Uma idéia em circulação nos dias de hoje ensina que as ações de todas as pessoas tem uma finalidade imposta pela necessidade de reprodução e conservação da própria vida. Não há exceções. Essas necessidades são impulsos irrefreáveis, que derivam da própria constituição biológica da espécie animal homo sapiens.
Utilizando esse princípio e algumas hipóteses ad hoc, não há nenhum fenômeno humano que não possa ser facilmente explicado. A receita é bem simples. Primeiro, crie uma suposição sobre o comportamento do ser humano primitivo claramente associado a um desses impulsos. Depois, simplesmente relacione o comportamento atual com aquele comportamento primitivo por meio de um argumento heurístico plausível. Se o raciocínio for bem feito, a conclusão é capaz de se impor como se tivesse sido enunciado por uma testemunha imortal e onisciente.
Há inúmeros exemplos. Por que o ser humano sorri? Simples; o sorriso era um mecanismo que o homem primitivo, que ainda não dominava a linguagem falada, utilizava para comunicar a sua submissão ao indivíduo mais forte ou a abertura à relação sexual com o indivíduo do sexo oposto. Com o tempo, o sorriso foi sendo incorporado às percepções inatas como um sinal de que o outro não quer o confronto ou de que o outro quer a aproximação sexual. Assim, o cérebro "aprendeu" a tranquilizar-se ao ver um sorriso.
Por que razão, mesmo depois de tanta tentativa de incutir na sociedade os pressupostos do movimento feminista, a mulheres na maioria dos casos dão prioridades em sua escolha a sujeitos fortes, ricos e poderosos e os homens maior prioridade às mulheres bonitas? Simples também. Para a mulher primitiva, em um ambiente de brutalidade e ameaça constante, era-lhe vantajoso encontrar um homem capaz de proteger a ela e a sua prole (força e poder) e lhes dar sustento (riqueza). Para o homem, a vantagem seria maior quanto mais fértil fosse a mulher e menor fosse a sua carga de defeitos genéticos. A própria evolução ensinou o cérebro do homem (e também o da mulher) a reconhecer essas qualidades e a disparar o desejo sexual no momento oportuno, gerando uma fixação (ou o que nós chamamos de apaixonamento).
O mais curioso desses explicações é a sua capacidade de trivializar impiedosamente toda arte, toda poesia e toda suposta importância que o ser humano costuma atribuir às suas paixões. Em outras palavras, é como se tais explicações estivessem sempre a escarnecer as pobres criaturas, dizendo: "ei, você aí, que pensa que o mundo se curva às suas paixões, que são as mais intensas, as mais importantes, e que são o sentido da sua vida, não vê que isso não é nada, que você é pó, que todos os outros que são pó como você sentem o mesmo e que incuti em ti essas paixões para que com a sua tolice não se deixe perecer facilmente e nem se desinteresse da reprodução da sua espécie?".
Esse processo natural de moldagem da espécie pode ser observada em todas as espécies animais. O surpreendente a respeito do ser humano é que ele tenha sido capaz de adquirir consciência disso. Historicamente, essa conscientização foi expressa de muitas formas. A linguagem é imperfeita, mas a intuição é capaz de perceber a descrição da mesma realidade na aparente diversidade de plataformas culturais. Ao tomar consciência da existência desses processos inatos, que influem na origem das aparentes vontades pessoais, o homem consciente encontrou-se diante da possibilidade de simplesmente dizer não aos impulsos de origem animal. Mas é de fato surpreendente, pois esses desejos não são vãos, se levarmos em conta que foram precisamente eles que garantiram a perpetuação da espécie e o saldo positivo no processo evolutivo. Estaria esse ser humano se revoltando contra os mecanismos que o geraram, obstruindo por rebeldia e desejo de auto-afirmação a normalidade do processo evolutivo?
Alguns pensadores modernos acreditam que na maior parte de sua existência, o ser humano vivia em completa entrega aos seus impulsos de origem animal. Acrescentaria que ainda hoje a maior parte das pessoas vive assim, pois o conhecimento da verdadeira motivação de suas ações exige a difícil habilidade de sair de si para buscar a realidade a respeito da própria natureza. Esse é precisamente o primeiro passo do filósofo. Um passo que terá conseqüências drásticas no seu modo de viver e sentir. Nietzche culpava a racionalidade desenvolvida pelos filósofos gregos pelo que considerou uma covarde recusa de viver de acordo com a sabedoria da própria natureza. De qualquer modo, uma vez adquirido o conhecimento a respeito de si, um passo irreversível foi dado, e nenhuma escolha na vida poderá ser realizada sem que se desconfie das verdadeiras forças que a impulsiona.
As respostas materialistas para o problema da consciência de si sempre vai esbarrar em alguma dificuldade. Uma resposta materialista tem que dar uma volta em torno de si mesma para encontrar um modo de explicar como a consciência das leis evolutivas naturais beneficia um indivíduo que simplesmente se recusa a seguí-las. Uma saída para o problema é dizer que a atitude dos indivíduos que agem desse modo é patológica. E então afirmar que um homem que resolveu deixar suas riquezas, seu poder e sua potencialidade sexual por desejar algo além dos impulsos naturais é um doente, um desvio acidental no trajeto evolutivo que deve ser eliminado. Ou um fraco e covarde, que teve medo de perecer na luta por riqueza e poder. De qualquer modo, alguém a ser eliminado.
Seguindo esse raciocínio, é necessária a conclusão de que Cristo e sua doutrina têm que ser eliminados. É por isso que tanto Nietzsche quanto os evolucionistas dos nossos dias, têm se empenhado em destruir o cristianismo. Mas essa perseguição cai por terra e revela uma face verdadeiramente diabólica se de fato existe uma realidade que transcende os prazeres e bens terrenos, pela qual valha à pena abandonar as promessas de felicidade mundana.
Bem, como já mostramos, esses bens e prazeres da terra nada mais são do que os recursos que garantem a sobrevivência do indivíduo e sua perpetuação. Esses desejo não é próprio do indivíduo, isto é, ninguém pode efetivamente dizer eu quero ser rico, ter poder e uma mulher/homem do meu gosto, mas deve dizer eu herdei esses desejos, que são a garantia natural de que conservarei a minha vida e a transmitirei. Não são meus desejos, são os desejos da minha espécie. Resta então encontrar qual é o verdadeiro desejo do ser humano.
