sábado, 23 de junho de 2012

Crônica sobre um casamento em Sofia, Bulgária, junho de 2012

Em um sábado cheguei em Sofia, capital da Bulgária. O tempo que dediquei aprendendo o alfabeto cirílico valeu a pena. É verdade que ainda não consigo ler com fluência, mas se não soubesse as regras para decodificá-lo ficaria boiando o tempo todo e uma sensação de estar em outro planeta poderia atingir fatalmente meu estado de ânimo. Além disso, ganhei algo a mais ao compreender que os alfabetos na verdade foram originalmente planejados para adequadequar-se a uma língua, cada letra correspondendo exatamente ao som dos fonemas. De fato, o alfabeto latino é únivoco para o latim, e o grego para o grego, mas para tantas outras línguas, como a nossa, uma mesma sílaba pode ter diversos sons diferentes (e.g. lixo e prolixo). Esse tipo de ambiguidade muito dificilmente  acontece com essas línguas eslávicas para as quais o alfabeto cirílico foi "projetado".

De qualquer modo, muitos outros aspectos dessa cidade me fizeram ter a impressão de estar em um outro mundo. E suspeito que isso tem muito a ver com o fato de essa cidade ter pertencido a um outro universo no passado recente: o universo do mundo socialista. Mas, além de fazer algum comentários a respeito disso, não poderia deixar de expressar nesse texto minhas impressões sobre um acontecimento da vida pública e privada que testemunhei com meus próprios olhos: um casamento em uma Igreja Católica Romana. Deixarei para o leitor o trabalho de estabelecer a relação desse fato com as realidades do mundo socialista.

Assim que me instalei no hotel em Sofia, por volta das quatro horas da tarde, procurei me informar sobre a Igreja Católica de Sofia. Já sabia que havia uma lá, na região central da cidade. Na verdade, a Igreja cristã ortodoxa é maioria no país, mas há uma pequena porcentagem de católicos. Pedi ajuda à atendente do hotel e ela foi muitíssimo solícita; mesmo não sabendo onde ficava, fez uma rápida pesquisa na Internet, encontrou o endereço e me explicou como fazer para chegar lá de bonde. Parênteses: o bonde faz em Sofia o mesmo papel que o Metro faz em São Paulo, mas não imaginem que Sofia tem a mesma demanda e dinamismo que São Paulo; muito, mais muito longe mesmo está disso.      

A viagem de bonde me fez percorrer aquele cenário de pequenos prédios cinzentos, muito parecidos, modestamente dotados de beleza arquitetônica, quase todos pixados ou repletos de ilustrações proveniente da "arte" dos graviteiros. Quase todos com roupas estendidadas na varanda, mas sem o mesmo colorido e alegria de Lisboa. Alguns rapazes treinando boxe em praça pública, sem camiseta - parece ser esse um esporte muito popular no país. O calor intenso e húmido do verão lembra muito Porto Alegre na mesma época do ano. As lojinhas, mercearias, bares e restaurantes no térreo dos prédios ora dão um aspecto atrativo, ora lembram mais o comércio brega dos centros das cidades do Brasil, mas sem chegar, nem de perto, àquele nível, quase insuperável, de mau gosto. Uma ou outra construção moderna, shopping ou prédio comercial, aparece de repente, destoando do conjunto e sem oferecer nem mesmo uma beleza própria para compensar. E, de repente, uma grande construção chapada, cinzenta, larga, toda pixada com um monumento ao lado da sua imensa porta retratando uma mãe robusta e peituda com vários filhos a ela agarrados... Lembrança dos tempos "áureos" de socialismo!

Ao descer na penúltima estação (Jenski Pazar - "Mercado da mulher"), fui pedir informação a um casal de jovens que encontrei na rua. Estava seguindo a dica dada por um jovem com quem falei em inglês no bonde de que boa parte dos jovens de lá sabiam falar inglês. Disto tenho quase certeza: não deve ser muito difícil, em qualquer lugar do mundo em que se esteja, discernir dentre a multidão os jovens bem educados que provavelmente sabem falar inglês... Conseguimo-nos comunicar maravilhosamente e me explicou o melhor caminho para chegar onde queria. O rapaz era muito simpático, mas para minha decepção, e de sua namorada, perguntou-me se era verdade que as meninas do Brasil dormem de bruços para não ficar com a bunda chata. Fiz de conta que não entendi a piada, e respondi que nunca tinha ouvido tal explicação e com toda a fleuma atribui tal fenômeno à mistura afro-européia típica do Brasil. "I don't believe you have asked it", foi tudo o que disse a namorada... E tudo isso depois de dizer que estava procurando a Igreja para ir à Missa...

