domingo, 16 de junho de 2013

Revolta da salada: revolução em direção ao caos

Não é por R$ 0,20, mas por direitos... Até agora não li em nenhum lugar quais são os direitos reivindicados por esse movimento que tomou as ruas da capital de São Paulo na semana passada. Se alguém me puder fazer o favor de me encaminhar um documento que contenha uma explicação disso tudo, pelo menos teria alguma matéria com relação a qual poderia discordar ou concordar. Por enquanto, tudo isso parece pouco racional e muito primitivo.

A leitura que faço dos fatos é a seguinte. A maioria realmente não pensa no que está fazendo. São movidos pelos efeitos de uma propaganda que apela em última instância para a vaidade e para a desordem de todas as outras paixões humanas. Nada difícil de compreender: em sua maioria, essas pessoas foram submetidas a uma formação que evitou, a todo custo, ensinar a necessidade da virtude.

Essa propaganda produz nessas almas ingênuas a ilusão de que estão mudando o mundo e contribuindo positivamente para a história. A velha guarda que pensa que os movimentos de 68 e outras tantas revoluções culturais das quais participaram foi algo diferente do que aconteceu na semana passada, argumentando que aquelas foram legítimas e essas que estão acontecendo não são, não aprendeu nada. Ficaram velhos, mas ainda dominados pelas paixões, só conseguem enxergar o mundo na perspectiva dos interesses próprios.

Essa turma da velha guarda acha que mudou o mundo para melhor e se indigna de ver que a juventude não reconhece as grandes benesses que propiciaram com as mudanças que conquistaram. Não mudaram nada, pois não há nada que possa ser mudado no mundo de fora, se antes cada um não resolve mudar o seu mundo de dentro. Quando se é jovem, em geral não se pode  desfrutar da posse de bens materiais, que só vem com o tempo, à medida que o trabalho vai gerando frutos e as circunstâncias vão permitindo posições de maior responsabilidade. O jovem, motivado por essas paixões desordenadas, desejaria para si a posse do que apenas uma vida inteira pode dar. E é lógico, na perspectiva das paixões, pois essa posse permitiria dar vazão a todos os ímpetos que ficam limitados pela sua dependência.

Os velhos, esquecidos da etapa anterior, tem agora o que desejaram quando jovens, mas não tem mais a juventude e ainda se esqueceram que foram jovens um dia! Todo o conflito, no final de contas, resulta do embate de interesses que por alguma razão se contrariam mutuamente. Os velhos quereriam ser jovens de novo e chegam a esperar a compreensão e obediência da juventude. Os jovens, arrastando ainda a casquinha do ovo, chegam a acreditar que são melhores do que todas as gerações que os precederam e que agora são oprimidos pelos anciãos da sociedade.

Esse processo é um movimento que tem ocorrido repetidamente na nossa história. Na realidade, tudo isso é resultado do jogo que as paixões produzem no âmago da natureza humana nas suas diversas etapas da vida. Esse ímpetos, quando abandonados às suas próprias forças, produzem o caos. Esse caos piora o mundo em vez de melhorá-lo. Eis a grande ilusão: essa gente, quando faz essas manifestações, está botando para fora o seu caos interior e gerando caos exterior. Estão piorando o mundo em vez de melhorá-lo. Eles tem toda razão quando escrevem "desculpem o transtorno, estamos mudando o mundo". Estão de fato mudando o mundo, para pior, introduzindo mais caos, gerando dor e sofrimento.

 O único movimento revolucionário que pode realmente mudar o mundo é a decisão pessoal de mudar antes a si mesmo. Esse movimento revolucionário acontece e as almas que tem a coragem de tomar essa iniciativa são bem aventuradas. Mas há tantos e tantas que passam a vida inteira acreditando que os seus problemas são causados pelo que vem de fora. Serão eternamente rebeldes e inconformados, pobres criaturas, incapazes de perceber que as únicas culpadas pela sua infelicidade são elas mesmas.    

Em poucas palavras, não há a menor diferença entre um intelectual que tenta desligitimizar esse movimento em rede nacional e sustenta ao mesmo tempo as revoluções de seu tempo de juventude, e um jovem que vai às ruas protestar disposto a espalhar a destruição. São igualmente motivados pelas suas paixões desordenadas. A única diferença é que tais paixões se manifestam de modo distinto em função da etapa da vida. No entanto, a revolução que realmente teria sido necessária, isto é, a reforma do homem interior, com a construção das virtudes que educam as paixões desordenadas e eleva o homem para além da esfera dos seus interesses primitivos, nunca foi realmente empreendida nessas almas.
   

domingo, 7 de abril de 2013

Comentário ao artigo "Filosofia a Serviço da Fé" de Joel Pinheiro

No dia 1 de abril o editor da revista Dicta & Contradicta, Joel Pinheiro, publicou um post na página dessa revista um artigo intitulado Filosofia a Serviço da Fé. Várias das opiniões ali expressas merecem ser comentadas e meu intuito é oferecer aos interessados uma outra visão do tema. Os meus argumentos e observações não chegam perto de esgotar todas as possibilidades de esclarecimentos e ponderações que um intelectual bem formado na filosofia cristã poderia dar. Vou me ater, portanto, apenas aos pontos que mais me chamaram a atenção e deixar ainda de lado tantas outras considerações que me vieram à mente.

A primeira afirmação que gostaria de comentar é a seguinte:

(...) o ensino filosófico por eles praticado matava a filosofia nas almas dos melhores, ou seja, daqueles que não se satisfaziam simplesmente aceitando doutrinas, mas que queriam filosofar.

