quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Perché burli? Perché tieni?

A Divina Comédia, de Dante Aliguieri, oferece ao leitor uma enorme quantidade de imagens repletas de significado simbólico. A aplicabilidade delas é ampla, pois remetem às constantes da natureza humana cujos efeitos são repetidamente observados nos eventos da história. Muita dessas imagens são apresentadas com brevidade, obrigando também o leitor a seguir o passo rápido imposto pelo guia de Dante, Virgílio. No entanto, nesses rápidos encontros algumas imagem podem impregnar poderosamente a memória do leitor, sendo inesperadamente resgatadas pela mente em outros momentos para serem aplicadas em situações concretas.

No canto VII, Dante relata a visão do quarto círculo, chamado o da Avareza. Neste círculo, dois grupos se confrontam, atirando-se uns sobre os outros com pesos, à semelhança de duas enormes ondas em colisão. Voltam a se separar e depois entram novamente em rota de colisão. Um grupo brada ao outro "Perché tieni?"  (Porque retendes?), e este para o primeiro, "Perché burli?" (Por que dissipais?). Indagado por Dante sobre a procedência daquelas almas, Virgílio responde que todos foram guerci sì de la mente, vesgos da mente, na sua vida terrena, por não terem feito uso judicioso das riquezas. Um dos grupos desviou-se para o extremo da prodigalidade, isto é, o da dissipação irresponsável dos bens, enquanto que o outro grupo desviou-se para o extremo oposto, o da avareza.

Dante também perguntou se algumas daquelas figuras, desprovidos de cabelo, chercuti, tonsados, eram clérigos. Virgílio confirmou, dizendo que tinham sido papas e bispos. Dante, talvez curioso para identificar algum dentre eles, afirma que deveria haver muitos ali a quem conhecia. Virgílio responde que seria inútil tentar encontrar algum, pois tão grave foi a sua falta de discernimento, que a imundície do seu aspecto os tinha tornado irreconhecíveis.

A aplicabilidade dessa imagem pode abrir-se em um inesgotável leque de possibilidades. Antes de deixar-se levar pelo automático instinto anti-clerical que nos faz reduzir todo o significado dessa imagem à crítica do uso irresponsável dos bens por parte dos administradores da Igreja, seria mais justo primeiro avaliar a si mesmo e à sociedade em que vivemos.

O princípio universal da caridade, tal como nos foi ensinado por Cristo, que consiste em Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si,  fornece critérios claros sobre o uso dos bens materiais. Em primeiro lugar, não podem ser buscados em si mesmos, pois a obstinação pelo dinheiro desvia o coração do homem da única finalidade da sua existência. Essa obstinação suprime também o amor ao próximo, pois é impossível acumular bens e ao mesmo tempo amar ao próximo. Não que um rico não possa amar a Deus e ao próximo, mas apenas na medida em que seus bens são compartilhados e que tenham sido conquistados não por motivação vaidosa e obstinada, mas como fruto do trabalho e da providência generosa de Deus.

A condição essencial do ser humano é a pobreza. A riqueza é dada a cada um na medida da generosidade daqueles que amam. Quem possui riqueza, sempre tem a possibilidade de compartilhá-la com aqueles que são pobres. Não me refiro apenas à riqueza material, mas também às riquezas abstratas, como o amor e o conhecimento, por exemplo. Quem age com generosidade e gasta seus bens com os outros se assemelha a Deus, que "faz chover sobre justos e iníquos". Por outro lado, quem os guarda para si, encerrando-os em um tesouro pessoal, acaba perdendo-se a si mesmo no afã de preservar-se.

Uma das principais causas da avareza é o medo de perder, como se a posse de bens materiais fosse uma garantia da felicidade. As pessoas tem medo de ficarem sem casa, sem roupa, sem comida, sem dinheiro para viajar no final do ano, sem cosméticos, sem perfumes, sem beleza, sem status social, sem aposentadoria, sem um tratamento de saúde de qualidade, sem importância, sem filhos e sem cônjuge, enfim, medo de ficarem pobres e enfrentar todas as privações e humilhações que daí derivam. Quem realmente acredita no Evangelho, bem sabe que todos esses bens não são nada, e menos do que nada, em comparação com a Graça. Antes seria preferível perder todos aqueles bens do que viver sem o Amor de Deus. Afinal de contas, cedo ou tarde, no momento da morte, todos perderão tudo. Somente a Graça de Deus permanecerá, para aqueles que a tenham conservado.

Mesmo tendo todos esses ensinamentos bem claros, não deveria surpreender a ninguém que as famílias cristãs e do clero sertir-se-iam tentadas a tergiversar de mil formas para si e para os outros um comportamento mundano. Não deveria surpreender pois esse medo da pobreza deriva de uma fraqueza que está presente na natureza humana. Estes, frequentemente acusados de hipocrisia pelas vozes secularistas, não fazem nada mais grave do que os próprios acusadores...

Em um local qualquer e em um tempo desses, vozes beatas ouviram-se reclamando do bairro pobre construído nas imediações de sua rica casa de retiros. Em uma outra dimensão, ouviu-se a voz de um pensador adepto das idéias mais progressistas dizer que gostaria de comprar todos os terrenos à volta de sua casa de campo para impedir a invasão da plebe. Não digo isso para condenar essas vozes, pois apenas falar não é tão grave quanto fazer, e, talvez, na hora de agir, elas tenham sido sempre muito generosas, mas uso esse exemplo para que estejamos sempre atentos à necessidade da humildade.

Não é difícil encontrar grupos de orientações tão distintas, muitas vezes inimigas, cometendo exatamente o mesmo pecado. Não seria surpreendente encontrar socialistas e libertários naquele mesmo círculo descrito por Dante, inclusive no mesmo grupo (mais adiante falaremos sobre a aplicabilidade no campo econômico da imagem de Dante).  Deus quer que a maioria deles não se encontrem lá, mas no Paraíso! Bem sabemos que essa fraqueza, isto é, essa obstinação por "salvar-se a si mesmo" pela avareza, está muito presente em cada um de nós.  Mesmo assim, é certo que, sendo verdadeiras as palavras de Cristo, apenas serão bem-aventurados os  que gastarem a própria vida por amor a Deus e ao próximo. O caminho da perfeição, tal como ensinado por Cristo, passa pelo despojamento.