Muito bem, logo encontrei a Igreja, sem antes ficar bastante atordoado com o som dos sinos das seis horas, que, refletindo nas paredes dos prédios, parecia vir de todos os lados. Fenômeno físico muito interessante, 100% análogo ao fenômeno do homem que pretende confundir o seu perseguidor refletindo sua imagem em uma sala com muitos espelhos (cena típica de muitos e muitos filmes, não é verdade?). 

Aviso: nesse parágrafo, não serei irônico ou algo pior do que isso. Quando cheguei à Igreja, 17h00, um casamento tinha acabado de terminar. Era uma cena bonita, com pessoas elegantes, mas não muitas. Em um momento jogaram pétalas de flor sobre os cônjuges. Noutro reuniram-se todos para tirar uma grande foto.

Dessa vez o jovem casal que encontrei não sabia falar inglês (nota: o não, "ne", em búlgaro, é respondido com um movimento vertical da cabeça. E o sim, "da", advinhem só com que movimento é respondido...). Mas havia um placa com a tabela de horários em inglês. Para minha alegria, haveria uma Missa às 18h00! Então fiquei esperando e logo descobri que durante aquela Missa seria celebrado um outro casamento (um outro casal que sabia falar inglês me informou). Os noivos estavam do lado de fora. Um senhor americano a quem dessa vez ajudei a encontrar a informação sobre os horários da Missa não pode deixar de observar que a noiva estava bonita. E era verdade; embora a noiva não tivesse uma beleza acima do normal para um mulher, mesmo sendo alta, havia algo nela como noiva realmente belo. Pareceu-me uma noiva realmente autêntica. Seu vestido era simples, mas perfeito. Não havia uma multidão, mas aquelas pessoas que ali estavam realmente impressionavam pela elegância. Os noivos - e nós também - tiveram a sorte de contar com um excelente organista e um excelente cantor durante toda a celebração litúrgica. O jovem frei franciscano que celebrou a Missa - de casula - o fez com rigor e piedade, transmitindo paz e alegria. Cantos em latim e comunhão na boca ("Deo Gratias")! Uma senhora quis "pegar" a hóstia com a mão e foi impedida ("please wake me my Lord, I said, it must be a dream!"). Depois, ao fim da Missa, vi o confessionário sendo utilizado ("that is definitely a dream, not real world!").

A maior parte das pessoas que foram para o casamento não estavam entendendo nada do que estava acontecendo, apenas alguns poucos lá no fundo a estavam acompahando e provavelmente desses a maior parte tinha ido lá só para a Missa, como eu. Esse mesmo tipo de fenômeno é agora observado em todos os casamentos no Brasil. A diferença é que no Brasil, teoricamente, somos uma maioria de católicos. E, podemos ter certeza; transformar a Missa em um "show da Xuxa" só agrava a situação. Quem é ignorante fica mais ignorante, pois nem mesmo lhe é dada a chance de testemunhar a beleza da liturgia, e o fiel, que teve a sorte de conhecer essa beleza, acaba ficando muito frustrado. Pior para todos.

Não pude deixar de observar que as moças usavam uns penteados sofisticados muito bonitos e estavam muito elegantes, sem apelar para a sensualidade. Ao contrário do Brasil, parece que a maioria na Bulgária tem o mínimo de 'semancol' para escolher um vestido apropriado para um casamento, sem que isso diminua em nada a sua elegância (na verdade, a maiorira no Brasil tem esse "semancol", mas há umas poucas que acabam fazendo a má fama de todas). E, para ser bem sincero, elas ficam bem mais elegantes do que as que não tem "semancol". Outra coisa que não me passou despercebida foi a riqueza das fragrâncias dos perfurmes. Nunca senti algo igual antes; perfumes muito agradáveis, que não despertam a sensualidade, não são enjoativos e no entanto não se parecem com os perfurmes "para senhoras mais velhas". Como disse, nunca senti nem mesmo algo semelhante antes.        

Enfim, saí daquele pedaço de sonho, para voltar à realidade do mundo cão. E não deixei de observar alguns cães na rua, alguns grandes, que me fizeram lembrar daquelas numerosas matilhas uspianas de cachorro. Então passou pela minha cabeça que, se me perguntassem como é Sofia, por analogia, responderia: "conheces as residências universitárias das Universidades Públicas do Brasil, como o CRUSP (USP) ou a residência da Unicamp? Imagine que elas fossem uma cidade inteira; o resultado seria então uma cidade de um país socialista. Acrescenta aí algumas belas construções anteriores ao mundo socialista (Igrejas, óperas, palácios) e algum lixo descartável do mundo capitalista atual (shoppings) e você terá uma cidade como Sofia."

