domingo, 21 de outubro de 2012

O desejo régio

Cada ser humano nasce com o desejo de reinar. Deseja no mais íntimo do seu ser desfrutar de um mundo totalmente submetido à sua vontade. Gostaria de ter sob sua posse única e exclusiva todos os recursos da terra. Não descansa enquanto não conseguir construir para si um castelo provido de todos os produtos de sua imaginação. Quer conservar sob total controle seu parceiro sexual e sua prole.

Se tantos obstáculos não se impusessem a esse impulso do coração humano, ninguém conheceria o sofrimento. O principal obstáculo é esse mesmo desejo presente nos outros. O outro é o maior obstáculo à vontade própria. Se o indivíduo deseja para si uma propriedade territorial, uma pessoa ou outro bem, terá sempre que competir com outros caso esse bem seja escasso. Não é preciso dizer que essa competição será tanto mais feroz quanto maior for a demanda e menor a oferta do bem desejado.

Na luta pelo bem desejado, tão grande é a sede imposta pela vontade, que pela sua conquista o indivíduo arrisca a própria vida e ameaça a do outro no combate.

Essa realidade está presente também entre muitas espécies animais. O leão, na procura por sua parceira, se encontra outro leão na posse de harém e prole, travará combate, e, se ganhar, ficará com o harém e matará a prole do antecessor.

Entre os seres humanos, acontece o mesmo. Mas, dotado de consciência e inteligência, é capaz de entender a própria condição. Essa capacidade lhe dá a possibilidade de adotar novas estratégias ou até mesmo de se recusar a entrar na disputa.

Mas ainda assim enfrenta um novo sofrimento: se recusar a disputa, não terá o prêmio, e se frustrará. Se, por outro lado, já tem para si um reino, ele estará sempre ameaçado pelos leões mais novos. Para proteger o seu reinado, terá de criar muitas camadas de muros, utilizando toda a sua força, sobretudo intelectual, para barrar o inimigo.

Mas a ordem do universo é de tal modo orientada que contra o tempo nenhum rei pode lutar. A inteligência degenera em loucura e a força em impotência. O coração jovem do outro, repleto de desejo, pisa sobre as cinzas do antigo rei, para se tornar um rei cujas cinzas um dia também serão pisadas.

E assim muitos entendem que o mesmo universo que engendrou a criatura é totalmente indiferente ao desejo que ela mesma inscreveu à ferro e fogo no seu coração. E a criatura inteligente angustia-se na percepção de que sua vida foi uma paixão inútil. Um mar sem fim de Absurdo esmaga e afoga toda e qualquer esperança.

Ecce homo.            

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O caminho da física. Parte 2: física e sociedade

Nos dias de hoje, tenho a impressão de que a imagem do físico no Brasil ainda está associada à do cientista maluco perdido em especulações estapafúrdias que o deixam totalmente e permanentemente  desconectado da realidade que o cerca. Dessa visão estereotipada muitos concluem que esses cientistas fazem parte de uma classe de pessoas dedicadas a tarefas sem o menor impacto na sociedade e cuja existência é absolutamente dispensável. Na melhor das hipótese, a sua mais notável contribuição para história foi o desenvolvimento da famigerada bomba atômica.

Sim, sua existência é absolutamente dispensável para todo aquele que se dispusesse a voltar a viver no tempo em que todas as tecnologias baseadas na eletricidade e na mecânica industrial simplesmente não existiam. Nada de carro, roupas baratas, luz elétrica, televisão, computador, celular, eletrodomésticos etc. Alguns acham tudo isso um grande exagero e chegam a afirmar que esses avanços são apenas o resultado do esforço de homens empreendedores que  no fundo do quintal de suas casas deram à luz todos esses produtos como em um passe de mágica. Outros atribuem tudo isso apenas às forças econômicas que impulsionaram inevitavelmente todo o desenvolvimento tecnológico. Por qualquer que seja a razão, todas essas explicações não querem atribuir importância para o único fator  que teve papel decisivo: as ciências físicas, pois não existindo esse método de trabalho e investigação teria sido absolutamente impossível o desenvolvimento dessas tecnologias.

