segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O pecado, os pecadores e os condenados

Se Deus é Misericordioso e Bom, como é possível então que Ele consinta com o terrível suplício eterno das almas condenadas? Essa é uma questão frequentemente dirigida pelos que não possuem a Fé nos Evangelhos.

Também para mim é uma questão difícil. Santa Teresa D'Àvila descrevia o inferno como um lugar onde se tem a sensação de estar morrendo a todo momento. Sem cessar e para sempre. Por ser tão aterradora, essa realidade nos parece absurda.

À primeira vista, parece que o inferno é totalmente incompatível com a noção de um Deus Bom e Misericordioso. Se Deus é Bom, então Ele não deveria permitir que ninguém sofresse. Desde o instante inicial, todas as suas criaturas deveriam gozar de delícias sem fim especialmente preparadas para elas.

Mas se fosse assim, quem poderia dizer-se realmente livre? Ninguém, pois seriam todas as criaturas meros títeres nas mãos de Deus. Títeres não amam, apenas respondem automaticamente a estímulos.

Pelo que nos revelam as Sagradas Escrituras em Genesis, o projeto inicial era mesmo que os homens desfrutassem de uma vida sem sofrimentos, no jardim do Éden. Mas foi deixada uma possibilidade à liberdade do homem. Não me refiro à liberdade que Adão e Eva tinham de ora comer uma laranja, ora uma maçã. Mas à liberdade de amar a Deus. Pois quem ama, confia. Se amassem, jamais teriam duvidado de Deus. Jamais teriam acreditado que Deus estava querendo lhes trapacear.

O sofrimento humano nasceu no mundo e permanece no mundo por causa do pecado. Para vencê-lo, é necessário fazer o caminho inverso: confiar em Deus, apesar do sofrimento. Cristo abriu essa via, vencendo o pecado, quando, confiando em Deus, foi fiel até o último instante. Se a queda da humanidade foi consequência da desobediência, a sua salvação foi conquistada pela obediência. 

Depois da queda original, fazer o bem em situações concretas pode exigir sofrimentos pessoais. Nesses casos, perseverar no bem exige confiança em Deus, a mesma confiança que os nossos primeiros pais deveriam ter conservado. 

E o que dizer dos que não estão dispostos a assumir esses sofrimentos pessoais? Nas situações concretas, são inúmeras as vezes em que rejeitamos o bem por fraqueza. É possível reconhecer, pedir perdão e tentar o sucesso nas próximas vezes. Se, apesar do fracasso, há um reconhecimento sincero das faltas pessoais e o propósito de continuar buscando o bem, ainda existe uma confiança sincera em Deus.

Sobram ainda os que não estão dispostos a assumir esses sofrimentos pessoais por não acreditar que exista um bem maior do que o seu prazer. Nesse caso, já fizeram a sua opção. A opção por não amar a Deus, não querer o Bem e não buscar a Verdade. 

Ao entrar na eternidade, levam consigo suas convicções, sacramentadas pelos atos de suas vidas. Já não há novas opções a serem feitas. Não é Deus que as condenam: são elas mesmas que escolhem o seu destino e escrevem a sua sentença. 

Mas não seria o suplício do inferno suficiente para movê-las ao arrependimento?  Não. Para se arrepender, é necessário sentir-se condoído dos que foram injustiçados pelas más ações. Esse é o verdadeiro arrependimento.  O que elas têm é um desejo de sair do suplício. Somente para se livrar do suplício é que desejariam não ter realizado aquelas más ações. Nesse arrependimento não há nenhum outro ingrediente que não seja o amor próprio.  Além disso, o arrependimento na caridade é também  uma graça: o inferno está, por definição, privado dela. 

Não é que Deus não queira ser Misericordioso com a alma dos condenadas pertinazes; na verdade, são esses que não quiseram recorrer à Misericórdia divina. Quem não quiser ser perdoado, não será.

Ninguém pode ter certeza de que será salvo. Isso seria pecar por presunção. No entanto, podemos nos confortar na certeza de que Deus não despreza um pecador realmente arrependido.






  


domingo, 6 de outubro de 2013

Papa Francisco, aristocracia e tradicionalismo

As palavras do papa Francisco tem causado reações apaixonadas entre pessoas das mais diversas orientações. A grande mídia tem ecoado suas palavras dando maior acento às declarações que poderiam indicar mudanças na Igreja em direção à sua agenda comum. Pergunto-me por que motivo pessoas tão profundamente indiferentes à religião se preocupam tanto com as palavras do papa. Tudo leva-me a crer que, na incapacidade de neutralizar totalmente a influência da Igreja, estão empenhados na estratégia de influenciar mudanças para converter a influência da Igreja a seu favor.

Será que, se a Igreja cedesse em todos os pontos dessa agenda, muitas pessoas então se sentiriam atraídas a aderir à Fé? Pergunto-me, ao mesmo tempo: se a Igreja cedesse nesses pontos, o que restaria da Fé?

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Há, por outro lado, muitas manifestações de desaprovação às palavras do papa da parte de fiéis. Em geral, tenho a impressão que, da mesma forma como a grande mídia, estão fazendo um leitura seletiva das palavras do papa. Há várias declarações e escritos que atestam a total adesão do papa aos ensinamentos de Fé e Moral da Igreja. Ao mesmo tempo, tem frisado, desde o discurso inicial, que não existe cristianismo sem Cruz. 

No entanto, muitos que se dizem fiéis não têm dado atenção a essas palavras. Às vezes parece que escondem por trás do zelo litúrgico e doutrinário uma resistência para se entregar de fato a algumas exigências evangélicas. Tendo resumido toda religião cristã à adesão às normas litúrgicas e à mera repetição das formulações dogmáticas da Fé, esquecem de viver no seu dia-a-dia as virtudes cristãs, sobretudo aquelas relacionadas com o desapego dos bens materiais e do conforto pessoal.

