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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Fake news na ciência: o caso Bohannon

A grande mídia frequentemente veicula opiniões em favor da ciência contra o obscurantismo ameaçador produzido por fantasmas que ela mesmo inventa para rotular seus inimigos. Na realidade, a dinâmica da ciência é muito complexa de modo que pouquíssimos jornalistas estão realmente habilitados para analisar a qualidade e a credibilidade de resultados científicos.

Prova disso foi o famoso estudo fabricado pelo biólogo e jornalista científico John Bohannon em 2013 sobre os efeitos da dieta baseada em chocolate amargo. Sua idéia foi fabricar um estudo enviesado que corroborasse a tese frequentemente difundida por gurus da nutrição de que chocolate amargo faz bem para saúde. Com isso, ele queria verificar a extensão da difusão dos resultados pela mídia e testar a eficácia dos mecanismos de verificação de fatos e versões.

Com um pequeno orçamento à sua disposição, Bohannon conseguiu alguns voluntários para sua pesquisa. Com uma pequena amostra de quinze pessoas, 11 mulheres e 4 homens, três grupos de cinco pessoas foram formados; a um dos grupos foi dada a instrução de seguir uma dieta de baixo nível de carboídrato; ao segundo grupo foi dada a mesma diretiva mas com o acréscimo de 42 g de chocolate amargo na dieta diária; ao terceiro grupo, chamado controle, não foi dada nenhuma instrução quanto à dieta.

Todos os participantes tiveram que responder antes de iniciar o programa a um questionário para verificar se as dietas não poderiam lhes ser prejudiciais à saúde. O tempo de duração da dieta seria de 21 dias, durante os quais os participantes teriam que se pesar todos os dias ao menos uma vez, inclusive os do grupo controle. Ao término desse período, os participantes fizeram alguns exames de sangue e responderam a um novo questionário, perguntando, por exemplo, sobre a qualidade do sono durante a realização do programa.

Com a assistência de um estatístico conhecido seu, Bohannon estabeleceu uma metodologia calibrada para produzir falsos positivos. De acordo com essa metodologia, um total de 18 variáveis foram testadas, entre elas o peso ao final do programa, velocidade de perda de peso, qualidade do sono, bem estar, concentração de colesterol e sódio no sangue etc. Chegaram à conclusão de que o grupo da dieta com chocolate amargo perdeu peso a uma velocidade 10% maior. Além de essa diferença ter sido estatisticamente significativa, este grupo também apresentou menores níveis de colesterol e relatou maiores níveis de bem-estar.

Esses resultados caíram como uma luva em um contexto do jornalismo em que notícias sobre fatos nutricionais dão imensa audiência. Bohannon contou com a ajuda de uma jornalista para produzir uma matéria simplificada e pictórica do estudo, que acabou sendo utilizada como fonte primária dos jornais e agência de notícias que passaram a difundir os resultados. Muitos acreditaram no estudo e me lembro que na época ele chegou a ser difundido no Brasil.

Mas por que o resultado de Bohannon não merece credibilidade? De fato, o que pode ser afirmado é que com grande probabilidade o estudo dele produziu um falso positivo, afinal de contas, seu método foi desenhado para aumentar a chance de produzi-lo. Como foram testadas muitas variáveis em uma amostra pequena, existia uma probabilidade não desprezível de que uma variação aleatória produzisse diferenças estatisticamente significativas. Sempre que médias de certos parâmetros - como o peso e nível de colesterol - de grupos distintos são comparadas, é necessário estabelecer um certo nível de significância em testes de hipótese. Tipicamente, o nível de significância adotado é de 5%, ou seja, existe uma chance em 20 de que um determinado teste resulte em falso positivo. Como foram realizados 18 testes no total, já que foram estabelecidos 18 parâmetros, a chance de obter um falso positivo pode ser calculada em 60%. O próprio Bohannon disse que tiveram sorte de que o provável falso positivo tenha ocorrido em parâmetros de maior relevância, como a velocidade da perda de peso.

Se Bohannon não tivesse admitido a farsa, certamente cedo ou tarde a comunidade científica teria percebido o engodo. Mas este processo é lento, deixando tempo suficiente para que resultados mirabolantes sejam difundidos pela grande mídia. Durante a fase de maior divulgação dos resultados pela grande mídia, Bohannon foi contatado por grandes agências de notícias, e também pelos seus investigadores. No entanto, a verificação limitava-se a assegurar a existência de Bohannon, ou de que era ele mesmo quem estava respondendo às perguntas. Não houve nenhum esforço de fazer uma revisão mais profunda do estudo ou de consulta aos pares. 

Portanto, nós temos todo o direito e dever de questionar e duvidar das afirmações da grande mídia. O próprio Bohannon reconhece que foi possível enxergar alguma luz de esperança ao ler os comentários críticos e bem fundamentados de leitores dos sites em que os resultados fabricados foram anunciados.

Não é sem razão que muitos acusam a grande mídia de produzir "fake news". Se neste caso se verificou tamanha displicência e preguiça, o que esperar da cobertura sobre política e economia, por exemplo? Há muito tempo que guardo fortes reservas quanto às opiniões veiculadas na grande mídia em geral. Muitas vezes verifico facilmente a tendenciosidade que beira à pura militância mal disfarçada. Haveria ainda muito mais a afirmar sobre os maus hábitos da grande mídia. Por enquanto me limito a comemorar a sua gradual perda de influência e credibilidade, esperançoso de que algum dia todos estejam vacinados contra os seus vícios. 



sábado, 8 de abril de 2017

Um alquimista no Acre

Ontem, fiquei sabendo por meio de um telejornal sobre o desaparecimento de um jovem de 24 anos de idade, no estado do Acre. Dentre os muitos desaparecimentos que ocorrem por ano no Brasil, o que surpreende nesse são as circunstâncias bastante peculiares. Bruno Borges, o desaparecido, transformou seu quarto em um livro aberto, tendo ilustrado as paredes, teto e chão com diagramas e códigos, além de alguns quadros com símbolos e figuras misteriosas e uma reprodução fac-símile da estátua de Giordano Bruno. Sobre a mesa, foram deixados 14 volumes de sua obra, todos em escrita criptografada.

Os pais não sabem do paradeiro do filho e demonstram consternação e sofrimento pelo ocorrido. Ao mesmo tempo, dão um testemunho positivo a respeito de seu comportamento ao longo da vida, por meio de muitos bons exemplos. Além disso, tratam com respeito e admiração a obra do filho, e acham que ela merece receber atenção e ser conhecida por estarem seguros de que contém uma mensagem boa e talvez nova para a humanidade.

Tem circulado nas redes sociais vídeos e opiniões sobre o assunto. O interesse de muitos foi despertado e, se o desaparecimento foi desejado por Bruno para chamar a atenção para a sua obra, certamente ele a conseguiu.

Diante dessa situação, é possível fazer muitas perguntas, entre elas, podemos destacar: há alguma mensagem nova nesses escritos?

Não será possível responder essa pergunta sem antes ler os livros. Mesmo assim, podemos partir da análise de uma página decriptografada para chegar a algumas conclusões. A análise dos símbolos e pinturas merece uma análise à parte, que talvez tratemos em um post futuro.

