Na postagem Coração das Trevas conclui o texto propondo um paradoxo. Um paradoxo é sempre uma contradição aparente e em geral a solução dela não é trivial. Trata-se de um paradoxo existencial, que há bastante tempo me tem consumido horas de reflexão. Meu objetivo agora é mostrar aquela que é, por enquanto, a solução mais satisfatória que encontrei.
Formulei o paradoxo com as seguintes palavras:
Se, por um lado, a disputa é evitada, não há conquista, e o indivíduo se
frustra, pois não alcança o seu desejo, e ainda é visto como covarde
pelos outros. Se, por outro lado, entra na disputa, pode ferir e
destruir, deixando atrás de si um rastro de destruição, ou ser
aniquilado.
A primeira frase é verdadeira sempre que um indivíduo foge da disputa em todos as ocasiões. É alguém que sempre se deixa dominar pelo medo. Acaba passando a impressão de que não há nada pelo que vale à pena lutar e passa a ser visto pelos outros como um sujeito bonzinho, manso e inofensivo. E é bem verdade que esse indivíduo vai acabar frustrado, muitas vezes assumindo a fama de bonzinho, acreditando que nisso há alguma virtude.
A realidade mostra que toda luta é um empreendimento em que se coloca algo de si em risco. Mas nem toda luta precisa deixar um rastro de destruição. Observei que o homem aprendeu a humanizar a disputa. Gosto da definição de homem, cuja autoria é atribuída a Raimundo Lúlio, de acordo com a qual o homem é aquele que humaniza. E o modo como o homem humanizou a disputa foi através do espírito esportivo ou, simplesmente, do esporte.
Quando alguém diz que é necessário ter espírito esportivo, entende-se bem o que se quer dizer. Significa que não há mal algum em entrar na disputa para vencer, contanto que não se utilize da trapaça e de práticas desleais para garantir a vitória. Significa que não há mal em comemorar a vitória com emoção e alegria, contanto que não se humilhe o derrotado. Significa também que não há mal em sentir a angústia da derrota, contanto que isso não acabe por degenerar em desejo de vingança ou depressão.
Entenda-se que o espírito esportivo não se aplica apenas ao âmbito estritamente esportivo. Na realidade, o esporte é um espaço simbólico que serve como "sala de aula" para a aprendizagem e ensino de um comportamento que humaniza as disputas reais da vida. Não é um jargão vazio dizer que o esporte é um meio eficaz para "tirar a juventude" das drogas e da criminalidade. Também não é ingenuidade afirmar que os jogos olímpicos tem uma função fundamental de pacificação entre as nações.
As realidades humanas, como o esporte, estão sempre dotadas de uma densidade enorme, mas quase imperceptível, de significado antropológico. O que os mais intelectualizados (e chatos, talvez) dentre os homens tentam fazer é colocar em evidência esse significado. Mas entre os "intelectuais" há duas posturas. A primeira é a do racionalista, que se acredita capaz de esgotar em seu sistema lógico todo o significado das realidades humanas, trivializando-as. Esse acaba colocando-se acima dos outros "reles mortais" inconscientes das verdadeiras motivações por trás das suas ações. A segunda é a do verdadeiro filósofo, que se admira do ser humano, e percebe a riqueza inesgotável contida nas diversas manifestações de humanidade. Em vez de ver o outro - em especial os antepassados - com desprezo, entende que a sabedoria que o passado transmite é muito maior do que a sua.
sábado, 17 de novembro de 2012
Espírito Esportivo
domingo, 4 de novembro de 2012
A frustração do amor
Todo ser humano tem uma necessidade primordial do amor incondicional, esperando-o e buscando-o sem cessar. Sendo uma necessidade latente, ainda que mais intensa e abrangente que todas as outras, de alguma forma abarcando-as todas, impulsiona o homem a uma busca incessante capaz de suscitar todo o seu potencial de criação e destruição.
A primeira experiência de amor incondicional acontece na família, quando aqueles que se responsabilizam pela criança respondem positivamente ao dever de amá-la. A frustração do amor nesse momento da vida de um ser humano tem um efeito devastador na alma, conduzindo-a a uma amargura e revolta que convertem o seu potencial de criação em energia apta à destruição de si e do mundo a sua volta. De todas as faltas de responsabilidade dos pais, a mais ímpia e cruel é o aborto. Aquela criança, a quem os pais teriam a responsabilidade de prover a primeira experiência de amor, tem a vida tolhida por ser considerada indesejada. Um ser humano abortado sofre duas tristes experiências de desamor: ser indesejado e destruído.
Essa primeira experiência do amor incondicional é imperfeita, pois, à rigor, esse amor não pode ser incondicional. Há um limite para o amor que um ser humano pode oferecer ao outro. A criança percebe que participa de uma comunhão de amor na qual não só ela necessita de atenção, mas também todos de sua família. Nesse processo, entende que nem sempre terá sua carência satisfeita, ao mesmo tempo que, se bem educada, perceberá que ela pode dar amor a quem tem carência dele.
O término dessa primeira experiência é a abertura da alma para uma nova experiência de amor, ainda movida por aquela necessidade primordial. Tendo recebido a primeira experiência de ser querido por si mesmo, percebe o potencial que existe dentro de si para amar o outro e reconhece em si a dignidade de quem pode ser amado. Deseja a entrega de si, ao mesmo tempo que espera a entrega incondicional do outro, para que possa dar-se sem reservas. Essa segunda experiência se concretiza no matrimônio entre um homem e uma mulher.