Há uma visão de mundo que tende a desprezar totalmente o papel dos indíviduos na formulação de novas tecnologias. Quem usa um computador ou um celular, ou o seu idolatrado iPhone, dificilmente parou para pensar  que tudo isso seria impossível se não fosse resultado de anos de trabalho e pesquisa de muitos físicos, químicos e engenheiros.  Há uma densidade tão grande de conhecimento e trabalho acumulado dentro de uma placa mãe de um computador que nem mesmo a cabeça do tecnólogo com a mais vasta formação científica é capaz de abarcar.  É lógico que esse trabalho precisou e sempre precisará do suporte financeiro. Mas o investimento por si só não é garantia de nada. Os verdadeiros agentes das grandes revoluções científicas e tecnológicas são os cientistas e não os empreendedores que investiram o seu dinheiro nisso.

A quantidade de tecnologias hoje consideradas indispensáveis no dia-a-dia que saíram diretamente dos laboratórios desses físicos "malucos" é tão grande que espanta que a sociedade brasileira seja incapaz de entender a importância desse profissional. Nossa sociedade tem demorado muito tempo para se dar conta da sua relevância para a economia. Em parte, isso se deve a incapacidade do ensino de física no nosso país de mostrar aos alunos o impacto da física na sociedade através de exemplos das tecnologias presentes no dia-a-dia.

A regulamentação da profissão do físico, cuja aprovação legal já está em fase avançada, é um passo que poderá ajudar a criar um ambiente favorável para esse profissional na economia do nosso país.  No entanto, é sempre bom lembrar que a lei não pode por si só criar uma cultura de prestígio ao físico nos mais diversos ramos do mercado de trabalho. Esse prestígio deve ser conquistado pelos próprios físicos, ao mostrar que seu trabalho pode fazer muita diferença. Esse reconhecimento tem sido conquistado pelos físicos em muitos ramos da atividade profissional, mas ainda falta muito para que sua importância seja amplamente reconhecida aqui no Brasil.

A dimensão do impacto que esse profissional teve nas grandes mudanças tecnológicas no último século pode ser aferida pelo trabalho dos laureados pelo prêmio Nobel. Logo na sua primeira versão, em 1901, o  alemão Wilhelm Conrad Röntgen recebeu o prêmio pela descoberta dos raios X . Quem nunca passou por uma radiografia? Em 1956, os americanos John Bardeeen, Walter Houser Bratain, Willian Bradford Shokley  receberam o premio pela descoberta do transistor e suas propriedades. Ninguem sabe o que é um transistor, é bem verdade, talvez por ser intrinsecamente complicados. Mas eles são utilizados em todos os dispositivos eletrônicos modernos, do computador, passando pela máquina de lavar, ao radinho de pilha.  Em 2009, a dupla de americanos Willar Boyle e George Smith compartilharam o prêmio pela invenção do sensor CCD (charge-coupled device), utilizado nas câmeras digitais modernas. No mesmo ano, Charles K.  Kao, nascido em Hong Kong, recebeu o prêmio pelas suas investigações que levaram ao desenvolvimento da fibra óptica. E isso tudo é apenas uma minúscula amostra das invenções tecnológicas de grande impacto que aconteceram graças ao trabalho experimental do físico.

Digo tudo isso pois já está na hora de a sociedade reconhecer uma importante vocação de muitos físicos: enfrentar os grandes problemas tecnológicos de grande relevância para o destino da sociedade. Para isso,  não é necessário destruir aquela imagem pitoresca do físico maluco e genial, unicamente envolvido em suas especulações esotéricas. Mas é desejável sim tornar presente nas mentes do grande público uma imagem que corresponda a um profissional profundamente envolvido nos problemas tecnológicos reais, palpáveis, cujos desdobramentos podem ter um impacto brutal no dia-a-dia de todos nós.    

domingo, 26 de agosto de 2012

A restauração desastrada do Ecce Homo

A notícia da restauração desastrada da pintura Ecce Homo de Elias Garcia Martinez no Santuário da Misericórdia, na Espanha tem motivos fortes para ter alcançado tão grande repercussão. Não demorou muito para que percebesse nesse acontecimento uma analogia com a falsificação da imagem do verdadeiro Cristo. Essa falsificação tem acontecido ao longo da história até os dias de hoje e tem se concretizado de inúmeras e diversas formas.