Reproduzo abaixo o texto decriptografado:


"Caminho difícil

Por milhares de anos o ser humano vem tentando encontrar respostas para perguntas como 'qual o sentido da vida'? A filosofia que, ao que tudo indica, parece ter se iniciado com Tales de Mileto em meados de 700 a.C. visa encontrar vestígios de perguntas sem respostas. A pesquisa profunda pela verdade absoluta advém da filosofia, e quando falamos a respeito de caminhos fáceis ou difíceis estamos nos referindo a esse tipo de teorema.

É fácil aceitar o que desde criança te ensinaram que é errado. Difícil é, quando adulto, entender que te ensinaram errado o que desde criança você suspeitou que fosse correto. Em outras palavras, se você se enquadra em algum cujos estímulos do meio lhe determinaram certo comportamento, fazendo com que estivesse à mercê de crenças já providas e bem estabelecidas em dogmas e rituais, com uma massa concentrada de pessoas nela; ou permitindo-o ficar no conformismo, aceitando o conceito de felicidade e de sentido da vida embutido pela mídia e pela sociedade, então claramente você faz parte do caminho fácil para a busca da verdade absoluta.

Acaso se enquadre na segunda opção, ou seja, aquele que suspeitava de todo conjunto de crenças que lhe foi enraizado, então este tem tudo para ser um investigador da veracidade nas coisas ao seu redor, entrando em um caminho mais complicado, no qual uma minoria se arrisca ou enfrenta com bravura."

Este texto parece ser introdutório e por esse mesmo motivo ajuda a compreender um pouco do sentido e objetivos do que vem a seguir (que nós ainda desconhecemos). Pelo título, "Caminho difícil", podemos entender o sentido do todo, como veremos a seguir. Qual é o caminho difícil a que o autor se refere?

No primeiro parágrafo, o autor afirma que convem à filosofia buscar a resposta para as questões mais fundamentais, como por exemplo, 'qual o sentido da vida?'. Isto é algo consensual, embora haja um enorme debate a respeito da possibilidade da filosofia, com seus métodos, ser capaz de dar uma resposta para elas. Há também hoje em dia um enorme debate, que divide opiniões, sobre o conceito de verdade ou verdade absoluta. Em todo caso, parece que o autor acredita na existência de uma verdade, isto é, uma resposta verdadeira para as perguntas da filosofia, embora o caminho para obtê-las seja difícil. A frase "quando falamos a respeito de caminhos fáceis ou difíceis estamos nos referindo a esse tipo de teorema" é obscura, pois filosofia não é um teorema, e o texto em nenhum momento fez referência a um teorema na acepção rigorosa da palavra, que se aplica ao campo da matemática apenas.

No segundo parágrafo, o autor manifesta sua opinião de que nos são dados ensinamentos errados na infância em oposição à intuição sobre a verdade nas crianças. O autor não dá nenhum exemplo aqui. Menciona também as respostas oferecidas pela sociedade e sobre os que se conformam e os que não se conformam com elas. Na opinião do autor, apenas uma minoria vai buscar suas próprias respostas, entre as quais ele se inclui. 
 
No último parágrafo, o autor instiga a desconfiança a respeito de tudo o que foi ensinado, para que seja empreendida uma investigação pessoal a respeito da veracidade das coisas, caminho que ele considera ser mais complicado.

De fato, parece-me mesmo possível fazer a distinção entre pessoas que apenas desistem quando estão convencidas com a resposta para um questão que formularam em seu interior e aquelas que estão propensas a aceitar uma resposta mesmo que não a convença completamente. No entanto, nós podemos estar ora no primeiro grupo ora no segundo. Pode ser que alguém seja indiferente à pergunta 'qual o sentido da vida?', aceitando qualquer resposta, sem ir à fundo na sua investigação, mas talvez não fiquem tão desinteressados quanto à pergunta 'qual a causa de minha doença e qual seu diagnóstico?', e queiram chegar à resposta verdadeira para obter a cura de seu mal.  O autor parece delimitar aqui a busca por respostas às perguntas fundamentais, tais como 'qual o sentido da vida?'.

De fato, vários pensadores se debruçaram sobre essas questões, desde a antiguidade. Há várias respostas para elas. Ficaremos sabendo quais as respostas a que Bruno chegou  e como elas se assemelham com a dos pensadores antigos após conhecermos todo o conteúdo de seus livros. Encontraremos alguma novidade?

Frequentemente, na história das religiões, surgem grupos que consideram possuir os conhecimentos necessários para a plena realização espiritual. Outro traço distintivo é o princípio de que tais conhecimentos devem ter uma dimensão esotérica, isto é, devem ser revelados, geralmente em etapas, apenas para indivíduos cuidadosamente selecionados, não sendo acessível ao grande público. Muitos grupos deste tipo ainda existem. Alguns autores (e.g. Réne Guénon) sustentam a tese de que até mesmo as religiões tradicionais, como o Cristianismo e Islamismo, tem ou tiveram uma dimensão esotérica e que ela seria necessária para a sustentação da dimensão exotérica, isto é, a dimensão dos ensinamentos e ritos destinados às massas.

A idéia de que a plena realização espiritual só é possível por meio de um empreendimento pessoal de busca do conhecimento está na raiz do que ficou conhecido como gnosticismo. Essa tendência vai na contra mão dos ensinamentos das religiões tradicionais. No cristianismo, por exemplo, a fonte da salvação é a Graça, um dom de Deus, que é capaz de atuar independentemente do empreendimento pessoal em busca de uma verdade transcendente. A própria história narrada no Novo Testamento comprova que o Messias não estabeleceu escolas iniciáticas e sistemas esotéricos, mas antes enviou o Espírito Santo para que abrisse a mente dos discípulos à compreensão de verdades transcendentes. Se São Tomás de Aquino chegou a compreender muito bem verdades filosóficas com o uso da sua razão natural, jamais poderia ter chegado a conhecer verdades mais elevadas sem a Luz do Espírito Santo.

O gnosticismo e as religiões mistéricas são tão antigas que hoje é difícil pensar que seria possível propor alguma doutrina nova. A Igreja desaconselha esse caminho, pois, com razão, identifica claramente os perigos.

Se alguém deseja entender a mensagem que o Bruno deixou, é aconselhável estar ciente sobre a profunda diferença que existe entre a busca de um Alquimista (gnóstico) e de um Santo. Ao passo que o Alquimista busca em conhecimentos ocultos e sistemas esotéricos respostas para os grandes mistérios, o Santo as busca na fonte de todos os conhecimentos, Deus. Será Bruno um Santo ou um Alquimista?







domingo, 10 de novembro de 2013

O filho pródigo do Brasil

Recentemente, muitas pessoas da nossa sociedade se escandalizaram diante da divulgação, nos meios de comunicação de grande difusão, da reportagem sobre um indivíduo que dissipa uma enorme quantidade de dinheiro na noite. Se fosse uma sociedade que ainda cultivasse as virtudes da temperança, da modéstia e do pudor, teria sido fácil de entender a razão da desaprovação. Não sendo esses os reais valores em questão, resta saber por que a sensibilidade das pessoas foi afetada.

