sábado, 16 de fevereiro de 2013

Adendo ao post "Ocultamento, informação e obediência"

No meu último post "Ocultamento, informação e obediência", toquei no tema do sigilo judicial nos processos institucionais para a apuração de delitos cometidos por seus membros. Tinha em vista em particular o caso da Igreja. Alguns leitores chamaram a atenção ao fato de que a revelação do mal fere não somente a instituição como um todo, mas também a de cada um dos envolvidos, às vezes não necessariamente somente os culpados.

Para resolver o problema da conveniência da publicação da identidade dos envolvidos no processo, é necessário ter em conta vários fatores. Em primeiro lugar, deve-se ter em conta as características do poder que julga o processo. Também é necessário avaliar a conveniência da publicação tendo em vista a utilidade da informação para o público, ponderando os danos potenciais da ocultação dessa informação e os danos reais aos interessados no caso de publicação. Além disso, deve-se ter em conta o direito à preservação da intimidade das vítimas, mais grave no caso de menores, e a proporção entre o dano cometido pelo ofensor e o dano que ele sofrerá em decorrência da publicação.

A um julgamento que ocorre em âmbito civil não se aplicam os mesmos critérios de um julgamento eclesial. Nesse último caso, é costume preservar o sigilo judicial ao longo de todo o processo envolvendo um delito grave, como é o caso do delito da pedofilia cometida por ministros ordenados. Uma vez concluído o julgamento, caso se verifiquem verdadeiras as acusações, é imposta uma pena canônica, que pode variar desde a suspensão do direito de celebrar a Missa e ouvir Confissões e a imposição de uma vida de silêncio e oração, até, em casos mais graves, à demissão definitiva do estado clerical. Não é dada uma sentença formal, mas fica claro pela natureza das penas qual foi o resultado do processo.   

Em alguns países de língua inglesa e na França, a lei exige que o bispo comunique às autoridades civis, caso fique sabendo, fora do sacramento da Comunhão, de algum caso de pedofilia. Nos outros casos, a Igreja entende que seria muito pesado exigir do bispo que denunciasse um padre sob sua jurisdição, pois seria um ato tão difícil quanto o de "denunciar o próprio filho". Para contornar essa dificuldade, os bispos são orientados pela Congregação da Doutrina da Fé a acolher a família da vítima e orientá-la a fazer uma denúncia às autoridades civis.

A minha opinião pessoal sobre a matéria é que em caso de delito grave, no âmbito da justiça comum, não há razão suficiente para ocultar a identidade do réu do processo. Caso o processo venha a se tornar de amplo conhecimento público, não é incomum que o réu e as pessoas próximas a ele possam vir a sofrer retaliações ou, pelo menos, a exclusão social. Mesmo em uma sociedade plenamente consciente do princípio da presunção da inocência, a dúvida quanto à verdade do caso desestabiliza as relações de confiança do réu com a sociedade. Apesar disso, entendo que a tutela do bem comum prevalece sobre o interesse de um indivíduo. Logicamente, devido às sérias consequências sobre o acusado pelo simples fato de ser acusado em público, a lei deve prever uma punição muito severa nos casos de falsa acusação, em proporção à gravidade da acusação. 

Respondo à crítica de que esse ponto de vista faz o coletivo prevalecer sobre a dignidade da pessoa. De fato, a dignidade da pessoa pode ser ferida pela desconfiança e retaliação injusta. No entanto, a dignidade de muitas pessoas fica seriamente desprotegida quando é deliberadamente ocultada a informação de que um indivíduo pode, com alguma chance, representar um perigo para a sociedade. Quando não há diferença no qualitativo, prevalece a diferença no quantitativo. Em concreto, fica fácil entender essa idéia no caso de um pedófilo. O ocultamento da informação a respeito do seu vício, ainda que apenas suspeito, pode permitir a um verdadeiro infrator continuar fazendo outras vítimas. Nesse caso, a gravidade do dano que pode ser causado a novas vítimas justifica,  sem sombra de dúvida, o dano que pode ser causado a um réu inocente pela publicação das falsas acusações. 

No caso dos julgamentos em âmbito eclesial, entendo que seja de fato melhor conservar o sigilo judicial em todos os casos de delito grave. Isso porque, ao contrário da justiça comum, a Igreja que julga também deve ter uma relação maternal com o réu, por ser um fiel e um servidor. Além disso, a Igreja não tem meios, atualmente, para compensar o inocente desonrado com uma condenação severa da falsa acusação. No entanto, a partir do momento em que ocorre a acusação, seria prudente e obrigatório, da parte do bispo, tomar todas as atitudes cabíveis para afastar o réu de trabalhos pastorais que o possa colocar em ocasião de cometer novas transgressões. Ao mesmo tempo, o bispo deve sempre seguir a recomendação anteriormente citada da Congregação da Doutrina da Fé  
Por último, no caso de menores ofendidos, o sigilo judicial com relação a sua identidade deve ser respeitado em todos os casos. 