Por isso, me pergunto: qual é a verdadeira fonte para uma cultura capaz de desenvolver toda a potencialidade de cada ser humano? Não tenho dúvida que boa parte dos homens que construíram aquelas residências no mundo comunista o fizeram com idealismo, desejosos de ver todos desfrutando de uma moradia de qualidade. Mas o melhor que conseguiram fazer, e não por sua culpa, foi um "huge" CRUSP. Por quê?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

"Why I am a Christian" de Henry Margenau

Esse texto, Henry Margenau, um físico que participou dos avanços da física no começo do século XX, entitulado "Why I am a Christian", contem muitos fatos interessantes. Não o divulgo por proselitismo, mas pelo interesse histórico. Até os 22 anos ele não entendia nada de física; apenas de latim. Não é por nada que Gleb Wataghin lamentou o fim do latim nas escolas. Entre muitos fatos interessantes que divulga, está o testemunho de Heisenberg, que deliberadamente impediu o desenvolvimento da bomba atômica na Alemanha. E podem ter certeza, os alemães naquela época eram melhores em física do que os americanos; eles teriam conseguido se os melhores físicos quisessem.
Vale à pena ler esse texto.
http://www.leaderu.com/truth/1truth16.html

domingo, 29 de abril de 2012

O Caminho da Física. Parte I


Costuma-se dizer que a física é uma ciência fundamentada sobre o princípio da indução. Em poucas palavras, isso significa que todas as suas conclusões universalmente válidas são formuladas depois de um número finito de experimentos que sempre conduzem aos mesmos resultados. Desse modo, afirmações universalmente válidas, como por exemplo, "não havendo obstáculos, todo objeto abandonado por um observador na terra executa uma trajetória de queda", ou, "sempre que uma corrente elétrica flui por um fio condutor, um campo magnético pode ser medido nas imediações do fio", são verdadeiras porque sempre que se realizou o experimento, o mesmo efeito se observou. Essas afirmações não garantem que os efeitos enunciados se cumprirão necessariamente em um próximo experimento, pois a conclusão indutiva sempre se baseia em um número finito de experimentos anteriores.

No entanto, alguém poderia imaginar que a física deveria também ter exemplos de conclusões fundamentadas no princípio da dedução. Einstein criou uma teoria postulando que a velocidade da luz é constante e que as leis da física são as mesmas qualquer que seja o referencial inercial no qual um observador realize um experimento. A partir desses postulados, chega-se à conclusão de que o espaço e o tempo são necessariamente relativos.

Antes de Einstein ter chegado à essa conclusão, nunca nenhum observador tinha percebido que o tempo e o espaço dependem do referencial. Além disso, Einstein alegou que tinha desconhecimento dos experimentos de sua época que não identificaram diferenças na velocidade da luz ao ser medida em diferentes referenciais. Apesar disso, depois da sua formulação, nunca foi obtido nenhum resultado experimental inconsistente com as conclusões da teoria da relatividade restrita.

Isso significa então que a física quebrou o paradigma do processo indutivo como método único para chegar às suas conclusões? Sim, mas é necessário entender que foram necessárias muitas conclusões fundamentadas em processos indutivos para que tenha chegado a essa possibilidade. Isso porque a teoria de Einstein pressupõe a existência de leis físicas, postuladas invariantes pela sua teoria. Em particular, a teoria de Einstein se refere às leis expressas pelas equações de Maxwell. Essas equações se estabeleceram na física como a ferramenta que descreve de maneira mais simples e completa as observações experimentais envolvendo campos elétricos e magnéticos, correntes elétricas e carga elétrica. Foram obtidas a partir de um processo indutivo, isto é, sua única justificativa é experimental, não havendo nenhuma dedução partindo de algum enunciado mais geral a partir da qual elas tenham sido deduzidas.          

Já se sabia antes de Einstein que as equações de Maxwell só poderiam ser invariantes com relação ao referencial se o espaço e o tempo fossem relativos. Einstein postulou sem provar a invariância das leis da física e aceitou a relatividade do espaço e do tempo que decorrem como conclusão lógica de seus postulados. Se não havia nenhuma evidência experimental a respeito da relatividade do espaço e do tempo, o que deu segurança para Einstein estabelecer aqueles postulados?