Mais grave do que isso, causa procupação a manifestação de fiéis que ainda querem estender seu dogmatismo despojado da piedade ao campo político. Longe de estarem em consonância com os princípios que regem a Doutrina Social da Igreja, querem impor um sistema político como a única solução compatível com o catolicismo. Confundem os canais, e pensam que  se ofende a Deus e a integridade da Fé sempre que alguém questiona o seu posicionamente político pessoal.

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Meu caro padre, não somos cegos, somos apenas homens. Vivemos numa realidade móvel à qual procuramos adaptar-nos como as algas que se dobram sob o ímpeto das ondas do mar. À Santa Madre Igreja foi explicitamente prometida à imortalidade, mas a nós, como classe social, não. Para nós, qualquer paliativo que nos garanta mais cem anos de vida equivale à eternidade (palavras de D. Fabrizio ao padre Pirrone, em Gattopardo, de Tomasi di Lampedusa ).

Os palácios e castelos ainda conservados na Europa são testemunho ainda vivos da magnitude do poder   da sua antiga aristocracia. De uma idade média em que o poder da aristocracia estava fragmentado em pequenos reinos e feudos, cuja autonomia administrativa e jurídica ainda era respeitada pelos imperadores, a modernidade nasceu com a concretização do afã centralizador de monarcas católicos.

Mesmo sob o pretexto de estender o reinado de Cristo para todo o mundo, a sede de poder absoluto desses monarcas teve consequências trágicas para a história da Igreja. O Sacro Imperio Romano-Germânico (SIRG) teria sido uma das primeiras experiências histórica de coexistência de reinos cristãos sob um império fundado no princípio da subsidiariedade, não fosse a difícil queda-de-braços com os imperadores sedentos de poder. Nesse embate, os grandes monarcas saíram vencedores, tendo reduzido o poder da aristocracia e cooptado a hierarquia local da Igreja a seu favor.


Um dos exemplos trágicos foram as guerras empreendidas pelos reis católicos espanhóis para anexar os reinados dos países baixos. A nobreza local, àquela altura, era católica, assim como a maior parte da população, tendo deixado o testemunho histórico da sua devoção legando-nos uma belíssima arte sacra.  Mesmo não se opondo à vassalagem devida ao imperador do SIRG, àquela altura também rei da Espanha (Carlos I), era natural que se opusessem a uma política que diminuia uma autonomia legítima na direção dos seus reinados. Depois da desastrosa campanha do duque de Alba, em que até mesmo populações católicas tiveram suas cidades saqueadas pelos seus exércitos de mercenários, era difícil para qualquer católico holandês acreditar realmente na retidão do "rei católico". As consequências  desta triste inabilidade política foram demasiadamente ruins para a história do cristianismo.
          

Infelizmente, esse não é único exemplo. Na mesma época, Maria I da Inglaterra foi coroada com forte apoio popular. No entanto, os ingleses, muito conscientes das pretensões imperialistas dos espanhóis, com razão viram com desconfiança o seu casamento com Filipe da Espanha. Ao que tudo indica, foi realmente apaixonada por seu marido, de modo que é mais provável que não estivesse interessada em trair o seu povo. Não fosse pelo seu imperialismo agressivo, uma aliança com a Espanha seria realmente interessante para a Inglaterra. Deixou-se influenciar por conselheiros que a isolaram politicamente e fomentaram uma política de revanchismo. Maria I, que poderia ter passado à história como rainha santa, infelizmente ficou conhecida como bloody Mary, em grande parte pela historiografia enviesada dos anglicanos (Maria I não foi mais "bloody" do que seu pai, Henrique VIII). Nesse ponto crucial da história, a misericórdia e o perdão teriam salvado a Igreja Católica na Inglaterra.

Até hoje, os ingleses nutrem uma secreta admiração pelo catolicismo. Mas infelizmente, as políticas desastrosas, autoritárias e atrapalhadas de Jaime II só vieram a sepultar definitivamente o catolicismo da Inglaterra.    

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A coexistência da frivolidade, da opulência e do adultério com uma devoção deslumbrante e pretensamente ortodoxa nas côrtes dos monarcas absolutistas católicos fez um mal brutal para o cristianismo, cujas consequências ainda vivemos. Ficou a belíssima arte da época, cuja qualidade deve ser antes atribuída aos artistas, decoradores e pedreiros e à sua piedade sincera.

O adultério praticado pelos reis era quase regra, cujas exceções podem ser encontradas apenas entre os poucos reis santos. Fica mesmo a impressão de que aqueles reis realmente tinham pouca piedade interior. Pior do que isso, parece que no fundo consideravam a piedade uma coisa para damas e padres. Mas ser católico era-lhes interessante pois o prestígio da Igreja legitimava o seu poder diante do povo e facilitava-lhes a dominação sobre as mulheres.     

Não é fácil saber se realmente raciocinavam desse modo. Desconheço qualquer documento que o ateste. Ao que tudo indica, pelos muitos atos exteriores de piedade, como o suporte financeiro às ordens religiosas e obras de caridade, e à frequência ao confessionário, havia sim uma fé entre esses homens, mas um tanto quanto incoerente e pouco convincente.

Diante desse péssimo exemplo das côrtes européias católicas, e da desastrada associação de parte da hierarquia com elas, nasceu um anticlericalismo violento generalizado. É necessário reconhecer que mesmo um católico de boa vontade, que realmente leva a sério o exemplo de Cristo, está obrigado a ser anticlerical, quando clericalismo significa essa simbiose nefasta da hierarquia com uma corte vergonhosamente imoral. Mas não violentamente anticlerical. É necessário empreender uma verdadeira reforma, começando pela reforma pessoal do caráter.

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Ao andar pelos palácios da Europa, sobretudo aqueles que pertenceram aos imperadores absolutistas (e.g. El Escorial, na Espanha, ou até mesmo o palácio de Sintra), com o seu cheiro de mofo, ao lado de turistas que desembarcam aos borbotões, sente-se uma grande decepção. Pecebe-se que aquele local foi um dia um poderoso símbolo de poder, com mobília e pinturas em perfeito estado, que fervilhava com a atividade incessante de criados ao serviço da corte, cenário de incansáveis banquetes, fofocas e conspirações.  

