Recentemente, muitas pessoas da nossa sociedade se escandalizaram diante da divulgação, nos meios de comunicação de grande difusão, da reportagem sobre um indivíduo que dissipa uma enorme quantidade de dinheiro na noite. Se fosse uma sociedade que ainda cultivasse as virtudes da temperança, da modéstia e do pudor, teria sido fácil de entender a razão da desaprovação. Não sendo esses os reais valores em questão, resta saber por que a sensibilidade das pessoas foi afetada.
A julgar pela vida da maior parte das pessoas da geração mais jovem e pelos valores que tem sido difundidos pela indústria cultural no últimos anos, não há mesmo nenhum motivo de escândalo. No entanto, há também uma outra esfera de valores, defendida e propagandeada sobretudo pelas ideologias de tonalidade mais à esquerda. Em linhas gerais, defendem que o homem virtuoso deve ser solidário, sensível aos problemas sociais, ativo na promoção dos direitos dos desfavorecidos e, portanto, não tão centrado em si mesmo, menos individualista.
Nesse sentido, esses valores frequentemente definem como o seu mais preciso oposto o comportamento humano que coloca em primeiro lugar a satisfação pessoal, o consumo desenfreado e os interesses pessoais. Aqui no Brasil, cunharam um termo para os que são enquadrados nesse estado, dando-lhes a alcunha de "coxinha". Além disso, costumam apontar o sistema capitalista como o grande responsável pela difusão desses valores individualistas, consumistas e opressores.
Na prática, no entanto, essa separação nunca é precisa na vida cotidiana das pessoas. Muitos daqueles que defendem as teses mais à esquerda tem, na vida privada, um comportamento incompatível com o seu sistema de valores. O que temos visto na vida concreta da maior parte dessas pessoa é uma forte sobreposição entre o usufruto das vaidades oferecidas pela "propaganda capitalista" e a adoção religiosa de um discurso politicamente correto, isto é, em sintonia com aquilo que a mentalidade mais à esquerda defende.
Quem é bem experimentado na vida sabe bem que as reações de escândalo diante de fatos como esse geralmente afloram dos desejos recalcados. Quem conhece o ser humano, sabe que, não estando amparado por um bom preparo espiritual, sempre cai na tentação de dar vazão às suas paixões quando na posse do poder que o permita. Não há modelo mais preciso e verdadeiro para a condição humana do que o seu estado propício à desordem e à perversidade em decorrência do pecado original.
Sabendo que as seguintes palavras poderão causar um segundo escândalo em muitos, afirmo que a inveja foi a principal razão da reação apaixonada contra o comportamento desse filho pródigo do Brasil. Bem encoberta por um discurso moralista de tonalidade vermelha, diga-se de passagem.
No entanto, no discurso de vozes de tonalidade mais azulada, alguns chegaram a repetir a velha crença de que os vícios privados são virtudes para a economia. É difícil de acreditar que alguém realmente acredite nisso; nas entrelinhas desse refrão é difícil deixar de ler uma boa dose de provocação e cinismo.
Um dos argumentos difundidos pelo mundo afora para defender aquele comportamento (ou talvez para provocar o povo da esquerda) se baseia no fato de que esses esbanjadores, para conservarem seu estilo de vida, empregam muitas pessoas, dando-lhes trabalho, e, portanto, fazendo-lhes o bem. Acrescentando aí o fato de que esses empregados são pobres, tem ainda a cara-de-pau de dizer que os desregrados ajudam mais os desfavorecidos do que os propagadores de discursos esquerdistas.
Esse tipo de discurso é típico de quem é incapaz de se colocar no lugar do outro. Entre as duas opções, o que é melhor, servir a um senhor bom, virtuoso e honesto ou a um senhor escravo das suas paixões? Qual dos dois seria mais confiável, qual dos dois saberia motivar melhor o seu empregado para desenvolver ao máximo suas potencialidades humanas? O que é melhor, ser "senhor de um outro senhor", ou "um servo de um outro servo"?
Na verdade, são nefastas as implicações para a economia e para a sociedade de senhores que contratam pessoas para trabalhar na edificação de seus vícios pessoais. Esse tipo de atividade é incapaz de construir riqueza de valor perdurável. Ao mesmo tempo, ao reforçar exemplos de pouca laboriosidade e virtude, desistimula as pessoas ao trabalho, espalhando em todas as classes sociais o desprezo pela excelência moral em favor da vida regalada. Consequentemente, o potencial de riqueza de uma nação, como um todo, fica prejudicado, pois o trabalho das pessoas tende a ficar muito aquém de sua real potencialidade. Ao mesmo tempo, produz uma deseducação cultural, pois corrói uma parte importante do capital cultural de uma sociedade, que são as suas tradições e costumes. Essas são transmitidas pelos seus antepessados como soluções genuínas e eficazes contra o caos social gerado pelos vícios privados. Em outras palavras, atividades econômicas à serviço de comportamento viciosos sempre conduzem à desintegração da sociedade, que por sua vez, voltam a ter impactos negativos na economia.
De certa forma, todas essas reações, independentemente de sua causa, e ainda que farisaicas, sempre tem o efeito positivo de desencorajar um tipo de comportamento vicioso que não pode ser enquadrado como crime. Ao contrário, quem afirma que esse tipo de comportamento é positivo para a economia, só está atrasando o processo natural de eliminação de um foco de desintegração social. O problema pode aumentar, minando efetivamente a moral e a capacidade de uma sociedade. E, se isso acontecesse, parte dos responsáveis terão sido aqueles que, em vez de condenar o vício, louvaram-no com a falsa justificativa de utilidade econômica.
domingo, 10 de novembro de 2013
O filho pródigo do Brasil
domingo, 3 de novembro de 2013
A arrogância dos macacos pelados
O espírito da sociedade moderna parece ter se tornado completamente cega para a potência monumental da natureza. Engana-se na ilusão de que já está completamente dominada pela ciência humana. Imerso em um universo totalmente artificial, quase sempre protegido das adversidades naturais, perdeu a noção da sua impotência em face das forças brutais do universo que o cerca.
Como consequência, perdeu o contato com a realidade e vive inconsciente de que logo será engolido por um turbilhão monstruoso que o reduzirá a pó. No passado, tanto as grandes civilizações quanto as culturas de pequeno porte, deram testemunho através de sua produção cultural da sensibilidade para os grandes problemas da existência e os seus mistérios; a saber, a morte, a origem da vida e o poder brutal da natureza.
Para a perplexidade geral, em nossos tempos, declaramos superadas todas essas preocupações do antepassados. Pensamos que eles eram apenas homens primitivos, amendrotados diante de uma natureza que não podiam controlar e entender. Trivializamos a realidade.
O que antes parecia grande, belo, amedrontador, quase infinito, nada mais é do que algo trivial em grande escala. Tomemos como exemplo o mar, tão grande, tão misterioso, tão irregular, que no passado fascinou todas as sociedades. Hoje, nada mais é do que um meio contínuo, perfeitamente descritível por meio da mecânica dos fluidos. Em princípio, a ciência é capaz de mimetizar perfeitamente todas as ondas e seus fenômenos outrora tão misteriosos. A sua bela cor nada mais é do que o efeito do padrão de absorção e espalhamento da luz das moléculas ali presentes.
Em poucas palavras, o universo inteiro foi reduzido a um amontoado enorme de partículas, com regras de interação bem definidas, e com simetrias e estruturas periódicas que se estendem por todo o espaço. Como escreveu Gustavo Corção no segundo volume de Dois Amores e Duas Cidades, o universo, nessa perspectiva, parece uma imensa cadeia, com um número enorme de celas, todas iguais, monotonamente iguais. Tanto é verdade que até hoje nada se conseguiu além de uma literatura insossa quando tentaram fazer divulgação científica através de estorinhas (Contato de Carl Sagan é um bom exemplo). Essa perspectiva reducionista da realidade é um veneno mortífero para a imaginação.
Ou seja, já não há mais espaço para o mistério. Está tudo compreendido, tipificado. O ser humano nada mais é do que um amontoado de moléculas escolhidas e dispostas sabiamente pela evolução de modo a interagir para compor um organismo. A vida nada mais é do que uma organização originada do "acaso". Somos frutos do acaso, compostos apenas de matéria.