Todas as imagens do purgatório de Dante são provações que ensinam os caminhantes a despojar-se de algum tipo de apegamento. Em muitas das provas do Purgatório de Dante, almas precisam ajudar-se mutuamente para avançar. Deixarei para um outro momento a exploração do significado dessa imagem, mas trago para esse contexto esse exemplo para relembrar que também aqui nesse mundo existe uma densa rede de colaboração entre os homens, através da qual bens são dispensados e recebidos.

No campo político e econômico, temos acompanhado o violento embate entre socialistas e liberais acerca da política a ser adotada no governo de uma nação. Na Europa, socialistas são acusados de terem criado um enorme débito nas contas públicas com excessivos gastos em encargos sociais, que por fim produziria a crise atual. Os liberais, por outro lado, que em alguns países acabaram por assumir o governo na situação de crise, são acusados pelos socialistas de sobrecarregarem os mais pobres com  corte de benefícios sociais.

Se por um lado é bem verdade que a política econômica deve ter como princípio a responsabilidade nos gastos, isto é, despesas nunca acima das receitas, por outro há um risco real de abandono dos mais necessitados. Quando uso o termo necessitado, refiro-me àquelas pessoas da sociedade que, por alguma condição permanente ou momentânea, não conseguem encontrar meios de subsistência.

Uma economia em crise sempre tem altas taxas de desemprego, o que acaba por tornar mais duras as medidas de austeridade econômica. A necessidade do trabalho resulta da necessidade que cada um tem do seu produto. Não seria incorreto afirmar que quanto mais necessidades alguém tem, maior também é a quantidade de trabalho necessária para supri-las. Uma comunidade que consome muitos bens, precisa também de muitos que trabalhem para fabricá-los. Para que as relações sejam justas e equilibradas, a "quantidade de trabalho" fornecida à sociedade deve ser igual à "quantidade de trabalho" recebida dela. Exceção faça-se apenas para aqueles que não estão em condições de "fornecer" trabalho, apenas por força das circunstâncias.

Tendo tudo isso em conta, se uma sociedade deixa-se dominar pela avareza, comete-se ao mesmo tempo um ato de desamor, pois recusa-se o bem que o trabalho do outro pode trazer. Um avarento prefere passar necessidade para acumular riqueza em vez de deixar-se ajudar pelos outros e pagar-lhes em troca o devido salário.

Mas isso não implica então que a prodigalidade redundaria em um bem para a sociedade. O pródigo gasta mais do que tem, ou, em outras palavras, quer ser servido mais do que serve à sociedade. Quando uma sociedade permite a manutenção de uma pequena classe de pródigos, ao mesmo tempo ofende a dignidade daqueles que trabalham. Além disso, prejudica-os materialmente, pois parte do trabalho que deveria ser distribuído de forma equitativa, fica excessivamente centrado nas necessidades dos pródigos. Dessa forma, estes retiram dos que trabalham o direito de receber ao seu tempo o trabalho que a sociedade lhes devia em troca.    

Os problemas econômicos não tem como causa a "perversidade do sistema", como diriam os marxistas, nem a excessiva regulamentação estatal, como diriam os liberais. mas aquela falta de discernimento que condenou os avarentos ao quarto círculo do inferno: tutti quanti fuor guerci sì de la mente in la vita primaia, che con misura nullo spendio ferci, todos foram vesgos no discernimento na vida terrena, por não terem sido judiciosos nos gastos. Isso inclui não só os que trabalham muito para acumular, mas também os que trabalham pouco (ou nada) e gastam tudo. Esses outros ainda tem um outro pecado, pois se têm mais do que seria razoável pelo seu trabalho, então certamente estão a usurpar os bens de outros.

Como mencionado anteriormente, as possibilidades de desdobramento das imagens relatadas por Dante na Divina Comédia são imensas. Tenho acompanhado com pesar o baixíssimo nível no debate entre fiéis da Igreja de esquerda e de direita, pois o que tenho visto mais se assemelha com o "choque de pesos" entre os avarentos e pródigos do quarto círculo do inferno do que um verdadeiro debate. É preocupante  que entre cristãos encontrem-se manifestações nas redes sociais de pueril arrogância do tipo "ser de direita é estar no pecado, converta-se" ou "ser de esquerda é pecado" etc. Na fiel leitura do Evangelho é possível encontrar  uma resposta comum. Com a ajuda da sabedoria cristã expressa na Divina Comédia de Dante, talvez encontremos uma solução que impeça uma nova briga intestina entre guelfos e guibelinos nos tempos modernos.    


             

domingo, 10 de novembro de 2013

O filho pródigo do Brasil

Recentemente, muitas pessoas da nossa sociedade se escandalizaram diante da divulgação, nos meios de comunicação de grande difusão, da reportagem sobre um indivíduo que dissipa uma enorme quantidade de dinheiro na noite. Se fosse uma sociedade que ainda cultivasse as virtudes da temperança, da modéstia e do pudor, teria sido fácil de entender a razão da desaprovação. Não sendo esses os reais valores em questão, resta saber por que a sensibilidade das pessoas foi afetada.

A julgar pela vida da maior parte das pessoas da geração mais jovem e pelos valores que tem sido difundidos pela indústria cultural no últimos anos, não há mesmo nenhum motivo de escândalo. No entanto, há também uma outra esfera de valores, defendida e propagandeada sobretudo pelas ideologias de tonalidade mais à esquerda. Em linhas gerais, defendem que o homem virtuoso deve ser solidário, sensível aos problemas sociais, ativo na promoção dos direitos dos desfavorecidos e, portanto, não tão centrado em si mesmo, menos individualista.

Nesse sentido, esses valores frequentemente definem como o seu mais preciso oposto o comportamento humano que coloca em primeiro lugar a satisfação pessoal, o consumo desenfreado e os interesses pessoais. Aqui no Brasil, cunharam um termo para os que são enquadrados nesse estado, dando-lhes a alcunha de "coxinha". Além disso, costumam apontar o sistema capitalista como o grande responsável pela difusão desses valores individualistas, consumistas e opressores.

Na prática, no entanto, essa separação nunca é precisa na vida cotidiana das pessoas. Muitos daqueles que defendem as teses mais à esquerda tem, na vida privada, um comportamento incompatível com o seu sistema de valores. O que temos visto na vida concreta da maior parte dessas pessoa é uma forte sobreposição entre o usufruto das vaidades oferecidas pela "propaganda capitalista" e a adoção religiosa de um discurso politicamente correto, isto é, em sintonia com aquilo que a mentalidade mais à esquerda defende.