A julgar pela vida da maior parte das pessoas da geração mais jovem e pelos valores que tem sido difundidos pela indústria cultural no últimos anos, não há mesmo nenhum motivo de escândalo. No entanto, há também uma outra esfera de valores, defendida e propagandeada sobretudo pelas ideologias de tonalidade mais à esquerda. Em linhas gerais, defendem que o homem virtuoso deve ser solidário, sensível aos problemas sociais, ativo na promoção dos direitos dos desfavorecidos e, portanto, não tão centrado em si mesmo, menos individualista.

Nesse sentido, esses valores frequentemente definem como o seu mais preciso oposto o comportamento humano que coloca em primeiro lugar a satisfação pessoal, o consumo desenfreado e os interesses pessoais. Aqui no Brasil, cunharam um termo para os que são enquadrados nesse estado, dando-lhes a alcunha de "coxinha". Além disso, costumam apontar o sistema capitalista como o grande responsável pela difusão desses valores individualistas, consumistas e opressores.

Na prática, no entanto, essa separação nunca é precisa na vida cotidiana das pessoas. Muitos daqueles que defendem as teses mais à esquerda tem, na vida privada, um comportamento incompatível com o seu sistema de valores. O que temos visto na vida concreta da maior parte dessas pessoa é uma forte sobreposição entre o usufruto das vaidades oferecidas pela "propaganda capitalista" e a adoção religiosa de um discurso politicamente correto, isto é, em sintonia com aquilo que a mentalidade mais à esquerda defende.

Quem é bem experimentado na vida sabe bem que as reações de escândalo diante de fatos como esse geralmente afloram dos desejos recalcados. Quem conhece o ser humano, sabe que, não estando amparado por um bom preparo espiritual, sempre cai na tentação de dar vazão às suas paixões quando na posse do poder que o permita. Não há modelo mais preciso e verdadeiro para a condição humana do que o seu estado propício à desordem e à perversidade em decorrência do pecado original.

Sabendo que as seguintes palavras poderão causar um segundo escândalo em muitos, afirmo que a inveja foi a principal razão da reação apaixonada contra o comportamento desse filho pródigo do Brasil.    Bem encoberta por um discurso moralista de tonalidade vermelha, diga-se de passagem.

No entanto, no discurso de vozes de tonalidade mais azulada, alguns chegaram a repetir a velha crença de que os vícios privados são virtudes para a economia. É difícil de acreditar que alguém realmente acredite nisso; nas entrelinhas desse refrão é difícil deixar de ler uma boa dose de provocação e cinismo.

Um dos argumentos difundidos pelo mundo afora para defender aquele comportamento (ou talvez para provocar o povo da esquerda) se baseia no fato de que esses esbanjadores, para conservarem seu estilo de vida, empregam muitas pessoas, dando-lhes trabalho, e, portanto, fazendo-lhes o bem. Acrescentando aí o fato de que esses empregados são pobres, tem ainda a cara-de-pau de dizer que os desregrados ajudam mais os desfavorecidos do que os propagadores de discursos esquerdistas.

Esse tipo de discurso é típico de quem é incapaz de se colocar no lugar do outro. Entre as duas opções, o que é melhor, servir a um senhor bom, virtuoso e honesto ou a um senhor escravo das suas paixões? Qual dos dois seria mais confiável, qual dos dois saberia motivar melhor o seu empregado para desenvolver ao máximo suas potencialidades humanas? O que é melhor, ser "senhor de um outro senhor", ou "um servo de um outro servo"?

Na verdade, são nefastas as implicações para a economia e para a sociedade de senhores que contratam pessoas para trabalhar na edificação de seus vícios pessoais. Esse tipo de atividade é incapaz de construir riqueza de valor perdurável. Ao mesmo tempo, ao reforçar exemplos de pouca laboriosidade e virtude, desistimula as pessoas ao trabalho, espalhando em todas as classes sociais o desprezo pela excelência moral em favor da vida regalada. Consequentemente, o potencial de riqueza de uma nação, como um todo, fica prejudicado, pois o trabalho das pessoas tende a ficar muito aquém de sua real potencialidade. Ao mesmo tempo, produz uma deseducação cultural, pois corrói uma parte importante do capital cultural de uma sociedade, que são as suas tradições e costumes. Essas são transmitidas pelos seus antepessados como soluções genuínas e eficazes contra o caos social gerado pelos vícios privados. Em outras palavras, atividades econômicas à serviço de comportamento viciosos sempre conduzem à desintegração da sociedade, que por sua vez, voltam a ter impactos negativos na economia.      

De certa forma, todas essas reações, independentemente de sua causa, e ainda que farisaicas, sempre tem o efeito positivo de desencorajar um tipo de comportamento vicioso que não pode ser enquadrado como crime. Ao contrário, quem afirma que esse tipo de comportamento é positivo para a economia, só está atrasando o processo natural de eliminação de um foco de desintegração social. O problema pode aumentar, minando efetivamente a moral e a capacidade de uma sociedade. E, se isso acontecesse, parte dos responsáveis terão sido aqueles que, em vez de condenar o vício, louvaram-no com a falsa justificativa de utilidade econômica.
 

domingo, 27 de outubro de 2013

Modernismo, pós-modernismo e tradição


A modernidade nasceu com a promessa de transformar a vida das pessoas para melhor. Havia a convicção de que apenas a ciência seria suficiente para guiar um processo de aperfeiçoamento contínuo da qualidade de vida. De fato, o impulso sem precedentes que a ciência deu à tecnologia permitiu à sociedade um maior conforto. Por outro lado, essa mesma ciência foi aplicada como um instrumento eficaz de dominação e exterminação.

O otimismo e a euforia que esses grandes avanços produziram nos homens do século XIX foram massacrados pela irrupção das duas grandes guerras mundiais. A promessa do modernismo fracassou peremptoriamente. Desorientada e desiludida, a classe pensante ligada à tradição modernista foi obrigada a rever suas premissas e reformular as antigas promessas. Assim nasceu o pós-modernismo.

Para restaurar o projeto gerado pela modernidade, era necessário compreender os motivos que conduziram àquele trágico desfecho. Dessa vez, já não era mais possível culpar as instituições tradicionais, pois já tinham perdido influência sobre o agir da classe dirigente. Mesmo a monarquia, tendo sido sem dúvida uma instituição tradicional envolvida nos acontecimentos, sobretudo durante a primeira guerra mundial, já há muito tempo tinha cedido espaço ao projeto modernista, na esperança de sobreviver ao tempo.

Ainda que a classe pensante tenha permanecido majoritariamente ligada à tradição iluminista, há uma percepção lavrada no espírito pós-moderno de que as possibilidades da razão são limitadas. Tendo perdido a esperança nela, poucos parecem ainda acreditar que seu empenho pessoal pela realização da causa irá dar bom fruto. Nesse cenário, e diante das possibilidades de conforto à sua disposição, a sociedade fez a opção pelo ideal de uma vida dedicada principamente à satisfação dos desejos pessoais.