Einstein fez uma escolha -- que talvez alguns possam considerar arbitrária e subjetiva -- fundamentada em uma expectativa de que a natureza deve ser de um modo e não de outro. E essa expectativa é a de que deve existir uma lógica ou ordem intrínseca à propria natureza. Se as leis variassem de acordo com o referencial, então simplesmente deixariam de ser leis universais. Não haveria apenas uma lei, mas muitas leis, uma para cada referencial. Em outras palavras, Einstein preferiu preservar a existência das leis universais à imutabilidade do espaço e do tempo. E, ao que tudo indica, nenhum experimento foi capaz de contestar as conclusões decorrentes da sua escolha.

Infelizmente, até hoje muitos utilizam a teoria de Einstein para justificar o enunciado "tudo é relativo" em contextos estranhos à física. Em primeiro lugar, a teoria da relatividade não postula e nem chega à conclusão de que "tudo é relativo". Pelo contrário, postula que a velocidade da luz e as leis da física são absolutas e não relativas e que portanto nem tudo é relativo. Sem querer entrar no mérito da questão relativa à aplicação do enunciado "tudo é relativo" em outros contextos, como a ética, pode-se dizer com toda a certeza que utilizar a teoria da relatividade para justificar esse enunciado nesse contexto é uma falácia grosseira.

domingo, 1 de abril de 2012

O argumento moral a favor da existência de Deus de William Lane Craig

Alguém já ouviu falar em William Lane Craig? É um filósofo que ficou conhecido do grande público pelo excelente desempenho como apologista da fé em debates com ateus e agnósticos. Costuma deixar os seus adversários sem respostas para os seus argumentos. Christopher Hitchens amargou uma desastrosa derrota em debate com ele promovido pela Biola University em 4 de abril de 2009. Dawkins se recusa a debater com ele, alegando que "o que poderia ser excelente para o seu CV, talvez não seja tão bom para o meu" (ref http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/oct/20/richard-dawkins-william-lane-craig). E ao contrário do que se costuma imaginar a respeito de apologistas, sabe expor seus argumentos de maneira clara e perfeitamente lógica, sem deixar transparecer nenhum sinal das paixões pessoais ou fazer uso de argumentos sentimentalistas e fideístas.

Sua estratégia é utilizar um enfoque filosófico-analítico para as questões em debate. Esse enfoque é muito simples e extremamente eficaz. Consiste em apresentar os argumentos a favor do seu ponto de vista expondo claramente todas as premissas de modo que a conclusão deriva delas como necessidade lógica. Então convida o oponente a rebater as suas conclusões através da invalidação das premissas. Dessa forma, a defesa fica concentrada nas premissas, pois se as premissas permanecerem intactas, então a conclusão permanece irrefutada.

Os argumentos que William Craig utiliza são bem conhecidos, pois estão todos completamente expostos em seu site http://www.reasonablefaith.org. Mesmo assim, ainda não vi nenhum oponente que tenha sido capaz de invalidar uma de suas premissas. Em vez disso, costumam expor os argumentos a favor do seu ponto de vista, geralmente sem a mesma clareza e objetividade. E, ainda assim, não vi nenhum caso em que William Craig tenha se saído mal na refutação dos argumentos contrários. Tampouco o vi perder a calma e a serenidade no decorrer do debate, o que não ocorreu nos casos de Hitchens e Stephen Law. A transcrição dos debates mostra claramente isso, pois nota-se claramente como os seus oponentes vão perdendo a capacidade de concatenar coerentemente as suas idéias.

Ao ver dois de seus debates, cuja questão em discussão era "Does God exist?" (Deus existe?), um com Stephen Law e outro com Christopher Hitchens, chamou-me a atenção um dos argumentos que ele apresentou para defender racionalmente a resposta afirmativa. É um argumento moral, que pode ser resumido no seguinte silogismo:

1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem.
2. O mal existe.
3. Portanto, valores morais objetivos existem.
4. Portanto, Deus existe.

Esse argumento é tão eficaz pois toca no senso moral que existe em nós e que precisa necessarimente ser abandonado para que as premissas possam ser refutadas. Então vamos lá, analisemos cada uma das premissas.

Primeira premissa: de fato, se Deus não existe, como podemos afirmar que valores morais objetivos existem? Com base em que critério pode-se afirmar a existência de valores morais objetivos? Muito bem, quando falamos em valores morais objetivos estamos dizendo que existem atos humanos objetivamente maus e atos humanos objetivamente bons. Mas como então determinar quais atos são bons e quais são maus se Deus não existe? Se estabeleço que o critério de objetividade sou eu, então tenho que explicar por que o meu critério é objetivo e o do outro que julga diferente não é. Esse argumento não se sustenta, pois seria necessário um terceiro juízo para discernir a objetividade entre opiniões opostas. Se esse terceiro juízo não é absoluto, então a objetividade desse juízo também poderia ser questionada. Também é possível estabelecer como critério o consenso social. Isso também é difícil de sustentar, pois é preciso provar que o consenso social sempre é objetivo. Outra possibilidade é estabelecer como critério a natureza biológica humana, isto é, aqueles atos que correspondem aos costumes naturais e instintivos do homem, assim como corresponde à natureza dos cachorros e lobos viverem em matilha e dos tigres viverem sozinhos. Mas primeiro é necessário identificar qual é essa natureza. Isso é impossível, pois uma das diferenças dos homens com relação aos animais é não ter todas as suas ações condicionadas pela sua natureza biológica. Há quem acredite nisso, mas então forçosamente terá que  negar o livre-arbítrio, pois todas as suas ações estariam condicionadas pela sua natureza biológica, e além disso explicar como atos contrapostos podem ter a mesma origem biológica.