Quem é bem experimentado na vida sabe bem que as reações de escândalo diante de fatos como esse geralmente afloram dos desejos recalcados. Quem conhece o ser humano, sabe que, não estando amparado por um bom preparo espiritual, sempre cai na tentação de dar vazão às suas paixões quando na posse do poder que o permita. Não há modelo mais preciso e verdadeiro para a condição humana do que o seu estado propício à desordem e à perversidade em decorrência do pecado original.

Sabendo que as seguintes palavras poderão causar um segundo escândalo em muitos, afirmo que a inveja foi a principal razão da reação apaixonada contra o comportamento desse filho pródigo do Brasil.    Bem encoberta por um discurso moralista de tonalidade vermelha, diga-se de passagem.

No entanto, no discurso de vozes de tonalidade mais azulada, alguns chegaram a repetir a velha crença de que os vícios privados são virtudes para a economia. É difícil de acreditar que alguém realmente acredite nisso; nas entrelinhas desse refrão é difícil deixar de ler uma boa dose de provocação e cinismo.

Um dos argumentos difundidos pelo mundo afora para defender aquele comportamento (ou talvez para provocar o povo da esquerda) se baseia no fato de que esses esbanjadores, para conservarem seu estilo de vida, empregam muitas pessoas, dando-lhes trabalho, e, portanto, fazendo-lhes o bem. Acrescentando aí o fato de que esses empregados são pobres, tem ainda a cara-de-pau de dizer que os desregrados ajudam mais os desfavorecidos do que os propagadores de discursos esquerdistas.

Esse tipo de discurso é típico de quem é incapaz de se colocar no lugar do outro. Entre as duas opções, o que é melhor, servir a um senhor bom, virtuoso e honesto ou a um senhor escravo das suas paixões? Qual dos dois seria mais confiável, qual dos dois saberia motivar melhor o seu empregado para desenvolver ao máximo suas potencialidades humanas? O que é melhor, ser "senhor de um outro senhor", ou "um servo de um outro servo"?

Na verdade, são nefastas as implicações para a economia e para a sociedade de senhores que contratam pessoas para trabalhar na edificação de seus vícios pessoais. Esse tipo de atividade é incapaz de construir riqueza de valor perdurável. Ao mesmo tempo, ao reforçar exemplos de pouca laboriosidade e virtude, desistimula as pessoas ao trabalho, espalhando em todas as classes sociais o desprezo pela excelência moral em favor da vida regalada. Consequentemente, o potencial de riqueza de uma nação, como um todo, fica prejudicado, pois o trabalho das pessoas tende a ficar muito aquém de sua real potencialidade. Ao mesmo tempo, produz uma deseducação cultural, pois corrói uma parte importante do capital cultural de uma sociedade, que são as suas tradições e costumes. Essas são transmitidas pelos seus antepessados como soluções genuínas e eficazes contra o caos social gerado pelos vícios privados. Em outras palavras, atividades econômicas à serviço de comportamento viciosos sempre conduzem à desintegração da sociedade, que por sua vez, voltam a ter impactos negativos na economia.      

De certa forma, todas essas reações, independentemente de sua causa, e ainda que farisaicas, sempre tem o efeito positivo de desencorajar um tipo de comportamento vicioso que não pode ser enquadrado como crime. Ao contrário, quem afirma que esse tipo de comportamento é positivo para a economia, só está atrasando o processo natural de eliminação de um foco de desintegração social. O problema pode aumentar, minando efetivamente a moral e a capacidade de uma sociedade. E, se isso acontecesse, parte dos responsáveis terão sido aqueles que, em vez de condenar o vício, louvaram-no com a falsa justificativa de utilidade econômica.
 

domingo, 3 de novembro de 2013

A arrogância dos macacos pelados

O espírito da sociedade moderna parece ter se tornado completamente cega para a potência monumental da natureza. Engana-se na ilusão de que já está completamente dominada pela ciência humana. Imerso em  um universo totalmente artificial, quase sempre protegido das adversidades naturais, perdeu a noção da sua impotência em face das forças brutais do universo que o cerca.

Como consequência, perdeu o contato com a realidade e vive inconsciente de que logo será engolido por um turbilhão monstruoso que o reduzirá a pó. No passado, tanto as grandes civilizações quanto as culturas de pequeno porte, deram testemunho através de sua produção cultural da sensibilidade para os grandes problemas da existência e os seus mistérios; a saber, a morte, a origem da vida e o poder brutal da natureza.

Para a perplexidade geral, em nossos tempos, declaramos superadas todas essas preocupações do antepassados. Pensamos que eles eram apenas homens primitivos, amendrotados diante de uma natureza que não podiam controlar e entender. Trivializamos a realidade.

O que antes parecia grande, belo, amedrontador, quase infinito, nada mais é do que algo trivial em grande escala. Tomemos como exemplo o mar, tão grande, tão misterioso, tão irregular, que no passado fascinou todas as sociedades. Hoje, nada mais é do que um meio contínuo, perfeitamente descritível por meio da mecânica dos fluidos.  Em princípio, a ciência é capaz de mimetizar perfeitamente todas as ondas e seus fenômenos outrora tão misteriosos. A sua bela cor nada mais é do que o efeito do padrão de absorção e espalhamento da luz das moléculas ali presentes.

Em poucas palavras, o universo inteiro foi reduzido a um amontoado enorme de partículas, com regras de interação bem definidas, e com simetrias e estruturas periódicas que se estendem por todo o espaço. Como escreveu Gustavo Corção no segundo volume de Dois Amores e Duas Cidades, o universo, nessa perspectiva, parece uma imensa cadeia, com um número enorme de celas, todas iguais, monotonamente iguais.  Tanto é verdade que até hoje nada se conseguiu além de uma literatura insossa quando tentaram fazer divulgação científica através de estorinhas (Contato de Carl Sagan é um bom exemplo). Essa perspectiva reducionista da realidade é um veneno mortífero para a imaginação.    

Ou seja, já não há mais espaço para o mistério. Está tudo compreendido, tipificado. O ser humano nada mais é do que um amontoado de moléculas escolhidas e dispostas sabiamente pela evolução de modo a interagir para compor um organismo. A vida nada mais é do que uma organização originada do "acaso". Somos frutos do acaso, compostos apenas de matéria.