Nesse processo, a possibilidade de frustrações é tão grande quanto a de conseqüências imprevisíveis e violentas. Todas elas se resumem em poucas palavras: a experiência de ter o amor rejeitado pelo outro. Dessa experiência não escapam nem mesmo aqueles que se casaram com o seu primeiro enamorado, pois, com o passar do tempo, revelam-se claramente as imperfeições da criatura amada, e a rejeição mútua põe à mostra a fragilidade daquele amor.
A frustração do amor acontece com todos os seres humanos e como consequência todos padecem de um sofrimento interior nas raízes mais profundas da alma. Uma das saídas para esse sofrimento é a revolta, que se concretiza nas mais diversas formas de auto-destruição. Todo pecado é um exemplo dessa forma de auto-destruição que tem como origem essa frustração. Mas há outra saída para o sofrimento. Não é uma saída que leva à sua supressão, mas a uma compreensão vital do seu sentido. A alma entende a sua imperfeição e sua carência e reconhece em Deus a única fonte que pode saciá-la.
A primeira experiência de amor incondicional acontece na família, quando aqueles que se responsabilizam pela criança respondem positivamente ao dever de amá-la. A frustração do amor nesse momento da vida de um ser humano tem um efeito devastador na alma, conduzindo-a a uma amargura e revolta que convertem o seu potencial de criação em energia apta à destruição de si e do mundo a sua volta. De todas as faltas de responsabilidade dos pais, a mais ímpia e cruel é o aborto. Aquela criança, a quem os pais teriam a responsabilidade de prover a primeira experiência de amor, tem a vida tolhida por ser considerada indesejada. Um ser humano abortado sofre duas tristes experiências de desamor: ser indesejado e destruído.
Essa primeira experiência do amor incondicional é imperfeita, pois, à rigor, esse amor não pode ser incondicional. Há um limite para o amor que um ser humano pode oferecer ao outro. A criança percebe que participa de uma comunhão de amor na qual não só ela necessita de atenção, mas também todos de sua família. Nesse processo, entende que nem sempre terá sua carência satisfeita, ao mesmo tempo que, se bem educada, perceberá que ela pode dar amor a quem tem carência dele.
O término dessa primeira experiência é a abertura da alma para uma nova experiência de amor, ainda movida por aquela necessidade primordial. Tendo recebido a primeira experiência de ser querido por si mesmo, percebe o potencial que existe dentro de si para amar o outro e reconhece em si a dignidade de quem pode ser amado. Deseja a entrega de si, ao mesmo tempo que espera a entrega incondicional do outro, para que possa dar-se sem reservas. Essa segunda experiência se concretiza no matrimônio entre um homem e uma mulher.
Nesse processo, a possibilidade de frustrações é tão grande quanto a de conseqüências imprevisíveis e violentas. Todas elas se resumem em poucas palavras: a experiência de ter o amor rejeitado pelo outro. Dessa experiência não escapam nem mesmo aqueles que se casaram com o seu primeiro enamorado, pois, com o passar do tempo, revelam-se claramente as imperfeições da criatura amada, e a rejeição mútua põe à mostra a fragilidade daquele amor.
A frustração do amor acontece com todos os seres humanos e como consequência todos padecem de um sofrimento interior nas raízes mais profundas da alma. Uma das saídas para esse sofrimento é a revolta, que se concretiza nas mais diversas formas de auto-destruição. Todo pecado é um exemplo dessa forma de auto-destruição que tem como origem essa frustração. Mas há outra saída para o sofrimento. Não é uma saída que leva à sua supressão, mas a uma compreensão vital do seu sentido. A alma entende a sua imperfeição e sua carência e reconhece em Deus a única fonte que pode saciá-la.
sábado, 27 de outubro de 2012
O Coração das Trevas
Na sua sede por domínio, o ser humano é capaz de destruir todo obstáculo que obstrua suas paixões, contanto que tenha força para isso. Na maior parte dos casos, esse obstáculo é uma outra pessoa. Não conseguindo uma solução de compromisso entre a vontade própria e alheia, a destruição do rival aparece como a única solução para a conquista.
E desse modo, na luta incessante contra os outros, o indivíduo vai conquistando território e formando o seu reinado, isso se não for aniquilado no processo. Mas o custo do seu reinado é um passado de ruínas. Há também um custo atual, que é o estado de permanente tensão em virtude da ameaça exterior ao território conquistado. E há também a certeza do envelhecimento e da morte, certa tanto para os que dominam quanto para os que são dominados.
O custo do passado em ruínas é muito mais alto do que parece, pois ele cobra esvaziando o significado do presente e corroendo o conteúdo ontológico da pessoa até reduzi-la irreversivelmente ao nada. Essa realidade emblemática da vida está magistralmente exempĺificada, de modo simbólico, na trajetória de Bastian em Fantasia, narrado em A História Sem Fim de Michael Ende.
Para passar essa idéia do plano abstrato para o concreto e ajudar a compreensão do seu conteúdo, não vejo outro modo de fazer que não seja por meio do exemplo. A trajetória de Bastian ilustra bem esse idéia, mas nem todos leram o livro e, além disso, o caráter alegórico da estória traz outras dificuldades. O exemplo que proponho é bem banal, o de um indivíduo que foi desleal com o seu melhor amigo, e perdeu-o, infiel à esposa, e divorciou-se, injusto com o seu irmão de sangue e negligente com os pais, e desvinculou-se da própria família. Foi desleal com o amigo, mas com isso conseguiu um posto alto na empresa; infiel à esposa, mas vinculou-se a uma mulher bem mais jovem; injusto com o irmão, mas adquiriu uma herança vantajosa; negligente com os pais, mas dispôs de mais tempo para cuidar de seus negócios.