Se alguém tem algum outro argumento para refutar a primeira premissa, ficaria muito contente de conhecê-lo. Vamos então para a segunda premissa. Negar essa premissa é o que há de mais comprometedor em todo o argumento. Dizer que o mal não existe impede que qualquer ateu utilize o tão frequente argumento de que havendo tanto mal no universo então é pouco plausível que Deus exista. Pois negando a existência do mal, então não pode dizer que há mal no universo. A grande "sacada" desse argumento é mostrar que o mal pesa mais a favor do que contra a existência de Deus. Mas negar que o mal existe é comprometedor por outros motivos. Por exemplo, o que autorizaria então um ateu afirmar que as ações dos nazistas foram más? O que autorizaria um ateu a afirmar que um crime hediondo - por favor, imaginem o crime que quiserem, não vou dar exemplos - é um mal?

Uma possível saída desse problema consiste em afirmar que aquelas ações são más na medida em que põe em risco a minha própria segurança, ainda que não sejam más em sentido objetivo. Especificando mais, podem dizer que se uma pessoa fere a outra, autoriza então que outras façam o mesmo com ela. Como não quer ser ferida, então é preferível não ferir a outra. Essa atitude é bem representada pela regra de ouro, que ensina "a agir com os outros do mesmo modo como gostaria que os outros agissem comigo". Mas para um ateu que nega a objetividade do mal, esse princípio está baseado apenas na necessidade pessoal de salvaguardar a própria segurança. Mas basta propor uma situação em que uma atitude má - matar, por exemplo - não colocaria em risco a própria segurança. Por exemplo, alguém poderia ser esperto o suficiente para construir uma sociedade em torno de si que lhe daria segurança e ao mesmo tempo lhe daria apoio para cometer qualquer crime que desejasse contra outras. Era por exemplo o que faziam muitas tribos nômades no passado. Viviam em grande número, muito bem armadas e soltas pelas terras ermas. Estavam seguras portanto. Ao mesmo tempo, sobreviviam do saque e da destruição das sociedades sedentárias. Para essas sociedades nômades era errado matar, estuprar e saquear? Não. Se essa tribo nômade encontrasse um grupo de pessoas indefesas trabalhando no campo, o princípio da garantia da segurança própria poderia ter algum efeito sobre a decisão desses nômades? Não, pois aniquilar essas pessoas não diminui a sua segurança. Diria até que aumenta sua segurança, pois quanto mais fracos e amedrontados estiverem os povos sedentários, maior será a sua dificuldade para fazer frente às suas invasões.

Agora, sendo você ateu, imagine-se na posição de líder desses nômades. Imagine também que em uma certa ocasião você e seu grupo encontram em lugar isolado uma única pessoa portando um diamante extremamente valioso disposta a defendê-lo até a morte, mesmo sabendo que será facilmente derrotada. Nessa situação, qualquer ateu coerente com os seus próprios princípios não encontraria outra solução a não ser matar o sujeito. Por que não o faria? Em primeiro lugar, realizando esse ato, não coloca em risco sua segurança. Se não o realiza, sabe que provavelmente outro de seu grupo o fará e talvez queira apenas para si o diamante. Isso poderia gerar disputas, colocando em risco a unidade do grupo e a sua autoridade. Do ponto de vista da segurança pessoal, o melhor nesse caso é unir todos para a conquista do diamante e depois dividir os bens do espólio de acordo com o código do grupo.

Esse exemplo é apenas ilustrativo. Poderia tratar-se também de um grupo de cavaleiros templários do tempo das cruzadas que se encontram na mesma situação. Quis apenas mostrar que há situações em que uma escolha objetivamente má é a melhor escolha do ponto de vista da segurança pessoal e dos próprios interesses. Agora, convido-o a responder a seguinte questão: quem tem a maior chance de respeitar a vida e propriedade daquele sujeito, um homem que não acredita na objetividade do valor de seus atos, ou um homem que acredita, e que além disso sabe que seus atos estão sujeitos ao julgamento e à condenação por parte de Deus?