A verdadeira pintura, Ecce Homo, era realmente bonita e piedosa. Retratava a face de Cristo com traços bem definidos e harmônicos. O semblante de Jesus expressava o seu sofrimento, mas também revelava a sua bondade e mansidão. Mas a obra já se encontrava bastante deteriorada. Tudo isso que descrevi ainda podia ser contemplado apesar de o tempo ter destruído uma parcela significa da pintura.

Motivada por um zelo sincero e bem intencionado, uma senhora resolveu tomar para si a tarefa de restaurar a imagem de Cristo. E o resultado não poderia ter sido mais desastroso.

Já é possível perceber a analogia a que me refiro? Nos dias de hoje e ao longo da história, a imagem de Cristo nos é apresentada com algumas lacunas. Essas lacunas não são devidas à existência de imperfeições em Cristo, mas à existência de imperfeições nos homens que se empenharam em anunciá-Lo. De qualquer modo, apesar das imperfeições, essa imagem de Cristo é autêntica, está lá, pode ser contemplada e amada. A missão de anunciar Cristo é a missão da Igreja. Apesar das limitações dos homens, a Igreja tem sido desde sempre o lugar de encontro com o verdadeiro Cristo. A Igreja sempre anunciou o Jesus verdadeiro (Ecce Homo), ainda que hoje em dia, à semelhança do Ecce Homo anterior à malograda restauração, essa imagem do verdadeiro Cristo apresenta os sinais da deterioração do tempo. Deterioração da imagem, mas não de Cristo.

Muitas vezes nós, tantos os que nos dizemos em comunhão com a Igreja quanto os afastados dela, deliramos na fantasia de que somos capazes de restaurar a imagem de Cristo. E esse delírio consiste em restaurar a imagem de Cristo carregando-a com os nossos ideais pessoais de perfeição. E o resultado final é um desenho de Jesus segundo a nossa medida, à nossa imagem e semelhança. E o resultado não poderia ser mais desastroso. Muito mais bizarra do que o "novo" Ecce Homo.

É isso que tem feito as pessoas desenharem Cristo com os mais estranhos e estapafúrdios perfis. Alguns ainda hoje vêem Cristo como um homem desprovido de sentimentos humanos normais, como se através de sua vida tivesse ensinado uma ascese de total negação da dimensão material em favor da dimensão espiritual. Em suas diversas variantes, é essa visão que levou muitos cristãos a evitar o sorriso, supondo que Jesus nunca sorriu pelo simples fato de que os Evangelhos nunca o menciona explicitamente. Também levou alguns a evitar todo tipo de manifestação afetiva do corpo, incapazes de ver senão sensualidade imoral nelas. Outros, se recusaram a aceitar a dimensão humana, corporal, de Cristo. Ainda outros negaram a santidade do matrimônio,  incapazes de reconhecer a relação sexual entre um homem e uma mulher como uma realidade querida por Deus. E a partir desses e outros traços, a imagem que fizeram de Cristo resultou em uma pintura bastante deformada. Esse tipo de falsificação tem se manifestado claramente nas diversas doutrinas gnósticas que tem emergido ao longo do tempo, como a dos cátaros na idade média. E, de algum modo, em grande parte pela fraqueza humana, se insinua insistentemente e de forma sorrateira entre os cristãos nos dias de hoje.

Outra forma de deformação, comum nos dias de hoje, é a associação clara e quase direta de Jesus Cristo a uma ideologia política. Há alguns que pretendem apresentar a imagem de um Jesus engajado politicamente, tal qual um militante de esquerda ou um libertário. Outros, no outro extremo, querem nos fazer crer em uma imagem de Jesus que o reduz a um mero defensor dos "valores e bons costumes". E muitas vezes esses dois partidos entram em conflito entre si, colocando a imagem de Jesus no meio da briga, acreditando que o vencedor será o time que demonstrar que a imagem do autêntico Cristo se assemelha mais à própria imagem. Não parecem estar muito preocupados em seguir o exemplo de Cristo, mas em demonstrar que era Jesus quem seguia o exemplo de vida deles.