Se o ser humano fosse de fato apenas um animal, não existiria a vontade própria do indivíduo. É o que dizem os evolucionistas modernos, conduzidos pela aplicação logicamente rigorosa de seus princípios. Se Sartre chegou à conclusão de que o homem é uma paixão inútil, todos os evolucionistas deveriam chegar à conclusão de que as paixões são úteis para a espécie. Mas nesse caso, resta um problema a ser resolvido, que é o problema do próprio evolucionista que chegou à sua conclusão e se pergunta o que fazer então.
Para ser rigorosamente coerente com os seus próprios princípios, o melhor a fazer é entregar-se à realização das paixões. Nessa perspectiva, a felicidade é um artifício natural alcançada apenas pelos homens que realizam os impulsos naturais. Mas não pensemos que entregar-se às paixões significa passar o resto da vida comendo (entenda-se no duplo sentido) e bebendo. Significa utilizar toda a força intelectual e física para obter segurança, riqueza, poder e filhos. O bem e o mal não estão em discussão; o que importa é obter segurança, riqueza, poder e filhos, qualquer que seja o método, contanto que o método não venha a destruir a própria vida. Não há espaço para discutir se uma ação é intrinsecamente boa ou má; é boa ou má na medida em que a ação possa construir ou destruir aqueles valores.
Mas esse raciocínio cairia por terra se o pressuposto de que o ser humano é apenas um animal não fosse válido. De fato, o ser humano tem uma natureza espiritual, que é a única e verdadeira explicação para o fato de conseguir adquirir consciência da sua condição animal. Essa consciência da própria condição não é de modo algum um acidente nocivo à evolução, como sugeri anteriormente, mas um impulso interior que resgata o indivíduo de aspirações meramente animais para as aspirações verdadeiramente humanas. Toda a evolução existiu tendo em vista a formação do ser humano, uma criatura animal e espiritual, sujeita às leis da evolução, mas também às leis da natureza espiritual, imortal e indestrutível. Essa natureza espiritual aspira o que lhe é próprio, assim como a animal, mas suas aspirações são diferentes. A animal aspira ao que é, como ela, perecível e passageira, a espiritual aspira ao que é, como ela, eterna e permanente.
Alguém poderia exigir nesse ponto provas e evidências da existência dessa natureza espiritual. São provas e evidências análogas a que qualquer um teria para provar que o céu é azul. A evidência é a história humana, compilada nas manifestações de consciência da realidade espiritual presentes em todas as culturas. Os evolucionistas buscam todas as causas materiais possíveis para essas manifestações, tudo para não admitir a realidade espiritual. Não é difícil encontrar explicações tampão. Para isso existe até receita pronta.
Demonstrar que a realidade espiritual é verdadeira é uma tarefa tão impossível quanto demonstrar que tudo o que experienciamos é real. Alguém pode acreditar que a realidade espiritual não existe, mas isso é tão absurdo quanto acreditar que a vida é um sonho. A lógica genética tem sido utilizada como o método padrão para excluir do campo intelectual qualquer referência à transcendência da realidade humana, em uma tentativa pretensiosamente científica de dar respostas definitivas para fatos que ela está muito longe de explicar. Se de fato alguma de suas explicações tem fornecido alguma luz sobre a origem do comportamento humano, sua maior contribuição foi eliminar o que ainda restava de romantismo e idealismo no modo de ver as paixões, substituindo-os por uma visão objetiva e trivial do que antes parecia ter uma origem nobre. No entanto, além de negar a natureza espiritual, esse evolucionismo também nega a existência de qualquer sentido transcendente no universo e no homem.
Não é nada fácil explicar como foi possível que processos totalmente desprovidos de sentido tenham sido capazes de produzir indivíduos inteligentes desejosos de encontrar um sentido para a sua existência. Há dois grupos de explicações possíveis; o primeiro simplesmente admite a existência de uma realidade transcendente; o segundo, sendo materialista, não tem uma resposta simples para a questão. Entre duas explicações para um mesmo fenômeno, na impossibilidade de aferir diretamente as hipóteses, a ciência sempre optou pela mais simples. E, para esse caso, é bem claro qual das duas hipóteses é a mais simples.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
domingo, 23 de dezembro de 2012
Um Tempo de Luz e Esperança
Qualquer um que resolva olhar friamente a realidade que o cerca, será obrigado a reconhecer que agimos como se o essencial para o nosso sucesso fosse o dinheiro, o poder e o sexo. Nossas grandes miragens de felicidade sempre envolvem esses três elementos. De fato, são esses os requisitos necessários para a satisfação dos apetites. Se alguém os tivesse sem limites, então também não haveria limites para a satisfação nem tampouco margem para o sofrimento.
Muitos já devem ter imaginado um mundo onde todos os apetites pudessem ser satisfeitos assim que brotassem. E alguns devem ter chegado à conclusão de que, se esse lugar existisse, então aí teria que ser o paraíso. E outros mais talvez até tenham chegado a pensar que, se fossem eles mesmos Deus, fariam um Universo para satisfazer os apetites das criaturas com delícias sem fim. E porque o universo não é assim, outros ainda tem chegado à conclusão de que Deus não passa de um delírio.
Mas não é um delírio. Quando Deus veio à terra, prescindiu da segurança que o dinheiro e o poder podem dar. Nasceu em uma família pobre e impotente aos olhos do mundo. Desse modo, Deus Pai ensinou através dos acontecimentos regidos pela sua providência aquilo que o seu Filho viria a ensinar através de atos e palavra.
Agora é a hora de dar uma pequena pausa às ocupações para contemplar o menino-Deus. Ele tem algo muito importante para nos dizer e bem sabemos que precisamos ouvi-lo. Se Ele prescindiu desses bens cuja falta nos angustia, talvez tenha sido para nos ensinar que não é isso o que realmente importa. Há algo maior, além desse mundo e maior do que ele, que não vemos, mas existe. Esse menino que nasceu pobre veio trazer o testemunho desse outro mundo. Se tivesse chegado ao mundo dentro do mais rico palácio e no mais poderoso reinado, não poderia ser Deus. Mas nasceu pobre, em sinal claro aos corações dos homens de boa vontade, que se enchem de esperança ao contemplar a infinita bondade de nosso Deus.