Era isso o que valeria à pena ter conhecido, mas a barreira do tempo impõe um obstáculo intransponível. No entanto, da minha perspectiva, se hoje já sinto aflição e tristeza de saber que um dia o mundo foi assim (meu consolo era que Santa Teresa D'Ávila sentia o mesmo quando visitava as côrtes), se tivesse presenciado isso, com a mentalidade de hoje, teria morrido de tristeza. Um mundo em que a liberdade estava confinada e asfixiada pela bajulação de uma corte medíocre à autoridade de um homem imperfeito. Pelo menos, essa mediocridade ajudou muitos homens a perceber que antes era preferível servir à autoridade do verdadeiro Rei. 

Inacreditavelmente, essa mentalidade aristocrática ainda sobrevive, e reminescências dela ainda podem ser encontradas em muitas instituições da Igreja, inclusive dentro de algumas  cuja fundação data do século XX. São toleráveis, enquanto pelo menos fomentam todas as virtudes cristãs entre os seus membros e não tenham a pretensão de generalizar uma mentalidade aristocrática estranha ao Evangelho para toda a Igreja. Em poucas palavras, generalizar a idéia de que a reta ordem universal querida por Deus consiste em um mundo formado por aristocratas, a quem se deve servir, e servos, a quem não resta outra possibilidade a não ser servir os primeiros. E, mais do que isso, incluir aí a falsa noção de que se é servo ou aristocrata pela Vontade de Deus e que querer mudar a situação é ir contra a sua Vontade. Boa doutrina essa, para os aristocratas!

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Essa realidade estranha aos olhos do homem de nosso tempo, de côrtes e reis, com todas as suas incongruências e contradições, sobreviveu no mundo. Onde? Em alguns nichos dentro da Igreja. 

O nosso papa Francisco tem se esforçado para adequar a estrutura da Igreja a uma prática mais fiel ao Evangelho. Alguns erroneamente o acusam de querer esvaziar a autoridade papal somente por que escolheu não utilizar alguns acessórios externos simbólicos. Ora, o papa poderia se vestir de calça jeans e camiseta polo diante dos fiéis, mas isso, ainda que extremamente inconveniente, não diminuiria em nada a autoridade que Cristo conferiu ao sucessor de Pedro. Os símbolos não são absolutos e seu significados mudam em função dos tempos. É de total liberdade do papa fazer uso daqueles símbolos que melhor expressam, dentro da mentalidade de seu tempo, os valores evangélicos. Ao papa não cabe entrar em jogo político para agradar "tradicionalistas", "conservadores" ou "progressistas", mas sim apenas agradar a Deus.  

Paradoxalmente, esses mesmos que tão intensamente se apegam à doutrina da infabilidade papal, são os primeiros a criticar suas ações e pregações. Imagino até que, tendo vivido na época em que Pio X instituiu a Primeira Comunhão para as crianças pequenas (tão logo atingissem a idade da razão), teriam sido os primeiros a levantar suas vozes para contrariar.   

Há relatos de diálogos entre demônios e exorcistas em que aqueles atestam que o motivo de sua rebelião foi o pedido que Deus lhes fez para adorá-Lo em natureza humana. Os anjos entenderam, ao adorar Deus escondido sob a natureza humana, que pertencia aos planos de Deus criar um animal espiritual à sua imagem e semelhança, destinado à bem-aventurança. Entenderam também que deveriam estar dispostos a servir criaturas inferiores em natureza. Alguns anjos não quiseram se curvar e não aceitaram isso, tendo sido necessária uma guerra celeste para expulsá-los da presença de Deus.

Em alguns momentos, não consigo evitar o paralelo entre uma mentalidade aristocrática mal orientada, que se recusa a descer do seu troninho e sair do oratório pessoal para servir ao próximo necessitado, e a atitude dos anjos rebeldes.  Não seria mau avaliar em nosso exame de consciência pessoal se também nós não estaríamos agindo da mesma forma.

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As palavras do papa Francisco transmitem ensinamentos valiosos. Não há ressalvas nem matizes a serem feitos. São palavras que devem ser entendidas mesmo tal como foram ditas. Não há nada ali que fere a Tradição, nada que fere o Evangelho, nada que fere a Verdade. Os que mais a estão criticando, são os que mais necessidade têm de uma verdadeira metanóia. O papa Francisco tocou na ferida de muitos.  



        

domingo, 16 de junho de 2013

Revolta da salada: revolução em direção ao caos

Não é por R$ 0,20, mas por direitos... Até agora não li em nenhum lugar quais são os direitos reivindicados por esse movimento que tomou as ruas da capital de São Paulo na semana passada. Se alguém me puder fazer o favor de me encaminhar um documento que contenha uma explicação disso tudo, pelo menos teria alguma matéria com relação a qual poderia discordar ou concordar. Por enquanto, tudo isso parece pouco racional e muito primitivo.

A leitura que faço dos fatos é a seguinte. A maioria realmente não pensa no que está fazendo. São movidos pelos efeitos de uma propaganda que apela em última instância para a vaidade e para a desordem de todas as outras paixões humanas. Nada difícil de compreender: em sua maioria, essas pessoas foram submetidas a uma formação que evitou, a todo custo, ensinar a necessidade da virtude.

Essa propaganda produz nessas almas ingênuas a ilusão de que estão mudando o mundo e contribuindo positivamente para a história. A velha guarda que pensa que os movimentos de 68 e outras tantas revoluções culturais das quais participaram foi algo diferente do que aconteceu na semana passada, argumentando que aquelas foram legítimas e essas que estão acontecendo não são, não aprendeu nada. Ficaram velhos, mas ainda dominados pelas paixões, só conseguem enxergar o mundo na perspectiva dos interesses próprios.

