, então não pode dizer que há mal no universo. A grande "sacada" desse argumento é mostrar que o mal pesa mais a favor do que contra a existência de Deus. Mas negar que o mal existe é comprometedor por outros motivos. Por exemplo, o que autorizaria então um ateu afirmar que as ações dos nazistas foram más? O que autorizaria um ateu a afirmar que um crime hediondo - por favor, imaginem o crime que quiserem, não vou dar exemplos - é um mal?
Uma possível saída desse problema consiste em afirmar que aquelas ações são más na medida em que põe em risco a minha própria segurança, ainda que não sejam más em sentido objetivo. Especificando mais, podem dizer que se uma pessoa fere a outra, autoriza então que outras façam o mesmo com ela. Como não quer ser ferida, então é preferível não ferir a outra. Essa atitude é bem representada pela regra de ouro, que ensina "a agir com os outros do mesmo modo como gostaria que os outros agissem comigo". Mas para um ateu que nega a objetividade do mal, esse princípio está baseado apenas na necessidade pessoal de salvaguardar a própria segurança. Mas basta propor uma situação em que uma atitude má - matar, por exemplo - não colocaria em risco a própria segurança. Por exemplo, alguém poderia ser esperto o suficiente para construir uma sociedade em torno de si que lhe daria segurança e ao mesmo tempo lhe daria apoio para cometer qualquer crime que desejasse contra outras. Era por exemplo o que faziam muitas tribos nômades no passado. Viviam em grande número, muito bem armadas e soltas pelas terras ermas. Estavam seguras portanto. Ao mesmo tempo, sobreviviam do saque e da destruição das sociedades sedentárias. Para essas sociedades nômades era errado matar, estuprar e saquear? Não. Se essa tribo nômade encontrasse um grupo de pessoas indefesas trabalhando no campo, o princípio da garantia da segurança própria poderia ter algum efeito sobre a decisão desses nômades? Não, pois aniquilar essas pessoas não diminui a sua segurança. Diria até que aumenta sua segurança, pois quanto mais fracos e amedrontados estiverem os povos sedentários, maior será a sua dificuldade para fazer frente às suas invasões.
Agora, sendo você ateu, imagine-se na posição de líder desses nômades. Imagine também que em uma certa ocasião você e seu grupo encontram em lugar isolado uma única pessoa portando um diamante extremamente valioso disposta a defendê-lo até a morte, mesmo sabendo que será facilmente derrotada. Nessa situação, qualquer ateu coerente com os seus próprios princípios não encontraria outra solução a não ser matar o sujeito. Por que não o faria? Em primeiro lugar, realizando esse ato, não coloca em risco sua segurança. Se não o realiza, sabe que provavelmente outro de seu grupo o fará e talvez queira apenas para si o diamante. Isso poderia gerar disputas, colocando em risco a unidade do grupo e a sua autoridade. Do ponto de vista da segurança pessoal, o melhor nesse caso é unir todos para a conquista do diamante e depois dividir os bens do espólio de acordo com o código do grupo.
Esse exemplo é apenas ilustrativo. Poderia tratar-se também de um grupo de cavaleiros templários do tempo das cruzadas que se encontram na mesma situação. Quis apenas mostrar que há situações em que uma escolha objetivamente má é a melhor escolha do ponto de vista da segurança pessoal e dos próprios interesses. Agora, convido-o a responder a seguinte questão: quem tem a maior chance de respeitar a vida e propriedade daquele sujeito, um homem que não acredita na objetividade do valor de seus atos, ou um homem que acredita, e que além disso sabe que seus atos estão sujeitos ao julgamento e à condenação por parte de Deus?
Todo esse raciocínio tinha como objetivo mostrar como é extremamente comprometedor negar a objetividade dos valores morais. Há ainda outros argumentos muito fortes para mostrar isso. Por exemplo, com que autoridade alguém que nega a objetividade dos valores morais poderia condenar a atitude dos nazistas? Afinal de contas, eles não estavam agindo de acordo com os seus próprios valores? Como posso julgá-los e até condená-los à morte com base nos meus valores? Se o faço, o faço pois acredito que os meus valores são melhores do que os deles. Mas se eles não tinham os meus valores, qual é o fundamento da sua culpabilidade? Por outro lado, se admito a objetividade dos valores morais, então o seu julgamento é possível, pois existe uma base de valores objetivos que poderia ser reconhecido pelos nazistas e que torna culpável as suas atitudes, pois tinham a possibilidade de reconhecer a maldade de seus atos. Portanto, se não existe mal objetivo, tampouco existe culpabilidade e qualquer julgamento é inviável. Apenas na condição de existência do mal objetivo, um julgamento é viável.
Enfim, para concluir, digo que o que faz forte o argumento moral de William Lane Craig não é a sua irrefutabilidade, mas o mal estar profundo que qualquer refutação às suas premissas necessariamente provoca.
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