Muitos já devem ter imaginado um mundo onde todos os apetites pudessem ser satisfeitos assim que brotassem. E alguns devem ter chegado à conclusão de que, se esse lugar existisse, então aí teria que ser o paraíso. E outros mais talvez até tenham chegado a pensar que, se fossem eles mesmos Deus, fariam um Universo para satisfazer os apetites das criaturas com delícias sem fim. E porque o universo não é assim, outros ainda tem chegado à conclusão de que Deus não passa de um delírio.
Mas não é um delírio. Quando Deus veio à terra, prescindiu da segurança que o dinheiro e o poder podem dar. Nasceu em uma família pobre e impotente aos olhos do mundo. Desse modo, Deus Pai ensinou através dos acontecimentos regidos pela sua providência aquilo que o seu Filho viria a ensinar através de atos e palavra.
Agora é a hora de dar uma pequena pausa às ocupações para contemplar o menino-Deus. Ele tem algo muito importante para nos dizer e bem sabemos que precisamos ouvi-lo. Se Ele prescindiu desses bens cuja falta nos angustia, talvez tenha sido para nos ensinar que não é isso o que realmente importa. Há algo maior, além desse mundo e maior do que ele, que não vemos, mas existe. Esse menino que nasceu pobre veio trazer o testemunho desse outro mundo. Se tivesse chegado ao mundo dentro do mais rico palácio e no mais poderoso reinado, não poderia ser Deus. Mas nasceu pobre, em sinal claro aos corações dos homens de boa vontade, que se enchem de esperança ao contemplar a infinita bondade de nosso Deus.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Monster
Os desentendimentos e conflitos entre o homem e a mulher sempre existiram e estão impressos nos costumes de todas as culturas humanas. As razões por trás desses conflitos são bastantes complexas e não podem ser reduzidas a uma única e simples explicação, como a bem conhecida tese de cunho marxista que transpõe a luta de classes na sociedade para o âmbito da relação entre homem e mulher. Existem outros elementos muito mais relevantes para a explicação desse fenômeno, pois a psicologia e a natureza animal e espiritual do ser humano precedem a sociologia na ordem das causas.
Esse conflito entre homem e mulher constitui uma das maiores tragédias que tem afligido constantemente e sem cessar toda a humanidade. É trágico pois a forte necessidade de reciprocidade entre os sexos fica frustrada, gerando um enorme descontentamento que se projeta para além da esfera pessoal e atinge toda a sociedade. Uma sociedade não pode ser saudável sem a harmonia nas relações entre homens e mulheres.
Há muitas facetas e sintomas dessa doença em nossa sociedade, e por enquanto gostaria de me restringir a apenas uma delas. Ultimamente, não tem sido nada incomum encontrar pessoas dominadas por um ódio generalizado pelo sexo oposto A razão para esse fenômeno é o que em um post anterior designei de frustração do amor.
Pela sua própria natureza, o ser humano encontra na pessoa do sexo oposto o receptáculo para todo o seu potencial afetivo. Em outras palavras, ele tem a expectativa de encontrar um outro a quem possa entregar a si mesmo sem reservas, recuperando-se a si ao receber também sem reservas aquele a quem se entregou.
No entanto, boa parte de nossa sociedade se tornou descrente da possibilidade da existência desse outro. Ninguém mais acredita em "princípes encantados" ou em "belas adormecidas". Na realidade, todos em algum dia de suas vidas acreditaram sim em seu "princípe encantado" e em sua "bela adormecida". Porém, a frustração dessa expectativa, que sempre existiu, mas que hoje em dia é mais comum devido à forte presença do egoísmo na sociedade atual, leva as pessoas à descrença total na lealdade do sexo oposto. Frases do tipo "os homens não prestam" ou "toda mulher é vagabunda" refletem essa frustração.
Essa frustração pode adquirir contornos realmente trágicos. Entre os homens, o ressentimento e o ódio tem frequentemente os conduzido à violência brutal contra a mulher. No caso das mulheres, o mesmo ressentimento as conduzem a um desprezo que não perde nenhuma oportunidade para aniquilar o homem afetivamente frágil que cai nas suas garras.
Essas matanças de pessoas inocentes empreendidas por homens armados tem a mesma raiz, que é essa frustração do amor agravada e jamais superada. Essa é uma tese forte, que não vou provar agora, mas que em algum momento pretendo discutir com maior detalhe. Limito-me a apontar alguns indícios. O assassino do realengo, por exemplo, foi seletivo ao escolher as suas vítimas, meninas. Recentemente, a polícia impediu uma ação de dois jovens indivíduos que pretendiam explodir uma bomba em uma festa cheia de estudantes universitárias de humanidades "pra-frentex". Breivik, da Noruega, carrega uma clara frustração que remete aos traumas da sua infância relacionados com a ruptura de sua família.
Pensando sobre o assunto, lembrei-me de um filme que retrata a história real de uma prostituta que realizou assassinatos em série. O filme se chama Monster e não o recomendo para ninguém, apesar de retratar uma realidade que ensina muito sobre aqueles efeitos trágicos a que me referi. Aquela prostituta foi pouco a pouco acumulando um enorme ódio contra os homens em geral. Isso é 100% compreensível, pois se uma mulher não tem a experiência do encontro com homens verdadeiramente ternos e desinteressados, capazes de amar, e é constantemente tratada por eles como um objeto descartável, então entendo o seu ódio. Mas o ponto alto do filme acontece quando a prostituta encontra um homem que na verdade apenas se dipôs a lhe dar uma carona e não tinha a menor intenção de usá-la. Aquela mulher, mesmo percebendo a boa intenção do homem, decide assassiná-lo, levando o seu carro e o seu dinheiro.