No final da vida, ao olhar para trás, perceberá que deixou um rastro violento de destruição. Já não sabe mais quem realmente é, pois não há ninguém ao seu lado para recordá-lo. Aqueles que o conheceram e o amaram foram aniquilados.
Essa realidade existencial tem inúmeros exemplos na literatura e na história. A loucura de Nabucodonosor é um exemplo emblemático. As aparentes causas da loucura - o álcool, a sífilis etc - são sinais materiais da ruína existencial. Um outro exemplo brilhante da literatura é o desfecho da vida de Mr Kurtz na novela de Joseph Conrad O Coração das Trevas. Tendo se tornado rei em uma tribo no coração da selva do Congo, por meio do uso irrestrito da violência, Mr Kurtz adquire o poder que desejava para captar quantidades enormes de ébano e remetê-las para uma Companhia européia. A estória é narrada em primeira pessoa por Marlow, o aventureiro encarregado pela Companhia de encontrar o Mr Kurtz, sobre quem havia rumores de que estaria doente. A tarefa termina em êxito, mas Mr Kurtz é encontrado doente, louco, dominado por uma feiticeira tribal, habitando uma tenda cercada por estacas com cabeças humanas espetadas nas pontas. Mr Kurtz acaba convalescendo miseravelmente na presença de Marlow.
Joseph Conrad viveu na mesma época que Nietzsche e ambos captaram, de modo distinto, a pretensão de poder do colonizador europeu do século XIX. Mr Kurtz é o superhomem de Nietzsche. Mas a estória não acaba aí: Mr Kurtz tinha uma grande admiradora, uma mulher que realmente o amava, e que tinha ficado na Europa. O nosso aventureiro a encontra, quando volta para a Europa, e descobre que a mulher o via como o homem mais doce e puro sobre a face da terra. Não que o amor seja cego, pelo contrário, mas a trajetória devastadora a que a sede de poder o impulsionou reduziu-o ao nada e o conduziu ao coração das trevas.
Mas o desejo de reinar pulsa no coração humano. Se, por um lado, a disputa é evitada, não há conquista, e o indivíduo se frustra, pois não alcança o seu desejo, e ainda é visto como covarde pelos outros. Se, por outro lado, entra na disputa, pode ferir e destruir, deixando atrás de si um rastro de destruição, ou ser aniquilado. Eis um grande paradoxo da existência humana.
domingo, 21 de outubro de 2012
O desejo régio
Cada ser humano nasce com o desejo de reinar. Deseja no mais íntimo do seu ser desfrutar de um mundo totalmente submetido à sua vontade. Gostaria de ter sob sua posse única e exclusiva todos os recursos da terra. Não descansa enquanto não conseguir construir para si um castelo provido de todos os produtos de sua imaginação. Quer conservar sob total controle seu parceiro sexual e sua prole.
Se tantos obstáculos não se impusessem a esse impulso do coração humano, ninguém conheceria o sofrimento. O principal obstáculo é esse mesmo desejo presente nos outros. O outro é o maior obstáculo à vontade própria. Se o indivíduo deseja para si uma propriedade territorial, uma pessoa ou outro bem, terá sempre que competir com outros caso esse bem seja escasso. Não é preciso dizer que essa competição será tanto mais feroz quanto maior for a demanda e menor a oferta do bem desejado.
Na luta pelo bem desejado, tão grande é a sede imposta pela vontade, que pela sua conquista o indivíduo arrisca a própria vida e ameaça a do outro no combate.
Essa realidade está presente também entre muitas espécies animais. O leão, na procura por sua parceira, se encontra outro leão na posse de harém e prole, travará combate, e, se ganhar, ficará com o harém e matará a prole do antecessor.
Entre os seres humanos, acontece o mesmo. Mas, dotado de consciência e inteligência, é capaz de entender a própria condição. Essa capacidade lhe dá a possibilidade de adotar novas estratégias ou até mesmo de se recusar a entrar na disputa.
Mas ainda assim enfrenta um novo sofrimento: se recusar a disputa, não terá o prêmio, e se frustrará. Se, por outro lado, já tem para si um reino, ele estará sempre ameaçado pelos leões mais novos. Para proteger o seu reinado, terá de criar muitas camadas de muros, utilizando toda a sua força, sobretudo intelectual, para barrar o inimigo.
Mas a ordem do universo é de tal modo orientada que contra o tempo nenhum rei pode lutar. A inteligência degenera em loucura e a força em impotência. O coração jovem do outro, repleto de desejo, pisa sobre as cinzas do antigo rei, para se tornar um rei cujas cinzas um dia também serão pisadas.
E assim muitos entendem que o mesmo universo que engendrou a criatura é totalmente indiferente ao desejo que ela mesma inscreveu à ferro e fogo no seu coração. E a criatura inteligente angustia-se na percepção de que sua vida foi uma paixão inútil. Um mar sem fim de Absurdo esmaga e afoga toda e qualquer esperança.
Ecce homo.
Se tantos obstáculos não se impusessem a esse impulso do coração humano, ninguém conheceria o sofrimento. O principal obstáculo é esse mesmo desejo presente nos outros. O outro é o maior obstáculo à vontade própria. Se o indivíduo deseja para si uma propriedade territorial, uma pessoa ou outro bem, terá sempre que competir com outros caso esse bem seja escasso. Não é preciso dizer que essa competição será tanto mais feroz quanto maior for a demanda e menor a oferta do bem desejado.