Referências
As informações sobre os julgamento de delitos graves na Igreja extrai de uma entrevista de um promotor de justiça da Congregação da Doutrina da Fé, publicada no site http://www.ewtn.com/vnews/getstory.asp?number=101031.   

Observações
Não sou experto nem em direito comum nem em direito canónico. O conteúdo desse texto expressa uma opinião pessoal e não a posição oficial da Igreja ou de outra instituição. Caso alguém identifique algum ponto que necessite de retificação, agradeceria a correção.

 
 

    

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ocultamento, informação e obediência


Alguns pessoas dentro da Igreja querem passar a impressão aos fiéis leigos de que tudo ali dentro funciona em perfeita ordem e harmonia. Às vezes se justificam dizendo que, assim como as crianças pequenas de uma família não devem ficar sabendo das ameaças e crises familiares, para não ter a sua felicidade pueril destroçada, também os fiéis comuns devem ser poupados das más notícias.

A prudência comum mostra que de fato é melhor não impor às crianças o fardo do conhecimento das realidades duras da vida. Mas a comparação com os fiéis da Igreja não é válida, pois já não são mais crianças. Se por um lado é natural que assuntos internos relativos à administração da Igreja não precisem ser de conhecimento público, devem pelo menos ser de tal modo conduzidos que, caso fosse levantada alguma suspeita, todas as atividades até então conduzidas em discrição pudessem ser integralmente reveladas, sem receio algum de que alguma irregularidade fosse encontrada.  

Na realidade, bem sabemos que em todas as realidades temporais e também nas eclesiais, existem enormes faltas à lei de Deus e à moral cristã. Logicamente, quando há falta, quase sempre há ocultamento, pelo simples fato de que as pessoas envolvidas não querem ser punidas e desejam continuar se beneficiando das iniquidades que praticam em segredo. Por outro lado, há também o ocultamento dos escândalos promovido com o objetivo de salvaguardar a reputação da corporação que sairá inteiramente lesada pela má conduta de poucos.

Esse último tipo de ocultamento é mais compreensível do ponto de vista ético, e muitas vezes é praticado por pessoas boas, que tem a intenção de proteger a integridade da corporação. Isso acontece na Igreja. Essas pessoas estão na realidade entre os que mais sentem indignação pela má conduta alheia, pois, ao colocar em risco a reputação da instituição, ela simultaneamente fere a reputação e boa fama daqueles que se entregaram sinceramente por ela.

Não é um dilema de fácil solução. Se, por um lado, a revelação do mal fere a instituição como um todo, por outro lado, o ocultamento permite que a má conduta seja perpetuada, se fortaleça e acabe destroçando a vida de mais e mais pessoas inocentes. Uma possível solução para o problema consiste em aplicar severas penas em âmbito interno, conservando em segredo do mundo exterior todo o processo e suas causas.

Em alguns casos essa solução pode ser aceitável, mas em outros a revelação da informação pode ser necessária para que as pessoas inocentes possam se proteger. Além disso, se por um lado a instituição pode perder sua boa fama quando um escândalo vai a público, por outro lado a exemplaridade de um julgamento  público e transparente tende a desestimular a ação dos corruptores, ao mesmo tempo que conquista a confiança dos homens de boa vontade.

Cristo bem ensinou que é necessário ser manso como as pombas, mas esperto como as serpentes. Os leigos não podem se comportar como crianças, nem mesmo os jovens. Não podem ser ingênuos, pois quem é ingênuo corre maior perigo. Há bons e maus pastores dentro da Igreja. Um certo grau de desconfiança com relação às pessoas e instituições da Igreja não pode ser reprovada como uma atitude de desconfiança com relação a Deus, pois o homem é falível. Maldito o homem que confiou no homem!  

Algumas raposas e lobos espertos utilizam um discurso bastante capcioso para conquistar à força a confiança dos fiéis. Esse discurso, podendo apresentar as mais diversas e rebuscadas formulações, consiste em persuadir o outro de que é um representante de Deus e que tudo o que diz e manda é a própria vontade divina e ainda que desconfiar disso é o mesmo que desconfiar de Deus. De fato, a autoridade da Igreja, representada pelos seus ministros (padres, bispos), deve ser respeitada pelos fiéis como procedente de Deus. Mas essa autoridade não é incondicional; como os homens são falíveis, sua autoridade deve passar pelo crivo da razão iluminada pelos mandamentos. Além disso, o escopo da sua autoridade se restringe exclusivamente ao campo espiritual.