Sendo tudo fruto do acaso e pura matéria, já não há mais por que buscar uma razão para o ser. As coisas simplesmente existem, as que tem vida nascem e morrem. Não há um criador, apenas a matéria e suas leis, que tudo cria, recria e tranforma.
Muito bem, nesse ponto, não posso deixar de manifestar a minha recusa a adotar tal visão de mundo.
Em primeiro lugar, a ciência ainda é incapaz de responder e prever uma infinidade de fenônemos, isso sem mencionar os fenômenos que na verdade ela não explica, apesar de muitos pensarem o contrário. Já há quase um século que a teoria que melhor descreve os fenômenos microscópicos, a mecânica quântica, ainda não tem uma interpretação "clara e distinta". Quem é físico sabe bem: ao especialista da área pouco interessa a interpretação para o sucesso de suas aplicações, o importante é saber utilizá-la.
A teoria da evolução é ainda muito mais frágil, sem contar o fato de que ela não é capaz de prever nada que não seja trivial. Essa teoria não satisfaz todos os pré-requisitos do método científico, em particular o da experimentação. Isso pelo simples fato de que, por assumir uma escala de tempo enorme, nenhum experimento pode ser feito para verificá-la. O ponto fraco da teoria é habilmente escondido, enquanto que o ponto forte é apresentado como a sua demonstração completa e irrefutável. O ponto forte é a seleção natural: ela ocorre e isso pode ser demonstrado experimentalmente. Mas isso quando a diversidade genética já está presente na espécie: ninguém até hoje explicou como, magicamente, no momento da necessidade de adaptação, havia uns indivíduos com as mutações exatamente necessárias. A mutação e a mudança no ambiente são eventos não correlacionados, de modo que a probabilidade de acontecerem simultaneamente é baixa. Por isso, a teoria exige uma quantidade monstruosa de recombinações genéticas e mutações aleatórias, isto é, muitas reproduções e muito tempo. É estranho, pois a escala de tempo da mudança ambiental é muito menor do que a exigida para a ocorrência de mutações. Talvez não no caso de bactérias e "algoritmos genéticos", mas isso está muito longe de se aplicar igualmente a seres mais complexos.
O problema está em acreditar que a ciência realmente explica tudo. Penso que o mesmo se pode afirmar a respeito da esperança de que um dia irá explicar tudo. No fundo, o verdadeiro motivo para que muitos se apeguem a essa crença é a necessidade pessoal de negar o fato de que o universo tem uma finalidade. Pois se tem uma finalidade, necessariamente teve que ser criado por um Ser inteligente. Se assim for, toda criatura deve a ele sua existência e de alguma forma está implicada no Seu projeto.
Há um enorme medo do transcendental, do grandioso, daquilo que supera a pequenez evidente da humanidade. Para os espíritos acomodados, é mais confortável se iludir na sua convicção de que sua inteligência e vontade é o que há de maior na natureza. Mas a verdade patente é que não passamos de homens pobres, nus e pateticamente frágeis. Fechamos os olhos para essa realidade e, de alguma forma, nos tornamos mais burros do que os nossos antepassados, que desprezamos.
Uma farsa monstruosa não vai anular o fato de que todos um dia terão que responder perante o tribunal do Criador pelo que fez. É bom pensar bem, pois, como sugere a analogia de Pascal, o risco de "apostar" na tese materialista é imensamente maior.
Como consequência, perdeu o contato com a realidade e vive inconsciente de que logo será engolido por um turbilhão monstruoso que o reduzirá a pó. No passado, tanto as grandes civilizações quanto as culturas de pequeno porte, deram testemunho através de sua produção cultural da sensibilidade para os grandes problemas da existência e os seus mistérios; a saber, a morte, a origem da vida e o poder brutal da natureza.
Para a perplexidade geral, em nossos tempos, declaramos superadas todas essas preocupações do antepassados. Pensamos que eles eram apenas homens primitivos, amendrotados diante de uma natureza que não podiam controlar e entender. Trivializamos a realidade.
O que antes parecia grande, belo, amedrontador, quase infinito, nada mais é do que algo trivial em grande escala. Tomemos como exemplo o mar, tão grande, tão misterioso, tão irregular, que no passado fascinou todas as sociedades. Hoje, nada mais é do que um meio contínuo, perfeitamente descritível por meio da mecânica dos fluidos. Em princípio, a ciência é capaz de mimetizar perfeitamente todas as ondas e seus fenômenos outrora tão misteriosos. A sua bela cor nada mais é do que o efeito do padrão de absorção e espalhamento da luz das moléculas ali presentes.
Em poucas palavras, o universo inteiro foi reduzido a um amontoado enorme de partículas, com regras de interação bem definidas, e com simetrias e estruturas periódicas que se estendem por todo o espaço. Como escreveu Gustavo Corção no segundo volume de Dois Amores e Duas Cidades, o universo, nessa perspectiva, parece uma imensa cadeia, com um número enorme de celas, todas iguais, monotonamente iguais. Tanto é verdade que até hoje nada se conseguiu além de uma literatura insossa quando tentaram fazer divulgação científica através de estorinhas (Contato de Carl Sagan é um bom exemplo). Essa perspectiva reducionista da realidade é um veneno mortífero para a imaginação.
Ou seja, já não há mais espaço para o mistério. Está tudo compreendido, tipificado. O ser humano nada mais é do que um amontoado de moléculas escolhidas e dispostas sabiamente pela evolução de modo a interagir para compor um organismo. A vida nada mais é do que uma organização originada do "acaso". Somos frutos do acaso, compostos apenas de matéria.
Sendo tudo fruto do acaso e pura matéria, já não há mais por que buscar uma razão para o ser. As coisas simplesmente existem, as que tem vida nascem e morrem. Não há um criador, apenas a matéria e suas leis, que tudo cria, recria e tranforma.
Muito bem, nesse ponto, não posso deixar de manifestar a minha recusa a adotar tal visão de mundo.
Em primeiro lugar, a ciência ainda é incapaz de responder e prever uma infinidade de fenônemos, isso sem mencionar os fenômenos que na verdade ela não explica, apesar de muitos pensarem o contrário. Já há quase um século que a teoria que melhor descreve os fenômenos microscópicos, a mecânica quântica, ainda não tem uma interpretação "clara e distinta". Quem é físico sabe bem: ao especialista da área pouco interessa a interpretação para o sucesso de suas aplicações, o importante é saber utilizá-la.
A teoria da evolução é ainda muito mais frágil, sem contar o fato de que ela não é capaz de prever nada que não seja trivial. Essa teoria não satisfaz todos os pré-requisitos do método científico, em particular o da experimentação. Isso pelo simples fato de que, por assumir uma escala de tempo enorme, nenhum experimento pode ser feito para verificá-la. O ponto fraco da teoria é habilmente escondido, enquanto que o ponto forte é apresentado como a sua demonstração completa e irrefutável. O ponto forte é a seleção natural: ela ocorre e isso pode ser demonstrado experimentalmente. Mas isso quando a diversidade genética já está presente na espécie: ninguém até hoje explicou como, magicamente, no momento da necessidade de adaptação, havia uns indivíduos com as mutações exatamente necessárias. A mutação e a mudança no ambiente são eventos não correlacionados, de modo que a probabilidade de acontecerem simultaneamente é baixa. Por isso, a teoria exige uma quantidade monstruosa de recombinações genéticas e mutações aleatórias, isto é, muitas reproduções e muito tempo. É estranho, pois a escala de tempo da mudança ambiental é muito menor do que a exigida para a ocorrência de mutações. Talvez não no caso de bactérias e "algoritmos genéticos", mas isso está muito longe de se aplicar igualmente a seres mais complexos.
O problema está em acreditar que a ciência realmente explica tudo. Penso que o mesmo se pode afirmar a respeito da esperança de que um dia irá explicar tudo. No fundo, o verdadeiro motivo para que muitos se apeguem a essa crença é a necessidade pessoal de negar o fato de que o universo tem uma finalidade. Pois se tem uma finalidade, necessariamente teve que ser criado por um Ser inteligente. Se assim for, toda criatura deve a ele sua existência e de alguma forma está implicada no Seu projeto.