Na luta pelo bem desejado, tão grande é a sede imposta pela vontade, que pela sua conquista o indivíduo arrisca a própria vida e ameaça a do outro no combate.
Essa realidade está presente também entre muitas espécies animais. O leão, na procura por sua parceira, se encontra outro leão na posse de harém e prole, travará combate, e, se ganhar, ficará com o harém e matará a prole do antecessor.
Entre os seres humanos, acontece o mesmo. Mas, dotado de consciência e inteligência, é capaz de entender a própria condição. Essa capacidade lhe dá a possibilidade de adotar novas estratégias ou até mesmo de se recusar a entrar na disputa.
Mas ainda assim enfrenta um novo sofrimento: se recusar a disputa, não terá o prêmio, e se frustrará. Se, por outro lado, já tem para si um reino, ele estará sempre ameaçado pelos leões mais novos. Para proteger o seu reinado, terá de criar muitas camadas de muros, utilizando toda a sua força, sobretudo intelectual, para barrar o inimigo.
Mas a ordem do universo é de tal modo orientada que contra o tempo nenhum rei pode lutar. A inteligência degenera em loucura e a força em impotência. O coração jovem do outro, repleto de desejo, pisa sobre as cinzas do antigo rei, para se tornar um rei cujas cinzas um dia também serão pisadas.
E assim muitos entendem que o mesmo universo que engendrou a criatura é totalmente indiferente ao desejo que ela mesma inscreveu à ferro e fogo no seu coração. E a criatura inteligente angustia-se na percepção de que sua vida foi uma paixão inútil. Um mar sem fim de Absurdo esmaga e afoga toda e qualquer esperança.
Ecce homo.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
O caminho da física. Parte 2: física e sociedade
Nos dias de hoje, tenho a impressão de que a imagem do físico no Brasil ainda está associada à do cientista maluco perdido em especulações estapafúrdias que o deixam totalmente e permanentemente desconectado da realidade que o cerca. Dessa visão estereotipada muitos concluem que esses cientistas fazem parte de uma classe de pessoas dedicadas a tarefas sem o menor impacto na sociedade e cuja existência é absolutamente dispensável. Na melhor das hipótese, a sua mais notável contribuição para história foi o desenvolvimento da famigerada bomba atômica.
Sim, sua existência é absolutamente dispensável para todo aquele que se dispusesse a voltar a viver no tempo em que todas as tecnologias baseadas na eletricidade e na mecânica industrial simplesmente não existiam. Nada de carro, roupas baratas, luz elétrica, televisão, computador, celular, eletrodomésticos etc. Alguns acham tudo isso um grande exagero e chegam a afirmar que esses avanços são apenas o resultado do esforço de homens empreendedores que no fundo do quintal de suas casas deram à luz todos esses produtos como em um passe de mágica. Outros atribuem tudo isso apenas às forças econômicas que impulsionaram inevitavelmente todo o desenvolvimento tecnológico. Por qualquer que seja a razão, todas essas explicações não querem atribuir importância para o único fator que teve papel decisivo: as ciências físicas, pois não existindo esse método de trabalho e investigação teria sido absolutamente impossível o desenvolvimento dessas tecnologias.
Há uma visão de mundo que tende a desprezar totalmente o papel dos indíviduos na formulação de novas tecnologias. Quem usa um computador ou um celular, ou o seu idolatrado iPhone, dificilmente parou para pensar que tudo isso seria impossível se não fosse resultado de anos de trabalho e pesquisa de muitos físicos, químicos e engenheiros. Há uma densidade tão grande de conhecimento e trabalho acumulado dentro de uma placa mãe de um computador que nem mesmo a cabeça do tecnólogo com a mais vasta formação científica é capaz de abarcar. É lógico que esse trabalho precisou e sempre precisará do suporte financeiro. Mas o investimento por si só não é garantia de nada. Os verdadeiros agentes das grandes revoluções científicas e tecnológicas são os cientistas e não os empreendedores que investiram o seu dinheiro nisso.
A quantidade de tecnologias hoje consideradas indispensáveis no dia-a-dia que saíram diretamente dos laboratórios desses físicos "malucos" é tão grande que espanta que a sociedade brasileira seja incapaz de entender a importância desse profissional. Nossa sociedade tem demorado muito tempo para se dar conta da sua relevância para a economia. Em parte, isso se deve a incapacidade do ensino de física no nosso país de mostrar aos alunos o impacto da física na sociedade através de exemplos das tecnologias presentes no dia-a-dia.
A regulamentação da profissão do físico, cuja aprovação legal já está em fase avançada, é um passo que poderá ajudar a criar um ambiente favorável para esse profissional na economia do nosso país. No entanto, é sempre bom lembrar que a lei não pode por si só criar uma cultura de prestígio ao físico nos mais diversos ramos do mercado de trabalho. Esse prestígio deve ser conquistado pelos próprios físicos, ao mostrar que seu trabalho pode fazer muita diferença. Esse reconhecimento tem sido conquistado pelos físicos em muitos ramos da atividade profissional, mas ainda falta muito para que sua importância seja amplamente reconhecida aqui no Brasil.