Esse critério é válido para um leigo, que, não estando sob os vínculos do voto de obediência, tem resguardada a integridade da sua auto-determinação dentro dos limites da lei de Deus. Um monge ou um frei, pelo voto de obediência, entrega sua auto-determinação e se dispõe a obedecer a tudo o que não fere a lei de Deus. Um monge precisa da autorização do abade para sair do monastério, mas logicamente um leigo comum não precisa de autorização eclesiástica para deixar sua casa ou até se mudar de país!

Um tradicional critério sobre a obediência, diz que ela é virtuosa apenas quando exercida em razão da autoridade de quem manda e não das suas qualidades. Isso é verdadeiro, mas também é verdadeiro afirmar que a obediência só pode ser virtuosa quando não atenta contra a consciência formada nos mandamentos de Deus. Tomar em sentido amplo e irrestrito uma afirmação do tipo "quem obedece nunca erra" pode levar a erros monstruosos. Erra sim quem comete um crime a mando de um representante eclesiástico. A intenção dessa frase é transmitir a idéia de que agir em obediência a um autêntico representante de Deus, no âmbito sob cuja autoridade se está vinculado, sempre é proveitoso, mesmo que apenas do ponto de vista espiritual.

Há muitos fiéis dentro da Igreja que foram duramente traídos pela infidelidade de seus pastores. Penso na já bem conhecida história do fundador de um famoso movimento contemporâneo, que exigia uma rigorosa obediência dos colaboradores mais próximos, que era muito hábil em conseguir doações de fiéis ricos, que tentou sabotar outros movimentos da Igreja, e, que depois de tanto tempo praticando suas iniquidades, ao fim da vida, teve todas suas más obras reveladas ao grande público, causando grande dano à instituição que fundou, formada por pessoas muito bem intencionadas. Por isso, não sejamos mais ingênuos como as crianças. E, para isso, não podemos ter medo de buscar a informação, pois a informação verdadeira é recurso imprescindível para a aplicação acertada de todo julgamento prudencial.    

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A recente notícia da renúncia do papa me abalou. Tinha e continuo tendo total confiança em Bento XVI. A razão do meu desconforto foi a perda da segurança que esse papa corajoso e fiel me dava. A segurança de que a Igreja estava sendo protegida dos lobos que trabalham dia e noite para envenená-la através da corrupção moral, doutrinal e física do seu corpo. Mas, depois de analisar os fatos, e ponderá-los, entendi que a renúncia de Bento XVI foi necessária em um momento em que talvez a sua debilidade física e mental já não permitisse mais o enfrentamento dos lobos de dentro e de fora. Tenho total confiança de que o próximo papa deve continuar esse serviço corajoso. O papa Bento XVI foi o papa da Eucaristia, aquele que firmou a Igreja nesse pilar. Deus queira que o próximo seja aquele a firmar a Igreja no pilar de Nossa Senhora. Apoiados nesses dois pilares, a Igreja resistirá e vencerá os seus inimigos, cumprindo-se o sonho profético de Dom Bosco.            


          


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Lógica Genética

Uma idéia em circulação nos dias de hoje ensina que as ações de todas as pessoas tem uma finalidade imposta pela necessidade de reprodução e conservação da própria vida. Não há exceções. Essas necessidades são impulsos irrefreáveis, que derivam da própria constituição biológica da espécie animal homo sapiens.

Utilizando esse princípio e algumas hipóteses ad hoc, não há nenhum fenômeno humano que não possa ser facilmente explicado. A receita é bem simples. Primeiro, crie uma suposição sobre o comportamento do ser humano primitivo claramente associado a um desses impulsos. Depois, simplesmente relacione o comportamento atual com aquele comportamento primitivo por meio de um argumento heurístico plausível. Se o raciocínio for bem feito, a conclusão é capaz de se impor como se tivesse sido enunciado por uma testemunha imortal e onisciente.  

Há inúmeros exemplos. Por que o ser humano sorri? Simples; o sorriso era um mecanismo que o homem primitivo, que ainda não dominava a linguagem falada, utilizava para comunicar a sua submissão ao indivíduo mais forte ou a abertura à relação sexual com o indivíduo do sexo oposto. Com o tempo, o sorriso foi sendo incorporado às percepções inatas como um sinal de que o outro não quer o confronto ou de que o outro quer a aproximação sexual. Assim, o cérebro "aprendeu" a tranquilizar-se ao ver um sorriso.