Todo esse raciocínio tinha como objetivo mostrar como é extremamente comprometedor negar a objetividade dos valores morais. Há ainda outros argumentos muito fortes para mostrar isso. Por exemplo, com que autoridade alguém que nega a objetividade dos valores morais poderia condenar a atitude dos nazistas? Afinal de contas, eles não estavam agindo de acordo com os seus próprios valores? Como posso julgá-los e até condená-los à morte com base nos meus valores? Se o faço, o faço pois acredito que os meus valores são melhores do que os deles. Mas se eles não tinham os meus valores, qual é o fundamento da sua culpabilidade? Por outro lado, se admito a objetividade dos valores morais, então o seu julgamento é possível, pois existe uma base de valores objetivos que poderia ser reconhecido pelos nazistas e que torna culpável as suas atitudes, pois tinham a possibilidade de reconhecer a maldade de seus atos. Portanto, se não existe mal objetivo, tampouco existe culpabilidade e qualquer julgamento é inviável. Apenas na condição de existência do mal objetivo, um julgamento é viável.

Enfim, para concluir, digo que o que faz forte o argumento moral de William Lane Craig não é a sua irrefutabilidade, mas o mal estar profundo que qualquer refutação às suas premissas necessariamente provoca.

sábado, 10 de março de 2012

Crônica sobre uma cadela prenhe abandonada

Há algum tempo atrás em um lugar qualquer deste mundo testemunhei a compaixão despertada em algumas pessoas por uma cadela prenhe abandonada que apareceu naquele lugar. Ela estava magra e seus olhos se dirigiam aos seres humanos que se aproximavam implorando-lhes ajuda. Na verdade, e penso que isto não surpreenderá ninguém, essas pessoas que se sentiram particularmente sensibilizadas pela situação da cachorra eram do sexo feminino. Perguntei-me por que e parei para pensar um pouco sobre o assunto.

Na verdade, também senti-me condoído pela situação daquela cadela. Mas foi uma outra pessoa que me chamou a atenção para a existência daquele ser; se não fosse por isso, teria passado por ele como se fosse mais um cachorro vira-latas qualquer. De alguma forma, a situação daquele ser remete à tragédia da situação do ser humano no mundo. Quem tem sensibilidade, ao ver a situação de penúria daquela criatura, pensa consigo mesmo: "essa criatura precisa de ajuda, precisa de cuidados, pois caso contrário vai continuar sofrendo até perecer; devo agir para evitar o cumprimento desse destino trágico". De fato, a natureza não tem compaixão; é absolutamente inclemente com os fracos e doentes. O ser humano, por alguma força misteriosa, não se conforma com essa situação e é capaz de perceber que tem poder para mudar aquela primeira realidade, cuidando de quem é fraco e doente para que venha a ser forte e saudável. É capaz de ver e admirar a vida escondida naquilo que aparentemente é moribundo. Embora muitas vezes esquecido e desconhecido, um dos dons mais nobres e únicos do ser humano é a sua capacidade de cuidar e curar. 

Mas quando me refiro ao ser humano, não posso generalizar a existência dessa qualidade em mesmo grau em todas as pessoas em particular. A história está repleta de muitos exemplos de pessoas e sociedades que construíram ideologias e mitos para justificar o extermínio daqueles que por sua fragilidade necessitavam de cuidados. Muitas sociedades antigas sacrificavam as crianças nascidas com deficiência física e mental; os nazistas empregaram meios de extermínio em massa para eliminar os deficientes mentais e os idosos de idade muito avançada. São apenas alguns exemplos dentro de um universo infelizmente muito maior.

Mas não pensemos que essa realidade pertence apenas ao passado. Tudo isso continua acontecendo hoje e pode se agravar, pois ainda são poucos os que são capazes de perceber o que está ocorrendo em nossos dias e menos ainda os que se arriscam a denunciá-lo. Assim como foram poucas as que perceberam a situação daquela cadela e menos ainda, talvez ninguém, tenham tido coragem de adotá-la. Prefiro não dizer quais são os meios de extermínio em massa dos dias atuais; qualquer pessoa bem informada já tem todos os dados para chegar às mesmas conclusões.