A dimensão do impacto que esse profissional teve nas grandes mudanças tecnológicas no último século pode ser aferida pelo trabalho dos laureados pelo prêmio Nobel. Logo na sua primeira versão, em 1901, o alemão Wilhelm Conrad Röntgen recebeu o prêmio pela descoberta dos raios X . Quem nunca passou por uma radiografia? Em 1956, os americanos John Bardeeen, Walter Houser Bratain, Willian Bradford Shokley receberam o premio pela descoberta do transistor e suas propriedades. Ninguem sabe o que é um transistor, é bem verdade, talvez por ser intrinsecamente complicados. Mas eles são utilizados em todos os dispositivos eletrônicos modernos, do computador, passando pela máquina de lavar, ao radinho de pilha. Em 2009, a dupla de americanos Willar Boyle e George Smith compartilharam o prêmio pela invenção do sensor CCD (charge-coupled device), utilizado nas câmeras digitais modernas. No mesmo ano, Charles K. Kao, nascido em Hong Kong, recebeu o prêmio pelas suas investigações que levaram ao desenvolvimento da fibra óptica. E isso tudo é apenas uma minúscula amostra das invenções tecnológicas de grande impacto que aconteceram graças ao trabalho experimental do físico.
Digo tudo isso pois já está na hora de a sociedade reconhecer uma importante vocação de muitos físicos: enfrentar os grandes problemas tecnológicos de grande relevância para o destino da sociedade. Para isso, não é necessário destruir aquela imagem pitoresca do físico maluco e genial, unicamente envolvido em suas especulações esotéricas. Mas é desejável sim tornar presente nas mentes do grande público uma imagem que corresponda a um profissional profundamente envolvido nos problemas tecnológicos reais, palpáveis, cujos desdobramentos podem ter um impacto brutal no dia-a-dia de todos nós.
Sim, sua existência é absolutamente dispensável para todo aquele que se dispusesse a voltar a viver no tempo em que todas as tecnologias baseadas na eletricidade e na mecânica industrial simplesmente não existiam. Nada de carro, roupas baratas, luz elétrica, televisão, computador, celular, eletrodomésticos etc. Alguns acham tudo isso um grande exagero e chegam a afirmar que esses avanços são apenas o resultado do esforço de homens empreendedores que no fundo do quintal de suas casas deram à luz todos esses produtos como em um passe de mágica. Outros atribuem tudo isso apenas às forças econômicas que impulsionaram inevitavelmente todo o desenvolvimento tecnológico. Por qualquer que seja a razão, todas essas explicações não querem atribuir importância para o único fator que teve papel decisivo: as ciências físicas, pois não existindo esse método de trabalho e investigação teria sido absolutamente impossível o desenvolvimento dessas tecnologias.
Há uma visão de mundo que tende a desprezar totalmente o papel dos indíviduos na formulação de novas tecnologias. Quem usa um computador ou um celular, ou o seu idolatrado iPhone, dificilmente parou para pensar que tudo isso seria impossível se não fosse resultado de anos de trabalho e pesquisa de muitos físicos, químicos e engenheiros. Há uma densidade tão grande de conhecimento e trabalho acumulado dentro de uma placa mãe de um computador que nem mesmo a cabeça do tecnólogo com a mais vasta formação científica é capaz de abarcar. É lógico que esse trabalho precisou e sempre precisará do suporte financeiro. Mas o investimento por si só não é garantia de nada. Os verdadeiros agentes das grandes revoluções científicas e tecnológicas são os cientistas e não os empreendedores que investiram o seu dinheiro nisso.
A quantidade de tecnologias hoje consideradas indispensáveis no dia-a-dia que saíram diretamente dos laboratórios desses físicos "malucos" é tão grande que espanta que a sociedade brasileira seja incapaz de entender a importância desse profissional. Nossa sociedade tem demorado muito tempo para se dar conta da sua relevância para a economia. Em parte, isso se deve a incapacidade do ensino de física no nosso país de mostrar aos alunos o impacto da física na sociedade através de exemplos das tecnologias presentes no dia-a-dia.
A regulamentação da profissão do físico, cuja aprovação legal já está em fase avançada, é um passo que poderá ajudar a criar um ambiente favorável para esse profissional na economia do nosso país. No entanto, é sempre bom lembrar que a lei não pode por si só criar uma cultura de prestígio ao físico nos mais diversos ramos do mercado de trabalho. Esse prestígio deve ser conquistado pelos próprios físicos, ao mostrar que seu trabalho pode fazer muita diferença. Esse reconhecimento tem sido conquistado pelos físicos em muitos ramos da atividade profissional, mas ainda falta muito para que sua importância seja amplamente reconhecida aqui no Brasil.
A dimensão do impacto que esse profissional teve nas grandes mudanças tecnológicas no último século pode ser aferida pelo trabalho dos laureados pelo prêmio Nobel. Logo na sua primeira versão, em 1901, o alemão Wilhelm Conrad Röntgen recebeu o prêmio pela descoberta dos raios X . Quem nunca passou por uma radiografia? Em 1956, os americanos John Bardeeen, Walter Houser Bratain, Willian Bradford Shokley receberam o premio pela descoberta do transistor e suas propriedades. Ninguem sabe o que é um transistor, é bem verdade, talvez por ser intrinsecamente complicados. Mas eles são utilizados em todos os dispositivos eletrônicos modernos, do computador, passando pela máquina de lavar, ao radinho de pilha. Em 2009, a dupla de americanos Willar Boyle e George Smith compartilharam o prêmio pela invenção do sensor CCD (charge-coupled device), utilizado nas câmeras digitais modernas. No mesmo ano, Charles K. Kao, nascido em Hong Kong, recebeu o prêmio pelas suas investigações que levaram ao desenvolvimento da fibra óptica. E isso tudo é apenas uma minúscula amostra das invenções tecnológicas de grande impacto que aconteceram graças ao trabalho experimental do físico.