Essa turma da velha guarda acha que mudou o mundo para melhor e se indigna de ver que a juventude não reconhece as grandes benesses que propiciaram com as mudanças que conquistaram. Não mudaram nada, pois não há nada que possa ser mudado no mundo de fora, se antes cada um não resolve mudar o seu mundo de dentro. Quando se é jovem, em geral não se pode  desfrutar da posse de bens materiais, que só vem com o tempo, à medida que o trabalho vai gerando frutos e as circunstâncias vão permitindo posições de maior responsabilidade. O jovem, motivado por essas paixões desordenadas, desejaria para si a posse do que apenas uma vida inteira pode dar. E é lógico, na perspectiva das paixões, pois essa posse permitiria dar vazão a todos os ímpetos que ficam limitados pela sua dependência.

Os velhos, esquecidos da etapa anterior, tem agora o que desejaram quando jovens, mas não tem mais a juventude e ainda se esqueceram que foram jovens um dia! Todo o conflito, no final de contas, resulta do embate de interesses que por alguma razão se contrariam mutuamente. Os velhos quereriam ser jovens de novo e chegam a esperar a compreensão e obediência da juventude. Os jovens, arrastando ainda a casquinha do ovo, chegam a acreditar que são melhores do que todas as gerações que os precederam e que agora são oprimidos pelos anciãos da sociedade.

Esse processo é um movimento que tem ocorrido repetidamente na nossa história. Na realidade, tudo isso é resultado do jogo que as paixões produzem no âmago da natureza humana nas suas diversas etapas da vida. Esse ímpetos, quando abandonados às suas próprias forças, produzem o caos. Esse caos piora o mundo em vez de melhorá-lo. Eis a grande ilusão: essa gente, quando faz essas manifestações, está botando para fora o seu caos interior e gerando caos exterior. Estão piorando o mundo em vez de melhorá-lo. Eles tem toda razão quando escrevem "desculpem o transtorno, estamos mudando o mundo". Estão de fato mudando o mundo, para pior, introduzindo mais caos, gerando dor e sofrimento.

 O único movimento revolucionário que pode realmente mudar o mundo é a decisão pessoal de mudar antes a si mesmo. Esse movimento revolucionário acontece e as almas que tem a coragem de tomar essa iniciativa são bem aventuradas. Mas há tantos e tantas que passam a vida inteira acreditando que os seus problemas são causados pelo que vem de fora. Serão eternamente rebeldes e inconformados, pobres criaturas, incapazes de perceber que as únicas culpadas pela sua infelicidade são elas mesmas.    

Em poucas palavras, não há a menor diferença entre um intelectual que tenta desligitimizar esse movimento em rede nacional e sustenta ao mesmo tempo as revoluções de seu tempo de juventude, e um jovem que vai às ruas protestar disposto a espalhar a destruição. São igualmente motivados pelas suas paixões desordenadas. A única diferença é que tais paixões se manifestam de modo distinto em função da etapa da vida. No entanto, a revolução que realmente teria sido necessária, isto é, a reforma do homem interior, com a construção das virtudes que educam as paixões desordenadas e eleva o homem para além da esfera dos seus interesses primitivos, nunca foi realmente empreendida nessas almas.
   

domingo, 7 de abril de 2013

Comentário ao artigo "Filosofia a Serviço da Fé" de Joel Pinheiro

No dia 1 de abril o editor da revista Dicta & Contradicta, Joel Pinheiro, publicou um post na página dessa revista um artigo intitulado Filosofia a Serviço da Fé. Várias das opiniões ali expressas merecem ser comentadas e meu intuito é oferecer aos interessados uma outra visão do tema. Os meus argumentos e observações não chegam perto de esgotar todas as possibilidades de esclarecimentos e ponderações que um intelectual bem formado na filosofia cristã poderia dar. Vou me ater, portanto, apenas aos pontos que mais me chamaram a atenção e deixar ainda de lado tantas outras considerações que me vieram à mente.

A primeira afirmação que gostaria de comentar é a seguinte:

(...) o ensino filosófico por eles praticado matava a filosofia nas almas dos melhores, ou seja, daqueles que não se satisfaziam simplesmente aceitando doutrinas, mas que queriam filosofar.

O ensino filosófico a que o autor se refere é o tomismo. Em primeiro lugar, é necessário entender o contexto e a finalidade do ensino da filosofia tomista. O contexto são os cursos de filosofia para a formação de sacerdotes e leigos cristãos. A finalidade era a formação básica nessa filosofia e não a formação de filósofos. 

A formação dos cristãos que recebem a missão de ensinar deve estar baseada em um sistema filosófico compatível com os ensinamentos sagrados. Isso é evidente, pois se não fosse assim, haveria uma contraposição entre o conhecimento filosófico e o conhecimento teológico. Tal contraposição é problemática pois, nesse caso, ou se admite que Deus é contraditório, tendo criado uma realidade inconsistente, o que é um absurdo, ou então se exclui alguns dos dois conhecimentos. 

Nesse sentido, a filosofia tomista foi sendo considerada pelo magistério, ao longo da história da Igreja, como um sistema plenamente compatível com a fé e ao mesmo tempo robusto do ponto de vista formal.  Portanto, isso explica o motivo por que tenha sido incentivado o seu ensino aos cristãos, sobretudo sacerdotes e leigos que receberiam a missão de formar outros fieis. 

Os que aceitavam esse sistema filosófico não necessariamente eram maus intelectuais e nem se pode afirmar categoricamente que eram maus filósofos. É possível que alguns desses tenham de fato se convencido do sistema tomista depois de tê-lo compreendido bem. Isso não significa a morte da filosofia. Significa apenas que esse sistema foi aceito por aqueles filósofos como uma resposta definitiva para muitos dos problemas filosóficos. É análogo ao que ocorre com a teoria Newtoniana entre os físicos. Dentro de seu escopo de aplicação, ela é bem aceita pela a maior parte deles, mas isso não significa a morte da física. A morte da física aconteceria, ao contrário, se os físicos deixassem de aprendê-la, substituindo-a por uma doutrina pessoal, com o risco quase certo de ser mais ineficiente do que a Newtoniana.

Além disso, a frase acima contradiz todos os exemplos que o próprio autor destaca. Todos eles, de acordo com o próprio autor, passaram pelo ensino dessa filosofia, e, ao contrário do que é afirmado na frase, não matou a filosofia nas suas almas. A inconsistência da frase se agravaria ainda mais se o autor  afirmasse explicitamente que os autores destacados eram os melhores e os únicos que não se satisfaziam aceitando doutrinas.  Embora isso não seja afirmado explicitamente, está subentendido.  