O encontro com um homem realmente desinteressado não foi capaz de humanizar o seu coração já há muito tempo endurecido. Como o seu coração de mulher tinha essa necessidade de amar e ser amado, ela encontra em uma parceira do mesmo sexo essa pessoa com quem possa desenvolver todo o seu potencial afetivo. O filme mostra que na relação com essa outra pessoa, aquele "monstro" se transforma em uma mãe terna e boa. Ou seja, na incapacidade de entrega a um homem, que seria o único modo natural e verdadeiro de encontrar a felicidade relacional, ela tem de transpor esse desejo frustrado de realização a um relacionamento postiço e artificial com uma outra mulher. Aquele acontecimento simboliza o estágio desse processo; ela preferiu matar um homem que se dispôs a ajudá-la e utilizar o espólio para nutrir um relacionamento vicioso que a mantinha naquela situação miserável.
Hoje entendo bem por que motivo São João Batista e depois Jesus Cristo moveram muitas prostitutas à conversão. Neles, e de maneira muito contundente em Jesus, elas encontraram um homem terno, desinteressado e casto que as acolheu sem massacrá-las com acusações e penalizações pelos seus pecados. A verdadeira imagem do homem rehumanizou o coração daquelas mulheres e as recordou da sua vocação para o Amor. Não é nada indiferente o fato de Jesus ter se deixado tocar pela pecadora arrependida. Mas isso já é algo que mereceria um tratamento muito especial em algum outro post...
Esse conflito entre homem e mulher constitui uma das maiores tragédias que tem afligido constantemente e sem cessar toda a humanidade. É trágico pois a forte necessidade de reciprocidade entre os sexos fica frustrada, gerando um enorme descontentamento que se projeta para além da esfera pessoal e atinge toda a sociedade. Uma sociedade não pode ser saudável sem a harmonia nas relações entre homens e mulheres.
Há muitas facetas e sintomas dessa doença em nossa sociedade, e por enquanto gostaria de me restringir a apenas uma delas. Ultimamente, não tem sido nada incomum encontrar pessoas dominadas por um ódio generalizado pelo sexo oposto A razão para esse fenômeno é o que em um post anterior designei de frustração do amor.
Pela sua própria natureza, o ser humano encontra na pessoa do sexo oposto o receptáculo para todo o seu potencial afetivo. Em outras palavras, ele tem a expectativa de encontrar um outro a quem possa entregar a si mesmo sem reservas, recuperando-se a si ao receber também sem reservas aquele a quem se entregou.
No entanto, boa parte de nossa sociedade se tornou descrente da possibilidade da existência desse outro. Ninguém mais acredita em "princípes encantados" ou em "belas adormecidas". Na realidade, todos em algum dia de suas vidas acreditaram sim em seu "princípe encantado" e em sua "bela adormecida". Porém, a frustração dessa expectativa, que sempre existiu, mas que hoje em dia é mais comum devido à forte presença do egoísmo na sociedade atual, leva as pessoas à descrença total na lealdade do sexo oposto. Frases do tipo "os homens não prestam" ou "toda mulher é vagabunda" refletem essa frustração.
Essa frustração pode adquirir contornos realmente trágicos. Entre os homens, o ressentimento e o ódio tem frequentemente os conduzido à violência brutal contra a mulher. No caso das mulheres, o mesmo ressentimento as conduzem a um desprezo que não perde nenhuma oportunidade para aniquilar o homem afetivamente frágil que cai nas suas garras.
Essas matanças de pessoas inocentes empreendidas por homens armados tem a mesma raiz, que é essa frustração do amor agravada e jamais superada. Essa é uma tese forte, que não vou provar agora, mas que em algum momento pretendo discutir com maior detalhe. Limito-me a apontar alguns indícios. O assassino do realengo, por exemplo, foi seletivo ao escolher as suas vítimas, meninas. Recentemente, a polícia impediu uma ação de dois jovens indivíduos que pretendiam explodir uma bomba em uma festa cheia de estudantes universitárias de humanidades "pra-frentex". Breivik, da Noruega, carrega uma clara frustração que remete aos traumas da sua infância relacionados com a ruptura de sua família.
Pensando sobre o assunto, lembrei-me de um filme que retrata a história real de uma prostituta que realizou assassinatos em série. O filme se chama Monster e não o recomendo para ninguém, apesar de retratar uma realidade que ensina muito sobre aqueles efeitos trágicos a que me referi. Aquela prostituta foi pouco a pouco acumulando um enorme ódio contra os homens em geral. Isso é 100% compreensível, pois se uma mulher não tem a experiência do encontro com homens verdadeiramente ternos e desinteressados, capazes de amar, e é constantemente tratada por eles como um objeto descartável, então entendo o seu ódio. Mas o ponto alto do filme acontece quando a prostituta encontra um homem que na verdade apenas se dipôs a lhe dar uma carona e não tinha a menor intenção de usá-la. Aquela mulher, mesmo percebendo a boa intenção do homem, decide assassiná-lo, levando o seu carro e o seu dinheiro.
O encontro com um homem realmente desinteressado não foi capaz de humanizar o seu coração já há muito tempo endurecido. Como o seu coração de mulher tinha essa necessidade de amar e ser amado, ela encontra em uma parceira do mesmo sexo essa pessoa com quem possa desenvolver todo o seu potencial afetivo. O filme mostra que na relação com essa outra pessoa, aquele "monstro" se transforma em uma mãe terna e boa. Ou seja, na incapacidade de entrega a um homem, que seria o único modo natural e verdadeiro de encontrar a felicidade relacional, ela tem de transpor esse desejo frustrado de realização a um relacionamento postiço e artificial com uma outra mulher. Aquele acontecimento simboliza o estágio desse processo; ela preferiu matar um homem que se dispôs a ajudá-la e utilizar o espólio para nutrir um relacionamento vicioso que a mantinha naquela situação miserável.
Hoje entendo bem por que motivo São João Batista e depois Jesus Cristo moveram muitas prostitutas à conversão. Neles, e de maneira muito contundente em Jesus, elas encontraram um homem terno, desinteressado e casto que as acolheu sem massacrá-las com acusações e penalizações pelos seus pecados. A verdadeira imagem do homem rehumanizou o coração daquelas mulheres e as recordou da sua vocação para o Amor. Não é nada indiferente o fato de Jesus ter se deixado tocar pela pecadora arrependida. Mas isso já é algo que mereceria um tratamento muito especial em algum outro post...