O ensino filosófico a que o autor se refere é o tomismo. Em primeiro lugar, é necessário entender o contexto e a finalidade do ensino da filosofia tomista. O contexto são os cursos de filosofia para a formação de sacerdotes e leigos cristãos. A finalidade era a formação básica nessa filosofia e não a formação de filósofos. 

A formação dos cristãos que recebem a missão de ensinar deve estar baseada em um sistema filosófico compatível com os ensinamentos sagrados. Isso é evidente, pois se não fosse assim, haveria uma contraposição entre o conhecimento filosófico e o conhecimento teológico. Tal contraposição é problemática pois, nesse caso, ou se admite que Deus é contraditório, tendo criado uma realidade inconsistente, o que é um absurdo, ou então se exclui alguns dos dois conhecimentos. 

Nesse sentido, a filosofia tomista foi sendo considerada pelo magistério, ao longo da história da Igreja, como um sistema plenamente compatível com a fé e ao mesmo tempo robusto do ponto de vista formal.  Portanto, isso explica o motivo por que tenha sido incentivado o seu ensino aos cristãos, sobretudo sacerdotes e leigos que receberiam a missão de formar outros fieis. 

Os que aceitavam esse sistema filosófico não necessariamente eram maus intelectuais e nem se pode afirmar categoricamente que eram maus filósofos. É possível que alguns desses tenham de fato se convencido do sistema tomista depois de tê-lo compreendido bem. Isso não significa a morte da filosofia. Significa apenas que esse sistema foi aceito por aqueles filósofos como uma resposta definitiva para muitos dos problemas filosóficos. É análogo ao que ocorre com a teoria Newtoniana entre os físicos. Dentro de seu escopo de aplicação, ela é bem aceita pela a maior parte deles, mas isso não significa a morte da física. A morte da física aconteceria, ao contrário, se os físicos deixassem de aprendê-la, substituindo-a por uma doutrina pessoal, com o risco quase certo de ser mais ineficiente do que a Newtoniana.

Além disso, a frase acima contradiz todos os exemplos que o próprio autor destaca. Todos eles, de acordo com o próprio autor, passaram pelo ensino dessa filosofia, e, ao contrário do que é afirmado na frase, não matou a filosofia nas suas almas. A inconsistência da frase se agravaria ainda mais se o autor  afirmasse explicitamente que os autores destacados eram os melhores e os únicos que não se satisfaziam aceitando doutrinas.  Embora isso não seja afirmado explicitamente, está subentendido.  

A segunda afirmação que merece ser comentada é a seguinte:

Tanto em Landim como em Kenny, o tomismo patrocinado pela Igreja apareceu como algo sem sentido, descolado de qualquer preocupação real e cujas respostas fáceis não convenciam.

Não está totalmente claro se essa frase significa apenas a opinião de Landim ou Kenny, ou se também expressa a opinião pessoal do autor. Qualquer que seja o caso, essa é uma afirmação forte que, ao meu ver, tem muitos problemas. 

Analisemos por partes.  O tomismo patrocinado pela Igreja apareceu como algo sem sentido. Em primeiro lugar, é difícil falar em um autêntico tomismo que não esteja estreitamente relacionado com a Igreja. São Tomás não era um filósofo imbuído do espírito de ofício que o autor do artigo parece ter como ideal. Um filósofo cristão, como São Tomás de Aquino, não é um livre pensador. Toda sua filosofia tinha um princípio vinculante que era a sua fé. 

O tomismo - que em sua integralidade só pode ser patrocinado pela Igreja - não apareceu como algo sem sentido, mas como algo repleto de sentido, que era proporcionar uma formação filosófica robusta e plenamente compatível com a fé cristã. Esse sentido tinha sim uma preocupação muito real, bem concreta, de fazer frente às doutrinas modernas claramente conflitantes com a teologia católica. E, ao contrário do que se afirma, as respostas da metafísica de São Tomás não são nada fáceis de entender. Uma vez bem entendidas, as pessoas imbuídas do mesmo espírito de São Tomás, isto é, tendo a fé como princípio vinculante do pensamento filosófico, costumam se convencer dos seus argumentos, ou pelos menos, admirá-las como boas soluções para problemas difíceis.

Pode ser que a crítica não seja exatamente a São Tomás, mas ao neotomismo. De qualquer forma, o neotomismo que é objeto de crítica do texto não é uma falsificação ou deformação do sistema de São Tomás, mesmo que as transposições didáticas dos manuais sempre tenham suas deficiências e limitações. 

A terceira frase que quero comentar é a seguinte:

Dado isso, pergunto-me se a postura filosófica, ou talvez antifilosófica, da Igreja Católica, não tenha contribuído para a perda da fé de tantos intelectuais que começaram seus estudos imbuídos de convicções religiosas ou ao menos inquietações espirituais.

Se de fato os intelectuais começaram seus estudos imbuídos de convicções religiosas, nenhuma postura filosófica ou antifilosófica poderia ter sido capaz de contribuir para a perda da fé. Pois, se de fato é uma convicção religiosa, toda  e qualquer filosofia que esses filósofos poderiam conceber teria que necessariamente incluir a possibilidade de existência do conteúdo da sua fé. Com esse espírito, ainda que viessem a se sentir insatisfeitos com o tomismo de manual, o talvez até mesmo com o tomismo perfeitamente compreendido, deixando bem claro as razões de sua insatisfação, muito poderiam contribuir com as suas soluções. Veja que, ainda que fossem inicialmente vistos com desconfiança, como o próprio São Tomás foi em seu tempo, isso não afetaria em nada a fé deles, se fosse de fato uma convicção. Seria uma fé bastante duvidável essa que se perde porque a maioria dos seus irmãos na fé não concordam com sua visão filosófica pessoal.