A segunda afirmação que merece ser comentada é a seguinte:

Tanto em Landim como em Kenny, o tomismo patrocinado pela Igreja apareceu como algo sem sentido, descolado de qualquer preocupação real e cujas respostas fáceis não convenciam.

Não está totalmente claro se essa frase significa apenas a opinião de Landim ou Kenny, ou se também expressa a opinião pessoal do autor. Qualquer que seja o caso, essa é uma afirmação forte que, ao meu ver, tem muitos problemas. 

Analisemos por partes.  O tomismo patrocinado pela Igreja apareceu como algo sem sentido. Em primeiro lugar, é difícil falar em um autêntico tomismo que não esteja estreitamente relacionado com a Igreja. São Tomás não era um filósofo imbuído do espírito de ofício que o autor do artigo parece ter como ideal. Um filósofo cristão, como São Tomás de Aquino, não é um livre pensador. Toda sua filosofia tinha um princípio vinculante que era a sua fé. 

O tomismo - que em sua integralidade só pode ser patrocinado pela Igreja - não apareceu como algo sem sentido, mas como algo repleto de sentido, que era proporcionar uma formação filosófica robusta e plenamente compatível com a fé cristã. Esse sentido tinha sim uma preocupação muito real, bem concreta, de fazer frente às doutrinas modernas claramente conflitantes com a teologia católica. E, ao contrário do que se afirma, as respostas da metafísica de São Tomás não são nada fáceis de entender. Uma vez bem entendidas, as pessoas imbuídas do mesmo espírito de São Tomás, isto é, tendo a fé como princípio vinculante do pensamento filosófico, costumam se convencer dos seus argumentos, ou pelos menos, admirá-las como boas soluções para problemas difíceis.

Pode ser que a crítica não seja exatamente a São Tomás, mas ao neotomismo. De qualquer forma, o neotomismo que é objeto de crítica do texto não é uma falsificação ou deformação do sistema de São Tomás, mesmo que as transposições didáticas dos manuais sempre tenham suas deficiências e limitações. 

A terceira frase que quero comentar é a seguinte:

Dado isso, pergunto-me se a postura filosófica, ou talvez antifilosófica, da Igreja Católica, não tenha contribuído para a perda da fé de tantos intelectuais que começaram seus estudos imbuídos de convicções religiosas ou ao menos inquietações espirituais.

Se de fato os intelectuais começaram seus estudos imbuídos de convicções religiosas, nenhuma postura filosófica ou antifilosófica poderia ter sido capaz de contribuir para a perda da fé. Pois, se de fato é uma convicção religiosa, toda  e qualquer filosofia que esses filósofos poderiam conceber teria que necessariamente incluir a possibilidade de existência do conteúdo da sua fé. Com esse espírito, ainda que viessem a se sentir insatisfeitos com o tomismo de manual, o talvez até mesmo com o tomismo perfeitamente compreendido, deixando bem claro as razões de sua insatisfação, muito poderiam contribuir com as suas soluções. Veja que, ainda que fossem inicialmente vistos com desconfiança, como o próprio São Tomás foi em seu tempo, isso não afetaria em nada a fé deles, se fosse de fato uma convicção. Seria uma fé bastante duvidável essa que se perde porque a maioria dos seus irmãos na fé não concordam com sua visão filosófica pessoal.

Ainda outra frase:

Ao mesmo tempo, os meios religiosos não fomentaram, nem de longe, o tipo de pensamento necessário ao amadurecimento filosófico; e agora correm atrás do prejuízo. Praticamente toda a elite intelectual do mundo vive alheia, quando não avessa, à ideia de religião. A culpa não foi da malvada modernidade antropocêntrica…    

Que os meios religiosos não tenham fomentado, nem de longe, o tipo de pensamento necessário ao amadurecimento filosófico, é uma afirmação categórica, sem nenhuma justificativa realmente objetiva. Cabe ao autor dessa frase definir claramente o que na sua visão é maturidade filosófica e depois mostrar claramente que os meios religiosos não o fomentaram. Sem isso, não tem nem o que discutir. Também gostaria de saber quem está correndo atrás do prejuízo, e o que o autor realmente quis dizer com essa frase dotada de uma imprecisão tão grande que me parece lamentável até para a linguagem informal.

As duas frases seguintes ainda deixam subentendido que a atitude antifilosófica da Igreja teria sido a culpada pelo fato de a elite intelectual do mundo viver alheia, quando não avessa, à idéia de religião. Em primeiro lugar, seria necessário restringir essa frase ao mundo ocidental; seria muito difícil aplicar essa frase - que já me parece uma generalização questionável - ao mundo islâmico, por exemplo.  Ora, se a modernidade de fato deu à luz uma infinidade de filosofias e disciplinas do conhecimento avessas à religião, como o marxismo, o darwinismo e a psicologia freudiana, é evidente que boa parte do mundo intelectual, que incorporou essa doutrina, será alheia, ou avessa, à religião.

Seria uma ingenuidade pensar que se a Igreja tivesse aderido oficialmente a essas tendências, então teria  protegido o mundo intelectual da aversão à religião. Pelo contrário, é evidente que teria trazido para o seu próprio seio a aversão a ela mesma. E foi de fato o que aconteceu quando essas doutrinas foram introduzidas, nos anos sessenta, e o tomismo recomendado por Leão XIII e Pio X abruptamente renegado ao total esquecimento, salvo poucas exceções.      

Por último, gostaria de fazer uma avaliação pessoal a respeito do sentido desse post do editor da Dicta. Acompanhei o primeiro ano dessa revista e sei bem que nessa época adotava-se uma linha editorial que tinha como critério a complementariedade entre fé e razão. Posso afirmar com certeza que essa era a visão de seu primeiro editor. 