Há um enorme medo do transcendental, do grandioso, daquilo que supera a pequenez evidente da humanidade. Para os espíritos acomodados, é mais confortável se iludir na sua convicção de que sua inteligência e vontade é o que há de maior na natureza. Mas a verdade patente é que não passamos de homens pobres, nus e pateticamente frágeis. Fechamos os olhos para essa realidade e, de alguma forma, nos tornamos mais burros do que os nossos antepassados, que desprezamos.
Uma farsa monstruosa não vai anular o fato de que todos um dia terão que responder perante o tribunal do Criador pelo que fez. É bom pensar bem, pois, como sugere a analogia de Pascal, o risco de "apostar" na tese materialista é imensamente maior.
domingo, 27 de outubro de 2013
Modernismo, pós-modernismo e tradição
A modernidade nasceu com a promessa de transformar a vida das pessoas para melhor. Havia a convicção de que apenas a ciência seria suficiente para guiar um processo de aperfeiçoamento contínuo da qualidade de vida. De fato, o impulso sem precedentes que a ciência deu à tecnologia permitiu à sociedade um maior conforto. Por outro lado, essa mesma ciência foi aplicada como um instrumento eficaz de dominação e exterminação.
O otimismo e a euforia que esses grandes avanços produziram nos homens do século XIX foram massacrados pela irrupção das duas grandes guerras mundiais. A promessa do modernismo fracassou peremptoriamente. Desorientada e desiludida, a classe pensante ligada à tradição modernista foi obrigada a rever suas premissas e reformular as antigas promessas. Assim nasceu o pós-modernismo.
Para restaurar o projeto gerado pela modernidade, era necessário compreender os motivos que conduziram àquele trágico desfecho. Dessa vez, já não era mais possível culpar as instituições tradicionais, pois já tinham perdido influência sobre o agir da classe dirigente. Mesmo a monarquia, tendo sido sem dúvida uma instituição tradicional envolvida nos acontecimentos, sobretudo durante a primeira guerra mundial, já há muito tempo tinha cedido espaço ao projeto modernista, na esperança de sobreviver ao tempo.
Ainda que a classe pensante tenha permanecido majoritariamente ligada à tradição iluminista, há uma percepção lavrada no espírito pós-moderno de que as possibilidades da razão são limitadas. Tendo perdido a esperança nela, poucos parecem ainda acreditar que seu empenho pessoal pela realização da causa irá dar bom fruto. Nesse cenário, e diante das possibilidades de conforto à sua disposição, a sociedade fez a opção pelo ideal de uma vida dedicada principamente à satisfação dos desejos pessoais.
No final das contas, qual era mesmo a promessa da modernidade? A promessa de um mundo, uma sociedade e um homem novo . Um mundo que produziria tudo aquilo de que se necessita, em abundância, de modo que nada falte a ninguém. Uma sociedade perfeita, solidária e fraterna, onde a guerra e os pequenos conflitos de interresses deixariam de existir. Um homem novo, comprometido de corpo e alma com a manutenção desse mundo novo.
Essa esperança permanece radiante no firmamento cultural da pós-modernidade, mas não parece razoável supor que a classe dirigente e pensante realmente acredite na sua realização. Na verdade, é do interesse dessas mesmas classes, sobretudo das dirigentes, utilizar a utopia como instrumento político para a dominação e cooptação da massa de manobra.
De qualquer modo, a esperança pós-modernista está na maior parte dos casos presente nos corações apenas como um desejo difuso, incapaz de cristalizar-se em ações concretas. Na prática, os corações permanecem confinados à espiral do egoísmo, incapazes de colocar em prática os valores que lhes foram inculcados.
A falha monstruosa que conduziu ao fracasso desse projeto não pode ser entendida dentro das categorias da tradição iluminista que o gerou. Na realidade, a razão dos modernistas esconde no rigor da técnica e do método o caos teleológico de suas propostas. Aos ingênuos, elas sugeriam que a aplicação do rigor científico a todas as esferas da vida pública e privada acabaria com todos os males sociais e pessoais. Mas o olhar mais aguçado, cultivado pela educação na tradição, logo percebeu que a verdadeira força motriz da modernidade eram as paixões.
A razão dos modernistas sempre se recusou a aceitar a existência da desordem nas paixões. Paradoxalmente, tanto no modernismo quanto no pós-modernismo, sua classe pensante preferiu sacrificar a razão caso isso fosse necessário para salvar a legitimidade das paixões, identificada com a liberdade. Isso não é de espantar, pois nessa perspectiva seguir os impulsos das paixões é ser livre. Não que a razão seja pouco valorizada no modernismo; ela é de fato exaltada, mas uma noção limitada de liberdade está no topo da hierarquia de valores.
É difícil ser tão ingênuo a ponto de acreditar que o indivíduo que dá vazão desenfreada aos seus apetites é a mais angelical e inocente das criaturas da terra. Mas pelo incrível que pareça o mito do bom selvagem persiste no firmamento cultural dos nossos tempos
A verdadeira causa do fracasso do projeto modernista foi ignorar a motivação caótica por trás do uso eficaz da ciência e da técnica. A razão não reformou o coração do homem, mas foi apropriada por ele para amplificar a capacidade de concretização das suas perversidades.
Os pensadores pós-modernos se debruçaram sobre o problema, tendo inevitavelmente afogado os ânimos no definitivo desencanto. Por outro lado, essa dinâmica da natureza humana foi identificada com precisão pela classe dirigente e pelas grandes forças econômicas. Vivemos imersos em um mundo que se transformou em uma imensa e lucrativa fábrica de sonhos e espetáculos para saciar todos os seus apetites, inclusive suas perversidades.
Nesse novo cenário, há ainda espaço para a razão? O uso da razão está atualmente ainda mais restrito à dominação e à satisfação da insaciável concupiscência humana. Isso é verdade em todos os estratos da sociedade.
Os apetites geram uma tensão interior, fornecendo uma energia potencial que só é liberada no momento da sua satisfação. Como fenômeno de massa, essa tensão representa um perigo real para a ordem vigente, sendo, ao mesmo tempo, uma arma poderosa nas mãos de políticos hábeis. Há muitos anos, o ocidente vive em uma paz instável, conquistada por meio de uma perigosa política de estímulo à satisfação imediata dos desejos pessoais.
É bem verdade que ao aliviar a tensão, os ânimos arrefecem. No entanto, as paixões humanas não tem um limite bem definido, pois é próprio da natureza humana sempre aspirar mais. O estímulo à satisfação dos apetites desordenados é uma medida perigosa, fadada a uma situação insustentável, em que a máquina produtiva já não dará mais conta de satisfazer uma grande massa de insatisfeitos e revoltados.
Não seria honesto deixar de reconhecer que mutilar todas as aspirações do coração também seria perigoso para a sociedade, além de desumano. Bem sabemos que a conquista dos corações para uma causa tem sido o meio mais eficaz para concretizar projetos políticos nefastos. Por isso, uma educação baseada na supressão total das paixões pessoais pode ter uma motivação manipuladora.
O objetivo que uma sociedade mais humana deve almejar é a educação das paixões. Esse aspecto do ser humano tem sido negligenciado pelo modelo moderno de educação. Em geral, a paixão é vista como uma força caótica e destruidora, e pouco é feito de maneira eficaz para canalizá-la à realização de grandes empreendimentos. As forças do mercado, logicamente, sabem canalizá-las. Mas infelizmente são empreendimentos totalmente voltados à produção de bens para retroalimentar a espiral do consumismo. Em outros termos, o trabalho duro é ainda tolerado, contanto que tenha como recompensa a satisfação plena dos apetites pessoais. Nessa lógica, o trabalho não tem um sentido transcendental. Além disso, se firma sobre a premissa de que não há nada melhor para aspirar nessa vida do que o prazer material.
A educação das paixões é um tópico à parte. É essa a resposta fundamental para a superação do desencanto pós-modernista. O grande desvio do modernismo foi ter subestimado ou até ignorado essa força que movia as ações humanas. Pois no campo da vida prática, das decisões, a paixão desempenha um papel muito forte. Ela é capaz de torcer a razão, derrubando facilmente as conclusões puramente racionais do sistema moral adotado. Sendo desumano suprimir a paixão, uma importante componente da natureza humana, fortemente relacionada com a felicidade, é necessário educá-la e harmonizá-la com a razão. Eis o grande desafio.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
O pecado, os pecadores e os condenados
Se Deus é Misericordioso e Bom, como é possível então que Ele consinta com o terrível suplício eterno das almas condenadas? Essa é uma questão frequentemente dirigida pelos que não possuem a Fé nos Evangelhos.