Por que razão, mesmo depois de tanta tentativa de incutir na sociedade os pressupostos do movimento feminista, a mulheres na maioria dos casos dão prioridades em sua escolha a sujeitos fortes, ricos e poderosos  e os homens maior prioridade às mulheres bonitas? Simples também. Para a mulher primitiva, em um ambiente de brutalidade e ameaça constante, era-lhe vantajoso encontrar um homem capaz de proteger a ela e a sua prole (força e poder) e lhes dar sustento (riqueza). Para o homem, a vantagem seria maior quanto mais fértil fosse a mulher e menor fosse a sua carga de defeitos genéticos. A própria evolução ensinou o cérebro do homem (e também o da mulher) a reconhecer essas qualidades e a disparar o desejo sexual no momento oportuno, gerando uma fixação (ou o que nós chamamos de apaixonamento).

O mais curioso desses explicações é a sua capacidade de trivializar impiedosamente toda arte, toda poesia e toda suposta  importância que o ser humano costuma atribuir às suas paixões. Em outras palavras, é como se tais explicações estivessem sempre a escarnecer as pobres criaturas, dizendo: "ei, você aí, que pensa que o mundo se curva às suas paixões, que são as mais intensas, as mais importantes, e que são o sentido da sua vida, não vê que isso não é nada,  que você é pó, que todos os outros que são pó como você sentem o mesmo e que incuti em ti essas paixões para que com a sua tolice não se deixe perecer facilmente e nem se desinteresse da reprodução da sua espécie?".    

Esse processo natural de moldagem da espécie pode ser observada em todas as espécies animais. O surpreendente a respeito do ser humano é que ele tenha sido capaz de adquirir consciência disso. Historicamente, essa conscientização foi expressa de muitas formas. A linguagem é imperfeita, mas a intuição é capaz de perceber a descrição da mesma realidade na aparente diversidade de plataformas culturais. Ao tomar consciência da existência desses processos inatos, que influem na origem das aparentes vontades pessoais, o homem consciente encontrou-se diante da possibilidade de simplesmente dizer não aos impulsos de origem animal. Mas é de fato surpreendente, pois esses desejos não são vãos, se levarmos em conta que foram precisamente eles que garantiram a perpetuação da espécie e o saldo positivo no processo evolutivo. Estaria esse ser humano se revoltando contra os mecanismos que o geraram, obstruindo por rebeldia e desejo de auto-afirmação a normalidade do processo evolutivo?

Alguns pensadores modernos acreditam que na maior parte de sua existência, o ser humano vivia em completa entrega aos seus impulsos de origem animal. Acrescentaria que ainda hoje a maior parte das pessoas vive assim, pois o conhecimento da verdadeira motivação de suas ações exige a difícil habilidade de sair de si para buscar a realidade a respeito da própria natureza. Esse é precisamente o primeiro passo do filósofo. Um passo que terá conseqüências drásticas no seu modo de viver e sentir. Nietzche culpava a racionalidade desenvolvida pelos filósofos gregos pelo que considerou uma covarde recusa de viver de acordo com a sabedoria da própria natureza. De qualquer modo, uma vez adquirido o conhecimento a respeito de si, um passo irreversível foi dado, e nenhuma escolha na vida poderá ser realizada sem que se desconfie das verdadeiras forças que a impulsiona.
         
As respostas materialistas para o problema da consciência de si sempre vai esbarrar em alguma dificuldade. Uma resposta materialista tem que dar uma volta em torno de si mesma para encontrar um modo de explicar como a consciência das leis evolutivas naturais beneficia um indivíduo que simplesmente se recusa a seguí-las. Uma saída para o problema é dizer que a atitude dos indivíduos que agem desse modo é patológica. E então afirmar que um homem que resolveu deixar suas riquezas, seu poder e sua potencialidade sexual por desejar algo além dos impulsos naturais é um doente, um desvio acidental no trajeto evolutivo que deve ser eliminado. Ou um fraco e covarde, que teve medo de perecer na luta por riqueza e poder. De qualquer modo, alguém a ser eliminado.  

Seguindo esse raciocínio, é necessária a conclusão de que Cristo e sua doutrina têm que ser eliminados. É por isso que tanto Nietzsche quanto os evolucionistas dos nossos dias, têm se empenhado em destruir o cristianismo. Mas essa perseguição cai por terra e revela uma face verdadeiramente diabólica se de fato existe uma realidade que transcende os prazeres e bens terrenos, pela qual valha à pena abandonar as promessas de felicidade mundana.

Bem, como já mostramos, esses bens e prazeres da terra nada mais são do que os recursos que garantem a sobrevivência do indivíduo e sua perpetuação. Esses desejo não é próprio do indivíduo, isto é, ninguém pode efetivamente dizer eu quero ser rico, ter poder e uma mulher/homem do meu gosto, mas deve dizer eu herdei esses desejos, que são a garantia natural de que conservarei a minha vida e a transmitirei. Não são meus desejos, são os desejos da minha espécie. Resta então encontrar qual é o verdadeiro desejo do ser humano.    