Sendo tudo fruto do acaso e pura matéria, já não há mais por que buscar uma razão para o ser. As coisas simplesmente existem, as que tem vida nascem e morrem. Não há um criador, apenas a matéria e suas leis, que tudo cria, recria e tranforma.

Muito bem, nesse ponto, não posso deixar de manifestar a minha recusa a adotar tal visão de mundo.

Em primeiro lugar, a ciência ainda é incapaz de responder e prever uma infinidade de fenônemos, isso sem mencionar os fenômenos que na verdade ela não explica, apesar de muitos pensarem o contrário. Já há quase um século que a teoria que melhor descreve os fenômenos microscópicos, a mecânica quântica, ainda não tem uma interpretação "clara e distinta". Quem é físico sabe bem: ao especialista da área pouco interessa a interpretação para o sucesso de suas aplicações, o importante é saber utilizá-la.

A teoria da evolução é ainda muito mais frágil, sem contar o fato de que ela não é capaz de prever nada que não seja trivial. Essa teoria não satisfaz todos os pré-requisitos do método científico, em particular o da experimentação. Isso pelo simples fato de que, por assumir uma escala de tempo enorme, nenhum experimento pode ser feito para verificá-la. O ponto fraco da teoria é habilmente escondido, enquanto que o ponto forte é apresentado como a sua demonstração completa e irrefutável. O ponto forte é a seleção natural: ela ocorre e isso pode ser demonstrado experimentalmente. Mas isso quando a diversidade genética já está presente na espécie: ninguém até hoje explicou como, magicamente, no momento da necessidade de adaptação, havia uns indivíduos com as mutações exatamente necessárias. A mutação e a mudança no ambiente são eventos não correlacionados, de modo que a probabilidade de acontecerem simultaneamente é baixa. Por isso, a teoria exige uma quantidade monstruosa de recombinações genéticas e mutações aleatórias, isto é, muitas reproduções e muito tempo. É estranho, pois a escala de tempo da mudança ambiental é muito menor do que a exigida para a ocorrência de mutações. Talvez não no caso de bactérias e "algoritmos genéticos", mas isso está muito longe de se aplicar igualmente a seres mais complexos.

O problema está em acreditar que a ciência realmente explica tudo. Penso que o mesmo se pode afirmar a respeito da esperança de que um dia irá explicar tudo. No fundo, o verdadeiro motivo para que muitos se apeguem a essa crença é a necessidade pessoal de negar o fato de que o universo tem uma finalidade. Pois se tem uma finalidade, necessariamente teve que ser criado por um Ser inteligente. Se assim for, toda criatura deve a ele sua existência e de alguma forma está implicada no Seu projeto.

Há um enorme medo do transcendental, do grandioso, daquilo que supera a pequenez evidente da humanidade. Para os espíritos acomodados, é mais confortável se iludir na sua convicção de que sua inteligência e vontade é o que há de maior na natureza. Mas a verdade patente é que não passamos de homens pobres, nus e pateticamente frágeis. Fechamos os olhos para essa realidade e, de alguma forma, nos tornamos mais burros do que os nossos antepassados, que desprezamos.

Uma farsa monstruosa não vai anular o fato de que todos um dia terão que responder perante o tribunal do Criador pelo que fez. É bom pensar bem, pois, como sugere a analogia de Pascal, o risco de "apostar" na tese materialista é imensamente maior.    

domingo, 27 de outubro de 2013

Modernismo, pós-modernismo e tradição


A modernidade nasceu com a promessa de transformar a vida das pessoas para melhor. Havia a convicção de que apenas a ciência seria suficiente para guiar um processo de aperfeiçoamento contínuo da qualidade de vida. De fato, o impulso sem precedentes que a ciência deu à tecnologia permitiu à sociedade um maior conforto. Por outro lado, essa mesma ciência foi aplicada como um instrumento eficaz de dominação e exterminação.

O otimismo e a euforia que esses grandes avanços produziram nos homens do século XIX foram massacrados pela irrupção das duas grandes guerras mundiais. A promessa do modernismo fracassou peremptoriamente. Desorientada e desiludida, a classe pensante ligada à tradição modernista foi obrigada a rever suas premissas e reformular as antigas promessas. Assim nasceu o pós-modernismo.

Para restaurar o projeto gerado pela modernidade, era necessário compreender os motivos que conduziram àquele trágico desfecho. Dessa vez, já não era mais possível culpar as instituições tradicionais, pois já tinham perdido influência sobre o agir da classe dirigente. Mesmo a monarquia, tendo sido sem dúvida uma instituição tradicional envolvida nos acontecimentos, sobretudo durante a primeira guerra mundial, já há muito tempo tinha cedido espaço ao projeto modernista, na esperança de sobreviver ao tempo.

Ainda que a classe pensante tenha permanecido majoritariamente ligada à tradição iluminista, há uma percepção lavrada no espírito pós-moderno de que as possibilidades da razão são limitadas. Tendo perdido a esperança nela, poucos parecem ainda acreditar que seu empenho pessoal pela realização da causa irá dar bom fruto. Nesse cenário, e diante das possibilidades de conforto à sua disposição, a sociedade fez a opção pelo ideal de uma vida dedicada principamente à satisfação dos desejos pessoais.

No final das contas, qual era mesmo a promessa da modernidade? A promessa de um mundo, uma sociedade e um homem novo . Um mundo que produziria tudo aquilo de que se necessita, em abundância, de modo que nada falte a ninguém. Uma sociedade perfeita, solidária e fraterna, onde a guerra e os pequenos conflitos de interresses deixariam de existir. Um homem novo, comprometido de corpo e alma com a manutenção desse mundo novo.

Essa esperança permanece radiante no firmamento cultural da pós-modernidade, mas não parece razoável supor que a classe dirigente e pensante realmente acredite na sua realização. Na verdade, é do interesse dessas mesmas classes, sobretudo das dirigentes, utilizar a utopia como instrumento político para a dominação e cooptação da massa de manobra.

De qualquer modo, a esperança pós-modernista está na maior parte dos casos presente nos corações apenas como um desejo difuso, incapaz de cristalizar-se em ações concretas. Na prática, os corações permanecem confinados à espiral do egoísmo, incapazes de colocar em prática os valores que lhes foram inculcados.