Também para mim é uma questão difícil. Santa Teresa D'Àvila descrevia o inferno como um lugar onde se tem a sensação de estar morrendo a todo momento. Sem cessar e para sempre. Por ser tão aterradora, essa realidade nos parece absurda.
À primeira vista, parece que o inferno é totalmente incompatível com a noção de um Deus Bom e Misericordioso. Se Deus é Bom, então Ele não deveria permitir que ninguém sofresse. Desde o instante inicial, todas as suas criaturas deveriam gozar de delícias sem fim especialmente preparadas para elas.
Mas se fosse assim, quem poderia dizer-se realmente livre? Ninguém, pois seriam todas as criaturas meros títeres nas mãos de Deus. Títeres não amam, apenas respondem automaticamente a estímulos.
Pelo que nos revelam as Sagradas Escrituras em Genesis, o projeto inicial era mesmo que os homens desfrutassem de uma vida sem sofrimentos, no jardim do Éden. Mas foi deixada uma possibilidade à liberdade do homem. Não me refiro à liberdade que Adão e Eva tinham de ora comer uma laranja, ora uma maçã. Mas à liberdade de amar a Deus. Pois quem ama, confia. Se amassem, jamais teriam duvidado de Deus. Jamais teriam acreditado que Deus estava querendo lhes trapacear.
O sofrimento humano nasceu no mundo e permanece no mundo por causa do pecado. Para vencê-lo, é necessário fazer o caminho inverso: confiar em Deus, apesar do sofrimento. Cristo abriu essa via, vencendo o pecado, quando, confiando em Deus, foi fiel até o último instante. Se a queda da humanidade foi consequência da desobediência, a sua salvação foi conquistada pela obediência.
Depois da queda original, fazer o bem em situações concretas pode exigir sofrimentos pessoais. Nesses casos, perseverar no bem exige confiança em Deus, a mesma confiança que os nossos primeiros pais deveriam ter conservado.
E o que dizer dos que não estão dispostos a assumir esses sofrimentos pessoais? Nas situações concretas, são inúmeras as vezes em que rejeitamos o bem por fraqueza. É possível reconhecer, pedir perdão e tentar o sucesso nas próximas vezes. Se, apesar do fracasso, há um reconhecimento sincero das faltas pessoais e o propósito de continuar buscando o bem, ainda existe uma confiança sincera em Deus.
Sobram ainda os que não estão dispostos a assumir esses sofrimentos pessoais por não acreditar que exista um bem maior do que o seu prazer. Nesse caso, já fizeram a sua opção. A opção por não amar a Deus, não querer o Bem e não buscar a Verdade.
Ao entrar na eternidade, levam consigo suas convicções, sacramentadas pelos atos de suas vidas. Já não há novas opções a serem feitas. Não é Deus que as condenam: são elas mesmas que escolhem o seu destino e escrevem a sua sentença.
Mas não seria o suplício do inferno suficiente para movê-las ao arrependimento? Não. Para se arrepender, é necessário sentir-se condoído dos que foram injustiçados pelas más ações. Esse é o verdadeiro arrependimento. O que elas têm é um desejo de sair do suplício. Somente para se livrar do suplício é que desejariam não ter realizado aquelas más ações. Nesse arrependimento não há nenhum outro ingrediente que não seja o amor próprio. Além disso, o arrependimento na caridade é também uma graça: o inferno está, por definição, privado dela.
Não é que Deus não queira ser Misericordioso com a alma dos condenadas pertinazes; na verdade, são esses que não quiseram recorrer à Misericórdia divina. Quem não quiser ser perdoado, não será.
Ninguém pode ter certeza de que será salvo. Isso seria pecar por presunção. No entanto, podemos nos confortar na certeza de que Deus não despreza um pecador realmente arrependido.
Ninguém pode ter certeza de que será salvo. Isso seria pecar por presunção. No entanto, podemos nos confortar na certeza de que Deus não despreza um pecador realmente arrependido.
domingo, 6 de outubro de 2013
Papa Francisco, aristocracia e tradicionalismo
As palavras do papa Francisco tem causado reações apaixonadas entre pessoas das mais diversas orientações. A grande mídia tem ecoado suas palavras dando maior acento às declarações que poderiam indicar mudanças na Igreja em direção à sua agenda comum. Pergunto-me por que motivo pessoas tão profundamente indiferentes à religião se preocupam tanto com as palavras do papa. Tudo leva-me a crer que, na incapacidade de neutralizar totalmente a influência da Igreja, estão empenhados na estratégia de influenciar mudanças para converter a influência da Igreja a seu favor.
Será que, se a Igreja cedesse em todos os pontos dessa agenda, muitas pessoas então se sentiriam atraídas a aderir à Fé? Pergunto-me, ao mesmo tempo: se a Igreja cedesse nesses pontos, o que restaria da Fé?
Será que, se a Igreja cedesse em todos os pontos dessa agenda, muitas pessoas então se sentiriam atraídas a aderir à Fé? Pergunto-me, ao mesmo tempo: se a Igreja cedesse nesses pontos, o que restaria da Fé?
***
Há, por outro lado, muitas manifestações de desaprovação às palavras do papa da parte de fiéis. Em geral, tenho a impressão que, da mesma forma como a grande mídia, estão fazendo um leitura seletiva das palavras do papa. Há várias declarações e escritos que atestam a total adesão do papa aos ensinamentos de Fé e Moral da Igreja. Ao mesmo tempo, tem frisado, desde o discurso inicial, que não existe cristianismo sem Cruz.
No entanto, muitos que se dizem fiéis não têm dado atenção a essas palavras. Às vezes parece que escondem por trás do zelo litúrgico e doutrinário uma resistência para se entregar de fato a algumas exigências evangélicas. Tendo resumido toda religião cristã à adesão às normas litúrgicas e à mera repetição das formulações dogmáticas da Fé, esquecem de viver no seu dia-a-dia as virtudes cristãs, sobretudo aquelas relacionadas com o desapego dos bens materiais e do conforto pessoal.
Mais grave do que isso, causa procupação a manifestação de fiéis que ainda querem estender seu dogmatismo despojado da piedade ao campo político. Longe de estarem em consonância com os princípios que regem a Doutrina Social da Igreja, querem impor um sistema político como a única solução compatível com o catolicismo. Confundem os canais, e pensam que se ofende a Deus e a integridade da Fé sempre que alguém questiona o seu posicionamente político pessoal.
Não é fácil saber se realmente raciocinavam desse modo. Desconheço qualquer documento que o ateste. Ao que tudo indica, pelos muitos atos exteriores de piedade, como o suporte financeiro às ordens religiosas e obras de caridade, e à frequência ao confessionário, havia sim uma fé entre esses homens, mas um tanto quanto incoerente e pouco convincente.
Diante desse péssimo exemplo das côrtes européias católicas, e da desastrada associação de parte da hierarquia com elas, nasceu um anticlericalismo violento generalizado. É necessário reconhecer que mesmo um católico de boa vontade, que realmente leva a sério o exemplo de Cristo, está obrigado a ser anticlerical, quando clericalismo significa essa simbiose nefasta da hierarquia com uma corte vergonhosamente imoral. Mas não violentamente anticlerical. É necessário empreender uma verdadeira reforma, começando pela reforma pessoal do caráter.
Mais grave do que isso, causa procupação a manifestação de fiéis que ainda querem estender seu dogmatismo despojado da piedade ao campo político. Longe de estarem em consonância com os princípios que regem a Doutrina Social da Igreja, querem impor um sistema político como a única solução compatível com o catolicismo. Confundem os canais, e pensam que se ofende a Deus e a integridade da Fé sempre que alguém questiona o seu posicionamente político pessoal.
***
Meu caro padre, não somos cegos, somos apenas homens. Vivemos numa realidade móvel à qual procuramos adaptar-nos como as algas que se dobram sob o ímpeto das ondas do mar. À Santa Madre Igreja foi explicitamente prometida à imortalidade, mas a nós, como classe social, não. Para nós, qualquer paliativo que nos garanta mais cem anos de vida equivale à eternidade (palavras de D. Fabrizio ao padre Pirrone, em Gattopardo, de Tomasi di Lampedusa ).