Digo tudo isso pois já está na hora de a sociedade reconhecer uma importante vocação de muitos físicos: enfrentar os grandes problemas tecnológicos de grande relevância para o destino da sociedade. Para isso, não é necessário destruir aquela imagem pitoresca do físico maluco e genial, unicamente envolvido em suas especulações esotéricas. Mas é desejável sim tornar presente nas mentes do grande público uma imagem que corresponda a um profissional profundamente envolvido nos problemas tecnológicos reais, palpáveis, cujos desdobramentos podem ter um impacto brutal no dia-a-dia de todos nós.
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domingo, 26 de agosto de 2012
A restauração desastrada do Ecce Homo
A notícia da restauração desastrada da pintura Ecce Homo de Elias Garcia Martinez no Santuário da Misericórdia, na Espanha tem motivos fortes para ter alcançado tão grande repercussão. Não demorou muito para que percebesse nesse acontecimento uma analogia com a falsificação da imagem do verdadeiro Cristo. Essa falsificação tem acontecido ao longo da história até os dias de hoje e tem se concretizado de inúmeras e diversas formas.
A verdadeira pintura, Ecce Homo, era realmente bonita e piedosa. Retratava a face de Cristo com traços bem definidos e harmônicos. O semblante de Jesus expressava o seu sofrimento, mas também revelava a sua bondade e mansidão. Mas a obra já se encontrava bastante deteriorada. Tudo isso que descrevi ainda podia ser contemplado apesar de o tempo ter destruído uma parcela significa da pintura.
Motivada por um zelo sincero e bem intencionado, uma senhora resolveu tomar para si a tarefa de restaurar a imagem de Cristo. E o resultado não poderia ter sido mais desastroso.
Já é possível perceber a analogia a que me refiro? Nos dias de hoje e ao longo da história, a imagem de Cristo nos é apresentada com algumas lacunas. Essas lacunas não são devidas à existência de imperfeições em Cristo, mas à existência de imperfeições nos homens que se empenharam em anunciá-Lo. De qualquer modo, apesar das imperfeições, essa imagem de Cristo é autêntica, está lá, pode ser contemplada e amada. A missão de anunciar Cristo é a missão da Igreja. Apesar das limitações dos homens, a Igreja tem sido desde sempre o lugar de encontro com o verdadeiro Cristo. A Igreja sempre anunciou o Jesus verdadeiro (Ecce Homo), ainda que hoje em dia, à semelhança do Ecce Homo anterior à malograda restauração, essa imagem do verdadeiro Cristo apresenta os sinais da deterioração do tempo. Deterioração da imagem, mas não de Cristo.
Muitas vezes nós, tantos os que nos dizemos em comunhão com a Igreja quanto os afastados dela, deliramos na fantasia de que somos capazes de restaurar a imagem de Cristo. E esse delírio consiste em restaurar a imagem de Cristo carregando-a com os nossos ideais pessoais de perfeição. E o resultado final é um desenho de Jesus segundo a nossa medida, à nossa imagem e semelhança. E o resultado não poderia ser mais desastroso. Muito mais bizarra do que o "novo" Ecce Homo.
É isso que tem feito as pessoas desenharem Cristo com os mais estranhos e estapafúrdios perfis. Alguns ainda hoje vêem Cristo como um homem desprovido de sentimentos humanos normais, como se através de sua vida tivesse ensinado uma ascese de total negação da dimensão material em favor da dimensão espiritual. Em suas diversas variantes, é essa visão que levou muitos cristãos a evitar o sorriso, supondo que Jesus nunca sorriu pelo simples fato de que os Evangelhos nunca o menciona explicitamente. Também levou alguns a evitar todo tipo de manifestação afetiva do corpo, incapazes de ver senão sensualidade imoral nelas. Outros, se recusaram a aceitar a dimensão humana, corporal, de Cristo. Ainda outros negaram a santidade do matrimônio, incapazes de reconhecer a relação sexual entre um homem e uma mulher como uma realidade querida por Deus. E a partir desses e outros traços, a imagem que fizeram de Cristo resultou em uma pintura bastante deformada. Esse tipo de falsificação tem se manifestado claramente nas diversas doutrinas gnósticas que tem emergido ao longo do tempo, como a dos cátaros na idade média. E, de algum modo, em grande parte pela fraqueza humana, se insinua insistentemente e de forma sorrateira entre os cristãos nos dias de hoje.
Outra forma de deformação, comum nos dias de hoje, é a associação clara e quase direta de Jesus Cristo a uma ideologia política. Há alguns que pretendem apresentar a imagem de um Jesus engajado politicamente, tal qual um militante de esquerda ou um libertário. Outros, no outro extremo, querem nos fazer crer em uma imagem de Jesus que o reduz a um mero defensor dos "valores e bons costumes". E muitas vezes esses dois partidos entram em conflito entre si, colocando a imagem de Jesus no meio da briga, acreditando que o vencedor será o time que demonstrar que a imagem do autêntico Cristo se assemelha mais à própria imagem. Não parecem estar muito preocupados em seguir o exemplo de Cristo, mas em demonstrar que era Jesus quem seguia o exemplo de vida deles.