Alguns de nós acreditamos ingenuamente que a Dicta seria uma revista com critério cristão. Por enquanto, ainda ficamos esperando por uma outra revista que tenha a coragem de se denominar, simplesmente, "filosofia cristã".

Adendo ao texto, de 16 de abril 2013
Após a publicação desse comentário, o Joel Pinheiro o respondeu no site da Dicta http://www.dicta.com.br/filosofia-a-servico-da-fe/. Mantenho todas as minhas opiniões no que diz respeito à filosofia cristá, mas admito que possa ter feito uma avaliação imprecisa sobre a relação entre a Dicta e o Opus Dei. Por isso, omiti o penúltimo parágrafo e modifiquei o último do texto original. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

Na periferia do coração

Existe em cada um de nós uma tendência de se colocar como o centro do universo, apoderando-se para si do papel de protagonista da história universal. Há aquele desejo de que toda a realidade se curvasse aos desejos pessoais, ao mesmo tempo que a imaginação cria suas fantasias baseadas na noção de que felicidade é viver em um mundo onde o querer pudesse sempre e a todo momento ser satisfeito. O dinheiro parece prometer essa façanha, tanto mais perfeitamente quanto maior a quantidade.

Como consequência, muitos atribuem o valor ao outro na proporção de sua capacidade de satisfazer os seus desejos. Quem faz e acontece são aqueles que tem dinheiro, fama, poder, beleza, poder de atração sexual, carisma etc. A lógica é simples, embora não evidente e nem mesmo patente para os homens.  Eis a lógica: viver é sentir prazer, vive mais quem sente mais prazer, sente mais prazer quem mais satisfaz a sua vontade. Portanto, essa é a pessoa que queremos ser: o mais capaz de satisfazer a vontade própria.

Isso explica a razão da admiração quase sobrenatural que os atores, modelos, atletas e outros ricaços despertam sobre a grande massa. Constrói-se a partir dessas figuras também mortais e frágeis, a imagem de seres plenos, perfeitos e felizes, detentores de um querer ilimitado e livres de toda privação e sofrimento. Como consequência, a massa se espelha neles e deseja alcançar o seu lugar entre os deuses do olimpo de uma miragem coletiva. Além de ver aí a possibilidade do prazer ilimitado e da concretização do seu protagonismo universal a que me referi inicialmente, ilude-se pensando que a fama, o poder e o dinheiro a fará amada por todos.

Sim, há também em todos nós, como consequência da ilusão do protagonismo universal, e talvez por muitos outros e mais misteriosos motivos, um forte desejo de ser amado por todos, de ser considerado especial, de desejar que o mundo inteiro se enchesse de pesar e preocupação pelos nossos problemas. Essa impressão ainda amplifica mais a admiração pelos famosos, pois dá sustento à falsa noção de que eles sim tem toda essa atenção do mundo. Mal percebem que, na verdade, essa admiração é apenas um efeito da projeção dos anseios da massa em um ídolo e que, na realidade, não há aí nem mesmo um pingo de amor. Um famoso não é amado, é, na melhor das hipótese, idolatrado.

Por outro lado, há o extremo oposto. Assim como todos quereriam para si essa posição entre falsos deuses mortais, todos tem um pavor imenso de ser contado entre os pobres, fracos, imperfeitos, feios, chatos, excluídos, desonrados, tristes, deprimidos e impopulares. Em geral, o ser humano evita se parecer ou estar entre os que são considerados a escória, ao passo que fazem de tudo para se parecer com a nata.

Em pequena escala, todos já tiveram a experiência desse importante fenômeno antropológico na escola durante a infância  Pode-se ir da mais alta posição de popularidade à mais baixa condição entre a escória. Isso mostra que de fato não há um fundamento objetivo na avaliação do indivíduo pelos demais, mas um efeito coletivo de medo e desejo que leva à divinização de alguns e à crucifixão de outros.

O medo de estar entre a escória, cria um mecanismo de atribuição de toda imperfeição a um ou poucos indivíduos. Esses são isolados e ridicularizados. Isolados, pois a amizade com eles pode fazer com que o amigo seja contado entre eles. Ridicularizados, pois ao feri-los, pretende-se reforçar aos demais que você não é um deles. E são jogados para a periferia do coração. E sofrem o pior que alguém pode sofrer, o desamor coletivo, injusto, na infância.

Como consequência, muitas pessoas, que sempre tem o seu lado bom, que sempre tem algo precioso para dar, que sempre tem algo de único, valioso, sofrem uma injustiça de cortar o coração. Foi o que aconteceu com Cristo. A lógica humana queria o outro modelo, do poder, da fama e do dinheiro, imaginando que Deus, se fosse de fato Deus, o demonstraria através de um enviado com esses atributos construídos por uma humanidade adoentada pelas suas paixões e seu egoísmo.

Mas não, enviou alguém que, no momento do calvário,

"Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele. Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas." (Is 53, 3-5)

Nessa vida, vi pessoas passarem por algo parecido, até mesmo na infância. Dá-me grande consolo saber que o próprio Deus se compadeceu desses sofrimentos e quis para si o pior de todos. E fica tão claro, tão claro, o poder purificador do sofrimento. Quem sofre injustiça, muda para melhor, consegue sair da dimensão do egoísmo e aprende a importância de amar. Existe uma enorme beleza no sofrimento, mas são tão poucos os que conseguem ver isso.

Não é possível explicar, descrever, a linguagem não é capaz de transmitir o que apenas o coração pode entender. O nosso entendimento é muitas vezes enganado pela crítica de que amar o sofrimento é masoquismo. Na realidade, todos passamos mesmo pelo sofrimento em algum momento da vida; o mundo está separado entre os que se rebelam, não se conformam, e culpam a Deus por um maior bem que lhes quer dar e os que entendem, no íntimo do seu coração, a transformação maravilhosa que Ele opera nos que confiam, apesar do sofrimento.  

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Adendo ao post "Ocultamento, informação e obediência"

No meu último post "Ocultamento, informação e obediência", toquei no tema do sigilo judicial nos processos institucionais para a apuração de delitos cometidos por seus membros. Tinha em vista em particular o caso da Igreja. Alguns leitores chamaram a atenção ao fato de que a revelação do mal fere não somente a instituição como um todo, mas também a de cada um dos envolvidos, às vezes não necessariamente somente os culpados.