Os palácios e castelos ainda conservados na Europa são testemunho ainda vivos da magnitude do poder da sua antiga aristocracia. De uma idade média em que o poder da aristocracia estava fragmentado em pequenos reinos e feudos, cuja autonomia administrativa e jurídica ainda era respeitada pelos imperadores, a modernidade nasceu com a concretização do afã centralizador de monarcas católicos.
Mesmo sob o pretexto de estender o reinado de Cristo para todo o mundo, a sede de poder absoluto desses monarcas teve consequências trágicas para a história da Igreja. O Sacro Imperio Romano-Germânico (SIRG) teria sido uma das primeiras experiências histórica de coexistência de reinos cristãos sob um império fundado no princípio da subsidiariedade, não fosse a difícil queda-de-braços com os imperadores sedentos de poder. Nesse embate, os grandes monarcas saíram vencedores, tendo reduzido o poder da aristocracia e cooptado a hierarquia local da Igreja a seu favor.
Um dos exemplos trágicos foram as guerras empreendidas pelos reis católicos espanhóis para anexar os reinados dos países baixos. A nobreza local, àquela altura, era católica, assim como a maior parte da população, tendo deixado o testemunho histórico da sua devoção legando-nos uma belíssima arte sacra. Mesmo não se opondo à vassalagem devida ao imperador do SIRG, àquela altura também rei da Espanha (Carlos I), era natural que se opusessem a uma política que diminuia uma autonomia legítima na direção dos seus reinados. Depois da desastrosa campanha do duque de Alba, em que até mesmo populações católicas tiveram suas cidades saqueadas pelos seus exércitos de mercenários, era difícil para qualquer católico holandês acreditar realmente na retidão do "rei católico". As consequências desta triste inabilidade política foram demasiadamente ruins para a história do cristianismo.
Mesmo sob o pretexto de estender o reinado de Cristo para todo o mundo, a sede de poder absoluto desses monarcas teve consequências trágicas para a história da Igreja. O Sacro Imperio Romano-Germânico (SIRG) teria sido uma das primeiras experiências histórica de coexistência de reinos cristãos sob um império fundado no princípio da subsidiariedade, não fosse a difícil queda-de-braços com os imperadores sedentos de poder. Nesse embate, os grandes monarcas saíram vencedores, tendo reduzido o poder da aristocracia e cooptado a hierarquia local da Igreja a seu favor.
Um dos exemplos trágicos foram as guerras empreendidas pelos reis católicos espanhóis para anexar os reinados dos países baixos. A nobreza local, àquela altura, era católica, assim como a maior parte da população, tendo deixado o testemunho histórico da sua devoção legando-nos uma belíssima arte sacra. Mesmo não se opondo à vassalagem devida ao imperador do SIRG, àquela altura também rei da Espanha (Carlos I), era natural que se opusessem a uma política que diminuia uma autonomia legítima na direção dos seus reinados. Depois da desastrosa campanha do duque de Alba, em que até mesmo populações católicas tiveram suas cidades saqueadas pelos seus exércitos de mercenários, era difícil para qualquer católico holandês acreditar realmente na retidão do "rei católico". As consequências desta triste inabilidade política foram demasiadamente ruins para a história do cristianismo.
Infelizmente, esse não é único exemplo. Na mesma época, Maria I da Inglaterra foi coroada com forte apoio popular. No entanto, os ingleses, muito conscientes das pretensões imperialistas dos espanhóis, com razão viram com desconfiança o seu casamento com Filipe da Espanha. Ao que tudo indica, foi realmente apaixonada por seu marido, de modo que é mais provável que não estivesse interessada em trair o seu povo. Não fosse pelo seu imperialismo agressivo, uma aliança com a Espanha seria realmente interessante para a Inglaterra. Deixou-se influenciar por conselheiros que a isolaram politicamente e fomentaram uma política de revanchismo. Maria I, que poderia ter passado à história como rainha santa, infelizmente ficou conhecida como bloody Mary, em grande parte pela historiografia enviesada dos anglicanos (Maria I não foi mais "bloody" do que seu pai, Henrique VIII). Nesse ponto crucial da história, a misericórdia e o perdão teriam salvado a Igreja Católica na Inglaterra.
Até hoje, os ingleses nutrem uma secreta admiração pelo catolicismo. Mas infelizmente, as políticas desastrosas, autoritárias e atrapalhadas de Jaime II só vieram a sepultar definitivamente o catolicismo da Inglaterra.
Até hoje, os ingleses nutrem uma secreta admiração pelo catolicismo. Mas infelizmente, as políticas desastrosas, autoritárias e atrapalhadas de Jaime II só vieram a sepultar definitivamente o catolicismo da Inglaterra.
***
A coexistência da frivolidade, da opulência e do adultério com uma devoção deslumbrante e pretensamente ortodoxa nas côrtes dos monarcas absolutistas católicos fez um mal brutal para o cristianismo, cujas consequências ainda vivemos. Ficou a belíssima arte da época, cuja qualidade deve ser antes atribuída aos artistas, decoradores e pedreiros e à sua piedade sincera.
O adultério praticado pelos reis era quase regra, cujas exceções podem ser encontradas apenas entre os poucos reis santos. Fica mesmo a impressão de que aqueles reis realmente tinham pouca piedade interior. Pior do que isso, parece que no fundo consideravam a piedade uma coisa para damas e padres. Mas ser católico era-lhes interessante pois o prestígio da Igreja legitimava o seu poder diante do povo e facilitava-lhes a dominação sobre as mulheres.
O adultério praticado pelos reis era quase regra, cujas exceções podem ser encontradas apenas entre os poucos reis santos. Fica mesmo a impressão de que aqueles reis realmente tinham pouca piedade interior. Pior do que isso, parece que no fundo consideravam a piedade uma coisa para damas e padres. Mas ser católico era-lhes interessante pois o prestígio da Igreja legitimava o seu poder diante do povo e facilitava-lhes a dominação sobre as mulheres.
Não é fácil saber se realmente raciocinavam desse modo. Desconheço qualquer documento que o ateste. Ao que tudo indica, pelos muitos atos exteriores de piedade, como o suporte financeiro às ordens religiosas e obras de caridade, e à frequência ao confessionário, havia sim uma fé entre esses homens, mas um tanto quanto incoerente e pouco convincente.
Diante desse péssimo exemplo das côrtes européias católicas, e da desastrada associação de parte da hierarquia com elas, nasceu um anticlericalismo violento generalizado. É necessário reconhecer que mesmo um católico de boa vontade, que realmente leva a sério o exemplo de Cristo, está obrigado a ser anticlerical, quando clericalismo significa essa simbiose nefasta da hierarquia com uma corte vergonhosamente imoral. Mas não violentamente anticlerical. É necessário empreender uma verdadeira reforma, começando pela reforma pessoal do caráter.
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Ao andar pelos palácios da Europa, sobretudo aqueles que pertenceram aos imperadores absolutistas (e.g. El Escorial, na Espanha, ou até mesmo o palácio de Sintra), com o seu cheiro de mofo, ao lado de turistas que desembarcam aos borbotões, sente-se uma grande decepção. Pecebe-se que aquele local foi um dia um poderoso símbolo de poder, com mobília e pinturas em perfeito estado, que fervilhava com a atividade incessante de criados ao serviço da corte, cenário de incansáveis banquetes, fofocas e conspirações.
Era isso o que valeria à pena ter conhecido, mas a barreira do tempo impõe um obstáculo intransponível. No entanto, da minha perspectiva, se hoje já sinto aflição e tristeza de saber que um dia o mundo foi assim (meu consolo era que Santa Teresa D'Ávila sentia o mesmo quando visitava as côrtes), se tivesse presenciado isso, com a mentalidade de hoje, teria morrido de tristeza. Um mundo em que a liberdade estava confinada e asfixiada pela bajulação de uma corte medíocre à autoridade de um homem imperfeito. Pelo menos, essa mediocridade ajudou muitos homens a perceber que antes era preferível servir à autoridade do verdadeiro Rei.