No final das contas, qual era mesmo a promessa da modernidade? A promessa de um mundo, uma sociedade e um homem novo . Um mundo que produziria tudo aquilo de que se necessita, em abundância, de modo que nada falte a ninguém. Uma sociedade perfeita, solidária e fraterna, onde a guerra e os pequenos conflitos de interresses deixariam de existir. Um homem novo, comprometido de corpo e alma com a manutenção desse mundo novo.

Essa esperança permanece radiante no firmamento cultural da pós-modernidade, mas não parece razoável supor que a classe dirigente e pensante realmente acredite na sua realização. Na verdade, é do interesse dessas mesmas classes, sobretudo das dirigentes, utilizar a utopia como instrumento político para a dominação e cooptação da massa de manobra.

De qualquer modo, a esperança pós-modernista está na maior parte dos casos presente nos corações apenas como um desejo difuso, incapaz de cristalizar-se em ações concretas. Na prática, os corações permanecem confinados à espiral do egoísmo, incapazes de colocar em prática os valores que lhes foram inculcados.

A falha monstruosa que conduziu ao fracasso desse projeto não pode ser entendida dentro das categorias da tradição iluminista que o gerou. Na realidade, a razão dos modernistas esconde no rigor da técnica e do método o caos teleológico de suas propostas. Aos ingênuos, elas sugeriam que a aplicação do rigor científico a todas as esferas da vida pública e privada acabaria com todos os males sociais e pessoais. Mas o olhar mais aguçado, cultivado pela educação na tradição, logo percebeu que a verdadeira força motriz da modernidade eram as paixões.

A razão dos modernistas sempre se recusou a aceitar a existência da desordem nas paixões.  Paradoxalmente, tanto no modernismo quanto no pós-modernismo, sua classe pensante preferiu sacrificar a razão caso isso fosse necessário para salvar a legitimidade das paixões, identificada com a liberdade. Isso não é de espantar, pois nessa perspectiva seguir os impulsos das paixões é ser livre. Não que a razão seja pouco valorizada no modernismo; ela é de fato exaltada, mas uma noção limitada de liberdade está no topo da hierarquia de valores.  

É difícil ser tão ingênuo a ponto de acreditar que o indivíduo que dá vazão desenfreada aos seus apetites é a mais angelical e inocente das criaturas da terra. Mas pelo incrível que pareça o mito do bom selvagem persiste no firmamento cultural dos nossos tempos

A verdadeira causa do fracasso do projeto modernista foi ignorar a motivação caótica por trás do uso eficaz da ciência e da técnica. A razão não reformou o coração do homem, mas foi apropriada por ele para amplificar a capacidade de concretização das suas perversidades.

Os pensadores pós-modernos se debruçaram sobre o problema, tendo inevitavelmente afogado os ânimos no definitivo desencanto. Por outro lado, essa dinâmica da natureza humana foi identificada com precisão pela classe dirigente e pelas grandes forças econômicas. Vivemos imersos em um mundo que se transformou em uma imensa e lucrativa fábrica de sonhos e espetáculos para saciar todos os seus apetites, inclusive suas perversidades.

Nesse novo cenário, há ainda espaço para a razão? O uso da razão está atualmente ainda mais restrito à dominação e à satisfação da insaciável concupiscência humana. Isso é verdade em todos os estratos da sociedade.

Os apetites geram uma tensão interior, fornecendo uma energia potencial que só é liberada no momento da sua satisfação. Como fenômeno de massa, essa tensão representa um perigo real para a ordem vigente, sendo, ao mesmo tempo, uma arma poderosa nas mãos de políticos hábeis. Há muitos anos, o ocidente vive em uma paz instável, conquistada por meio de uma perigosa política de estímulo à satisfação imediata dos desejos pessoais.        

É bem verdade que ao aliviar a tensão, os ânimos arrefecem. No entanto, as paixões humanas não tem um limite bem definido, pois é próprio da natureza humana sempre aspirar mais. O estímulo à satisfação dos apetites desordenados é uma medida perigosa, fadada a uma situação insustentável, em que a máquina produtiva já não dará mais conta de satisfazer uma grande massa de insatisfeitos e revoltados.

Não seria honesto deixar de reconhecer que mutilar todas as aspirações do coração também seria perigoso para a sociedade, além de desumano. Bem sabemos que a conquista dos corações para uma causa tem sido o meio mais eficaz para concretizar projetos políticos nefastos. Por isso, uma educação baseada na supressão total das paixões pessoais pode ter uma motivação manipuladora.

O objetivo que uma sociedade mais humana deve almejar é a educação das paixões. Esse aspecto do ser humano tem sido negligenciado pelo modelo moderno de educação. Em geral, a paixão é vista como uma força caótica e destruidora, e pouco é feito de maneira eficaz para canalizá-la à realização de grandes empreendimentos. As forças do mercado, logicamente, sabem canalizá-las. Mas infelizmente são empreendimentos totalmente voltados à produção de bens para retroalimentar a espiral do consumismo. Em outros termos, o trabalho duro é ainda tolerado, contanto que tenha como recompensa  a satisfação plena dos apetites pessoais. Nessa lógica, o trabalho não tem um sentido transcendental.  Além disso, se firma sobre a premissa de que não há nada melhor para aspirar nessa vida do que o prazer material.  

A educação das paixões é um tópico à parte. É essa a resposta fundamental para a superação do desencanto pós-modernista. O grande desvio do modernismo foi ter subestimado ou até ignorado essa força que movia as ações humanas. Pois no campo da vida prática, das decisões, a paixão desempenha um papel muito forte. Ela é capaz de torcer a razão, derrubando facilmente as conclusões puramente racionais do sistema moral adotado. Sendo desumano suprimir a paixão, uma importante componente da natureza humana, fortemente relacionada com a felicidade, é necessário educá-la e harmonizá-la com a razão. Eis o grande desafio.  

domingo, 6 de outubro de 2013

Papa Francisco, aristocracia e tradicionalismo

As palavras do papa Francisco tem causado reações apaixonadas entre pessoas das mais diversas orientações. A grande mídia tem ecoado suas palavras dando maior acento às declarações que poderiam indicar mudanças na Igreja em direção à sua agenda comum. Pergunto-me por que motivo pessoas tão profundamente indiferentes à religião se preocupam tanto com as palavras do papa. Tudo leva-me a crer que, na incapacidade de neutralizar totalmente a influência da Igreja, estão empenhados na estratégia de influenciar mudanças para converter a influência da Igreja a seu favor.

Será que, se a Igreja cedesse em todos os pontos dessa agenda, muitas pessoas então se sentiriam atraídas a aderir à Fé? Pergunto-me, ao mesmo tempo: se a Igreja cedesse nesses pontos, o que restaria da Fé?

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Há, por outro lado, muitas manifestações de desaprovação às palavras do papa da parte de fiéis. Em geral, tenho a impressão que, da mesma forma como a grande mídia, estão fazendo um leitura seletiva das palavras do papa. Há várias declarações e escritos que atestam a total adesão do papa aos ensinamentos de Fé e Moral da Igreja. Ao mesmo tempo, tem frisado, desde o discurso inicial, que não existe cristianismo sem Cruz. 