Ainda outra frase:

Ao mesmo tempo, os meios religiosos não fomentaram, nem de longe, o tipo de pensamento necessário ao amadurecimento filosófico; e agora correm atrás do prejuízo. Praticamente toda a elite intelectual do mundo vive alheia, quando não avessa, à ideia de religião. A culpa não foi da malvada modernidade antropocêntrica…    

Que os meios religiosos não tenham fomentado, nem de longe, o tipo de pensamento necessário ao amadurecimento filosófico, é uma afirmação categórica, sem nenhuma justificativa realmente objetiva. Cabe ao autor dessa frase definir claramente o que na sua visão é maturidade filosófica e depois mostrar claramente que os meios religiosos não o fomentaram. Sem isso, não tem nem o que discutir. Também gostaria de saber quem está correndo atrás do prejuízo, e o que o autor realmente quis dizer com essa frase dotada de uma imprecisão tão grande que me parece lamentável até para a linguagem informal.

As duas frases seguintes ainda deixam subentendido que a atitude antifilosófica da Igreja teria sido a culpada pelo fato de a elite intelectual do mundo viver alheia, quando não avessa, à idéia de religião. Em primeiro lugar, seria necessário restringir essa frase ao mundo ocidental; seria muito difícil aplicar essa frase - que já me parece uma generalização questionável - ao mundo islâmico, por exemplo.  Ora, se a modernidade de fato deu à luz uma infinidade de filosofias e disciplinas do conhecimento avessas à religião, como o marxismo, o darwinismo e a psicologia freudiana, é evidente que boa parte do mundo intelectual, que incorporou essa doutrina, será alheia, ou avessa, à religião.

Seria uma ingenuidade pensar que se a Igreja tivesse aderido oficialmente a essas tendências, então teria  protegido o mundo intelectual da aversão à religião. Pelo contrário, é evidente que teria trazido para o seu próprio seio a aversão a ela mesma. E foi de fato o que aconteceu quando essas doutrinas foram introduzidas, nos anos sessenta, e o tomismo recomendado por Leão XIII e Pio X abruptamente renegado ao total esquecimento, salvo poucas exceções.      

Por último, gostaria de fazer uma avaliação pessoal a respeito do sentido desse post do editor da Dicta. Acompanhei o primeiro ano dessa revista e sei bem que nessa época adotava-se uma linha editorial que tinha como critério a complementariedade entre fé e razão. Posso afirmar com certeza que essa era a visão de seu primeiro editor. 

Alguns de nós acreditamos ingenuamente que a Dicta seria uma revista com critério cristão. Por enquanto, ainda ficamos esperando por uma outra revista que tenha a coragem de se denominar, simplesmente, "filosofia cristã".

Adendo ao texto, de 16 de abril 2013
Após a publicação desse comentário, o Joel Pinheiro o respondeu no site da Dicta http://www.dicta.com.br/filosofia-a-servico-da-fe/. Mantenho todas as minhas opiniões no que diz respeito à filosofia cristá, mas admito que possa ter feito uma avaliação imprecisa sobre a relação entre a Dicta e o Opus Dei. Por isso, omiti o penúltimo parágrafo e modifiquei o último do texto original. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

Na periferia do coração

Existe em cada um de nós uma tendência de se colocar como o centro do universo, apoderando-se para si do papel de protagonista da história universal. Há aquele desejo de que toda a realidade se curvasse aos desejos pessoais, ao mesmo tempo que a imaginação cria suas fantasias baseadas na noção de que felicidade é viver em um mundo onde o querer pudesse sempre e a todo momento ser satisfeito. O dinheiro parece prometer essa façanha, tanto mais perfeitamente quanto maior a quantidade.

Como consequência, muitos atribuem o valor ao outro na proporção de sua capacidade de satisfazer os seus desejos. Quem faz e acontece são aqueles que tem dinheiro, fama, poder, beleza, poder de atração sexual, carisma etc. A lógica é simples, embora não evidente e nem mesmo patente para os homens.  Eis a lógica: viver é sentir prazer, vive mais quem sente mais prazer, sente mais prazer quem mais satisfaz a sua vontade. Portanto, essa é a pessoa que queremos ser: o mais capaz de satisfazer a vontade própria.

Isso explica a razão da admiração quase sobrenatural que os atores, modelos, atletas e outros ricaços despertam sobre a grande massa. Constrói-se a partir dessas figuras também mortais e frágeis, a imagem de seres plenos, perfeitos e felizes, detentores de um querer ilimitado e livres de toda privação e sofrimento. Como consequência, a massa se espelha neles e deseja alcançar o seu lugar entre os deuses do olimpo de uma miragem coletiva. Além de ver aí a possibilidade do prazer ilimitado e da concretização do seu protagonismo universal a que me referi inicialmente, ilude-se pensando que a fama, o poder e o dinheiro a fará amada por todos.

Sim, há também em todos nós, como consequência da ilusão do protagonismo universal, e talvez por muitos outros e mais misteriosos motivos, um forte desejo de ser amado por todos, de ser considerado especial, de desejar que o mundo inteiro se enchesse de pesar e preocupação pelos nossos problemas. Essa impressão ainda amplifica mais a admiração pelos famosos, pois dá sustento à falsa noção de que eles sim tem toda essa atenção do mundo. Mal percebem que, na verdade, essa admiração é apenas um efeito da projeção dos anseios da massa em um ídolo e que, na realidade, não há aí nem mesmo um pingo de amor. Um famoso não é amado, é, na melhor das hipótese, idolatrado.