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domingo, 9 de dezembro de 2012
A Esterilidade Ambientalista
Está presente no discurso de muitas ideologias, ainda que de maneira implícita, um sentimento de desconforto com o tamanho da população humana. Por trás de um discurso aparentemente legítimo baseado na preocupação com a escassez de recursos e danos ao meio ambiente, reside na realidade um núcleo interno de motivações totalmente egoístas e muitas vezes misantrópicas.
O discurso ambientalista atual incluiu entre as suas premissas a noção de que o ser humano é apenas mais um animal da terra. Se foi capaz de se impor como a espécie dominante no planeta terra, cuja população nenhuma força da natureza é capaz de controlar, então seria justo da parte da própria humanidade controlar a sua população em solidariedade ao ecossistema colocado em risco por esse crescimento.
Esse tipo de pensamento gera um sentimento de desconforto na sociedade e também no indivíduo, que é levado a imaginar-se culpado por essa suposta destruição da natureza. Levado ao extremo, esse raciocínio ambientalista reduz a sociedade humana a uma praga fora do controle que deve ser parcialmente eliminada. Lembra-me a postura do Mr Smith no filme Matrix, ao descrever a humanidade com desprezo, comparando-a a uma infecção viral sobre a terra.
Põe-se em evidência então essa nota perigosamente misantrópica implícita no discurso ambientalista. O mais paradoxal é o fato dessa mentalidade ser mais comum entre pessoas mais jovens. De fato, até algumas décadas atrás, boa parte da população ainda teve uma experiência real da natureza e sabe como ela muitas vezes é extremamente hostil ao esforço humano pela sua subsistência e dos seus parentes. Totalmente distanciados desse dura realidade graças ao avançado grau de desenvolvimento técnico da sociedade atual, a maioria dos jovens desconhece completamente a dureza da relação dos seus antepassados com a natureza. Seduzidos por uma visão pueril e nostálgica das belezas naturais do planeta terra, que lhes parece estar sendo privadas pelo mundo moderno, que as destrói e despreza, aderem de maneira irrefletida às premissas da ideologia ambientalista.
Se por um lado é legitima essa preocupação com a qualidade do meio ambiente em que vivemos, às vezes escapa à ideologia ambientalista que, na realidade, o centro dessa preocupação é o próprio ser humano. Nenhuma outra criatura do planeta terra está "preocupada" com o meio ambiente. Ao preocupar-se com o meio ambiente, o indivíduo está interessado na sua qualidade de vida e dos seus iguais. Nenhum indivíduo pode esquecer de ponderar que a sua própria existência é uma pré-condição para o interesse pela conservação do meio ambiente. E também que a sua existência é um fator de pressão sobre a natureza, não apenas a dos que estão para nascer.
Portanto, propor a limitação da existência humana, através do controle populacional, como solução ao problema ambiental é um contra-senso. No fundo, significa dizer que, para que os vivos tenham uma qualidade de vida superior, então que se limite a oportunidade de novas vidas humanas virem à luz. Em outras palavras, seria como dizer: "queremos que nossos filhos tenham um mundo melhor e para isso é necessário não deixar alguns deles nascerem". A pergunta crucial é essa: será que o melhor é que, para que alguns possam viver em um mundo "preservado", muitos que poderiam vir à existência nunca tenham a chance de nascer?
Na realidade, trata-se de uma questão de generosidade. A natureza nos diz claramente que não gosta de limitações, e nos demonstra isso até a exaustão através de incontável quantidade de entidades produzidas em seu seio (quem não se admira da inimaginável quantidade de galáxias e estrelas presentes no universo?). A natureza é uma abundância de generosidade que, no fundo, incomoda os corações mesquinhos. Quem realmente ama o ser humano e é alguém a quem realmente se pode classificar como humanista, bem sabe que a preservação do meio ambiente não é um pretexto válido para a limitação da população humana.
O discurso ambientalista atual incluiu entre as suas premissas a noção de que o ser humano é apenas mais um animal da terra. Se foi capaz de se impor como a espécie dominante no planeta terra, cuja população nenhuma força da natureza é capaz de controlar, então seria justo da parte da própria humanidade controlar a sua população em solidariedade ao ecossistema colocado em risco por esse crescimento.
Esse tipo de pensamento gera um sentimento de desconforto na sociedade e também no indivíduo, que é levado a imaginar-se culpado por essa suposta destruição da natureza. Levado ao extremo, esse raciocínio ambientalista reduz a sociedade humana a uma praga fora do controle que deve ser parcialmente eliminada. Lembra-me a postura do Mr Smith no filme Matrix, ao descrever a humanidade com desprezo, comparando-a a uma infecção viral sobre a terra.
Põe-se em evidência então essa nota perigosamente misantrópica implícita no discurso ambientalista. O mais paradoxal é o fato dessa mentalidade ser mais comum entre pessoas mais jovens. De fato, até algumas décadas atrás, boa parte da população ainda teve uma experiência real da natureza e sabe como ela muitas vezes é extremamente hostil ao esforço humano pela sua subsistência e dos seus parentes. Totalmente distanciados desse dura realidade graças ao avançado grau de desenvolvimento técnico da sociedade atual, a maioria dos jovens desconhece completamente a dureza da relação dos seus antepassados com a natureza. Seduzidos por uma visão pueril e nostálgica das belezas naturais do planeta terra, que lhes parece estar sendo privadas pelo mundo moderno, que as destrói e despreza, aderem de maneira irrefletida às premissas da ideologia ambientalista.
Se por um lado é legitima essa preocupação com a qualidade do meio ambiente em que vivemos, às vezes escapa à ideologia ambientalista que, na realidade, o centro dessa preocupação é o próprio ser humano. Nenhuma outra criatura do planeta terra está "preocupada" com o meio ambiente. Ao preocupar-se com o meio ambiente, o indivíduo está interessado na sua qualidade de vida e dos seus iguais. Nenhum indivíduo pode esquecer de ponderar que a sua própria existência é uma pré-condição para o interesse pela conservação do meio ambiente. E também que a sua existência é um fator de pressão sobre a natureza, não apenas a dos que estão para nascer.
Portanto, propor a limitação da existência humana, através do controle populacional, como solução ao problema ambiental é um contra-senso. No fundo, significa dizer que, para que os vivos tenham uma qualidade de vida superior, então que se limite a oportunidade de novas vidas humanas virem à luz. Em outras palavras, seria como dizer: "queremos que nossos filhos tenham um mundo melhor e para isso é necessário não deixar alguns deles nascerem". A pergunta crucial é essa: será que o melhor é que, para que alguns possam viver em um mundo "preservado", muitos que poderiam vir à existência nunca tenham a chance de nascer?