Inacreditavelmente, essa mentalidade aristocrática ainda sobrevive, e reminescências dela ainda podem ser encontradas em muitas instituições da Igreja, inclusive dentro de algumas cuja fundação data do século XX. São toleráveis, enquanto pelo menos fomentam todas as virtudes cristãs entre os seus membros e não tenham a pretensão de generalizar uma mentalidade aristocrática estranha ao Evangelho para toda a Igreja. Em poucas palavras, generalizar a idéia de que a reta ordem universal querida por Deus consiste em um mundo formado por aristocratas, a quem se deve servir, e servos, a quem não resta outra possibilidade a não ser servir os primeiros. E, mais do que isso, incluir aí a falsa noção de que se é servo ou aristocrata pela Vontade de Deus e que querer mudar a situação é ir contra a sua Vontade. Boa doutrina essa, para os aristocratas!
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Essa realidade estranha aos olhos do homem de nosso tempo, de côrtes e reis, com todas as suas incongruências e contradições, sobreviveu no mundo. Onde? Em alguns nichos dentro da Igreja.
O nosso papa Francisco tem se esforçado para adequar a estrutura da Igreja a uma prática mais fiel ao Evangelho. Alguns erroneamente o acusam de querer esvaziar a autoridade papal somente por que escolheu não utilizar alguns acessórios externos simbólicos. Ora, o papa poderia se vestir de calça jeans e camiseta polo diante dos fiéis, mas isso, ainda que extremamente inconveniente, não diminuiria em nada a autoridade que Cristo conferiu ao sucessor de Pedro. Os símbolos não são absolutos e seu significados mudam em função dos tempos. É de total liberdade do papa fazer uso daqueles símbolos que melhor expressam, dentro da mentalidade de seu tempo, os valores evangélicos. Ao papa não cabe entrar em jogo político para agradar "tradicionalistas", "conservadores" ou "progressistas", mas sim apenas agradar a Deus.
Paradoxalmente, esses mesmos que tão intensamente se apegam à doutrina da infabilidade papal, são os primeiros a criticar suas ações e pregações. Imagino até que, tendo vivido na época em que Pio X instituiu a Primeira Comunhão para as crianças pequenas (tão logo atingissem a idade da razão), teriam sido os primeiros a levantar suas vozes para contrariar.
Há relatos de diálogos entre demônios e exorcistas em que aqueles atestam que o motivo de sua rebelião foi o pedido que Deus lhes fez para adorá-Lo em natureza humana. Os anjos entenderam, ao adorar Deus escondido sob a natureza humana, que pertencia aos planos de Deus criar um animal espiritual à sua imagem e semelhança, destinado à bem-aventurança. Entenderam também que deveriam estar dispostos a servir criaturas inferiores em natureza. Alguns anjos não quiseram se curvar e não aceitaram isso, tendo sido necessária uma guerra celeste para expulsá-los da presença de Deus.
Em alguns momentos, não consigo evitar o paralelo entre uma mentalidade aristocrática mal orientada, que se recusa a descer do seu troninho e sair do oratório pessoal para servir ao próximo necessitado, e a atitude dos anjos rebeldes. Não seria mau avaliar em nosso exame de consciência pessoal se também nós não estaríamos agindo da mesma forma.
Em alguns momentos, não consigo evitar o paralelo entre uma mentalidade aristocrática mal orientada, que se recusa a descer do seu troninho e sair do oratório pessoal para servir ao próximo necessitado, e a atitude dos anjos rebeldes. Não seria mau avaliar em nosso exame de consciência pessoal se também nós não estaríamos agindo da mesma forma.
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As palavras do papa Francisco transmitem ensinamentos valiosos. Não há ressalvas nem matizes a serem feitos. São palavras que devem ser entendidas mesmo tal como foram ditas. Não há nada ali que fere a Tradição, nada que fere o Evangelho, nada que fere a Verdade. Os que mais a estão criticando, são os que mais necessidade têm de uma verdadeira metanóia. O papa Francisco tocou na ferida de muitos.
domingo, 16 de junho de 2013
Revolta da salada: revolução em direção ao caos
Não é por R$ 0,20, mas por direitos... Até agora não li em nenhum lugar quais são os direitos reivindicados por esse movimento que tomou as ruas da capital de São Paulo na semana passada. Se alguém me puder fazer o favor de me encaminhar um documento que contenha uma explicação disso tudo, pelo menos teria alguma matéria com relação a qual poderia discordar ou concordar. Por enquanto, tudo isso parece pouco racional e muito primitivo.
A leitura que faço dos fatos é a seguinte. A maioria realmente não pensa no que está fazendo. São movidos pelos efeitos de uma propaganda que apela em última instância para a vaidade e para a desordem de todas as outras paixões humanas. Nada difícil de compreender: em sua maioria, essas pessoas foram submetidas a uma formação que evitou, a todo custo, ensinar a necessidade da virtude.
Essa propaganda produz nessas almas ingênuas a ilusão de que estão mudando o mundo e contribuindo positivamente para a história. A velha guarda que pensa que os movimentos de 68 e outras tantas revoluções culturais das quais participaram foi algo diferente do que aconteceu na semana passada, argumentando que aquelas foram legítimas e essas que estão acontecendo não são, não aprendeu nada. Ficaram velhos, mas ainda dominados pelas paixões, só conseguem enxergar o mundo na perspectiva dos interesses próprios.
Essa turma da velha guarda acha que mudou o mundo para melhor e se indigna de ver que a juventude não reconhece as grandes benesses que propiciaram com as mudanças que conquistaram. Não mudaram nada, pois não há nada que possa ser mudado no mundo de fora, se antes cada um não resolve mudar o seu mundo de dentro. Quando se é jovem, em geral não se pode desfrutar da posse de bens materiais, que só vem com o tempo, à medida que o trabalho vai gerando frutos e as circunstâncias vão permitindo posições de maior responsabilidade. O jovem, motivado por essas paixões desordenadas, desejaria para si a posse do que apenas uma vida inteira pode dar. E é lógico, na perspectiva das paixões, pois essa posse permitiria dar vazão a todos os ímpetos que ficam limitados pela sua dependência.
Os velhos, esquecidos da etapa anterior, tem agora o que desejaram quando jovens, mas não tem mais a juventude e ainda se esqueceram que foram jovens um dia! Todo o conflito, no final de contas, resulta do embate de interesses que por alguma razão se contrariam mutuamente. Os velhos quereriam ser jovens de novo e chegam a esperar a compreensão e obediência da juventude. Os jovens, arrastando ainda a casquinha do ovo, chegam a acreditar que são melhores do que todas as gerações que os precederam e que agora são oprimidos pelos anciãos da sociedade.
Esse processo é um movimento que tem ocorrido repetidamente na nossa história. Na realidade, tudo isso é resultado do jogo que as paixões produzem no âmago da natureza humana nas suas diversas etapas da vida. Esse ímpetos, quando abandonados às suas próprias forças, produzem o caos. Esse caos piora o mundo em vez de melhorá-lo. Eis a grande ilusão: essa gente, quando faz essas manifestações, está botando para fora o seu caos interior e gerando caos exterior. Estão piorando o mundo em vez de melhorá-lo. Eles tem toda razão quando escrevem "desculpem o transtorno, estamos mudando o mundo". Estão de fato mudando o mundo, para pior, introduzindo mais caos, gerando dor e sofrimento.
O único movimento revolucionário que pode realmente mudar o mundo é a decisão pessoal de mudar antes a si mesmo. Esse movimento revolucionário acontece e as almas que tem a coragem de tomar essa iniciativa são bem aventuradas. Mas há tantos e tantas que passam a vida inteira acreditando que os seus problemas são causados pelo que vem de fora. Serão eternamente rebeldes e inconformados, pobres criaturas, incapazes de perceber que as únicas culpadas pela sua infelicidade são elas mesmas.
Em poucas palavras, não há a menor diferença entre um intelectual que tenta desligitimizar esse movimento em rede nacional e sustenta ao mesmo tempo as revoluções de seu tempo de juventude, e um jovem que vai às ruas protestar disposto a espalhar a destruição. São igualmente motivados pelas suas paixões desordenadas. A única diferença é que tais paixões se manifestam de modo distinto em função da etapa da vida. No entanto, a revolução que realmente teria sido necessária, isto é, a reforma do homem interior, com a construção das virtudes que educam as paixões desordenadas e eleva o homem para além da esfera dos seus interesses primitivos, nunca foi realmente empreendida nessas almas.