Para resolver o problema da conveniência da publicação da identidade dos envolvidos no processo, é necessário ter em conta vários fatores. Em primeiro lugar, deve-se ter em conta as características do poder que julga o processo. Também é necessário avaliar a conveniência da publicação tendo em vista a utilidade da informação para o público, ponderando os danos potenciais da ocultação dessa informação e os danos reais aos interessados no caso de publicação. Além disso, deve-se ter em conta o direito à preservação da intimidade das vítimas, mais grave no caso de menores, e a proporção entre o dano cometido pelo ofensor e o dano que ele sofrerá em decorrência da publicação.

A um julgamento que ocorre em âmbito civil não se aplicam os mesmos critérios de um julgamento eclesial. Nesse último caso, é costume preservar o sigilo judicial ao longo de todo o processo envolvendo um delito grave, como é o caso do delito da pedofilia cometida por ministros ordenados. Uma vez concluído o julgamento, caso se verifiquem verdadeiras as acusações, é imposta uma pena canônica, que pode variar desde a suspensão do direito de celebrar a Missa e ouvir Confissões e a imposição de uma vida de silêncio e oração, até, em casos mais graves, à demissão definitiva do estado clerical. Não é dada uma sentença formal, mas fica claro pela natureza das penas qual foi o resultado do processo.   

Em alguns países de língua inglesa e na França, a lei exige que o bispo comunique às autoridades civis, caso fique sabendo, fora do sacramento da Comunhão, de algum caso de pedofilia. Nos outros casos, a Igreja entende que seria muito pesado exigir do bispo que denunciasse um padre sob sua jurisdição, pois seria um ato tão difícil quanto o de "denunciar o próprio filho". Para contornar essa dificuldade, os bispos são orientados pela Congregação da Doutrina da Fé a acolher a família da vítima e orientá-la a fazer uma denúncia às autoridades civis.

A minha opinião pessoal sobre a matéria é que em caso de delito grave, no âmbito da justiça comum, não há razão suficiente para ocultar a identidade do réu do processo. Caso o processo venha a se tornar de amplo conhecimento público, não é incomum que o réu e as pessoas próximas a ele possam vir a sofrer retaliações ou, pelo menos, a exclusão social. Mesmo em uma sociedade plenamente consciente do princípio da presunção da inocência, a dúvida quanto à verdade do caso desestabiliza as relações de confiança do réu com a sociedade. Apesar disso, entendo que a tutela do bem comum prevalece sobre o interesse de um indivíduo. Logicamente, devido às sérias consequências sobre o acusado pelo simples fato de ser acusado em público, a lei deve prever uma punição muito severa nos casos de falsa acusação, em proporção à gravidade da acusação. 

Respondo à crítica de que esse ponto de vista faz o coletivo prevalecer sobre a dignidade da pessoa. De fato, a dignidade da pessoa pode ser ferida pela desconfiança e retaliação injusta. No entanto, a dignidade de muitas pessoas fica seriamente desprotegida quando é deliberadamente ocultada a informação de que um indivíduo pode, com alguma chance, representar um perigo para a sociedade. Quando não há diferença no qualitativo, prevalece a diferença no quantitativo. Em concreto, fica fácil entender essa idéia no caso de um pedófilo. O ocultamento da informação a respeito do seu vício, ainda que apenas suspeito, pode permitir a um verdadeiro infrator continuar fazendo outras vítimas. Nesse caso, a gravidade do dano que pode ser causado a novas vítimas justifica,  sem sombra de dúvida, o dano que pode ser causado a um réu inocente pela publicação das falsas acusações. 

No caso dos julgamentos em âmbito eclesial, entendo que seja de fato melhor conservar o sigilo judicial em todos os casos de delito grave. Isso porque, ao contrário da justiça comum, a Igreja que julga também deve ter uma relação maternal com o réu, por ser um fiel e um servidor. Além disso, a Igreja não tem meios, atualmente, para compensar o inocente desonrado com uma condenação severa da falsa acusação. No entanto, a partir do momento em que ocorre a acusação, seria prudente e obrigatório, da parte do bispo, tomar todas as atitudes cabíveis para afastar o réu de trabalhos pastorais que o possa colocar em ocasião de cometer novas transgressões. Ao mesmo tempo, o bispo deve sempre seguir a recomendação anteriormente citada da Congregação da Doutrina da Fé  
Por último, no caso de menores ofendidos, o sigilo judicial com relação a sua identidade deve ser respeitado em todos os casos. 

Referências
As informações sobre os julgamento de delitos graves na Igreja extrai de uma entrevista de um promotor de justiça da Congregação da Doutrina da Fé, publicada no site http://www.ewtn.com/vnews/getstory.asp?number=101031.   

Observações
Não sou experto nem em direito comum nem em direito canónico. O conteúdo desse texto expressa uma opinião pessoal e não a posição oficial da Igreja ou de outra instituição. Caso alguém identifique algum ponto que necessite de retificação, agradeceria a correção.

 
 

    

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ocultamento, informação e obediência


Alguns pessoas dentro da Igreja querem passar a impressão aos fiéis leigos de que tudo ali dentro funciona em perfeita ordem e harmonia. Às vezes se justificam dizendo que, assim como as crianças pequenas de uma família não devem ficar sabendo das ameaças e crises familiares, para não ter a sua felicidade pueril destroçada, também os fiéis comuns devem ser poupados das más notícias.

A prudência comum mostra que de fato é melhor não impor às crianças o fardo do conhecimento das realidades duras da vida. Mas a comparação com os fiéis da Igreja não é válida, pois já não são mais crianças. Se por um lado é natural que assuntos internos relativos à administração da Igreja não precisem ser de conhecimento público, devem pelo menos ser de tal modo conduzidos que, caso fosse levantada alguma suspeita, todas as atividades até então conduzidas em discrição pudessem ser integralmente reveladas, sem receio algum de que alguma irregularidade fosse encontrada.  