Aquela cadela estava dotada por natureza de uma simplicidade irresistível, pois não teve "vergonha" da sua situação e todo o seu ser adotou uma postura do tipo "por favor cuida de mim!" que muitas vezes vemos nas crianças e nos enche de afeição e compaixão. Mas também me lembro de que em outro lugar do mundo em algum tempo perdido não muito distantes destes presenciei a mesma situação, não com uma cadela, mas com uma moradora de rua. O ser humano é muito diferente de um cachorro. Dizem que quando um cachorro abandonado é adotado permanece eternamente e incondicionalmente fiel e grato à família que o adotou. O ser humano não reage necessariamente assim. Ele pede e precisa de muito mais cuidado do que um cachorro. Ele dá muito, mas muito mais trabalho, pois exige demais. E, para a surpresa de muitas pessoas, não é verdade que tantas e tantas vezes o ser humano interpreta o acolhimento como uma humilhação e retribui a generosidade com uma violência brutal?  

Se certamente já foi difícil encontrar uma alma generosa para acolher aquela cadela, quanto mais difícil não será encontrar uma alma generosa para acolher um ser humano na mesma situação. A situação é tão mais exigente, que é necessário encontrar pessoas que estejam dispostas a dedicar sua vida a isso, sabendo ainda que estão se arriscando a receber socos como retribuição por um abraço. Essas pessoas existem, para grande perplexidade do mundo. E digo que essas pessoas existem porque foram despertadas pelos ensinamentos vitais produzidos pela voz doce da mãe mais bela, carinhosa e acolhedora que já existiu: a Igreja. Os fatos atuais e do passado atestam que isso é verdade; negá-lo é simplesmente dizer uma mentira. Antes da Igreja, isso não existia. Sem a Igreja, não existirá. O Estado a substituirá? O Estado não é capaz de amar nem de ser amado; não é capaz de curar nem de cuidar. Esse "Estado" é quando muito uma abstração inerte para suprimir a responsabilidade pessoal que não queremos assumir.

Nada pode causar mais remorso do que a consciência de ter ferido a própria mãe, a não ser que essa consciência já esteja irreversivelmente embrutecida. Creio que algum dia todos nós enxergaremos claramente a pureza da beleza e da bondade dessa mãe e para muitos o remorso será eternamente fatal.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Comentário sobre o artigo "O fio de cabelo de uma mulher" de Luiz Felipe Pondé

No artigo de Luiz Felipe Pondé "O fio de cabelo de uma mulher", publicado no caderno ilustrada da folha em 27/02/2012, é citada a seguinte frase de Nelson Rodrigues:


A prostituta é a primeira e a mais sublime vocação de toda mulher.  (extraído de sua coluna de 5 de maio de 1967 no "Correio da Manhã")

Nelson Rodrigues não escreveu apenas que a prostituta é uma vocação da mulher; escreveu também que é a primeira e a mais sublime vocação de toda mulher. Leitor, paraste para pensar nessa frase, buscando a sua correspondência com essa parcela da realidade que viveste? Sendo sincero consigo mesmo, a que conclusão chegas? Te sentiste incomodado? Por quê?

 Senti-me incomodado por que tive que admitir a verdade a respeito da nossa natureza humana ao confrontar a ideia com os fatos. Não conheço na pele a realidade de ser mulher, mas como homem posso afirmar que a promessa de uma vida repleta de prazeres realizados de fato em experiências sexuais com muitas mulheres sedutoras é extremamente atraente. E se além disso pudesse tirar daí a minha subsistência, melhor ainda!  

No mundo arcaico, em que o ser humano lutava desesperadamente pela subsistência com "o suor do seu rosto" (Gn 3, 19), o homem, pela sua condição física, estava em situação de vantagem com relação à mulher para extrair os frutos de uma terra indômita. A mulher, consciente da sedução que exerce sobre o homem, percebe que é capaz de utilizá-la para os seus fins. Algumas vezes esse fim é atrair um homem para ser um parceiro definitivo mas outras vezes é atrair muitos homens. Com um parceiro definitivo, a mulher encontra um apoio para a sua subsistência e dos filhos, ao mesmo tempo que pode oferecer um apoio afetivo e laboral ao homem. Nesse caso, a sedução é exercida em toda sua graça e intensidade apenas no momento do encontro com aquele que será o seu futuro marido. Mas, na verdade, esse prazer de seduzir não passa depois que o fim foi alcançado e o desejo de revivê-lo também acontece nessa fase em que a sedução já não se faz necessária.

Não seria melhor viver uma vida de exercício contínuo de sedução, muito mais prazerosa? Creio que no mundo antigo isso não era possível sem que a mulher exigisse do seduzido um pagamento, pelas razões já mencionadas. Por isso, surgiu a prostituição. No mundo novo, não é assim necessariamente, pois a mulher pode conseguir a sua subsistência sozinha, e ainda sobra muito tempo livre nos finais de semana para seduzir a quem bem entender. Não é prostituição; o nome que damos a isso é promiscuidade.