No entanto, muitos que se dizem fiéis não têm dado atenção a essas palavras. Às vezes parece que escondem por trás do zelo litúrgico e doutrinário uma resistência para se entregar de fato a algumas exigências evangélicas. Tendo resumido toda religião cristã à adesão às normas litúrgicas e à mera repetição das formulações dogmáticas da Fé, esquecem de viver no seu dia-a-dia as virtudes cristãs, sobretudo aquelas relacionadas com o desapego dos bens materiais e do conforto pessoal.

Mais grave do que isso, causa procupação a manifestação de fiéis que ainda querem estender seu dogmatismo despojado da piedade ao campo político. Longe de estarem em consonância com os princípios que regem a Doutrina Social da Igreja, querem impor um sistema político como a única solução compatível com o catolicismo. Confundem os canais, e pensam que  se ofende a Deus e a integridade da Fé sempre que alguém questiona o seu posicionamente político pessoal.

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Meu caro padre, não somos cegos, somos apenas homens. Vivemos numa realidade móvel à qual procuramos adaptar-nos como as algas que se dobram sob o ímpeto das ondas do mar. À Santa Madre Igreja foi explicitamente prometida à imortalidade, mas a nós, como classe social, não. Para nós, qualquer paliativo que nos garanta mais cem anos de vida equivale à eternidade (palavras de D. Fabrizio ao padre Pirrone, em Gattopardo, de Tomasi di Lampedusa ).

Os palácios e castelos ainda conservados na Europa são testemunho ainda vivos da magnitude do poder   da sua antiga aristocracia. De uma idade média em que o poder da aristocracia estava fragmentado em pequenos reinos e feudos, cuja autonomia administrativa e jurídica ainda era respeitada pelos imperadores, a modernidade nasceu com a concretização do afã centralizador de monarcas católicos.

Mesmo sob o pretexto de estender o reinado de Cristo para todo o mundo, a sede de poder absoluto desses monarcas teve consequências trágicas para a história da Igreja. O Sacro Imperio Romano-Germânico (SIRG) teria sido uma das primeiras experiências histórica de coexistência de reinos cristãos sob um império fundado no princípio da subsidiariedade, não fosse a difícil queda-de-braços com os imperadores sedentos de poder. Nesse embate, os grandes monarcas saíram vencedores, tendo reduzido o poder da aristocracia e cooptado a hierarquia local da Igreja a seu favor.


Um dos exemplos trágicos foram as guerras empreendidas pelos reis católicos espanhóis para anexar os reinados dos países baixos. A nobreza local, àquela altura, era católica, assim como a maior parte da população, tendo deixado o testemunho histórico da sua devoção legando-nos uma belíssima arte sacra.  Mesmo não se opondo à vassalagem devida ao imperador do SIRG, àquela altura também rei da Espanha (Carlos I), era natural que se opusessem a uma política que diminuia uma autonomia legítima na direção dos seus reinados. Depois da desastrosa campanha do duque de Alba, em que até mesmo populações católicas tiveram suas cidades saqueadas pelos seus exércitos de mercenários, era difícil para qualquer católico holandês acreditar realmente na retidão do "rei católico". As consequências  desta triste inabilidade política foram demasiadamente ruins para a história do cristianismo.
          

Infelizmente, esse não é único exemplo. Na mesma época, Maria I da Inglaterra foi coroada com forte apoio popular. No entanto, os ingleses, muito conscientes das pretensões imperialistas dos espanhóis, com razão viram com desconfiança o seu casamento com Filipe da Espanha. Ao que tudo indica, foi realmente apaixonada por seu marido, de modo que é mais provável que não estivesse interessada em trair o seu povo. Não fosse pelo seu imperialismo agressivo, uma aliança com a Espanha seria realmente interessante para a Inglaterra. Deixou-se influenciar por conselheiros que a isolaram politicamente e fomentaram uma política de revanchismo. Maria I, que poderia ter passado à história como rainha santa, infelizmente ficou conhecida como bloody Mary, em grande parte pela historiografia enviesada dos anglicanos (Maria I não foi mais "bloody" do que seu pai, Henrique VIII). Nesse ponto crucial da história, a misericórdia e o perdão teriam salvado a Igreja Católica na Inglaterra.

Até hoje, os ingleses nutrem uma secreta admiração pelo catolicismo. Mas infelizmente, as políticas desastrosas, autoritárias e atrapalhadas de Jaime II só vieram a sepultar definitivamente o catolicismo da Inglaterra.    

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A coexistência da frivolidade, da opulência e do adultério com uma devoção deslumbrante e pretensamente ortodoxa nas côrtes dos monarcas absolutistas católicos fez um mal brutal para o cristianismo, cujas consequências ainda vivemos. Ficou a belíssima arte da época, cuja qualidade deve ser antes atribuída aos artistas, decoradores e pedreiros e à sua piedade sincera.

O adultério praticado pelos reis era quase regra, cujas exceções podem ser encontradas apenas entre os poucos reis santos. Fica mesmo a impressão de que aqueles reis realmente tinham pouca piedade interior. Pior do que isso, parece que no fundo consideravam a piedade uma coisa para damas e padres. Mas ser católico era-lhes interessante pois o prestígio da Igreja legitimava o seu poder diante do povo e facilitava-lhes a dominação sobre as mulheres.     

Não é fácil saber se realmente raciocinavam desse modo. Desconheço qualquer documento que o ateste. Ao que tudo indica, pelos muitos atos exteriores de piedade, como o suporte financeiro às ordens religiosas e obras de caridade, e à frequência ao confessionário, havia sim uma fé entre esses homens, mas um tanto quanto incoerente e pouco convincente.

Diante desse péssimo exemplo das côrtes européias católicas, e da desastrada associação de parte da hierarquia com elas, nasceu um anticlericalismo violento generalizado. É necessário reconhecer que mesmo um católico de boa vontade, que realmente leva a sério o exemplo de Cristo, está obrigado a ser anticlerical, quando clericalismo significa essa simbiose nefasta da hierarquia com uma corte vergonhosamente imoral. Mas não violentamente anticlerical. É necessário empreender uma verdadeira reforma, começando pela reforma pessoal do caráter.

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Ao andar pelos palácios da Europa, sobretudo aqueles que pertenceram aos imperadores absolutistas (e.g. El Escorial, na Espanha, ou até mesmo o palácio de Sintra), com o seu cheiro de mofo, ao lado de turistas que desembarcam aos borbotões, sente-se uma grande decepção. Pecebe-se que aquele local foi um dia um poderoso símbolo de poder, com mobília e pinturas em perfeito estado, que fervilhava com a atividade incessante de criados ao serviço da corte, cenário de incansáveis banquetes, fofocas e conspirações.  

Era isso o que valeria à pena ter conhecido, mas a barreira do tempo impõe um obstáculo intransponível. No entanto, da minha perspectiva, se hoje já sinto aflição e tristeza de saber que um dia o mundo foi assim (meu consolo era que Santa Teresa D'Ávila sentia o mesmo quando visitava as côrtes), se tivesse presenciado isso, com a mentalidade de hoje, teria morrido de tristeza. Um mundo em que a liberdade estava confinada e asfixiada pela bajulação de uma corte medíocre à autoridade de um homem imperfeito. Pelo menos, essa mediocridade ajudou muitos homens a perceber que antes era preferível servir à autoridade do verdadeiro Rei. 