Na realidade, trata-se de uma questão de generosidade. A natureza nos diz claramente que não gosta de limitações, e nos demonstra isso até a exaustão através de incontável quantidade de entidades produzidas em seu seio (quem não se admira da inimaginável quantidade de galáxias e estrelas presentes no universo?). A natureza é uma abundância de generosidade que, no fundo, incomoda os corações mesquinhos. Quem realmente ama o ser humano e é alguém a quem realmente se pode classificar como humanista, bem sabe que a preservação do meio ambiente não é um pretexto válido para a limitação da população humana.
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sábado, 1 de dezembro de 2012
Separará uns dos outros
Há uma passagem do Evangelho que sempre me deixou bastante intrigado e desde o início tem me causado uma surpresa positiva. Trata-se da passagem de São Mateus em que Jesus fala sobre a separação entre os homens no juízo final (Mt 25, 31-46). Nessa passagem Jesus deixa claro qual será o critério de separação entre os homens. E, para minha surpresa, Jesus não separa os homens entre os observantes da lei e os transgressores, mas sim os separa entre aqueles que praticaram obras de misericórdia ("tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes beber") e os que nunca a praticaram.
Ao longo da minha caminhada tenho observado que muitos de nós estamos muito mais preocupados em observar os mandamentos do que praticar as obras de misericórdia. Tantas vezes me decepcionei ao testemunhar que pessoas que fazem oração diária, vão à Missa todos os dias e vivem escrupulosamente todos os preceitos da lei, tantas vezes olham com completa indiferença ou até desprezo a esses pequeninos a que Jesus se refere.
A realidade nos mostra que esses pequeninos nem sempre são pessoas agradáveis. Um mendigo em situação de necessidade não é alguém agradável. Estará cheirando mal, poderá ser rude no trato e extremamente inconveniente. Mas se está passando sede ou frio, e há a possibilidade de remediar a sua situação, todos esses inconvenientes não são desculpas válidas para que um cristão deixe de oferecer ajuda.
Algumas pessoas se enganam achando que um dia toparão com um galã perfumado e bem educado, sedento e faminto, implorando meigamente por socorro. Isso não existe no mundo real. No mundo real, os necessitados às vezes também reagem com rudeza, ingratidão e até com maldade àqueles que oferecem ajuda.
Há alguns anos atrás ouvi uma pequena história que me tem feito pensar sobre a atitude de alguns cristãos.
Em uma cidade perdida em um país distante havia uma família cristã que construiu uma grande casa para os seus jovens filhos. Todos viviam bem ali e praticavam os preceitos da sua religião na mais escrupulosa observância. Havia um belo jardim no pátio de entrada da casa, mas certo dia a pureza daquele local foi atormentada pela presença inconveniente de um mendigo que ali se instalou. Não sabendo como reagir diante daquela situação, um dos filhos teve a brilhante idéia de jogar sobre o homem um balde de gelo. Se recuperando do choque, o mendigo bradou: "vocês são judeus, não cristãos!".
Aquele mendigo não poderia ter sido mais preciso. Aqueles filhos estavam muito preocupados em observar as leis, mas nenhum deles soube olhar para aquele mendigo com o olhar de Cristo. Podemos imaginar como a mãe do mendigo o olharia na situação. Uma coisa é certa: o olhar de Cristo seria ainda mais compassivo do que o da mãe.
A história continua. Um outro filho, compadecido da situação do mendigo, foi conversar com aquele homem. Explicou a situação para ele e deu atenção ao que o mendigo dizia, que apesar de tudo continuava sendo insistente e teimoso. Por fim, convenceu o mendigo a ir para um abrigo e o levou para lá.
É triste dizer isso, mas a primeira parte da história é verídica; a segunda, fictícia.
Ao longo da minha caminhada tenho observado que muitos de nós estamos muito mais preocupados em observar os mandamentos do que praticar as obras de misericórdia. Tantas vezes me decepcionei ao testemunhar que pessoas que fazem oração diária, vão à Missa todos os dias e vivem escrupulosamente todos os preceitos da lei, tantas vezes olham com completa indiferença ou até desprezo a esses pequeninos a que Jesus se refere.
A realidade nos mostra que esses pequeninos nem sempre são pessoas agradáveis. Um mendigo em situação de necessidade não é alguém agradável. Estará cheirando mal, poderá ser rude no trato e extremamente inconveniente. Mas se está passando sede ou frio, e há a possibilidade de remediar a sua situação, todos esses inconvenientes não são desculpas válidas para que um cristão deixe de oferecer ajuda.
Algumas pessoas se enganam achando que um dia toparão com um galã perfumado e bem educado, sedento e faminto, implorando meigamente por socorro. Isso não existe no mundo real. No mundo real, os necessitados às vezes também reagem com rudeza, ingratidão e até com maldade àqueles que oferecem ajuda.
Há alguns anos atrás ouvi uma pequena história que me tem feito pensar sobre a atitude de alguns cristãos.
Em uma cidade perdida em um país distante havia uma família cristã que construiu uma grande casa para os seus jovens filhos. Todos viviam bem ali e praticavam os preceitos da sua religião na mais escrupulosa observância. Havia um belo jardim no pátio de entrada da casa, mas certo dia a pureza daquele local foi atormentada pela presença inconveniente de um mendigo que ali se instalou. Não sabendo como reagir diante daquela situação, um dos filhos teve a brilhante idéia de jogar sobre o homem um balde de gelo. Se recuperando do choque, o mendigo bradou: "vocês são judeus, não cristãos!".
Aquele mendigo não poderia ter sido mais preciso. Aqueles filhos estavam muito preocupados em observar as leis, mas nenhum deles soube olhar para aquele mendigo com o olhar de Cristo. Podemos imaginar como a mãe do mendigo o olharia na situação. Uma coisa é certa: o olhar de Cristo seria ainda mais compassivo do que o da mãe.