A falha monstruosa que conduziu ao fracasso desse projeto não pode ser entendida dentro das categorias da tradição iluminista que o gerou. Na realidade, a razão dos modernistas esconde no rigor da técnica e do método o caos teleológico de suas propostas. Aos ingênuos, elas sugeriam que a aplicação do rigor científico a todas as esferas da vida pública e privada acabaria com todos os males sociais e pessoais. Mas o olhar mais aguçado, cultivado pela educação na tradição, logo percebeu que a verdadeira força motriz da modernidade eram as paixões.

A razão dos modernistas sempre se recusou a aceitar a existência da desordem nas paixões.  Paradoxalmente, tanto no modernismo quanto no pós-modernismo, sua classe pensante preferiu sacrificar a razão caso isso fosse necessário para salvar a legitimidade das paixões, identificada com a liberdade. Isso não é de espantar, pois nessa perspectiva seguir os impulsos das paixões é ser livre. Não que a razão seja pouco valorizada no modernismo; ela é de fato exaltada, mas uma noção limitada de liberdade está no topo da hierarquia de valores.  

É difícil ser tão ingênuo a ponto de acreditar que o indivíduo que dá vazão desenfreada aos seus apetites é a mais angelical e inocente das criaturas da terra. Mas pelo incrível que pareça o mito do bom selvagem persiste no firmamento cultural dos nossos tempos

A verdadeira causa do fracasso do projeto modernista foi ignorar a motivação caótica por trás do uso eficaz da ciência e da técnica. A razão não reformou o coração do homem, mas foi apropriada por ele para amplificar a capacidade de concretização das suas perversidades.

Os pensadores pós-modernos se debruçaram sobre o problema, tendo inevitavelmente afogado os ânimos no definitivo desencanto. Por outro lado, essa dinâmica da natureza humana foi identificada com precisão pela classe dirigente e pelas grandes forças econômicas. Vivemos imersos em um mundo que se transformou em uma imensa e lucrativa fábrica de sonhos e espetáculos para saciar todos os seus apetites, inclusive suas perversidades.

Nesse novo cenário, há ainda espaço para a razão? O uso da razão está atualmente ainda mais restrito à dominação e à satisfação da insaciável concupiscência humana. Isso é verdade em todos os estratos da sociedade.

Os apetites geram uma tensão interior, fornecendo uma energia potencial que só é liberada no momento da sua satisfação. Como fenômeno de massa, essa tensão representa um perigo real para a ordem vigente, sendo, ao mesmo tempo, uma arma poderosa nas mãos de políticos hábeis. Há muitos anos, o ocidente vive em uma paz instável, conquistada por meio de uma perigosa política de estímulo à satisfação imediata dos desejos pessoais.        

É bem verdade que ao aliviar a tensão, os ânimos arrefecem. No entanto, as paixões humanas não tem um limite bem definido, pois é próprio da natureza humana sempre aspirar mais. O estímulo à satisfação dos apetites desordenados é uma medida perigosa, fadada a uma situação insustentável, em que a máquina produtiva já não dará mais conta de satisfazer uma grande massa de insatisfeitos e revoltados.

Não seria honesto deixar de reconhecer que mutilar todas as aspirações do coração também seria perigoso para a sociedade, além de desumano. Bem sabemos que a conquista dos corações para uma causa tem sido o meio mais eficaz para concretizar projetos políticos nefastos. Por isso, uma educação baseada na supressão total das paixões pessoais pode ter uma motivação manipuladora.

O objetivo que uma sociedade mais humana deve almejar é a educação das paixões. Esse aspecto do ser humano tem sido negligenciado pelo modelo moderno de educação. Em geral, a paixão é vista como uma força caótica e destruidora, e pouco é feito de maneira eficaz para canalizá-la à realização de grandes empreendimentos. As forças do mercado, logicamente, sabem canalizá-las. Mas infelizmente são empreendimentos totalmente voltados à produção de bens para retroalimentar a espiral do consumismo. Em outros termos, o trabalho duro é ainda tolerado, contanto que tenha como recompensa  a satisfação plena dos apetites pessoais. Nessa lógica, o trabalho não tem um sentido transcendental.  Além disso, se firma sobre a premissa de que não há nada melhor para aspirar nessa vida do que o prazer material.  

A educação das paixões é um tópico à parte. É essa a resposta fundamental para a superação do desencanto pós-modernista. O grande desvio do modernismo foi ter subestimado ou até ignorado essa força que movia as ações humanas. Pois no campo da vida prática, das decisões, a paixão desempenha um papel muito forte. Ela é capaz de torcer a razão, derrubando facilmente as conclusões puramente racionais do sistema moral adotado. Sendo desumano suprimir a paixão, uma importante componente da natureza humana, fortemente relacionada com a felicidade, é necessário educá-la e harmonizá-la com a razão. Eis o grande desafio.  

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O pecado, os pecadores e os condenados

Se Deus é Misericordioso e Bom, como é possível então que Ele consinta com o terrível suplício eterno das almas condenadas? Essa é uma questão frequentemente dirigida pelos que não possuem a Fé nos Evangelhos.

Também para mim é uma questão difícil. Santa Teresa D'Àvila descrevia o inferno como um lugar onde se tem a sensação de estar morrendo a todo momento. Sem cessar e para sempre. Por ser tão aterradora, essa realidade nos parece absurda.

À primeira vista, parece que o inferno é totalmente incompatível com a noção de um Deus Bom e Misericordioso. Se Deus é Bom, então Ele não deveria permitir que ninguém sofresse. Desde o instante inicial, todas as suas criaturas deveriam gozar de delícias sem fim especialmente preparadas para elas.

Mas se fosse assim, quem poderia dizer-se realmente livre? Ninguém, pois seriam todas as criaturas meros títeres nas mãos de Deus. Títeres não amam, apenas respondem automaticamente a estímulos.

Pelo que nos revelam as Sagradas Escrituras em Genesis, o projeto inicial era mesmo que os homens desfrutassem de uma vida sem sofrimentos, no jardim do Éden. Mas foi deixada uma possibilidade à liberdade do homem. Não me refiro à liberdade que Adão e Eva tinham de ora comer uma laranja, ora uma maçã. Mas à liberdade de amar a Deus. Pois quem ama, confia. Se amassem, jamais teriam duvidado de Deus. Jamais teriam acreditado que Deus estava querendo lhes trapacear.

O sofrimento humano nasceu no mundo e permanece no mundo por causa do pecado. Para vencê-lo, é necessário fazer o caminho inverso: confiar em Deus, apesar do sofrimento. Cristo abriu essa via, vencendo o pecado, quando, confiando em Deus, foi fiel até o último instante. Se a queda da humanidade foi consequência da desobediência, a sua salvação foi conquistada pela obediência. 