Inacreditavelmente, essa mentalidade aristocrática ainda sobrevive, e reminescências dela ainda podem ser encontradas em muitas instituições da Igreja, inclusive dentro de algumas  cuja fundação data do século XX. São toleráveis, enquanto pelo menos fomentam todas as virtudes cristãs entre os seus membros e não tenham a pretensão de generalizar uma mentalidade aristocrática estranha ao Evangelho para toda a Igreja. Em poucas palavras, generalizar a idéia de que a reta ordem universal querida por Deus consiste em um mundo formado por aristocratas, a quem se deve servir, e servos, a quem não resta outra possibilidade a não ser servir os primeiros. E, mais do que isso, incluir aí a falsa noção de que se é servo ou aristocrata pela Vontade de Deus e que querer mudar a situação é ir contra a sua Vontade. Boa doutrina essa, para os aristocratas!

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Essa realidade estranha aos olhos do homem de nosso tempo, de côrtes e reis, com todas as suas incongruências e contradições, sobreviveu no mundo. Onde? Em alguns nichos dentro da Igreja. 

O nosso papa Francisco tem se esforçado para adequar a estrutura da Igreja a uma prática mais fiel ao Evangelho. Alguns erroneamente o acusam de querer esvaziar a autoridade papal somente por que escolheu não utilizar alguns acessórios externos simbólicos. Ora, o papa poderia se vestir de calça jeans e camiseta polo diante dos fiéis, mas isso, ainda que extremamente inconveniente, não diminuiria em nada a autoridade que Cristo conferiu ao sucessor de Pedro. Os símbolos não são absolutos e seu significados mudam em função dos tempos. É de total liberdade do papa fazer uso daqueles símbolos que melhor expressam, dentro da mentalidade de seu tempo, os valores evangélicos. Ao papa não cabe entrar em jogo político para agradar "tradicionalistas", "conservadores" ou "progressistas", mas sim apenas agradar a Deus.  

Paradoxalmente, esses mesmos que tão intensamente se apegam à doutrina da infabilidade papal, são os primeiros a criticar suas ações e pregações. Imagino até que, tendo vivido na época em que Pio X instituiu a Primeira Comunhão para as crianças pequenas (tão logo atingissem a idade da razão), teriam sido os primeiros a levantar suas vozes para contrariar.   

Há relatos de diálogos entre demônios e exorcistas em que aqueles atestam que o motivo de sua rebelião foi o pedido que Deus lhes fez para adorá-Lo em natureza humana. Os anjos entenderam, ao adorar Deus escondido sob a natureza humana, que pertencia aos planos de Deus criar um animal espiritual à sua imagem e semelhança, destinado à bem-aventurança. Entenderam também que deveriam estar dispostos a servir criaturas inferiores em natureza. Alguns anjos não quiseram se curvar e não aceitaram isso, tendo sido necessária uma guerra celeste para expulsá-los da presença de Deus.

Em alguns momentos, não consigo evitar o paralelo entre uma mentalidade aristocrática mal orientada, que se recusa a descer do seu troninho e sair do oratório pessoal para servir ao próximo necessitado, e a atitude dos anjos rebeldes.  Não seria mau avaliar em nosso exame de consciência pessoal se também nós não estaríamos agindo da mesma forma.

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As palavras do papa Francisco transmitem ensinamentos valiosos. Não há ressalvas nem matizes a serem feitos. São palavras que devem ser entendidas mesmo tal como foram ditas. Não há nada ali que fere a Tradição, nada que fere o Evangelho, nada que fere a Verdade. Os que mais a estão criticando, são os que mais necessidade têm de uma verdadeira metanóia. O papa Francisco tocou na ferida de muitos.  



        

domingo, 16 de junho de 2013

Revolta da salada: revolução em direção ao caos

Não é por R$ 0,20, mas por direitos... Até agora não li em nenhum lugar quais são os direitos reivindicados por esse movimento que tomou as ruas da capital de São Paulo na semana passada. Se alguém me puder fazer o favor de me encaminhar um documento que contenha uma explicação disso tudo, pelo menos teria alguma matéria com relação a qual poderia discordar ou concordar. Por enquanto, tudo isso parece pouco racional e muito primitivo.

A leitura que faço dos fatos é a seguinte. A maioria realmente não pensa no que está fazendo. São movidos pelos efeitos de uma propaganda que apela em última instância para a vaidade e para a desordem de todas as outras paixões humanas. Nada difícil de compreender: em sua maioria, essas pessoas foram submetidas a uma formação que evitou, a todo custo, ensinar a necessidade da virtude.

Essa propaganda produz nessas almas ingênuas a ilusão de que estão mudando o mundo e contribuindo positivamente para a história. A velha guarda que pensa que os movimentos de 68 e outras tantas revoluções culturais das quais participaram foi algo diferente do que aconteceu na semana passada, argumentando que aquelas foram legítimas e essas que estão acontecendo não são, não aprendeu nada. Ficaram velhos, mas ainda dominados pelas paixões, só conseguem enxergar o mundo na perspectiva dos interesses próprios.

Essa turma da velha guarda acha que mudou o mundo para melhor e se indigna de ver que a juventude não reconhece as grandes benesses que propiciaram com as mudanças que conquistaram. Não mudaram nada, pois não há nada que possa ser mudado no mundo de fora, se antes cada um não resolve mudar o seu mundo de dentro. Quando se é jovem, em geral não se pode  desfrutar da posse de bens materiais, que só vem com o tempo, à medida que o trabalho vai gerando frutos e as circunstâncias vão permitindo posições de maior responsabilidade. O jovem, motivado por essas paixões desordenadas, desejaria para si a posse do que apenas uma vida inteira pode dar. E é lógico, na perspectiva das paixões, pois essa posse permitiria dar vazão a todos os ímpetos que ficam limitados pela sua dependência.

Os velhos, esquecidos da etapa anterior, tem agora o que desejaram quando jovens, mas não tem mais a juventude e ainda se esqueceram que foram jovens um dia! Todo o conflito, no final de contas, resulta do embate de interesses que por alguma razão se contrariam mutuamente. Os velhos quereriam ser jovens de novo e chegam a esperar a compreensão e obediência da juventude. Os jovens, arrastando ainda a casquinha do ovo, chegam a acreditar que são melhores do que todas as gerações que os precederam e que agora são oprimidos pelos anciãos da sociedade.

Esse processo é um movimento que tem ocorrido repetidamente na nossa história. Na realidade, tudo isso é resultado do jogo que as paixões produzem no âmago da natureza humana nas suas diversas etapas da vida. Esse ímpetos, quando abandonados às suas próprias forças, produzem o caos. Esse caos piora o mundo em vez de melhorá-lo. Eis a grande ilusão: essa gente, quando faz essas manifestações, está botando para fora o seu caos interior e gerando caos exterior. Estão piorando o mundo em vez de melhorá-lo. Eles tem toda razão quando escrevem "desculpem o transtorno, estamos mudando o mundo". Estão de fato mudando o mundo, para pior, introduzindo mais caos, gerando dor e sofrimento.