Por outro lado, há o extremo oposto. Assim como todos quereriam para si essa posição entre falsos deuses mortais, todos tem um pavor imenso de ser contado entre os pobres, fracos, imperfeitos, feios, chatos, excluídos, desonrados, tristes, deprimidos e impopulares. Em geral, o ser humano evita se parecer ou estar entre os que são considerados a escória, ao passo que fazem de tudo para se parecer com a nata.

Em pequena escala, todos já tiveram a experiência desse importante fenômeno antropológico na escola durante a infância  Pode-se ir da mais alta posição de popularidade à mais baixa condição entre a escória. Isso mostra que de fato não há um fundamento objetivo na avaliação do indivíduo pelos demais, mas um efeito coletivo de medo e desejo que leva à divinização de alguns e à crucifixão de outros.

O medo de estar entre a escória, cria um mecanismo de atribuição de toda imperfeição a um ou poucos indivíduos. Esses são isolados e ridicularizados. Isolados, pois a amizade com eles pode fazer com que o amigo seja contado entre eles. Ridicularizados, pois ao feri-los, pretende-se reforçar aos demais que você não é um deles. E são jogados para a periferia do coração. E sofrem o pior que alguém pode sofrer, o desamor coletivo, injusto, na infância.

Como consequência, muitas pessoas, que sempre tem o seu lado bom, que sempre tem algo precioso para dar, que sempre tem algo de único, valioso, sofrem uma injustiça de cortar o coração. Foi o que aconteceu com Cristo. A lógica humana queria o outro modelo, do poder, da fama e do dinheiro, imaginando que Deus, se fosse de fato Deus, o demonstraria através de um enviado com esses atributos construídos por uma humanidade adoentada pelas suas paixões e seu egoísmo.

Mas não, enviou alguém que, no momento do calvário,

"Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele. Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas." (Is 53, 3-5)

Nessa vida, vi pessoas passarem por algo parecido, até mesmo na infância. Dá-me grande consolo saber que o próprio Deus se compadeceu desses sofrimentos e quis para si o pior de todos. E fica tão claro, tão claro, o poder purificador do sofrimento. Quem sofre injustiça, muda para melhor, consegue sair da dimensão do egoísmo e aprende a importância de amar. Existe uma enorme beleza no sofrimento, mas são tão poucos os que conseguem ver isso.

Não é possível explicar, descrever, a linguagem não é capaz de transmitir o que apenas o coração pode entender. O nosso entendimento é muitas vezes enganado pela crítica de que amar o sofrimento é masoquismo. Na realidade, todos passamos mesmo pelo sofrimento em algum momento da vida; o mundo está separado entre os que se rebelam, não se conformam, e culpam a Deus por um maior bem que lhes quer dar e os que entendem, no íntimo do seu coração, a transformação maravilhosa que Ele opera nos que confiam, apesar do sofrimento.  

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Adendo ao post "Ocultamento, informação e obediência"

No meu último post "Ocultamento, informação e obediência", toquei no tema do sigilo judicial nos processos institucionais para a apuração de delitos cometidos por seus membros. Tinha em vista em particular o caso da Igreja. Alguns leitores chamaram a atenção ao fato de que a revelação do mal fere não somente a instituição como um todo, mas também a de cada um dos envolvidos, às vezes não necessariamente somente os culpados.

Para resolver o problema da conveniência da publicação da identidade dos envolvidos no processo, é necessário ter em conta vários fatores. Em primeiro lugar, deve-se ter em conta as características do poder que julga o processo. Também é necessário avaliar a conveniência da publicação tendo em vista a utilidade da informação para o público, ponderando os danos potenciais da ocultação dessa informação e os danos reais aos interessados no caso de publicação. Além disso, deve-se ter em conta o direito à preservação da intimidade das vítimas, mais grave no caso de menores, e a proporção entre o dano cometido pelo ofensor e o dano que ele sofrerá em decorrência da publicação.

A um julgamento que ocorre em âmbito civil não se aplicam os mesmos critérios de um julgamento eclesial. Nesse último caso, é costume preservar o sigilo judicial ao longo de todo o processo envolvendo um delito grave, como é o caso do delito da pedofilia cometida por ministros ordenados. Uma vez concluído o julgamento, caso se verifiquem verdadeiras as acusações, é imposta uma pena canônica, que pode variar desde a suspensão do direito de celebrar a Missa e ouvir Confissões e a imposição de uma vida de silêncio e oração, até, em casos mais graves, à demissão definitiva do estado clerical. Não é dada uma sentença formal, mas fica claro pela natureza das penas qual foi o resultado do processo.   

Em alguns países de língua inglesa e na França, a lei exige que o bispo comunique às autoridades civis, caso fique sabendo, fora do sacramento da Comunhão, de algum caso de pedofilia. Nos outros casos, a Igreja entende que seria muito pesado exigir do bispo que denunciasse um padre sob sua jurisdição, pois seria um ato tão difícil quanto o de "denunciar o próprio filho". Para contornar essa dificuldade, os bispos são orientados pela Congregação da Doutrina da Fé a acolher a família da vítima e orientá-la a fazer uma denúncia às autoridades civis.