A história continua. Um outro filho, compadecido da situação do mendigo, foi conversar com aquele homem. Explicou a situação para ele e deu atenção ao que o mendigo dizia, que apesar de tudo continuava sendo insistente e teimoso. Por fim, convenceu o mendigo a ir para um abrigo e o levou para lá.
É triste dizer isso, mas a primeira parte da história é verídica; a segunda, fictícia.
sábado, 17 de novembro de 2012
Espírito Esportivo
Na postagem Coração das Trevas conclui o texto propondo um paradoxo. Um paradoxo é sempre uma contradição aparente e em geral a solução dela não é trivial. Trata-se de um paradoxo existencial, que há bastante tempo me tem consumido horas de reflexão. Meu objetivo agora é mostrar aquela que é, por enquanto, a solução mais satisfatória que encontrei.
Formulei o paradoxo com as seguintes palavras:
Se, por um lado, a disputa é evitada, não há conquista, e o indivíduo se frustra, pois não alcança o seu desejo, e ainda é visto como covarde pelos outros. Se, por outro lado, entra na disputa, pode ferir e destruir, deixando atrás de si um rastro de destruição, ou ser aniquilado.
A primeira frase é verdadeira sempre que um indivíduo foge da disputa em todos as ocasiões. É alguém que sempre se deixa dominar pelo medo. Acaba passando a impressão de que não há nada pelo que vale à pena lutar e passa a ser visto pelos outros como um sujeito bonzinho, manso e inofensivo. E é bem verdade que esse indivíduo vai acabar frustrado, muitas vezes assumindo a fama de bonzinho, acreditando que nisso há alguma virtude.
A realidade mostra que toda luta é um empreendimento em que se coloca algo de si em risco. Mas nem toda luta precisa deixar um rastro de destruição. Observei que o homem aprendeu a humanizar a disputa. Gosto da definição de homem, cuja autoria é atribuída a Raimundo Lúlio, de acordo com a qual o homem é aquele que humaniza. E o modo como o homem humanizou a disputa foi através do espírito esportivo ou, simplesmente, do esporte.
Quando alguém diz que é necessário ter espírito esportivo, entende-se bem o que se quer dizer. Significa que não há mal algum em entrar na disputa para vencer, contanto que não se utilize da trapaça e de práticas desleais para garantir a vitória. Significa que não há mal em comemorar a vitória com emoção e alegria, contanto que não se humilhe o derrotado. Significa também que não há mal em sentir a angústia da derrota, contanto que isso não acabe por degenerar em desejo de vingança ou depressão.
Entenda-se que o espírito esportivo não se aplica apenas ao âmbito estritamente esportivo. Na realidade, o esporte é um espaço simbólico que serve como "sala de aula" para a aprendizagem e ensino de um comportamento que humaniza as disputas reais da vida. Não é um jargão vazio dizer que o esporte é um meio eficaz para "tirar a juventude" das drogas e da criminalidade. Também não é ingenuidade afirmar que os jogos olímpicos tem uma função fundamental de pacificação entre as nações.
As realidades humanas, como o esporte, estão sempre dotadas de uma densidade enorme, mas quase imperceptível, de significado antropológico. O que os mais intelectualizados (e chatos, talvez) dentre os homens tentam fazer é colocar em evidência esse significado. Mas entre os "intelectuais" há duas posturas. A primeira é a do racionalista, que se acredita capaz de esgotar em seu sistema lógico todo o significado das realidades humanas, trivializando-as. Esse acaba colocando-se acima dos outros "reles mortais" inconscientes das verdadeiras motivações por trás das suas ações. A segunda é a do verdadeiro filósofo, que se admira do ser humano, e percebe a riqueza inesgotável contida nas diversas manifestações de humanidade. Em vez de ver o outro - em especial os antepassados - com desprezo, entende que a sabedoria que o passado transmite é muito maior do que a sua.
Formulei o paradoxo com as seguintes palavras:
Se, por um lado, a disputa é evitada, não há conquista, e o indivíduo se frustra, pois não alcança o seu desejo, e ainda é visto como covarde pelos outros. Se, por outro lado, entra na disputa, pode ferir e destruir, deixando atrás de si um rastro de destruição, ou ser aniquilado.
A primeira frase é verdadeira sempre que um indivíduo foge da disputa em todos as ocasiões. É alguém que sempre se deixa dominar pelo medo. Acaba passando a impressão de que não há nada pelo que vale à pena lutar e passa a ser visto pelos outros como um sujeito bonzinho, manso e inofensivo. E é bem verdade que esse indivíduo vai acabar frustrado, muitas vezes assumindo a fama de bonzinho, acreditando que nisso há alguma virtude.
A realidade mostra que toda luta é um empreendimento em que se coloca algo de si em risco. Mas nem toda luta precisa deixar um rastro de destruição. Observei que o homem aprendeu a humanizar a disputa. Gosto da definição de homem, cuja autoria é atribuída a Raimundo Lúlio, de acordo com a qual o homem é aquele que humaniza. E o modo como o homem humanizou a disputa foi através do espírito esportivo ou, simplesmente, do esporte.
Quando alguém diz que é necessário ter espírito esportivo, entende-se bem o que se quer dizer. Significa que não há mal algum em entrar na disputa para vencer, contanto que não se utilize da trapaça e de práticas desleais para garantir a vitória. Significa que não há mal em comemorar a vitória com emoção e alegria, contanto que não se humilhe o derrotado. Significa também que não há mal em sentir a angústia da derrota, contanto que isso não acabe por degenerar em desejo de vingança ou depressão.
Entenda-se que o espírito esportivo não se aplica apenas ao âmbito estritamente esportivo. Na realidade, o esporte é um espaço simbólico que serve como "sala de aula" para a aprendizagem e ensino de um comportamento que humaniza as disputas reais da vida. Não é um jargão vazio dizer que o esporte é um meio eficaz para "tirar a juventude" das drogas e da criminalidade. Também não é ingenuidade afirmar que os jogos olímpicos tem uma função fundamental de pacificação entre as nações.