 O único movimento revolucionário que pode realmente mudar o mundo é a decisão pessoal de mudar antes a si mesmo. Esse movimento revolucionário acontece e as almas que tem a coragem de tomar essa iniciativa são bem aventuradas. Mas há tantos e tantas que passam a vida inteira acreditando que os seus problemas são causados pelo que vem de fora. Serão eternamente rebeldes e inconformados, pobres criaturas, incapazes de perceber que as únicas culpadas pela sua infelicidade são elas mesmas.    

Em poucas palavras, não há a menor diferença entre um intelectual que tenta desligitimizar esse movimento em rede nacional e sustenta ao mesmo tempo as revoluções de seu tempo de juventude, e um jovem que vai às ruas protestar disposto a espalhar a destruição. São igualmente motivados pelas suas paixões desordenadas. A única diferença é que tais paixões se manifestam de modo distinto em função da etapa da vida. No entanto, a revolução que realmente teria sido necessária, isto é, a reforma do homem interior, com a construção das virtudes que educam as paixões desordenadas e eleva o homem para além da esfera dos seus interesses primitivos, nunca foi realmente empreendida nessas almas.
   

domingo, 9 de dezembro de 2012

A Esterilidade Ambientalista

Está presente no discurso de muitas ideologias, ainda que de maneira implícita, um sentimento de desconforto com o tamanho da população humana. Por trás de um discurso aparentemente legítimo baseado na preocupação com a escassez de recursos e danos ao meio ambiente, reside na realidade um núcleo interno de motivações totalmente egoístas e muitas vezes misantrópicas.

O discurso ambientalista atual incluiu entre as suas premissas a noção de que o ser humano é apenas mais um animal da terra. Se foi capaz de se impor como a espécie dominante no planeta terra, cuja população nenhuma força da natureza é capaz de controlar, então seria justo da parte da própria humanidade controlar a sua população em solidariedade ao ecossistema colocado em risco por esse crescimento.

Esse tipo de pensamento gera um sentimento de desconforto na sociedade e também no indivíduo, que é levado a imaginar-se culpado por essa suposta destruição da natureza. Levado ao extremo, esse raciocínio ambientalista reduz a sociedade humana a uma praga fora do controle que deve ser parcialmente eliminada. Lembra-me a postura do Mr Smith no filme Matrix, ao descrever a humanidade com desprezo, comparando-a a uma infecção viral sobre a terra.

Põe-se em evidência então essa nota perigosamente misantrópica implícita no discurso ambientalista. O mais paradoxal é o fato dessa mentalidade ser mais comum entre pessoas mais jovens. De fato, até algumas décadas atrás, boa parte da população ainda teve uma experiência real da natureza e sabe como ela muitas vezes é extremamente hostil ao esforço humano pela sua subsistência e dos seus parentes. Totalmente distanciados desse dura realidade graças ao avançado grau de desenvolvimento técnico da sociedade atual, a maioria dos jovens desconhece completamente a dureza da relação dos seus antepassados com a natureza. Seduzidos por uma visão pueril e nostálgica das belezas naturais do planeta terra, que lhes parece estar sendo privadas pelo mundo moderno, que as destrói e despreza, aderem de maneira irrefletida às premissas da ideologia ambientalista.

Se por um lado é legitima essa preocupação com a qualidade do meio ambiente em que vivemos, às vezes escapa à ideologia ambientalista que, na realidade, o centro dessa preocupação é o próprio ser humano. Nenhuma outra criatura do planeta terra está "preocupada" com o meio ambiente. Ao preocupar-se com o meio ambiente, o indivíduo está interessado na sua qualidade de vida e dos seus iguais. Nenhum indivíduo pode esquecer de ponderar que a sua própria existência é uma pré-condição para o interesse pela conservação do meio ambiente. E também que a sua existência é um fator de pressão sobre a natureza, não apenas a dos que estão para nascer.

Portanto, propor a limitação da existência humana, através do controle populacional, como solução ao problema ambiental é um contra-senso. No fundo, significa dizer que, para que os vivos tenham uma qualidade de vida superior, então que se limite a oportunidade de novas vidas humanas virem à luz. Em outras palavras, seria como dizer: "queremos que nossos filhos tenham um mundo melhor e para isso é necessário não deixar alguns deles nascerem". A pergunta crucial é essa: será que o melhor é que, para que alguns possam viver em um mundo "preservado", muitos que poderiam vir à existência nunca tenham a chance de nascer?

Na realidade, trata-se de uma questão de generosidade. A natureza nos diz claramente que não gosta de limitações, e nos demonstra isso até a exaustão através de incontável quantidade de entidades produzidas em seu seio (quem não se admira da inimaginável quantidade de galáxias e estrelas presentes no universo?). A natureza é uma abundância de generosidade que, no fundo, incomoda os corações mesquinhos. Quem realmente ama o ser humano e é alguém a quem realmente se pode classificar como humanista, bem sabe que a preservação do meio ambiente não é um pretexto válido para a limitação da população humana.



               


domingo, 29 de julho de 2012

Uma reportagem surpreendente

Acabo de ver uma reportagem surpreendente na Globo News (Especial, domingo, 29/07/12, 20h30), que mostra uma entrevista do filho do Osama Bin Laden, sozinho, e depois uma entrevista com sua esposa, também sozinha. O filho, Omar, era o mais velho, querido pelo pai, mas decidiu firmemente não seguir o mesmo estilo de vida do pai. Sua esposa, procedente de uma família judia, é vinte anos mais velha do que Omar.

Omar dá um exemplo de fidelidade ao quarto mandamento (honrará pai e mãe) sem ferir, de nenhum modo, o primeiro (amarás a Deus acima de tudo) ou o quinto (não matarás)  mandamento. Ele disse claramente que é contra o ato de terrorismo do 11 de setembro. Disse que não quis para si aquele universo em que viveu o seu pai. Mas em nenhum momento condenou o pai. Mais do que isso, diz que deve amar e respeitar o seu pai.

Essa é uma prova cabal de que cada ser humano, independentemente de sua origem e dos atos dos seus pais e das pessoas próximas que o rodeiam, pode escolher, tem livre arbítrio. A consciência é soberana. Omar passou por aqueles treinamentos. Omar amou e ainda ama o seu pai. Mas apesar disso, disse não ao que em consciência julgava errado.