A minha opinião pessoal sobre a matéria é que em caso de delito grave, no âmbito da justiça comum, não há razão suficiente para ocultar a identidade do réu do processo. Caso o processo venha a se tornar de amplo conhecimento público, não é incomum que o réu e as pessoas próximas a ele possam vir a sofrer retaliações ou, pelo menos, a exclusão social. Mesmo em uma sociedade plenamente consciente do princípio da presunção da inocência, a dúvida quanto à verdade do caso desestabiliza as relações de confiança do réu com a sociedade. Apesar disso, entendo que a tutela do bem comum prevalece sobre o interesse de um indivíduo. Logicamente, devido às sérias consequências sobre o acusado pelo simples fato de ser acusado em público, a lei deve prever uma punição muito severa nos casos de falsa acusação, em proporção à gravidade da acusação. 

Respondo à crítica de que esse ponto de vista faz o coletivo prevalecer sobre a dignidade da pessoa. De fato, a dignidade da pessoa pode ser ferida pela desconfiança e retaliação injusta. No entanto, a dignidade de muitas pessoas fica seriamente desprotegida quando é deliberadamente ocultada a informação de que um indivíduo pode, com alguma chance, representar um perigo para a sociedade. Quando não há diferença no qualitativo, prevalece a diferença no quantitativo. Em concreto, fica fácil entender essa idéia no caso de um pedófilo. O ocultamento da informação a respeito do seu vício, ainda que apenas suspeito, pode permitir a um verdadeiro infrator continuar fazendo outras vítimas. Nesse caso, a gravidade do dano que pode ser causado a novas vítimas justifica,  sem sombra de dúvida, o dano que pode ser causado a um réu inocente pela publicação das falsas acusações. 

No caso dos julgamentos em âmbito eclesial, entendo que seja de fato melhor conservar o sigilo judicial em todos os casos de delito grave. Isso porque, ao contrário da justiça comum, a Igreja que julga também deve ter uma relação maternal com o réu, por ser um fiel e um servidor. Além disso, a Igreja não tem meios, atualmente, para compensar o inocente desonrado com uma condenação severa da falsa acusação. No entanto, a partir do momento em que ocorre a acusação, seria prudente e obrigatório, da parte do bispo, tomar todas as atitudes cabíveis para afastar o réu de trabalhos pastorais que o possa colocar em ocasião de cometer novas transgressões. Ao mesmo tempo, o bispo deve sempre seguir a recomendação anteriormente citada da Congregação da Doutrina da Fé  
Por último, no caso de menores ofendidos, o sigilo judicial com relação a sua identidade deve ser respeitado em todos os casos. 

Referências
As informações sobre os julgamento de delitos graves na Igreja extrai de uma entrevista de um promotor de justiça da Congregação da Doutrina da Fé, publicada no site http://www.ewtn.com/vnews/getstory.asp?number=101031.   

Observações
Não sou experto nem em direito comum nem em direito canónico. O conteúdo desse texto expressa uma opinião pessoal e não a posição oficial da Igreja ou de outra instituição. Caso alguém identifique algum ponto que necessite de retificação, agradeceria a correção.

 
 

    

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ocultamento, informação e obediência


Alguns pessoas dentro da Igreja querem passar a impressão aos fiéis leigos de que tudo ali dentro funciona em perfeita ordem e harmonia. Às vezes se justificam dizendo que, assim como as crianças pequenas de uma família não devem ficar sabendo das ameaças e crises familiares, para não ter a sua felicidade pueril destroçada, também os fiéis comuns devem ser poupados das más notícias.

A prudência comum mostra que de fato é melhor não impor às crianças o fardo do conhecimento das realidades duras da vida. Mas a comparação com os fiéis da Igreja não é válida, pois já não são mais crianças. Se por um lado é natural que assuntos internos relativos à administração da Igreja não precisem ser de conhecimento público, devem pelo menos ser de tal modo conduzidos que, caso fosse levantada alguma suspeita, todas as atividades até então conduzidas em discrição pudessem ser integralmente reveladas, sem receio algum de que alguma irregularidade fosse encontrada.  

Na realidade, bem sabemos que em todas as realidades temporais e também nas eclesiais, existem enormes faltas à lei de Deus e à moral cristã. Logicamente, quando há falta, quase sempre há ocultamento, pelo simples fato de que as pessoas envolvidas não querem ser punidas e desejam continuar se beneficiando das iniquidades que praticam em segredo. Por outro lado, há também o ocultamento dos escândalos promovido com o objetivo de salvaguardar a reputação da corporação que sairá inteiramente lesada pela má conduta de poucos.

Esse último tipo de ocultamento é mais compreensível do ponto de vista ético, e muitas vezes é praticado por pessoas boas, que tem a intenção de proteger a integridade da corporação. Isso acontece na Igreja. Essas pessoas estão na realidade entre os que mais sentem indignação pela má conduta alheia, pois, ao colocar em risco a reputação da instituição, ela simultaneamente fere a reputação e boa fama daqueles que se entregaram sinceramente por ela.

Não é um dilema de fácil solução. Se, por um lado, a revelação do mal fere a instituição como um todo, por outro lado, o ocultamento permite que a má conduta seja perpetuada, se fortaleça e acabe destroçando a vida de mais e mais pessoas inocentes. Uma possível solução para o problema consiste em aplicar severas penas em âmbito interno, conservando em segredo do mundo exterior todo o processo e suas causas.

Em alguns casos essa solução pode ser aceitável, mas em outros a revelação da informação pode ser necessária para que as pessoas inocentes possam se proteger. Além disso, se por um lado a instituição pode perder sua boa fama quando um escândalo vai a público, por outro lado a exemplaridade de um julgamento  público e transparente tende a desestimular a ação dos corruptores, ao mesmo tempo que conquista a confiança dos homens de boa vontade.