A leitura que faço dos fatos é a seguinte. A maioria realmente não pensa no que está fazendo. São movidos pelos efeitos de uma propaganda que apela em última instância para a vaidade e para a desordem de todas as outras paixões humanas. Nada difícil de compreender: em sua maioria, essas pessoas foram submetidas a uma formação que evitou, a todo custo, ensinar a necessidade da virtude.
Essa propaganda produz nessas almas ingênuas a ilusão de que estão mudando o mundo e contribuindo positivamente para a história. A velha guarda que pensa que os movimentos de 68 e outras tantas revoluções culturais das quais participaram foi algo diferente do que aconteceu na semana passada, argumentando que aquelas foram legítimas e essas que estão acontecendo não são, não aprendeu nada. Ficaram velhos, mas ainda dominados pelas paixões, só conseguem enxergar o mundo na perspectiva dos interesses próprios.
Essa turma da velha guarda acha que mudou o mundo para melhor e se indigna de ver que a juventude não reconhece as grandes benesses que propiciaram com as mudanças que conquistaram. Não mudaram nada, pois não há nada que possa ser mudado no mundo de fora, se antes cada um não resolve mudar o seu mundo de dentro. Quando se é jovem, em geral não se pode desfrutar da posse de bens materiais, que só vem com o tempo, à medida que o trabalho vai gerando frutos e as circunstâncias vão permitindo posições de maior responsabilidade. O jovem, motivado por essas paixões desordenadas, desejaria para si a posse do que apenas uma vida inteira pode dar. E é lógico, na perspectiva das paixões, pois essa posse permitiria dar vazão a todos os ímpetos que ficam limitados pela sua dependência.
Os velhos, esquecidos da etapa anterior, tem agora o que desejaram quando jovens, mas não tem mais a juventude e ainda se esqueceram que foram jovens um dia! Todo o conflito, no final de contas, resulta do embate de interesses que por alguma razão se contrariam mutuamente. Os velhos quereriam ser jovens de novo e chegam a esperar a compreensão e obediência da juventude. Os jovens, arrastando ainda a casquinha do ovo, chegam a acreditar que são melhores do que todas as gerações que os precederam e que agora são oprimidos pelos anciãos da sociedade.
Esse processo é um movimento que tem ocorrido repetidamente na nossa história. Na realidade, tudo isso é resultado do jogo que as paixões produzem no âmago da natureza humana nas suas diversas etapas da vida. Esse ímpetos, quando abandonados às suas próprias forças, produzem o caos. Esse caos piora o mundo em vez de melhorá-lo. Eis a grande ilusão: essa gente, quando faz essas manifestações, está botando para fora o seu caos interior e gerando caos exterior. Estão piorando o mundo em vez de melhorá-lo. Eles tem toda razão quando escrevem "desculpem o transtorno, estamos mudando o mundo". Estão de fato mudando o mundo, para pior, introduzindo mais caos, gerando dor e sofrimento.
O único movimento revolucionário que pode realmente mudar o mundo é a decisão pessoal de mudar antes a si mesmo. Esse movimento revolucionário acontece e as almas que tem a coragem de tomar essa iniciativa são bem aventuradas. Mas há tantos e tantas que passam a vida inteira acreditando que os seus problemas são causados pelo que vem de fora. Serão eternamente rebeldes e inconformados, pobres criaturas, incapazes de perceber que as únicas culpadas pela sua infelicidade são elas mesmas.
Em poucas palavras, não há a menor diferença entre um intelectual que tenta desligitimizar esse movimento em rede nacional e sustenta ao mesmo tempo as revoluções de seu tempo de juventude, e um jovem que vai às ruas protestar disposto a espalhar a destruição. São igualmente motivados pelas suas paixões desordenadas. A única diferença é que tais paixões se manifestam de modo distinto em função da etapa da vida. No entanto, a revolução que realmente teria sido necessária, isto é, a reforma do homem interior, com a construção das virtudes que educam as paixões desordenadas e eleva o homem para além da esfera dos seus interesses primitivos, nunca foi realmente empreendida nessas almas.
domingo, 7 de abril de 2013
Comentário ao artigo "Filosofia a Serviço da Fé" de Joel Pinheiro
No dia 1 de abril o editor da revista Dicta & Contradicta, Joel Pinheiro, publicou um post na página dessa revista um artigo intitulado Filosofia a Serviço da Fé. Várias das opiniões ali expressas merecem ser comentadas e meu intuito é oferecer aos interessados uma outra visão do tema. Os meus argumentos e observações não chegam perto de esgotar todas as possibilidades de esclarecimentos e ponderações que um intelectual bem formado na filosofia cristã poderia dar. Vou me ater, portanto, apenas aos pontos que mais me chamaram a atenção e deixar ainda de lado tantas outras considerações que me vieram à mente.
A primeira afirmação que gostaria de comentar é a seguinte:
(...) o ensino filosófico por eles praticado matava a filosofia nas almas dos melhores, ou seja, daqueles que não se satisfaziam simplesmente aceitando doutrinas, mas que queriam filosofar.
Tanto em Landim como em Kenny, o tomismo patrocinado pela Igreja apareceu como algo sem sentido, descolado de qualquer preocupação real e cujas respostas fáceis não convenciam.
Dado isso, pergunto-me se a postura filosófica, ou talvez antifilosófica, da Igreja Católica, não tenha contribuído para a perda da fé de tantos intelectuais que começaram seus estudos imbuídos de convicções religiosas ou ao menos inquietações espirituais.
A primeira afirmação que gostaria de comentar é a seguinte:
(...) o ensino filosófico por eles praticado matava a filosofia nas almas dos melhores, ou seja, daqueles que não se satisfaziam simplesmente aceitando doutrinas, mas que queriam filosofar.
O ensino filosófico a que o autor se refere é o tomismo. Em primeiro lugar, é necessário entender o contexto e a finalidade do ensino da filosofia tomista. O contexto são os cursos de filosofia para a formação de sacerdotes e leigos cristãos. A finalidade era a formação básica nessa filosofia e não a formação de filósofos.
A formação dos cristãos que recebem a missão de ensinar deve estar baseada em um sistema filosófico compatível com os ensinamentos sagrados. Isso é evidente, pois se não fosse assim, haveria uma contraposição entre o conhecimento filosófico e o conhecimento teológico. Tal contraposição é problemática pois, nesse caso, ou se admite que Deus é contraditório, tendo criado uma realidade inconsistente, o que é um absurdo, ou então se exclui alguns dos dois conhecimentos.
Nesse sentido, a filosofia tomista foi sendo considerada pelo magistério, ao longo da história da Igreja, como um sistema plenamente compatível com a fé e ao mesmo tempo robusto do ponto de vista formal. Portanto, isso explica o motivo por que tenha sido incentivado o seu ensino aos cristãos, sobretudo sacerdotes e leigos que receberiam a missão de formar outros fieis.
Os que aceitavam esse sistema filosófico não necessariamente eram maus intelectuais e nem se pode afirmar categoricamente que eram maus filósofos. É possível que alguns desses tenham de fato se convencido do sistema tomista depois de tê-lo compreendido bem. Isso não significa a morte da filosofia. Significa apenas que esse sistema foi aceito por aqueles filósofos como uma resposta definitiva para muitos dos problemas filosóficos. É análogo ao que ocorre com a teoria Newtoniana entre os físicos. Dentro de seu escopo de aplicação, ela é bem aceita pela a maior parte deles, mas isso não significa a morte da física. A morte da física aconteceria, ao contrário, se os físicos deixassem de aprendê-la, substituindo-a por uma doutrina pessoal, com o risco quase certo de ser mais ineficiente do que a Newtoniana.
Além disso, a frase acima contradiz todos os exemplos que o próprio autor destaca. Todos eles, de acordo com o próprio autor, passaram pelo ensino dessa filosofia, e, ao contrário do que é afirmado na frase, não matou a filosofia nas suas almas. A inconsistência da frase se agravaria ainda mais se o autor afirmasse explicitamente que os autores destacados eram os melhores e os únicos que não se satisfaziam aceitando doutrinas. Embora isso não seja afirmado explicitamente, está subentendido.