Se o ser humano fosse de fato apenas um animal, não existiria a vontade própria do indivíduo. É o que dizem os evolucionistas modernos, conduzidos pela aplicação logicamente rigorosa de seus princípios. Se Sartre chegou à conclusão de que o homem é uma paixão inútil, todos os evolucionistas deveriam chegar à conclusão de que as paixões são úteis para a espécie. Mas nesse caso, resta um problema a ser resolvido, que é o problema do próprio evolucionista que chegou à sua conclusão e se pergunta o que fazer então.

Para ser rigorosamente coerente com os seus próprios princípios, o melhor a fazer é entregar-se à realização das paixões. Nessa perspectiva, a felicidade é um artifício natural alcançada apenas pelos homens que realizam os impulsos naturais. Mas não pensemos que entregar-se às paixões significa passar o resto da vida comendo (entenda-se no duplo sentido)  e bebendo.  Significa utilizar toda a força intelectual e física para obter segurança, riqueza, poder e filhos. O bem e o mal não estão em discussão; o que importa é obter segurança, riqueza, poder e filhos, qualquer que seja o método, contanto que o método não venha a destruir a própria vida. Não há espaço para discutir se uma ação é intrinsecamente boa ou má; é boa ou má na medida em que a ação possa construir ou destruir aqueles valores.    

Mas esse raciocínio cairia por terra se o pressuposto de que o ser humano é apenas um animal não fosse válido. De fato, o ser humano tem uma natureza espiritual, que é a única e verdadeira explicação para o fato de conseguir adquirir consciência da sua condição animal. Essa consciência da própria condição não é de modo algum um acidente nocivo à evolução, como sugeri anteriormente, mas um impulso interior que resgata o indivíduo de aspirações meramente animais para as aspirações verdadeiramente humanas. Toda a evolução existiu tendo em vista a formação do ser humano, uma criatura animal e espiritual, sujeita às leis da evolução, mas também às leis da natureza espiritual, imortal e indestrutível. Essa natureza espiritual aspira o que lhe é próprio, assim como a animal, mas suas aspirações são diferentes. A animal aspira ao que é, como ela, perecível e passageira, a espiritual aspira ao que é, como ela, eterna e permanente.

Alguém poderia exigir nesse ponto provas e evidências da existência dessa natureza espiritual. São provas e evidências análogas a que qualquer um teria para provar que o céu é azul. A evidência é a história humana, compilada nas manifestações de consciência da realidade espiritual presentes em todas as culturas. Os evolucionistas buscam todas as causas materiais possíveis para essas manifestações, tudo para não admitir a realidade espiritual. Não é difícil encontrar explicações tampão. Para isso existe até receita pronta.

Demonstrar que a realidade espiritual é verdadeira é uma tarefa tão impossível quanto demonstrar que tudo o que experienciamos é real. Alguém pode acreditar que a realidade espiritual não existe, mas isso é tão absurdo quanto acreditar que a vida é um sonho. A lógica genética tem sido utilizada como o método padrão para excluir do campo intelectual qualquer referência à transcendência da realidade humana, em uma tentativa pretensiosamente científica de dar respostas definitivas para fatos que ela está muito longe de explicar. Se de fato alguma de suas explicações tem fornecido alguma luz sobre a origem do comportamento humano, sua maior contribuição foi eliminar o que ainda restava de romantismo e idealismo no modo de ver as paixões, substituindo-os por uma visão objetiva e trivial do que antes parecia ter uma origem nobre. No entanto, além de negar a natureza espiritual, esse evolucionismo também nega a existência de qualquer sentido transcendente no universo e no homem.

Não é nada fácil explicar como foi possível que processos totalmente desprovidos de sentido tenham sido capazes de produzir indivíduos inteligentes desejosos de encontrar um sentido para a sua existência. Há dois grupos de explicações possíveis; o primeiro simplesmente admite a existência de uma realidade transcendente; o segundo, sendo materialista, não tem uma resposta simples para a questão. Entre duas explicações para um mesmo fenômeno, na impossibilidade de aferir diretamente as hipóteses, a ciência sempre optou pela mais simples. E, para esse caso, é bem claro qual das duas hipóteses é a mais simples.                        

domingo, 23 de dezembro de 2012

Um Tempo de Luz e Esperança

Qualquer um que resolva olhar friamente a realidade que o cerca, será obrigado a reconhecer que agimos como se o essencial para o nosso sucesso fosse o dinheiro, o poder e o sexo. Nossas grandes miragens de felicidade sempre envolvem esses três elementos. De fato, são esses os requisitos necessários para a satisfação dos apetites. Se alguém os tivesse sem limites, então também não haveria limites para a satisfação nem tampouco margem para o sofrimento.