Cristo bem ensinou que é necessário ser manso como as pombas, mas esperto como as serpentes. Os leigos não podem se comportar como crianças, nem mesmo os jovens. Não podem ser ingênuos, pois quem é ingênuo corre maior perigo. Há bons e maus pastores dentro da Igreja. Um certo grau de desconfiança com relação às pessoas e instituições da Igreja não pode ser reprovada como uma atitude de desconfiança com relação a Deus, pois o homem é falível. Maldito o homem que confiou no homem!  

Algumas raposas e lobos espertos utilizam um discurso bastante capcioso para conquistar à força a confiança dos fiéis. Esse discurso, podendo apresentar as mais diversas e rebuscadas formulações, consiste em persuadir o outro de que é um representante de Deus e que tudo o que diz e manda é a própria vontade divina e ainda que desconfiar disso é o mesmo que desconfiar de Deus. De fato, a autoridade da Igreja, representada pelos seus ministros (padres, bispos), deve ser respeitada pelos fiéis como procedente de Deus. Mas essa autoridade não é incondicional; como os homens são falíveis, sua autoridade deve passar pelo crivo da razão iluminada pelos mandamentos. Além disso, o escopo da sua autoridade se restringe exclusivamente ao campo espiritual.

Esse critério é válido para um leigo, que, não estando sob os vínculos do voto de obediência, tem resguardada a integridade da sua auto-determinação dentro dos limites da lei de Deus. Um monge ou um frei, pelo voto de obediência, entrega sua auto-determinação e se dispõe a obedecer a tudo o que não fere a lei de Deus. Um monge precisa da autorização do abade para sair do monastério, mas logicamente um leigo comum não precisa de autorização eclesiástica para deixar sua casa ou até se mudar de país!

Um tradicional critério sobre a obediência, diz que ela é virtuosa apenas quando exercida em razão da autoridade de quem manda e não das suas qualidades. Isso é verdadeiro, mas também é verdadeiro afirmar que a obediência só pode ser virtuosa quando não atenta contra a consciência formada nos mandamentos de Deus. Tomar em sentido amplo e irrestrito uma afirmação do tipo "quem obedece nunca erra" pode levar a erros monstruosos. Erra sim quem comete um crime a mando de um representante eclesiástico. A intenção dessa frase é transmitir a idéia de que agir em obediência a um autêntico representante de Deus, no âmbito sob cuja autoridade se está vinculado, sempre é proveitoso, mesmo que apenas do ponto de vista espiritual.

Há muitos fiéis dentro da Igreja que foram duramente traídos pela infidelidade de seus pastores. Penso na já bem conhecida história do fundador de um famoso movimento contemporâneo, que exigia uma rigorosa obediência dos colaboradores mais próximos, que era muito hábil em conseguir doações de fiéis ricos, que tentou sabotar outros movimentos da Igreja, e, que depois de tanto tempo praticando suas iniquidades, ao fim da vida, teve todas suas más obras reveladas ao grande público, causando grande dano à instituição que fundou, formada por pessoas muito bem intencionadas. Por isso, não sejamos mais ingênuos como as crianças. E, para isso, não podemos ter medo de buscar a informação, pois a informação verdadeira é recurso imprescindível para a aplicação acertada de todo julgamento prudencial.    

***

A recente notícia da renúncia do papa me abalou. Tinha e continuo tendo total confiança em Bento XVI. A razão do meu desconforto foi a perda da segurança que esse papa corajoso e fiel me dava. A segurança de que a Igreja estava sendo protegida dos lobos que trabalham dia e noite para envenená-la através da corrupção moral, doutrinal e física do seu corpo. Mas, depois de analisar os fatos, e ponderá-los, entendi que a renúncia de Bento XVI foi necessária em um momento em que talvez a sua debilidade física e mental já não permitisse mais o enfrentamento dos lobos de dentro e de fora. Tenho total confiança de que o próximo papa deve continuar esse serviço corajoso. O papa Bento XVI foi o papa da Eucaristia, aquele que firmou a Igreja nesse pilar. Deus queira que o próximo seja aquele a firmar a Igreja no pilar de Nossa Senhora. Apoiados nesses dois pilares, a Igreja resistirá e vencerá os seus inimigos, cumprindo-se o sonho profético de Dom Bosco.            


          


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Lógica Genética

Uma idéia em circulação nos dias de hoje ensina que as ações de todas as pessoas tem uma finalidade imposta pela necessidade de reprodução e conservação da própria vida. Não há exceções. Essas necessidades são impulsos irrefreáveis, que derivam da própria constituição biológica da espécie animal homo sapiens.

Utilizando esse princípio e algumas hipóteses ad hoc, não há nenhum fenômeno humano que não possa ser facilmente explicado. A receita é bem simples. Primeiro, crie uma suposição sobre o comportamento do ser humano primitivo claramente associado a um desses impulsos. Depois, simplesmente relacione o comportamento atual com aquele comportamento primitivo por meio de um argumento heurístico plausível. Se o raciocínio for bem feito, a conclusão é capaz de se impor como se tivesse sido enunciado por uma testemunha imortal e onisciente.  

Há inúmeros exemplos. Por que o ser humano sorri? Simples; o sorriso era um mecanismo que o homem primitivo, que ainda não dominava a linguagem falada, utilizava para comunicar a sua submissão ao indivíduo mais forte ou a abertura à relação sexual com o indivíduo do sexo oposto. Com o tempo, o sorriso foi sendo incorporado às percepções inatas como um sinal de que o outro não quer o confronto ou de que o outro quer a aproximação sexual. Assim, o cérebro "aprendeu" a tranquilizar-se ao ver um sorriso.