Além disso, a frase acima contradiz todos os exemplos que o próprio autor destaca. Todos eles, de acordo com o próprio autor, passaram pelo ensino dessa filosofia, e, ao contrário do que é afirmado na frase, não matou a filosofia nas suas almas. A inconsistência da frase se agravaria ainda mais se o autor afirmasse explicitamente que os autores destacados eram os melhores e os únicos que não se satisfaziam aceitando doutrinas. Embora isso não seja afirmado explicitamente, está subentendido.
A segunda afirmação que merece ser comentada é a seguinte:
Não está totalmente claro se essa frase significa apenas a opinião de Landim ou Kenny, ou se também expressa a opinião pessoal do autor. Qualquer que seja o caso, essa é uma afirmação forte que, ao meu ver, tem muitos problemas.
Analisemos por partes. O tomismo patrocinado pela Igreja apareceu como algo sem sentido. Em primeiro lugar, é difícil falar em um autêntico tomismo que não esteja estreitamente relacionado com a Igreja. São Tomás não era um filósofo imbuído do espírito de ofício que o autor do artigo parece ter como ideal. Um filósofo cristão, como São Tomás de Aquino, não é um livre pensador. Toda sua filosofia tinha um princípio vinculante que era a sua fé.
O tomismo - que em sua integralidade só pode ser patrocinado pela Igreja - não apareceu como algo sem sentido, mas como algo repleto de sentido, que era proporcionar uma formação filosófica robusta e plenamente compatível com a fé cristã. Esse sentido tinha sim uma preocupação muito real, bem concreta, de fazer frente às doutrinas modernas claramente conflitantes com a teologia católica. E, ao contrário do que se afirma, as respostas da metafísica de São Tomás não são nada fáceis de entender. Uma vez bem entendidas, as pessoas imbuídas do mesmo espírito de São Tomás, isto é, tendo a fé como princípio vinculante do pensamento filosófico, costumam se convencer dos seus argumentos, ou pelos menos, admirá-las como boas soluções para problemas difíceis.
Pode ser que a crítica não seja exatamente a São Tomás, mas ao neotomismo. De qualquer forma, o neotomismo que é objeto de crítica do texto não é uma falsificação ou deformação do sistema de São Tomás, mesmo que as transposições didáticas dos manuais sempre tenham suas deficiências e limitações.
A terceira frase que quero comentar é a seguinte:
Se de fato os intelectuais começaram seus estudos imbuídos de convicções religiosas, nenhuma postura filosófica ou antifilosófica poderia ter sido capaz de contribuir para a perda da fé. Pois, se de fato é uma convicção religiosa, toda e qualquer filosofia que esses filósofos poderiam conceber teria que necessariamente incluir a possibilidade de existência do conteúdo da sua fé. Com esse espírito, ainda que viessem a se sentir insatisfeitos com o tomismo de manual, o talvez até mesmo com o tomismo perfeitamente compreendido, deixando bem claro as razões de sua insatisfação, muito poderiam contribuir com as suas soluções. Veja que, ainda que fossem inicialmente vistos com desconfiança, como o próprio São Tomás foi em seu tempo, isso não afetaria em nada a fé deles, se fosse de fato uma convicção. Seria uma fé bastante duvidável essa que se perde porque a maioria dos seus irmãos na fé não concordam com sua visão filosófica pessoal.
Ainda outra frase:
Ao mesmo tempo, os meios religiosos não fomentaram, nem de longe, o tipo de pensamento necessário ao amadurecimento filosófico; e agora correm atrás do prejuízo. Praticamente toda a elite intelectual do mundo vive alheia, quando não avessa, à ideia de religião. A culpa não foi da malvada modernidade antropocêntrica…
Ainda outra frase:
Ao mesmo tempo, os meios religiosos não fomentaram, nem de longe, o tipo de pensamento necessário ao amadurecimento filosófico; e agora correm atrás do prejuízo. Praticamente toda a elite intelectual do mundo vive alheia, quando não avessa, à ideia de religião. A culpa não foi da malvada modernidade antropocêntrica…
Que os meios religiosos não tenham fomentado, nem de longe, o tipo de pensamento necessário ao amadurecimento filosófico, é uma afirmação categórica, sem nenhuma justificativa realmente objetiva. Cabe ao autor dessa frase definir claramente o que na sua visão é maturidade filosófica e depois mostrar claramente que os meios religiosos não o fomentaram. Sem isso, não tem nem o que discutir. Também gostaria de saber quem está correndo atrás do prejuízo, e o que o autor realmente quis dizer com essa frase dotada de uma imprecisão tão grande que me parece lamentável até para a linguagem informal.
As duas frases seguintes ainda deixam subentendido que a atitude antifilosófica da Igreja teria sido a culpada pelo fato de a elite intelectual do mundo viver alheia, quando não avessa, à idéia de religião. Em primeiro lugar, seria necessário restringir essa frase ao mundo ocidental; seria muito difícil aplicar essa frase - que já me parece uma generalização questionável - ao mundo islâmico, por exemplo. Ora, se a modernidade de fato deu à luz uma infinidade de filosofias e disciplinas do conhecimento avessas à religião, como o marxismo, o darwinismo e a psicologia freudiana, é evidente que boa parte do mundo intelectual, que incorporou essa doutrina, será alheia, ou avessa, à religião.
Seria uma ingenuidade pensar que se a Igreja tivesse aderido oficialmente a essas tendências, então teria protegido o mundo intelectual da aversão à religião. Pelo contrário, é evidente que teria trazido para o seu próprio seio a aversão a ela mesma. E foi de fato o que aconteceu quando essas doutrinas foram introduzidas, nos anos sessenta, e o tomismo recomendado por Leão XIII e Pio X abruptamente renegado ao total esquecimento, salvo poucas exceções.
As duas frases seguintes ainda deixam subentendido que a atitude antifilosófica da Igreja teria sido a culpada pelo fato de a elite intelectual do mundo viver alheia, quando não avessa, à idéia de religião. Em primeiro lugar, seria necessário restringir essa frase ao mundo ocidental; seria muito difícil aplicar essa frase - que já me parece uma generalização questionável - ao mundo islâmico, por exemplo. Ora, se a modernidade de fato deu à luz uma infinidade de filosofias e disciplinas do conhecimento avessas à religião, como o marxismo, o darwinismo e a psicologia freudiana, é evidente que boa parte do mundo intelectual, que incorporou essa doutrina, será alheia, ou avessa, à religião.
Seria uma ingenuidade pensar que se a Igreja tivesse aderido oficialmente a essas tendências, então teria protegido o mundo intelectual da aversão à religião. Pelo contrário, é evidente que teria trazido para o seu próprio seio a aversão a ela mesma. E foi de fato o que aconteceu quando essas doutrinas foram introduzidas, nos anos sessenta, e o tomismo recomendado por Leão XIII e Pio X abruptamente renegado ao total esquecimento, salvo poucas exceções.
Por último, gostaria de fazer uma avaliação pessoal a respeito do sentido desse post do editor da Dicta. Acompanhei o primeiro ano dessa revista e sei bem que nessa época adotava-se uma linha editorial que tinha como critério a complementariedade entre fé e razão. Posso afirmar com certeza que essa era a visão de seu primeiro editor.
Alguns de nós acreditamos ingenuamente que a Dicta seria uma revista com critério cristão. Por enquanto, ainda ficamos esperando por uma outra revista que tenha a coragem de se denominar, simplesmente, "filosofia cristã".
Adendo ao texto, de 16 de abril 2013
Após a publicação desse comentário, o Joel Pinheiro o respondeu no site da Dicta http://www.dicta.com.br/filosofia-a-servico-da-fe/. Mantenho todas as minhas opiniões no que diz respeito à filosofia cristá, mas admito que possa ter feito uma avaliação imprecisa sobre a relação entre a Dicta e o Opus Dei. Por isso, omiti o penúltimo parágrafo e modifiquei o último do texto original.
Após a publicação desse comentário, o Joel Pinheiro o respondeu no site da Dicta http://www.dicta.com.br/filosofia-a-servico-da-fe/. Mantenho todas as minhas opiniões no que diz respeito à filosofia cristá, mas admito que possa ter feito uma avaliação imprecisa sobre a relação entre a Dicta e o Opus Dei. Por isso, omiti o penúltimo parágrafo e modifiquei o último do texto original.
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