Muitos já devem ter imaginado um mundo onde todos os apetites pudessem ser satisfeitos assim que brotassem. E alguns devem ter chegado à conclusão de que, se esse lugar existisse, então aí teria que ser o paraíso. E outros mais talvez até tenham chegado a pensar que, se fossem eles mesmos Deus, fariam um Universo para satisfazer os apetites das criaturas com delícias sem fim. E porque o universo não é assim, outros ainda tem  chegado à conclusão de que Deus não passa de um delírio.

Mas não é um delírio. Quando Deus veio à terra, prescindiu da segurança que o dinheiro e o poder podem dar. Nasceu em uma família pobre e impotente aos olhos do mundo. Desse modo, Deus Pai ensinou através dos acontecimentos regidos pela sua providência aquilo que o seu Filho viria a ensinar através de atos e palavra.

Agora é a hora de dar uma pequena pausa às ocupações para contemplar o menino-Deus. Ele tem algo muito importante para nos dizer e bem sabemos que precisamos ouvi-lo. Se Ele prescindiu desses bens cuja falta nos angustia, talvez tenha sido para nos ensinar que não é isso o que realmente importa. Há algo maior, além desse mundo e maior do que ele, que não vemos, mas existe. Esse menino que nasceu pobre veio trazer o testemunho desse outro mundo. Se tivesse chegado ao mundo dentro do mais rico palácio e no mais poderoso reinado, não poderia ser Deus. Mas nasceu pobre, em sinal claro aos corações dos homens de boa vontade, que se enchem de esperança ao contemplar a infinita bondade de nosso Deus.       

domingo, 16 de dezembro de 2012

Monster

Os desentendimentos e conflitos entre o homem e a mulher sempre existiram e estão impressos nos costumes de todas as culturas humanas. As razões por trás desses conflitos são bastantes complexas e não podem ser reduzidas a uma única e simples explicação, como a bem conhecida tese de cunho marxista que transpõe a luta de classes na sociedade para o âmbito da relação entre homem e mulher. Existem outros elementos muito mais relevantes para a explicação desse fenômeno, pois a psicologia e a natureza animal e espiritual do ser humano precedem a sociologia na ordem das causas.

Esse conflito entre homem e mulher constitui uma das maiores tragédias que tem afligido constantemente e sem cessar toda a humanidade. É trágico pois a forte necessidade de reciprocidade entre os sexos fica frustrada, gerando um enorme descontentamento que se projeta para além da esfera pessoal e atinge toda a sociedade. Uma sociedade não pode ser saudável sem a harmonia nas relações entre homens e mulheres.

Há muitas facetas e sintomas dessa doença em nossa sociedade, e por enquanto gostaria de me restringir a apenas uma delas. Ultimamente, não tem sido nada incomum encontrar pessoas dominadas por um ódio generalizado pelo sexo oposto A razão para esse fenômeno é o que em um post anterior designei de frustração do amor.

Pela sua própria natureza, o ser humano encontra na pessoa do sexo oposto o receptáculo para todo o seu potencial afetivo. Em outras palavras, ele tem a expectativa de encontrar um outro a quem possa entregar a si mesmo sem reservas, recuperando-se a si ao receber também sem reservas aquele a quem se entregou.

No entanto, boa parte de nossa sociedade se tornou descrente da possibilidade da existência desse outro. Ninguém mais acredita em "princípes encantados" ou em "belas adormecidas". Na realidade, todos em algum dia de suas vidas acreditaram sim em seu "princípe encantado" e em sua "bela adormecida". Porém, a frustração dessa expectativa, que sempre existiu, mas que hoje em dia é mais comum devido à forte presença do egoísmo na sociedade atual, leva as pessoas à descrença total na lealdade do sexo oposto. Frases do tipo "os homens não prestam" ou "toda mulher é vagabunda" refletem essa frustração.

Essa frustração pode adquirir contornos realmente trágicos. Entre os homens, o ressentimento e o ódio tem frequentemente os conduzido à violência brutal contra a mulher. No caso das mulheres, o mesmo ressentimento as conduzem a um desprezo que não perde nenhuma oportunidade para aniquilar o homem afetivamente frágil que cai nas suas garras.

Essas matanças de pessoas inocentes empreendidas por homens armados tem a mesma raiz, que é essa frustração do amor agravada e jamais superada. Essa é uma tese forte, que não vou provar agora, mas que em algum momento pretendo discutir com maior detalhe. Limito-me a apontar alguns indícios. O assassino do realengo, por exemplo, foi seletivo ao escolher as suas vítimas, meninas. Recentemente, a polícia impediu uma ação de dois jovens indivíduos que pretendiam explodir uma bomba em uma festa cheia de estudantes universitárias de humanidades "pra-frentex". Breivik, da Noruega, carrega uma clara frustração que remete aos traumas da sua infância relacionados com a ruptura de sua família.