Por que razão, mesmo depois de tanta tentativa de incutir na sociedade os pressupostos do movimento feminista, a mulheres na maioria dos casos dão prioridades em sua escolha a sujeitos fortes, ricos e poderosos  e os homens maior prioridade às mulheres bonitas? Simples também. Para a mulher primitiva, em um ambiente de brutalidade e ameaça constante, era-lhe vantajoso encontrar um homem capaz de proteger a ela e a sua prole (força e poder) e lhes dar sustento (riqueza). Para o homem, a vantagem seria maior quanto mais fértil fosse a mulher e menor fosse a sua carga de defeitos genéticos. A própria evolução ensinou o cérebro do homem (e também o da mulher) a reconhecer essas qualidades e a disparar o desejo sexual no momento oportuno, gerando uma fixação (ou o que nós chamamos de apaixonamento).

O mais curioso desses explicações é a sua capacidade de trivializar impiedosamente toda arte, toda poesia e toda suposta  importância que o ser humano costuma atribuir às suas paixões. Em outras palavras, é como se tais explicações estivessem sempre a escarnecer as pobres criaturas, dizendo: "ei, você aí, que pensa que o mundo se curva às suas paixões, que são as mais intensas, as mais importantes, e que são o sentido da sua vida, não vê que isso não é nada,  que você é pó, que todos os outros que são pó como você sentem o mesmo e que incuti em ti essas paixões para que com a sua tolice não se deixe perecer facilmente e nem se desinteresse da reprodução da sua espécie?".    

Esse processo natural de moldagem da espécie pode ser observada em todas as espécies animais. O surpreendente a respeito do ser humano é que ele tenha sido capaz de adquirir consciência disso. Historicamente, essa conscientização foi expressa de muitas formas. A linguagem é imperfeita, mas a intuição é capaz de perceber a descrição da mesma realidade na aparente diversidade de plataformas culturais. Ao tomar consciência da existência desses processos inatos, que influem na origem das aparentes vontades pessoais, o homem consciente encontrou-se diante da possibilidade de simplesmente dizer não aos impulsos de origem animal. Mas é de fato surpreendente, pois esses desejos não são vãos, se levarmos em conta que foram precisamente eles que garantiram a perpetuação da espécie e o saldo positivo no processo evolutivo. Estaria esse ser humano se revoltando contra os mecanismos que o geraram, obstruindo por rebeldia e desejo de auto-afirmação a normalidade do processo evolutivo?

Alguns pensadores modernos acreditam que na maior parte de sua existência, o ser humano vivia em completa entrega aos seus impulsos de origem animal. Acrescentaria que ainda hoje a maior parte das pessoas vive assim, pois o conhecimento da verdadeira motivação de suas ações exige a difícil habilidade de sair de si para buscar a realidade a respeito da própria natureza. Esse é precisamente o primeiro passo do filósofo. Um passo que terá conseqüências drásticas no seu modo de viver e sentir. Nietzche culpava a racionalidade desenvolvida pelos filósofos gregos pelo que considerou uma covarde recusa de viver de acordo com a sabedoria da própria natureza. De qualquer modo, uma vez adquirido o conhecimento a respeito de si, um passo irreversível foi dado, e nenhuma escolha na vida poderá ser realizada sem que se desconfie das verdadeiras forças que a impulsiona.
         
As respostas materialistas para o problema da consciência de si sempre vai esbarrar em alguma dificuldade. Uma resposta materialista tem que dar uma volta em torno de si mesma para encontrar um modo de explicar como a consciência das leis evolutivas naturais beneficia um indivíduo que simplesmente se recusa a seguí-las. Uma saída para o problema é dizer que a atitude dos indivíduos que agem desse modo é patológica. E então afirmar que um homem que resolveu deixar suas riquezas, seu poder e sua potencialidade sexual por desejar algo além dos impulsos naturais é um doente, um desvio acidental no trajeto evolutivo que deve ser eliminado. Ou um fraco e covarde, que teve medo de perecer na luta por riqueza e poder. De qualquer modo, alguém a ser eliminado.  

Seguindo esse raciocínio, é necessária a conclusão de que Cristo e sua doutrina têm que ser eliminados. É por isso que tanto Nietzsche quanto os evolucionistas dos nossos dias, têm se empenhado em destruir o cristianismo. Mas essa perseguição cai por terra e revela uma face verdadeiramente diabólica se de fato existe uma realidade que transcende os prazeres e bens terrenos, pela qual valha à pena abandonar as promessas de felicidade mundana.

Bem, como já mostramos, esses bens e prazeres da terra nada mais são do que os recursos que garantem a sobrevivência do indivíduo e sua perpetuação. Esses desejo não é próprio do indivíduo, isto é, ninguém pode efetivamente dizer eu quero ser rico, ter poder e uma mulher/homem do meu gosto, mas deve dizer eu herdei esses desejos, que são a garantia natural de que conservarei a minha vida e a transmitirei. Não são meus desejos, são os desejos da minha espécie. Resta então encontrar qual é o verdadeiro desejo do ser humano.    

Se o ser humano fosse de fato apenas um animal, não existiria a vontade própria do indivíduo. É o que dizem os evolucionistas modernos, conduzidos pela aplicação logicamente rigorosa de seus princípios. Se Sartre chegou à conclusão de que o homem é uma paixão inútil, todos os evolucionistas deveriam chegar à conclusão de que as paixões são úteis para a espécie. Mas nesse caso, resta um problema a ser resolvido, que é o problema do próprio evolucionista que chegou à sua conclusão e se pergunta o que fazer então.