Como encontrar o verdadeiro Cristo, então? Se mostrasse a minha própria visão, provavelmente criaria a mais deformada imagem de todas. Para encontrar a Cristo, não há outra forma senão conhecer o testemunho que deixaram aqueles que conviveram com Ele e com os apóstolos. Esse testemunho está relatado nos Evangelhos.
Ainda que tal tarefa seja realmente muito difícil, uma imagem autêntica de Cristo só poderá se formar em nós se aceitarmos o relato despido dos nossos preconceitos. E isso é muito difícil, pois Cristo realmente pode ir contra a nossa visão de mundo. O olhar preconceituoso tende a filtrar tudo aquilo que se opõe às suas convicções e hábitos arraigados. O Cristo que abraça as crianças e se permite ter os pés lavados com as lágrimas de uma pecadora arrependida é simplesmente apagado do quadro dos rigoristas. O Cristo que reprova até mesmo os pensamentos maliciosos e perversos de adultério e impureza e que reafirma a indissolubilidade do matrimônio nunca existiu para o libertário. O Cristo que afirma que muitos se farão celibatários por amor ao reino dos céus é solenemente ignorado pelos que pretendem negar a autenticidade das vocações religiosas. O Cristo que ensina que não se pode servir às riquezas e a Deus simultaneamente nunca existiu para toda essa gente que faz uso seletivo e ideológico das Suas palavras para conservar e aumentar a sua riqueza. Poderia encher essa lista com muitíssimos outros exemplos, mas acho que já não é mais necessário.
Para entrar no reino dos céus é necessário se fazer tão simples como uma criança. Sim, de fato a criança é simples, pois seu olhar não está tão carregado de preconceitos e maus hábitos adquiridos. Por isso, é capaz de ver a realidade com olhos limpos e transparentes, através dos quais nada fica retido. E eu confesso: gostaria de ter os olhos limpos como o de uma criança para poder ver a autêntica imagem de Cristo.
A verdadeira pintura, Ecce Homo, era realmente bonita e piedosa. Retratava a face de Cristo com traços bem definidos e harmônicos. O semblante de Jesus expressava o seu sofrimento, mas também revelava a sua bondade e mansidão. Mas a obra já se encontrava bastante deteriorada. Tudo isso que descrevi ainda podia ser contemplado apesar de o tempo ter destruído uma parcela significa da pintura.
Motivada por um zelo sincero e bem intencionado, uma senhora resolveu tomar para si a tarefa de restaurar a imagem de Cristo. E o resultado não poderia ter sido mais desastroso.
Já é possível perceber a analogia a que me refiro? Nos dias de hoje e ao longo da história, a imagem de Cristo nos é apresentada com algumas lacunas. Essas lacunas não são devidas à existência de imperfeições em Cristo, mas à existência de imperfeições nos homens que se empenharam em anunciá-Lo. De qualquer modo, apesar das imperfeições, essa imagem de Cristo é autêntica, está lá, pode ser contemplada e amada. A missão de anunciar Cristo é a missão da Igreja. Apesar das limitações dos homens, a Igreja tem sido desde sempre o lugar de encontro com o verdadeiro Cristo. A Igreja sempre anunciou o Jesus verdadeiro (Ecce Homo), ainda que hoje em dia, à semelhança do Ecce Homo anterior à malograda restauração, essa imagem do verdadeiro Cristo apresenta os sinais da deterioração do tempo. Deterioração da imagem, mas não de Cristo.
Muitas vezes nós, tantos os que nos dizemos em comunhão com a Igreja quanto os afastados dela, deliramos na fantasia de que somos capazes de restaurar a imagem de Cristo. E esse delírio consiste em restaurar a imagem de Cristo carregando-a com os nossos ideais pessoais de perfeição. E o resultado final é um desenho de Jesus segundo a nossa medida, à nossa imagem e semelhança. E o resultado não poderia ser mais desastroso. Muito mais bizarra do que o "novo" Ecce Homo.
É isso que tem feito as pessoas desenharem Cristo com os mais estranhos e estapafúrdios perfis. Alguns ainda hoje vêem Cristo como um homem desprovido de sentimentos humanos normais, como se através de sua vida tivesse ensinado uma ascese de total negação da dimensão material em favor da dimensão espiritual. Em suas diversas variantes, é essa visão que levou muitos cristãos a evitar o sorriso, supondo que Jesus nunca sorriu pelo simples fato de que os Evangelhos nunca o menciona explicitamente. Também levou alguns a evitar todo tipo de manifestação afetiva do corpo, incapazes de ver senão sensualidade imoral nelas. Outros, se recusaram a aceitar a dimensão humana, corporal, de Cristo. Ainda outros negaram a santidade do matrimônio, incapazes de reconhecer a relação sexual entre um homem e uma mulher como uma realidade querida por Deus. E a partir desses e outros traços, a imagem que fizeram de Cristo resultou em uma pintura bastante deformada. Esse tipo de falsificação tem se manifestado claramente nas diversas doutrinas gnósticas que tem emergido ao longo do tempo, como a dos cátaros na idade média. E, de algum modo, em grande parte pela fraqueza humana, se insinua insistentemente e de forma sorrateira entre os cristãos nos dias de hoje.
Outra forma de deformação, comum nos dias de hoje, é a associação clara e quase direta de Jesus Cristo a uma ideologia política. Há alguns que pretendem apresentar a imagem de um Jesus engajado politicamente, tal qual um militante de esquerda ou um libertário. Outros, no outro extremo, querem nos fazer crer em uma imagem de Jesus que o reduz a um mero defensor dos "valores e bons costumes". E muitas vezes esses dois partidos entram em conflito entre si, colocando a imagem de Jesus no meio da briga, acreditando que o vencedor será o time que demonstrar que a imagem do autêntico Cristo se assemelha mais à própria imagem. Não parecem estar muito preocupados em seguir o exemplo de Cristo, mas em demonstrar que era Jesus quem seguia o exemplo de vida deles.