Depois, o depoimento de sua esposa é ainda mais surpreendente. Ela tem coragem de falar tudo sobre a sua origem. Quando questionada pelo entrevistador se não tinha medo de falar aquelas coisas, ela responde: "não tenho medo de nada". Fiquei admirado pela coragem dela. Chegou a receber ameaças de morte dos dois lados. Lembrei-me mais uma vez daquela frase "não tenhais medo" pronunciada pelo papa João Paulo II. O medo sufoca, tira a liberdade, escraviza, oprime e deprime.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Comentário sobre o artigo "O fio de cabelo de uma mulher" de Luiz Felipe Pondé

No artigo de Luiz Felipe Pondé "O fio de cabelo de uma mulher", publicado no caderno ilustrada da folha em 27/02/2012, é citada a seguinte frase de Nelson Rodrigues:


A prostituta é a primeira e a mais sublime vocação de toda mulher.  (extraído de sua coluna de 5 de maio de 1967 no "Correio da Manhã")

Nelson Rodrigues não escreveu apenas que a prostituta é uma vocação da mulher; escreveu também que é a primeira e a mais sublime vocação de toda mulher. Leitor, paraste para pensar nessa frase, buscando a sua correspondência com essa parcela da realidade que viveste? Sendo sincero consigo mesmo, a que conclusão chegas? Te sentiste incomodado? Por quê?

 Senti-me incomodado por que tive que admitir a verdade a respeito da nossa natureza humana ao confrontar a ideia com os fatos. Não conheço na pele a realidade de ser mulher, mas como homem posso afirmar que a promessa de uma vida repleta de prazeres realizados de fato em experiências sexuais com muitas mulheres sedutoras é extremamente atraente. E se além disso pudesse tirar daí a minha subsistência, melhor ainda!  

No mundo arcaico, em que o ser humano lutava desesperadamente pela subsistência com "o suor do seu rosto" (Gn 3, 19), o homem, pela sua condição física, estava em situação de vantagem com relação à mulher para extrair os frutos de uma terra indômita. A mulher, consciente da sedução que exerce sobre o homem, percebe que é capaz de utilizá-la para os seus fins. Algumas vezes esse fim é atrair um homem para ser um parceiro definitivo mas outras vezes é atrair muitos homens. Com um parceiro definitivo, a mulher encontra um apoio para a sua subsistência e dos filhos, ao mesmo tempo que pode oferecer um apoio afetivo e laboral ao homem. Nesse caso, a sedução é exercida em toda sua graça e intensidade apenas no momento do encontro com aquele que será o seu futuro marido. Mas, na verdade, esse prazer de seduzir não passa depois que o fim foi alcançado e o desejo de revivê-lo também acontece nessa fase em que a sedução já não se faz necessária.

Não seria melhor viver uma vida de exercício contínuo de sedução, muito mais prazerosa? Creio que no mundo antigo isso não era possível sem que a mulher exigisse do seduzido um pagamento, pelas razões já mencionadas. Por isso, surgiu a prostituição. No mundo novo, não é assim necessariamente, pois a mulher pode conseguir a sua subsistência sozinha, e ainda sobra muito tempo livre nos finais de semana para seduzir a quem bem entender. Não é prostituição; o nome que damos a isso é promiscuidade.

Portanto, a prostituição e a promiscuidade tem origens em comum, embora não sejam equivalentes (no pequeno artigo http://www.adhominem.com.br/2012/03/promiscuidade-e-equivalente.html Joel P. da Fonseca mostra a diferença, para além das diferenças de definições). Nesse sentido, é verdade que há em toda mulher uma prostituta ou uma promíscua em potencial. E o mesmo vale para o homem, digamos de passagem. Mas ainda me pergunto: por que essa é a primeira vocação e a mais sublime? Dizer que é a primeira vocação tem força ontológica. Equivale a dizer que é uma parte constitutiva da sua natureza. Dizer que é a mais sublime tem valor subjetivo. É um valor atribuído por alguém, isto é, por aquele que julga ser essa a vocação mais sublime. Nelson Rodrigues falava sério? Que conhecimento ele tinha da essência da mulher? Em que posição ele se encontrava para julgar categoricamente aquela a mais sublime das vocações? Na posição de Deus?

Depois de ter vivido uma vida repleta de resultados bem sucedidos produzidos pela sedução, ao crepúsculo da vida a capacidade de seduzir morre antes do corpo. Aquela "vocação" já não pode ser realizada. É o fim. Não resta a esse indivíduo mais do que aceitar a sua situação e esperar pacientemente a morte, consolando-se talvez na lembrança dos seus tempos áureos. Sabemos bem que ninguém reage desse modo; tenta desesperadamente prolongar os sinais da juventude. E quando a última pétala cai, e toda a flor já está murcha, fica o sabor amargo de uma vida totalmente abandonada. Por que ninguém mais a quer? Tínhamos a impressão de que aquela vida se doou a tantos, oferecendo-lhes prazer, "cheia de amor para dar"? Onde estão aquelas pessoas para agradecer o amor e o prazer recebido? Por que não voltam agora, para retribuir amor com amor? Por que não querem encontrar aquela "Marie, linda, cozinhando sua comida, de vestido solto e listrado, enchendo a sua vida de desejo, com os cabelos caindo nos ombros".

Albert Camus não parece ser muito fiel à realidade em sua obra "O Estrangeiro". Passa a ideia de que a mãe,  aquela que dá a vida e a primeira e verdadeira experiência do amor ao filho, é infeliz, pois acaba sofrendo a indiferença do próprio filho. A mulher sedutora, por outro lado, é feliz, "cheia de amor para dar", "enchendo a sua vida de desejo", verdadeiramente querida por Meursault. Apesar de que muitas vezes a mãe seja esquecida pelos filhos na sua velhice, e  de que algumas vezes não seja querida por eles, a experiência mostra no entanto que as Maries são as grandes esquecidas da história. São sempre esquecidas, sem exceção. Acabam sozinhas e sem ninguém que as ame. Ninguém. Diga-se de passagem que existe muito em comum entre a mãe e a Marie. Pois algum dia a mãe foi a Marie e a Marie poderá ser a mãe. Também é bom lembrar que nem todos os filhos são Meursault. E que Meursault tem uma consciência, além das paixões.

Não quero com isso menosprezar ou condenar a graça que uma mulher como Marie quer oferecer ao homem. Pelo contrário, reconheço nessa graça a experiência de prazer mais intensa que um homem pode experimentar. É utilizada nas Sagradas Escrituras em analogia à felicidade eterna. Mas então o que há de errado na vida da prostituta e da mulher promíscua? "És pó, e pó te hás de tornar" (Gn 3, 19). Não faz diferença, quando toda morte conduz a um fim definitivo. Essa é mesmo a resposta definitiva?

Um mortal não pode dizer a outro qual é a sua verdadeira vocação. É uma pretensão ridícula. As palavras são insuficientes para expressar experiências vitais. Elas não tem peso nenhum se não fazem referência a experiência vitais já experimentadas. "Sua religião não vale um fio de cabelo de uma mulher". Essas palavras são intensamente verdadeiras na perspectiva de Meursault. Ele prefere o encanto real, concreto e paupável de uma mulher à religião. Ele não encontra nenhum valor na religião, pois de imediato ela não é capaz de lhe oferecer nada comparável ao que experimentou com Marie. Mas Meursault fica na superfície dos fatos, pois deveria também se perguntar por que Marie?, por que esse prazer?, por que ela?, por que eu?.        

Quem poderá juntar as peças desse grande quebra-cabeças? E quem se sentirá à vontade para desistir de encontrar a imagem completa? Afinal de contas quanto  realmente vale o fio de cabelo de uma mulher? E quanto vale o fio de cabelo de um homem?