Para ser rigorosamente coerente com os seus próprios princípios, o melhor a fazer é entregar-se à realização das paixões. Nessa perspectiva, a felicidade é um artifício natural alcançada apenas pelos homens que realizam os impulsos naturais. Mas não pensemos que entregar-se às paixões significa passar o resto da vida comendo (entenda-se no duplo sentido)  e bebendo.  Significa utilizar toda a força intelectual e física para obter segurança, riqueza, poder e filhos. O bem e o mal não estão em discussão; o que importa é obter segurança, riqueza, poder e filhos, qualquer que seja o método, contanto que o método não venha a destruir a própria vida. Não há espaço para discutir se uma ação é intrinsecamente boa ou má; é boa ou má na medida em que a ação possa construir ou destruir aqueles valores.    

Mas esse raciocínio cairia por terra se o pressuposto de que o ser humano é apenas um animal não fosse válido. De fato, o ser humano tem uma natureza espiritual, que é a única e verdadeira explicação para o fato de conseguir adquirir consciência da sua condição animal. Essa consciência da própria condição não é de modo algum um acidente nocivo à evolução, como sugeri anteriormente, mas um impulso interior que resgata o indivíduo de aspirações meramente animais para as aspirações verdadeiramente humanas. Toda a evolução existiu tendo em vista a formação do ser humano, uma criatura animal e espiritual, sujeita às leis da evolução, mas também às leis da natureza espiritual, imortal e indestrutível. Essa natureza espiritual aspira o que lhe é próprio, assim como a animal, mas suas aspirações são diferentes. A animal aspira ao que é, como ela, perecível e passageira, a espiritual aspira ao que é, como ela, eterna e permanente.

Alguém poderia exigir nesse ponto provas e evidências da existência dessa natureza espiritual. São provas e evidências análogas a que qualquer um teria para provar que o céu é azul. A evidência é a história humana, compilada nas manifestações de consciência da realidade espiritual presentes em todas as culturas. Os evolucionistas buscam todas as causas materiais possíveis para essas manifestações, tudo para não admitir a realidade espiritual. Não é difícil encontrar explicações tampão. Para isso existe até receita pronta.

Demonstrar que a realidade espiritual é verdadeira é uma tarefa tão impossível quanto demonstrar que tudo o que experienciamos é real. Alguém pode acreditar que a realidade espiritual não existe, mas isso é tão absurdo quanto acreditar que a vida é um sonho. A lógica genética tem sido utilizada como o método padrão para excluir do campo intelectual qualquer referência à transcendência da realidade humana, em uma tentativa pretensiosamente científica de dar respostas definitivas para fatos que ela está muito longe de explicar. Se de fato alguma de suas explicações tem fornecido alguma luz sobre a origem do comportamento humano, sua maior contribuição foi eliminar o que ainda restava de romantismo e idealismo no modo de ver as paixões, substituindo-os por uma visão objetiva e trivial do que antes parecia ter uma origem nobre. No entanto, além de negar a natureza espiritual, esse evolucionismo também nega a existência de qualquer sentido transcendente no universo e no homem.

Não é nada fácil explicar como foi possível que processos totalmente desprovidos de sentido tenham sido capazes de produzir indivíduos inteligentes desejosos de encontrar um sentido para a sua existência. Há dois grupos de explicações possíveis; o primeiro simplesmente admite a existência de uma realidade transcendente; o segundo, sendo materialista, não tem uma resposta simples para a questão. Entre duas explicações para um mesmo fenômeno, na impossibilidade de aferir diretamente as hipóteses, a ciência sempre optou pela mais simples. E, para esse caso, é bem claro qual das duas hipóteses é a mais simples.                        

domingo, 23 de dezembro de 2012

Um Tempo de Luz e Esperança

Qualquer um que resolva olhar friamente a realidade que o cerca, será obrigado a reconhecer que agimos como se o essencial para o nosso sucesso fosse o dinheiro, o poder e o sexo. Nossas grandes miragens de felicidade sempre envolvem esses três elementos. De fato, são esses os requisitos necessários para a satisfação dos apetites. Se alguém os tivesse sem limites, então também não haveria limites para a satisfação nem tampouco margem para o sofrimento.

Muitos já devem ter imaginado um mundo onde todos os apetites pudessem ser satisfeitos assim que brotassem. E alguns devem ter chegado à conclusão de que, se esse lugar existisse, então aí teria que ser o paraíso. E outros mais talvez até tenham chegado a pensar que, se fossem eles mesmos Deus, fariam um Universo para satisfazer os apetites das criaturas com delícias sem fim. E porque o universo não é assim, outros ainda tem  chegado à conclusão de que Deus não passa de um delírio.

Mas não é um delírio. Quando Deus veio à terra, prescindiu da segurança que o dinheiro e o poder podem dar. Nasceu em uma família pobre e impotente aos olhos do mundo. Desse modo, Deus Pai ensinou através dos acontecimentos regidos pela sua providência aquilo que o seu Filho viria a ensinar através de atos e palavra.

Agora é a hora de dar uma pequena pausa às ocupações para contemplar o menino-Deus. Ele tem algo muito importante para nos dizer e bem sabemos que precisamos ouvi-lo. Se Ele prescindiu desses bens cuja falta nos angustia, talvez tenha sido para nos ensinar que não é isso o que realmente importa. Há algo maior, além desse mundo e maior do que ele, que não vemos, mas existe. Esse menino que nasceu pobre veio trazer o testemunho desse outro mundo. Se tivesse chegado ao mundo dentro do mais rico palácio e no mais poderoso reinado, não poderia ser Deus. Mas nasceu pobre, em sinal claro aos corações dos homens de boa vontade, que se enchem de esperança ao contemplar a infinita bondade de nosso Deus.