Portanto, a prostituição e a promiscuidade tem origens em comum, embora não sejam equivalentes (no pequeno artigo http://www.adhominem.com.br/2012/03/promiscuidade-e-equivalente.html Joel P. da Fonseca mostra a diferença, para além das diferenças de definições). Nesse sentido, é verdade que há em toda mulher uma prostituta ou uma promíscua em potencial. E o mesmo vale para o homem, digamos de passagem. Mas ainda me pergunto: por que essa é a primeira vocação e a mais sublime? Dizer que é a primeira vocação tem força ontológica. Equivale a dizer que é uma parte constitutiva da sua natureza. Dizer que é a mais sublime tem valor subjetivo. É um valor atribuído por alguém, isto é, por aquele que julga ser essa a vocação mais sublime. Nelson Rodrigues falava sério? Que conhecimento ele tinha da essência da mulher? Em que posição ele se encontrava para julgar categoricamente aquela a mais sublime das vocações? Na posição de Deus?

Depois de ter vivido uma vida repleta de resultados bem sucedidos produzidos pela sedução, ao crepúsculo da vida a capacidade de seduzir morre antes do corpo. Aquela "vocação" já não pode ser realizada. É o fim. Não resta a esse indivíduo mais do que aceitar a sua situação e esperar pacientemente a morte, consolando-se talvez na lembrança dos seus tempos áureos. Sabemos bem que ninguém reage desse modo; tenta desesperadamente prolongar os sinais da juventude. E quando a última pétala cai, e toda a flor já está murcha, fica o sabor amargo de uma vida totalmente abandonada. Por que ninguém mais a quer? Tínhamos a impressão de que aquela vida se doou a tantos, oferecendo-lhes prazer, "cheia de amor para dar"? Onde estão aquelas pessoas para agradecer o amor e o prazer recebido? Por que não voltam agora, para retribuir amor com amor? Por que não querem encontrar aquela "Marie, linda, cozinhando sua comida, de vestido solto e listrado, enchendo a sua vida de desejo, com os cabelos caindo nos ombros".

Albert Camus não parece ser muito fiel à realidade em sua obra "O Estrangeiro". Passa a ideia de que a mãe,  aquela que dá a vida e a primeira e verdadeira experiência do amor ao filho, é infeliz, pois acaba sofrendo a indiferença do próprio filho. A mulher sedutora, por outro lado, é feliz, "cheia de amor para dar", "enchendo a sua vida de desejo", verdadeiramente querida por Meursault. Apesar de que muitas vezes a mãe seja esquecida pelos filhos na sua velhice, e  de que algumas vezes não seja querida por eles, a experiência mostra no entanto que as Maries são as grandes esquecidas da história. São sempre esquecidas, sem exceção. Acabam sozinhas e sem ninguém que as ame. Ninguém. Diga-se de passagem que existe muito em comum entre a mãe e a Marie. Pois algum dia a mãe foi a Marie e a Marie poderá ser a mãe. Também é bom lembrar que nem todos os filhos são Meursault. E que Meursault tem uma consciência, além das paixões.

Não quero com isso menosprezar ou condenar a graça que uma mulher como Marie quer oferecer ao homem. Pelo contrário, reconheço nessa graça a experiência de prazer mais intensa que um homem pode experimentar. É utilizada nas Sagradas Escrituras em analogia à felicidade eterna. Mas então o que há de errado na vida da prostituta e da mulher promíscua? "És pó, e pó te hás de tornar" (Gn 3, 19). Não faz diferença, quando toda morte conduz a um fim definitivo. Essa é mesmo a resposta definitiva?

Um mortal não pode dizer a outro qual é a sua verdadeira vocação. É uma pretensão ridícula. As palavras são insuficientes para expressar experiências vitais. Elas não tem peso nenhum se não fazem referência a experiência vitais já experimentadas. "Sua religião não vale um fio de cabelo de uma mulher". Essas palavras são intensamente verdadeiras na perspectiva de Meursault. Ele prefere o encanto real, concreto e paupável de uma mulher à religião. Ele não encontra nenhum valor na religião, pois de imediato ela não é capaz de lhe oferecer nada comparável ao que experimentou com Marie. Mas Meursault fica na superfície dos fatos, pois deveria também se perguntar por que Marie?, por que esse prazer?, por que ela?, por que eu?.        

Quem poderá juntar as peças desse grande quebra-cabeças? E quem se sentirá à vontade para desistir de encontrar a imagem completa? Afinal de contas quanto  realmente vale o fio de cabelo de uma mulher? E quanto vale o fio de cabelo de um homem?