As realidades humanas, como o esporte, estão sempre dotadas de uma densidade enorme, mas quase imperceptível, de significado antropológico. O que os mais intelectualizados (e chatos, talvez) dentre os homens tentam fazer é colocar em evidência esse significado. Mas entre os "intelectuais" há duas posturas. A primeira é a do racionalista, que se acredita capaz de esgotar em seu sistema lógico todo o significado das realidades humanas, trivializando-as. Esse acaba colocando-se acima dos outros "reles mortais" inconscientes das verdadeiras motivações por trás das suas ações. A segunda é a do verdadeiro filósofo, que se admira do ser humano, e percebe a riqueza inesgotável contida nas diversas manifestações de humanidade. Em vez de ver o outro - em especial os antepassados - com desprezo, entende que a sabedoria que o passado transmite é muito maior do que a sua.
domingo, 4 de novembro de 2012
A frustração do amor
Todo ser humano tem uma necessidade primordial do amor incondicional, esperando-o e buscando-o sem cessar. Sendo uma necessidade latente, ainda que mais intensa e abrangente que todas as outras, de alguma forma abarcando-as todas, impulsiona o homem a uma busca incessante capaz de suscitar todo o seu potencial de criação e destruição.
A primeira experiência de amor incondicional acontece na família, quando aqueles que se responsabilizam pela criança respondem positivamente ao dever de amá-la. A frustração do amor nesse momento da vida de um ser humano tem um efeito devastador na alma, conduzindo-a a uma amargura e revolta que convertem o seu potencial de criação em energia apta à destruição de si e do mundo a sua volta. De todas as faltas de responsabilidade dos pais, a mais ímpia e cruel é o aborto. Aquela criança, a quem os pais teriam a responsabilidade de prover a primeira experiência de amor, tem a vida tolhida por ser considerada indesejada. Um ser humano abortado sofre duas tristes experiências de desamor: ser indesejado e destruído.
Essa primeira experiência do amor incondicional é imperfeita, pois, à rigor, esse amor não pode ser incondicional. Há um limite para o amor que um ser humano pode oferecer ao outro. A criança percebe que participa de uma comunhão de amor na qual não só ela necessita de atenção, mas também todos de sua família. Nesse processo, entende que nem sempre terá sua carência satisfeita, ao mesmo tempo que, se bem educada, perceberá que ela pode dar amor a quem tem carência dele.
O término dessa primeira experiência é a abertura da alma para uma nova experiência de amor, ainda movida por aquela necessidade primordial. Tendo recebido a primeira experiência de ser querido por si mesmo, percebe o potencial que existe dentro de si para amar o outro e reconhece em si a dignidade de quem pode ser amado. Deseja a entrega de si, ao mesmo tempo que espera a entrega incondicional do outro, para que possa dar-se sem reservas. Essa segunda experiência se concretiza no matrimônio entre um homem e uma mulher.
Nesse processo, a possibilidade de frustrações é tão grande quanto a de conseqüências imprevisíveis e violentas. Todas elas se resumem em poucas palavras: a experiência de ter o amor rejeitado pelo outro. Dessa experiência não escapam nem mesmo aqueles que se casaram com o seu primeiro enamorado, pois, com o passar do tempo, revelam-se claramente as imperfeições da criatura amada, e a rejeição mútua põe à mostra a fragilidade daquele amor.
A frustração do amor acontece com todos os seres humanos e como consequência todos padecem de um sofrimento interior nas raízes mais profundas da alma. Uma das saídas para esse sofrimento é a revolta, que se concretiza nas mais diversas formas de auto-destruição. Todo pecado é um exemplo dessa forma de auto-destruição que tem como origem essa frustração. Mas há outra saída para o sofrimento. Não é uma saída que leva à sua supressão, mas a uma compreensão vital do seu sentido. A alma entende a sua imperfeição e sua carência e reconhece em Deus a única fonte que pode saciá-la.
A primeira experiência de amor incondicional acontece na família, quando aqueles que se responsabilizam pela criança respondem positivamente ao dever de amá-la. A frustração do amor nesse momento da vida de um ser humano tem um efeito devastador na alma, conduzindo-a a uma amargura e revolta que convertem o seu potencial de criação em energia apta à destruição de si e do mundo a sua volta. De todas as faltas de responsabilidade dos pais, a mais ímpia e cruel é o aborto. Aquela criança, a quem os pais teriam a responsabilidade de prover a primeira experiência de amor, tem a vida tolhida por ser considerada indesejada. Um ser humano abortado sofre duas tristes experiências de desamor: ser indesejado e destruído.
Essa primeira experiência do amor incondicional é imperfeita, pois, à rigor, esse amor não pode ser incondicional. Há um limite para o amor que um ser humano pode oferecer ao outro. A criança percebe que participa de uma comunhão de amor na qual não só ela necessita de atenção, mas também todos de sua família. Nesse processo, entende que nem sempre terá sua carência satisfeita, ao mesmo tempo que, se bem educada, perceberá que ela pode dar amor a quem tem carência dele.
O término dessa primeira experiência é a abertura da alma para uma nova experiência de amor, ainda movida por aquela necessidade primordial. Tendo recebido a primeira experiência de ser querido por si mesmo, percebe o potencial que existe dentro de si para amar o outro e reconhece em si a dignidade de quem pode ser amado. Deseja a entrega de si, ao mesmo tempo que espera a entrega incondicional do outro, para que possa dar-se sem reservas. Essa segunda experiência se concretiza no matrimônio entre um homem e uma mulher.
Nesse processo, a possibilidade de frustrações é tão grande quanto a de conseqüências imprevisíveis e violentas. Todas elas se resumem em poucas palavras: a experiência de ter o amor rejeitado pelo outro. Dessa experiência não escapam nem mesmo aqueles que se casaram com o seu primeiro enamorado, pois, com o passar do tempo, revelam-se claramente as imperfeições da criatura amada, e a rejeição mútua põe à mostra a fragilidade daquele amor.
A frustração do amor acontece com todos os seres humanos e como consequência todos padecem de um sofrimento interior nas raízes mais profundas da alma. Uma das saídas para esse sofrimento é a revolta, que se concretiza nas mais diversas formas de auto-destruição. Todo pecado é um exemplo dessa forma de auto-destruição que tem como origem essa frustração. Mas há outra saída para o sofrimento. Não é uma saída que leva à sua supressão, mas a uma compreensão vital do seu sentido. A alma entende a sua imperfeição e sua carência e reconhece em Deus a única fonte que pode saciá-la.
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