Depois da queda original, fazer o bem em situações concretas pode exigir sofrimentos pessoais. Nesses casos, perseverar no bem exige confiança em Deus, a mesma confiança que os nossos primeiros pais deveriam ter conservado. 

E o que dizer dos que não estão dispostos a assumir esses sofrimentos pessoais? Nas situações concretas, são inúmeras as vezes em que rejeitamos o bem por fraqueza. É possível reconhecer, pedir perdão e tentar o sucesso nas próximas vezes. Se, apesar do fracasso, há um reconhecimento sincero das faltas pessoais e o propósito de continuar buscando o bem, ainda existe uma confiança sincera em Deus.

Sobram ainda os que não estão dispostos a assumir esses sofrimentos pessoais por não acreditar que exista um bem maior do que o seu prazer. Nesse caso, já fizeram a sua opção. A opção por não amar a Deus, não querer o Bem e não buscar a Verdade. 

Ao entrar na eternidade, levam consigo suas convicções, sacramentadas pelos atos de suas vidas. Já não há novas opções a serem feitas. Não é Deus que as condenam: são elas mesmas que escolhem o seu destino e escrevem a sua sentença. 

Mas não seria o suplício do inferno suficiente para movê-las ao arrependimento?  Não. Para se arrepender, é necessário sentir-se condoído dos que foram injustiçados pelas más ações. Esse é o verdadeiro arrependimento.  O que elas têm é um desejo de sair do suplício. Somente para se livrar do suplício é que desejariam não ter realizado aquelas más ações. Nesse arrependimento não há nenhum outro ingrediente que não seja o amor próprio.  Além disso, o arrependimento na caridade é também  uma graça: o inferno está, por definição, privado dela. 

Não é que Deus não queira ser Misericordioso com a alma dos condenadas pertinazes; na verdade, são esses que não quiseram recorrer à Misericórdia divina. Quem não quiser ser perdoado, não será.

Ninguém pode ter certeza de que será salvo. Isso seria pecar por presunção. No entanto, podemos nos confortar na certeza de que Deus não despreza um pecador realmente arrependido.






  


domingo, 6 de outubro de 2013

Papa Francisco, aristocracia e tradicionalismo

As palavras do papa Francisco tem causado reações apaixonadas entre pessoas das mais diversas orientações. A grande mídia tem ecoado suas palavras dando maior acento às declarações que poderiam indicar mudanças na Igreja em direção à sua agenda comum. Pergunto-me por que motivo pessoas tão profundamente indiferentes à religião se preocupam tanto com as palavras do papa. Tudo leva-me a crer que, na incapacidade de neutralizar totalmente a influência da Igreja, estão empenhados na estratégia de influenciar mudanças para converter a influência da Igreja a seu favor.

Será que, se a Igreja cedesse em todos os pontos dessa agenda, muitas pessoas então se sentiriam atraídas a aderir à Fé? Pergunto-me, ao mesmo tempo: se a Igreja cedesse nesses pontos, o que restaria da Fé?

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Há, por outro lado, muitas manifestações de desaprovação às palavras do papa da parte de fiéis. Em geral, tenho a impressão que, da mesma forma como a grande mídia, estão fazendo um leitura seletiva das palavras do papa. Há várias declarações e escritos que atestam a total adesão do papa aos ensinamentos de Fé e Moral da Igreja. Ao mesmo tempo, tem frisado, desde o discurso inicial, que não existe cristianismo sem Cruz. 

No entanto, muitos que se dizem fiéis não têm dado atenção a essas palavras. Às vezes parece que escondem por trás do zelo litúrgico e doutrinário uma resistência para se entregar de fato a algumas exigências evangélicas. Tendo resumido toda religião cristã à adesão às normas litúrgicas e à mera repetição das formulações dogmáticas da Fé, esquecem de viver no seu dia-a-dia as virtudes cristãs, sobretudo aquelas relacionadas com o desapego dos bens materiais e do conforto pessoal.

Mais grave do que isso, causa procupação a manifestação de fiéis que ainda querem estender seu dogmatismo despojado da piedade ao campo político. Longe de estarem em consonância com os princípios que regem a Doutrina Social da Igreja, querem impor um sistema político como a única solução compatível com o catolicismo. Confundem os canais, e pensam que  se ofende a Deus e a integridade da Fé sempre que alguém questiona o seu posicionamente político pessoal.

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Meu caro padre, não somos cegos, somos apenas homens. Vivemos numa realidade móvel à qual procuramos adaptar-nos como as algas que se dobram sob o ímpeto das ondas do mar. À Santa Madre Igreja foi explicitamente prometida à imortalidade, mas a nós, como classe social, não. Para nós, qualquer paliativo que nos garanta mais cem anos de vida equivale à eternidade (palavras de D. Fabrizio ao padre Pirrone, em Gattopardo, de Tomasi di Lampedusa ).

Os palácios e castelos ainda conservados na Europa são testemunho ainda vivos da magnitude do poder   da sua antiga aristocracia. De uma idade média em que o poder da aristocracia estava fragmentado em pequenos reinos e feudos, cuja autonomia administrativa e jurídica ainda era respeitada pelos imperadores, a modernidade nasceu com a concretização do afã centralizador de monarcas católicos.

Mesmo sob o pretexto de estender o reinado de Cristo para todo o mundo, a sede de poder absoluto desses monarcas teve consequências trágicas para a história da Igreja. O Sacro Imperio Romano-Germânico (SIRG) teria sido uma das primeiras experiências histórica de coexistência de reinos cristãos sob um império fundado no princípio da subsidiariedade, não fosse a difícil queda-de-braços com os imperadores sedentos de poder. Nesse embate, os grandes monarcas saíram vencedores, tendo reduzido o poder da aristocracia e cooptado a hierarquia local da Igreja a seu favor.


Um dos exemplos trágicos foram as guerras empreendidas pelos reis católicos espanhóis para anexar os reinados dos países baixos. A nobreza local, àquela altura, era católica, assim como a maior parte da população, tendo deixado o testemunho histórico da sua devoção legando-nos uma belíssima arte sacra.  Mesmo não se opondo à vassalagem devida ao imperador do SIRG, àquela altura também rei da Espanha (Carlos I), era natural que se opusessem a uma política que diminuia uma autonomia legítima na direção dos seus reinados. Depois da desastrosa campanha do duque de Alba, em que até mesmo populações católicas tiveram suas cidades saqueadas pelos seus exércitos de mercenários, era difícil para qualquer católico holandês acreditar realmente na retidão do "rei católico". As consequências  desta triste inabilidade política foram demasiadamente ruins para a história do cristianismo.
          