Pensando sobre o assunto, lembrei-me de um filme que retrata a história real de uma prostituta que realizou assassinatos em série. O filme se chama Monster e não o recomendo para ninguém, apesar de retratar uma realidade que ensina muito sobre aqueles efeitos trágicos a que me referi. Aquela prostituta foi pouco a pouco acumulando um enorme ódio contra os homens em geral. Isso é 100% compreensível, pois se uma mulher não tem a experiência do encontro com homens verdadeiramente ternos e desinteressados, capazes de amar, e é constantemente tratada por eles como um objeto descartável, então entendo o seu ódio. Mas o ponto alto do filme acontece quando a prostituta encontra um homem que na verdade apenas se dipôs a lhe dar uma carona e não tinha a menor intenção de usá-la. Aquela mulher, mesmo percebendo a boa intenção do homem, decide assassiná-lo, levando o seu carro e o seu dinheiro.

O encontro com um homem realmente desinteressado não foi capaz de humanizar o seu coração já há muito tempo endurecido. Como o seu coração de mulher tinha essa necessidade de amar e ser amado, ela encontra em uma parceira do mesmo sexo essa pessoa com quem possa desenvolver todo o seu potencial afetivo. O filme mostra que na relação com essa outra pessoa, aquele "monstro" se transforma em uma mãe terna e boa. Ou seja, na incapacidade de entrega a um homem, que seria o único modo natural e verdadeiro de encontrar a felicidade relacional, ela tem de transpor esse desejo frustrado de realização a um relacionamento postiço e artificial com uma outra mulher. Aquele acontecimento simboliza o estágio desse processo; ela preferiu matar um homem que se dispôs a ajudá-la e utilizar o espólio para nutrir um relacionamento vicioso que a mantinha naquela situação miserável.

Hoje entendo bem por que motivo São João Batista e depois Jesus Cristo moveram muitas prostitutas à conversão. Neles, e de maneira muito contundente em Jesus, elas encontraram um homem terno, desinteressado e casto que as acolheu sem massacrá-las com acusações e penalizações pelos seus pecados. A verdadeira imagem do homem rehumanizou o coração daquelas mulheres e as recordou da sua vocação para o Amor. Não é nada indiferente o fato de Jesus ter se deixado tocar pela pecadora arrependida. Mas isso já é algo que mereceria um tratamento muito especial em algum outro post...             

   

      


           

domingo, 9 de dezembro de 2012

A Esterilidade Ambientalista

Está presente no discurso de muitas ideologias, ainda que de maneira implícita, um sentimento de desconforto com o tamanho da população humana. Por trás de um discurso aparentemente legítimo baseado na preocupação com a escassez de recursos e danos ao meio ambiente, reside na realidade um núcleo interno de motivações totalmente egoístas e muitas vezes misantrópicas.

O discurso ambientalista atual incluiu entre as suas premissas a noção de que o ser humano é apenas mais um animal da terra. Se foi capaz de se impor como a espécie dominante no planeta terra, cuja população nenhuma força da natureza é capaz de controlar, então seria justo da parte da própria humanidade controlar a sua população em solidariedade ao ecossistema colocado em risco por esse crescimento.

Esse tipo de pensamento gera um sentimento de desconforto na sociedade e também no indivíduo, que é levado a imaginar-se culpado por essa suposta destruição da natureza. Levado ao extremo, esse raciocínio ambientalista reduz a sociedade humana a uma praga fora do controle que deve ser parcialmente eliminada. Lembra-me a postura do Mr Smith no filme Matrix, ao descrever a humanidade com desprezo, comparando-a a uma infecção viral sobre a terra.

Põe-se em evidência então essa nota perigosamente misantrópica implícita no discurso ambientalista. O mais paradoxal é o fato dessa mentalidade ser mais comum entre pessoas mais jovens. De fato, até algumas décadas atrás, boa parte da população ainda teve uma experiência real da natureza e sabe como ela muitas vezes é extremamente hostil ao esforço humano pela sua subsistência e dos seus parentes. Totalmente distanciados desse dura realidade graças ao avançado grau de desenvolvimento técnico da sociedade atual, a maioria dos jovens desconhece completamente a dureza da relação dos seus antepassados com a natureza. Seduzidos por uma visão pueril e nostálgica das belezas naturais do planeta terra, que lhes parece estar sendo privadas pelo mundo moderno, que as destrói e despreza, aderem de maneira irrefletida às premissas da ideologia ambientalista.