Como encontrar o verdadeiro Cristo, então? Se mostrasse a minha própria visão, provavelmente criaria a mais deformada imagem de todas. Para encontrar a Cristo, não há outra forma senão conhecer o testemunho que deixaram aqueles que conviveram com Ele e com os apóstolos. Esse testemunho está relatado nos Evangelhos.
Ainda que tal tarefa seja realmente muito difícil, uma imagem autêntica de Cristo só poderá se formar em nós se aceitarmos o relato despido dos nossos preconceitos. E isso é muito difícil, pois Cristo realmente pode ir contra a nossa visão de mundo. O olhar preconceituoso tende a filtrar tudo aquilo que se opõe às suas convicções e hábitos arraigados. O Cristo que abraça as crianças e se permite ter os pés lavados com as lágrimas de uma pecadora arrependida é simplesmente apagado do quadro dos rigoristas. O Cristo que reprova até mesmo os pensamentos maliciosos e perversos de adultério e impureza e que reafirma a indissolubilidade do matrimônio nunca existiu para o libertário. O Cristo que afirma que muitos se farão celibatários por amor ao reino dos céus é solenemente ignorado pelos que pretendem negar a autenticidade das vocações religiosas. O Cristo que ensina que não se pode servir às riquezas e a Deus simultaneamente nunca existiu para toda essa gente que faz uso seletivo e ideológico das Suas palavras para conservar e aumentar a sua riqueza. Poderia encher essa lista com muitíssimos outros exemplos, mas acho que já não é mais necessário.
Para entrar no reino dos céus é necessário se fazer tão simples como uma criança. Sim, de fato a criança é simples, pois seu olhar não está tão carregado de preconceitos e maus hábitos adquiridos. Por isso, é capaz de ver a realidade com olhos limpos e transparentes, através dos quais nada fica retido. E eu confesso: gostaria de ter os olhos limpos como o de uma criança para poder ver a autêntica imagem de Cristo.
domingo, 29 de julho de 2012
Uma reportagem surpreendente
Acabo de ver uma reportagem surpreendente na Globo News (Especial, domingo, 29/07/12, 20h30), que mostra uma entrevista do filho do Osama Bin Laden, sozinho, e depois uma entrevista com sua esposa, também sozinha. O filho, Omar, era o mais velho, querido pelo pai, mas decidiu firmemente não seguir o mesmo estilo de vida do pai. Sua esposa, procedente de uma família judia, é vinte anos mais velha do que Omar.
Omar dá um exemplo de fidelidade ao quarto mandamento (honrará pai e mãe) sem ferir, de nenhum modo, o primeiro (amarás a Deus acima de tudo) ou o quinto (não matarás) mandamento. Ele disse claramente que é contra o ato de terrorismo do 11 de setembro. Disse que não quis para si aquele universo em que viveu o seu pai. Mas em nenhum momento condenou o pai. Mais do que isso, diz que deve amar e respeitar o seu pai.
Essa é uma prova cabal de que cada ser humano, independentemente de sua origem e dos atos dos seus pais e das pessoas próximas que o rodeiam, pode escolher, tem livre arbítrio. A consciência é soberana. Omar passou por aqueles treinamentos. Omar amou e ainda ama o seu pai. Mas apesar disso, disse não ao que em consciência julgava errado.
Depois, o depoimento de sua esposa é ainda mais surpreendente. Ela tem coragem de falar tudo sobre a sua origem. Quando questionada pelo entrevistador se não tinha medo de falar aquelas coisas, ela responde: "não tenho medo de nada". Fiquei admirado pela coragem dela. Chegou a receber ameaças de morte dos dois lados. Lembrei-me mais uma vez daquela frase "não tenhais medo" pronunciada pelo papa João Paulo II. O medo sufoca, tira a liberdade, escraviza, oprime e deprime.
Omar dá um exemplo de fidelidade ao quarto mandamento (honrará pai e mãe) sem ferir, de nenhum modo, o primeiro (amarás a Deus acima de tudo) ou o quinto (não matarás) mandamento. Ele disse claramente que é contra o ato de terrorismo do 11 de setembro. Disse que não quis para si aquele universo em que viveu o seu pai. Mas em nenhum momento condenou o pai. Mais do que isso, diz que deve amar e respeitar o seu pai.
Essa é uma prova cabal de que cada ser humano, independentemente de sua origem e dos atos dos seus pais e das pessoas próximas que o rodeiam, pode escolher, tem livre arbítrio. A consciência é soberana. Omar passou por aqueles treinamentos. Omar amou e ainda ama o seu pai. Mas apesar disso, disse não ao que em consciência julgava errado.
Depois, o depoimento de sua esposa é ainda mais surpreendente. Ela tem coragem de falar tudo sobre a sua origem. Quando questionada pelo entrevistador se não tinha medo de falar aquelas coisas, ela responde: "não tenho medo de nada". Fiquei admirado pela coragem dela. Chegou a receber ameaças de morte dos dois lados. Lembrei-me mais uma vez daquela frase "não tenhais medo" pronunciada pelo papa João Paulo II. O medo sufoca, tira a liberdade, escraviza, oprime e deprime.
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