Infelizmente, esse não é único exemplo. Na mesma época, Maria I da Inglaterra foi coroada com forte apoio popular. No entanto, os ingleses, muito conscientes das pretensões imperialistas dos espanhóis, com razão viram com desconfiança o seu casamento com Filipe da Espanha. Ao que tudo indica, foi realmente apaixonada por seu marido, de modo que é mais provável que não estivesse interessada em trair o seu povo. Não fosse pelo seu imperialismo agressivo, uma aliança com a Espanha seria realmente interessante para a Inglaterra. Deixou-se influenciar por conselheiros que a isolaram politicamente e fomentaram uma política de revanchismo. Maria I, que poderia ter passado à história como rainha santa, infelizmente ficou conhecida como bloody Mary, em grande parte pela historiografia enviesada dos anglicanos (Maria I não foi mais "bloody" do que seu pai, Henrique VIII). Nesse ponto crucial da história, a misericórdia e o perdão teriam salvado a Igreja Católica na Inglaterra.

Até hoje, os ingleses nutrem uma secreta admiração pelo catolicismo. Mas infelizmente, as políticas desastrosas, autoritárias e atrapalhadas de Jaime II só vieram a sepultar definitivamente o catolicismo da Inglaterra.    

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A coexistência da frivolidade, da opulência e do adultério com uma devoção deslumbrante e pretensamente ortodoxa nas côrtes dos monarcas absolutistas católicos fez um mal brutal para o cristianismo, cujas consequências ainda vivemos. Ficou a belíssima arte da época, cuja qualidade deve ser antes atribuída aos artistas, decoradores e pedreiros e à sua piedade sincera.

O adultério praticado pelos reis era quase regra, cujas exceções podem ser encontradas apenas entre os poucos reis santos. Fica mesmo a impressão de que aqueles reis realmente tinham pouca piedade interior. Pior do que isso, parece que no fundo consideravam a piedade uma coisa para damas e padres. Mas ser católico era-lhes interessante pois o prestígio da Igreja legitimava o seu poder diante do povo e facilitava-lhes a dominação sobre as mulheres.     

Não é fácil saber se realmente raciocinavam desse modo. Desconheço qualquer documento que o ateste. Ao que tudo indica, pelos muitos atos exteriores de piedade, como o suporte financeiro às ordens religiosas e obras de caridade, e à frequência ao confessionário, havia sim uma fé entre esses homens, mas um tanto quanto incoerente e pouco convincente.

Diante desse péssimo exemplo das côrtes européias católicas, e da desastrada associação de parte da hierarquia com elas, nasceu um anticlericalismo violento generalizado. É necessário reconhecer que mesmo um católico de boa vontade, que realmente leva a sério o exemplo de Cristo, está obrigado a ser anticlerical, quando clericalismo significa essa simbiose nefasta da hierarquia com uma corte vergonhosamente imoral. Mas não violentamente anticlerical. É necessário empreender uma verdadeira reforma, começando pela reforma pessoal do caráter.

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Ao andar pelos palácios da Europa, sobretudo aqueles que pertenceram aos imperadores absolutistas (e.g. El Escorial, na Espanha, ou até mesmo o palácio de Sintra), com o seu cheiro de mofo, ao lado de turistas que desembarcam aos borbotões, sente-se uma grande decepção. Pecebe-se que aquele local foi um dia um poderoso símbolo de poder, com mobília e pinturas em perfeito estado, que fervilhava com a atividade incessante de criados ao serviço da corte, cenário de incansáveis banquetes, fofocas e conspirações.  

Era isso o que valeria à pena ter conhecido, mas a barreira do tempo impõe um obstáculo intransponível. No entanto, da minha perspectiva, se hoje já sinto aflição e tristeza de saber que um dia o mundo foi assim (meu consolo era que Santa Teresa D'Ávila sentia o mesmo quando visitava as côrtes), se tivesse presenciado isso, com a mentalidade de hoje, teria morrido de tristeza. Um mundo em que a liberdade estava confinada e asfixiada pela bajulação de uma corte medíocre à autoridade de um homem imperfeito. Pelo menos, essa mediocridade ajudou muitos homens a perceber que antes era preferível servir à autoridade do verdadeiro Rei. 

Inacreditavelmente, essa mentalidade aristocrática ainda sobrevive, e reminescências dela ainda podem ser encontradas em muitas instituições da Igreja, inclusive dentro de algumas  cuja fundação data do século XX. São toleráveis, enquanto pelo menos fomentam todas as virtudes cristãs entre os seus membros e não tenham a pretensão de generalizar uma mentalidade aristocrática estranha ao Evangelho para toda a Igreja. Em poucas palavras, generalizar a idéia de que a reta ordem universal querida por Deus consiste em um mundo formado por aristocratas, a quem se deve servir, e servos, a quem não resta outra possibilidade a não ser servir os primeiros. E, mais do que isso, incluir aí a falsa noção de que se é servo ou aristocrata pela Vontade de Deus e que querer mudar a situação é ir contra a sua Vontade. Boa doutrina essa, para os aristocratas!

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Essa realidade estranha aos olhos do homem de nosso tempo, de côrtes e reis, com todas as suas incongruências e contradições, sobreviveu no mundo. Onde? Em alguns nichos dentro da Igreja. 

O nosso papa Francisco tem se esforçado para adequar a estrutura da Igreja a uma prática mais fiel ao Evangelho. Alguns erroneamente o acusam de querer esvaziar a autoridade papal somente por que escolheu não utilizar alguns acessórios externos simbólicos. Ora, o papa poderia se vestir de calça jeans e camiseta polo diante dos fiéis, mas isso, ainda que extremamente inconveniente, não diminuiria em nada a autoridade que Cristo conferiu ao sucessor de Pedro. Os símbolos não são absolutos e seu significados mudam em função dos tempos. É de total liberdade do papa fazer uso daqueles símbolos que melhor expressam, dentro da mentalidade de seu tempo, os valores evangélicos. Ao papa não cabe entrar em jogo político para agradar "tradicionalistas", "conservadores" ou "progressistas", mas sim apenas agradar a Deus.  