Se por um lado é legitima essa preocupação com a qualidade do meio ambiente em que vivemos, às vezes escapa à ideologia ambientalista que, na realidade, o centro dessa preocupação é o próprio ser humano. Nenhuma outra criatura do planeta terra está "preocupada" com o meio ambiente. Ao preocupar-se com o meio ambiente, o indivíduo está interessado na sua qualidade de vida e dos seus iguais. Nenhum indivíduo pode esquecer de ponderar que a sua própria existência é uma pré-condição para o interesse pela conservação do meio ambiente. E também que a sua existência é um fator de pressão sobre a natureza, não apenas a dos que estão para nascer.

Portanto, propor a limitação da existência humana, através do controle populacional, como solução ao problema ambiental é um contra-senso. No fundo, significa dizer que, para que os vivos tenham uma qualidade de vida superior, então que se limite a oportunidade de novas vidas humanas virem à luz. Em outras palavras, seria como dizer: "queremos que nossos filhos tenham um mundo melhor e para isso é necessário não deixar alguns deles nascerem". A pergunta crucial é essa: será que o melhor é que, para que alguns possam viver em um mundo "preservado", muitos que poderiam vir à existência nunca tenham a chance de nascer?

Na realidade, trata-se de uma questão de generosidade. A natureza nos diz claramente que não gosta de limitações, e nos demonstra isso até a exaustão através de incontável quantidade de entidades produzidas em seu seio (quem não se admira da inimaginável quantidade de galáxias e estrelas presentes no universo?). A natureza é uma abundância de generosidade que, no fundo, incomoda os corações mesquinhos. Quem realmente ama o ser humano e é alguém a quem realmente se pode classificar como humanista, bem sabe que a preservação do meio ambiente não é um pretexto válido para a limitação da população humana.



               


sábado, 1 de dezembro de 2012

Separará uns dos outros

Há uma passagem do Evangelho que sempre me deixou bastante intrigado e desde o início tem me causado uma surpresa positiva. Trata-se da passagem de São Mateus em que Jesus fala sobre a separação entre os homens no juízo final (Mt 25, 31-46). Nessa passagem Jesus deixa claro qual será o critério de separação entre os homens. E, para minha surpresa, Jesus não separa os homens entre os observantes da lei e os transgressores, mas sim os separa entre aqueles que praticaram obras de misericórdia ("tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes beber")  e os que nunca a praticaram.

Ao longo da minha caminhada tenho observado que muitos de nós estamos muito mais preocupados em observar os mandamentos do que praticar as obras de misericórdia. Tantas vezes me decepcionei ao testemunhar que pessoas que fazem oração diária, vão à Missa todos os dias e vivem escrupulosamente todos os preceitos da lei, tantas vezes olham com completa indiferença ou até desprezo a esses pequeninos a que Jesus se refere.

A realidade nos mostra que esses pequeninos nem sempre são pessoas agradáveis. Um mendigo em situação de necessidade não é alguém agradável. Estará cheirando mal, poderá ser rude no trato e extremamente inconveniente. Mas se está passando sede ou frio, e há a possibilidade de remediar a sua situação, todos esses inconvenientes não são desculpas válidas para que um cristão deixe de oferecer ajuda.

Algumas pessoas se enganam achando que um dia toparão com um galã perfumado e bem educado, sedento e faminto, implorando meigamente por socorro. Isso não existe no mundo real. No mundo real, os necessitados às vezes também reagem com rudeza, ingratidão e até com maldade àqueles que oferecem ajuda.

Há alguns anos atrás ouvi uma pequena história que me tem feito pensar sobre a atitude de alguns cristãos.    

Em uma cidade perdida em um país distante havia uma família cristã que construiu uma grande casa para os seus jovens filhos. Todos viviam bem ali e praticavam os preceitos da sua religião na mais escrupulosa observância. Havia um belo jardim no pátio de entrada da casa, mas certo dia a pureza daquele local foi atormentada pela presença inconveniente de um mendigo que ali se instalou. Não sabendo como reagir diante daquela situação, um dos filhos teve a brilhante idéia de jogar sobre o homem um balde de gelo. Se recuperando do choque, o mendigo bradou: "vocês são judeus, não cristãos!".

Aquele mendigo não poderia ter sido mais preciso. Aqueles filhos estavam muito preocupados em observar as leis, mas nenhum deles soube olhar para aquele mendigo com o olhar de Cristo. Podemos imaginar como a mãe do mendigo o olharia na situação. Uma coisa é certa: o olhar de Cristo seria ainda mais compassivo do que o da mãe.

A história continua. Um outro filho, compadecido da situação do mendigo, foi conversar com aquele homem. Explicou a situação para ele e deu atenção ao que o mendigo dizia, que  apesar de tudo continuava sendo insistente e teimoso. Por fim, convenceu o mendigo a ir para um abrigo e o levou para lá.

É triste dizer isso, mas a primeira parte da história é verídica; a segunda, fictícia.