Na realidade, bem sabemos que em todas as realidades temporais e também nas eclesiais, existem enormes faltas à lei de Deus e à moral cristã. Logicamente, quando há falta, quase sempre há ocultamento, pelo simples fato de que as pessoas envolvidas não querem ser punidas e desejam continuar se beneficiando das iniquidades que praticam em segredo. Por outro lado, há também o ocultamento dos escândalos promovido com o objetivo de salvaguardar a reputação da corporação que sairá inteiramente lesada pela má conduta de poucos.

Esse último tipo de ocultamento é mais compreensível do ponto de vista ético, e muitas vezes é praticado por pessoas boas, que tem a intenção de proteger a integridade da corporação. Isso acontece na Igreja. Essas pessoas estão na realidade entre os que mais sentem indignação pela má conduta alheia, pois, ao colocar em risco a reputação da instituição, ela simultaneamente fere a reputação e boa fama daqueles que se entregaram sinceramente por ela.

Não é um dilema de fácil solução. Se, por um lado, a revelação do mal fere a instituição como um todo, por outro lado, o ocultamento permite que a má conduta seja perpetuada, se fortaleça e acabe destroçando a vida de mais e mais pessoas inocentes. Uma possível solução para o problema consiste em aplicar severas penas em âmbito interno, conservando em segredo do mundo exterior todo o processo e suas causas.

Em alguns casos essa solução pode ser aceitável, mas em outros a revelação da informação pode ser necessária para que as pessoas inocentes possam se proteger. Além disso, se por um lado a instituição pode perder sua boa fama quando um escândalo vai a público, por outro lado a exemplaridade de um julgamento  público e transparente tende a desestimular a ação dos corruptores, ao mesmo tempo que conquista a confiança dos homens de boa vontade.

Cristo bem ensinou que é necessário ser manso como as pombas, mas esperto como as serpentes. Os leigos não podem se comportar como crianças, nem mesmo os jovens. Não podem ser ingênuos, pois quem é ingênuo corre maior perigo. Há bons e maus pastores dentro da Igreja. Um certo grau de desconfiança com relação às pessoas e instituições da Igreja não pode ser reprovada como uma atitude de desconfiança com relação a Deus, pois o homem é falível. Maldito o homem que confiou no homem!  

Algumas raposas e lobos espertos utilizam um discurso bastante capcioso para conquistar à força a confiança dos fiéis. Esse discurso, podendo apresentar as mais diversas e rebuscadas formulações, consiste em persuadir o outro de que é um representante de Deus e que tudo o que diz e manda é a própria vontade divina e ainda que desconfiar disso é o mesmo que desconfiar de Deus. De fato, a autoridade da Igreja, representada pelos seus ministros (padres, bispos), deve ser respeitada pelos fiéis como procedente de Deus. Mas essa autoridade não é incondicional; como os homens são falíveis, sua autoridade deve passar pelo crivo da razão iluminada pelos mandamentos. Além disso, o escopo da sua autoridade se restringe exclusivamente ao campo espiritual.

Esse critério é válido para um leigo, que, não estando sob os vínculos do voto de obediência, tem resguardada a integridade da sua auto-determinação dentro dos limites da lei de Deus. Um monge ou um frei, pelo voto de obediência, entrega sua auto-determinação e se dispõe a obedecer a tudo o que não fere a lei de Deus. Um monge precisa da autorização do abade para sair do monastério, mas logicamente um leigo comum não precisa de autorização eclesiástica para deixar sua casa ou até se mudar de país!

Um tradicional critério sobre a obediência, diz que ela é virtuosa apenas quando exercida em razão da autoridade de quem manda e não das suas qualidades. Isso é verdadeiro, mas também é verdadeiro afirmar que a obediência só pode ser virtuosa quando não atenta contra a consciência formada nos mandamentos de Deus. Tomar em sentido amplo e irrestrito uma afirmação do tipo "quem obedece nunca erra" pode levar a erros monstruosos. Erra sim quem comete um crime a mando de um representante eclesiástico. A intenção dessa frase é transmitir a idéia de que agir em obediência a um autêntico representante de Deus, no âmbito sob cuja autoridade se está vinculado, sempre é proveitoso, mesmo que apenas do ponto de vista espiritual.

Há muitos fiéis dentro da Igreja que foram duramente traídos pela infidelidade de seus pastores. Penso na já bem conhecida história do fundador de um famoso movimento contemporâneo, que exigia uma rigorosa obediência dos colaboradores mais próximos, que era muito hábil em conseguir doações de fiéis ricos, que tentou sabotar outros movimentos da Igreja, e, que depois de tanto tempo praticando suas iniquidades, ao fim da vida, teve todas suas más obras reveladas ao grande público, causando grande dano à instituição que fundou, formada por pessoas muito bem intencionadas. Por isso, não sejamos mais ingênuos como as crianças. E, para isso, não podemos ter medo de buscar a informação, pois a informação verdadeira é recurso imprescindível para a aplicação acertada de todo julgamento prudencial.    

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A recente notícia da renúncia do papa me abalou. Tinha e continuo tendo total confiança em Bento XVI. A razão do meu desconforto foi a perda da segurança que esse papa corajoso e fiel me dava. A segurança de que a Igreja estava sendo protegida dos lobos que trabalham dia e noite para envenená-la através da corrupção moral, doutrinal e física do seu corpo. Mas, depois de analisar os fatos, e ponderá-los, entendi que a renúncia de Bento XVI foi necessária em um momento em que talvez a sua debilidade física e mental já não permitisse mais o enfrentamento dos lobos de dentro e de fora. Tenho total confiança de que o próximo papa deve continuar esse serviço corajoso. O papa Bento XVI foi o papa da Eucaristia, aquele que firmou a Igreja nesse pilar. Deus queira que o próximo seja aquele a firmar a Igreja no pilar de Nossa Senhora. Apoiados nesses dois pilares, a Igreja resistirá e vencerá os seus inimigos, cumprindo-se o sonho profético de Dom Bosco.