Paradoxalmente, esses mesmos que tão intensamente se apegam à doutrina da infabilidade papal, são os primeiros a criticar suas ações e pregações. Imagino até que, tendo vivido na época em que Pio X instituiu a Primeira Comunhão para as crianças pequenas (tão logo atingissem a idade da razão), teriam sido os primeiros a levantar suas vozes para contrariar.   

Há relatos de diálogos entre demônios e exorcistas em que aqueles atestam que o motivo de sua rebelião foi o pedido que Deus lhes fez para adorá-Lo em natureza humana. Os anjos entenderam, ao adorar Deus escondido sob a natureza humana, que pertencia aos planos de Deus criar um animal espiritual à sua imagem e semelhança, destinado à bem-aventurança. Entenderam também que deveriam estar dispostos a servir criaturas inferiores em natureza. Alguns anjos não quiseram se curvar e não aceitaram isso, tendo sido necessária uma guerra celeste para expulsá-los da presença de Deus.

Em alguns momentos, não consigo evitar o paralelo entre uma mentalidade aristocrática mal orientada, que se recusa a descer do seu troninho e sair do oratório pessoal para servir ao próximo necessitado, e a atitude dos anjos rebeldes.  Não seria mau avaliar em nosso exame de consciência pessoal se também nós não estaríamos agindo da mesma forma.

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As palavras do papa Francisco transmitem ensinamentos valiosos. Não há ressalvas nem matizes a serem feitos. São palavras que devem ser entendidas mesmo tal como foram ditas. Não há nada ali que fere a Tradição, nada que fere o Evangelho, nada que fere a Verdade. Os que mais a estão criticando, são os que mais necessidade têm de uma verdadeira metanóia. O papa Francisco tocou na ferida de muitos.  



        

domingo, 16 de junho de 2013

Revolta da salada: revolução em direção ao caos

Não é por R$ 0,20, mas por direitos... Até agora não li em nenhum lugar quais são os direitos reivindicados por esse movimento que tomou as ruas da capital de São Paulo na semana passada. Se alguém me puder fazer o favor de me encaminhar um documento que contenha uma explicação disso tudo, pelo menos teria alguma matéria com relação a qual poderia discordar ou concordar. Por enquanto, tudo isso parece pouco racional e muito primitivo.

A leitura que faço dos fatos é a seguinte. A maioria realmente não pensa no que está fazendo. São movidos pelos efeitos de uma propaganda que apela em última instância para a vaidade e para a desordem de todas as outras paixões humanas. Nada difícil de compreender: em sua maioria, essas pessoas foram submetidas a uma formação que evitou, a todo custo, ensinar a necessidade da virtude.

Essa propaganda produz nessas almas ingênuas a ilusão de que estão mudando o mundo e contribuindo positivamente para a história. A velha guarda que pensa que os movimentos de 68 e outras tantas revoluções culturais das quais participaram foi algo diferente do que aconteceu na semana passada, argumentando que aquelas foram legítimas e essas que estão acontecendo não são, não aprendeu nada. Ficaram velhos, mas ainda dominados pelas paixões, só conseguem enxergar o mundo na perspectiva dos interesses próprios.

Essa turma da velha guarda acha que mudou o mundo para melhor e se indigna de ver que a juventude não reconhece as grandes benesses que propiciaram com as mudanças que conquistaram. Não mudaram nada, pois não há nada que possa ser mudado no mundo de fora, se antes cada um não resolve mudar o seu mundo de dentro. Quando se é jovem, em geral não se pode  desfrutar da posse de bens materiais, que só vem com o tempo, à medida que o trabalho vai gerando frutos e as circunstâncias vão permitindo posições de maior responsabilidade. O jovem, motivado por essas paixões desordenadas, desejaria para si a posse do que apenas uma vida inteira pode dar. E é lógico, na perspectiva das paixões, pois essa posse permitiria dar vazão a todos os ímpetos que ficam limitados pela sua dependência.

Os velhos, esquecidos da etapa anterior, tem agora o que desejaram quando jovens, mas não tem mais a juventude e ainda se esqueceram que foram jovens um dia! Todo o conflito, no final de contas, resulta do embate de interesses que por alguma razão se contrariam mutuamente. Os velhos quereriam ser jovens de novo e chegam a esperar a compreensão e obediência da juventude. Os jovens, arrastando ainda a casquinha do ovo, chegam a acreditar que são melhores do que todas as gerações que os precederam e que agora são oprimidos pelos anciãos da sociedade.

Esse processo é um movimento que tem ocorrido repetidamente na nossa história. Na realidade, tudo isso é resultado do jogo que as paixões produzem no âmago da natureza humana nas suas diversas etapas da vida. Esse ímpetos, quando abandonados às suas próprias forças, produzem o caos. Esse caos piora o mundo em vez de melhorá-lo. Eis a grande ilusão: essa gente, quando faz essas manifestações, está botando para fora o seu caos interior e gerando caos exterior. Estão piorando o mundo em vez de melhorá-lo. Eles tem toda razão quando escrevem "desculpem o transtorno, estamos mudando o mundo". Estão de fato mudando o mundo, para pior, introduzindo mais caos, gerando dor e sofrimento.

 O único movimento revolucionário que pode realmente mudar o mundo é a decisão pessoal de mudar antes a si mesmo. Esse movimento revolucionário acontece e as almas que tem a coragem de tomar essa iniciativa são bem aventuradas. Mas há tantos e tantas que passam a vida inteira acreditando que os seus problemas são causados pelo que vem de fora. Serão eternamente rebeldes e inconformados, pobres criaturas, incapazes de perceber que as únicas culpadas pela sua infelicidade são elas mesmas.    

Em poucas palavras, não há a menor diferença entre um intelectual que tenta desligitimizar esse movimento em rede nacional e sustenta ao mesmo tempo as revoluções de seu tempo de juventude, e um jovem que vai às ruas protestar disposto a espalhar a destruição. São igualmente motivados pelas suas paixões desordenadas. A única diferença é que tais paixões se manifestam de modo distinto em função da etapa da vida. No entanto, a revolução que realmente teria sido necessária, isto é, a reforma do homem interior, com a construção das virtudes que educam as paixões desordenadas e eleva o homem para além da esfera dos seus interesses primitivos, nunca foi realmente empreendida nessas almas.