Como encontrar o verdadeiro Cristo, então? Se mostrasse a minha própria visão, provavelmente criaria a mais deformada imagem de todas. Para encontrar a Cristo, não há outra forma senão conhecer o testemunho que deixaram aqueles que conviveram com Ele e com os apóstolos. Esse testemunho está relatado nos Evangelhos.

Ainda que tal tarefa seja realmente muito difícil, uma imagem autêntica de Cristo só poderá se formar em nós se aceitarmos o relato despido dos nossos preconceitos. E isso é muito difícil, pois Cristo realmente pode ir contra a nossa visão de mundo. O olhar preconceituoso tende a filtrar tudo aquilo que se opõe às suas convicções e hábitos arraigados. O Cristo que abraça as crianças e se permite ter os pés lavados com as lágrimas de uma pecadora arrependida é simplesmente apagado do quadro dos rigoristas. O Cristo que reprova até mesmo os pensamentos maliciosos e perversos de adultério e impureza e que reafirma a indissolubilidade do matrimônio nunca existiu para o libertário. O Cristo que afirma que muitos se farão celibatários por amor ao reino dos céus é solenemente ignorado pelos que pretendem negar a autenticidade das vocações religiosas. O Cristo que ensina que não se pode servir às riquezas e a Deus simultaneamente nunca existiu para toda essa gente que faz uso seletivo e ideológico das Suas palavras para conservar e aumentar a sua riqueza. Poderia encher essa lista com muitíssimos outros exemplos, mas acho que já não é mais necessário.

Para entrar no reino dos céus é necessário se fazer tão simples como uma criança. Sim, de fato a criança é simples, pois seu olhar não está tão carregado de preconceitos e maus hábitos adquiridos. Por isso, é capaz de ver a realidade com olhos limpos e transparentes, através dos quais nada fica retido. E eu confesso: gostaria de ter os olhos limpos como o de uma criança para poder ver a autêntica imagem de Cristo.    



              



  

domingo, 29 de julho de 2012

Uma reportagem surpreendente

Acabo de ver uma reportagem surpreendente na Globo News (Especial, domingo, 29/07/12, 20h30), que mostra uma entrevista do filho do Osama Bin Laden, sozinho, e depois uma entrevista com sua esposa, também sozinha. O filho, Omar, era o mais velho, querido pelo pai, mas decidiu firmemente não seguir o mesmo estilo de vida do pai. Sua esposa, procedente de uma família judia, é vinte anos mais velha do que Omar.

Omar dá um exemplo de fidelidade ao quarto mandamento (honrará pai e mãe) sem ferir, de nenhum modo, o primeiro (amarás a Deus acima de tudo) ou o quinto (não matarás)  mandamento. Ele disse claramente que é contra o ato de terrorismo do 11 de setembro. Disse que não quis para si aquele universo em que viveu o seu pai. Mas em nenhum momento condenou o pai. Mais do que isso, diz que deve amar e respeitar o seu pai.

Essa é uma prova cabal de que cada ser humano, independentemente de sua origem e dos atos dos seus pais e das pessoas próximas que o rodeiam, pode escolher, tem livre arbítrio. A consciência é soberana. Omar passou por aqueles treinamentos. Omar amou e ainda ama o seu pai. Mas apesar disso, disse não ao que em consciência julgava errado.

Depois, o depoimento de sua esposa é ainda mais surpreendente. Ela tem coragem de falar tudo sobre a sua origem. Quando questionada pelo entrevistador se não tinha medo de falar aquelas coisas, ela responde: "não tenho medo de nada". Fiquei admirado pela coragem dela. Chegou a receber ameaças de morte dos dois lados. Lembrei-me mais uma vez daquela frase "não tenhais medo" pronunciada pelo papa João Paulo II. O medo sufoca, tira a liberdade, escraviza, oprime e deprime.

sábado, 28 de julho de 2012

Não tenhais medo: lutar contra o aborto


Recentemente tive acesso a um documento que explica extensivamente o histórico das entidades empenhadas em promover o aborto no Brasil e suas redes de financiamento. Recomendo esse documento a todos os que se posicionam corajosamente a favor da vida, pois contém todas as informações que comprovam inequivocamente que o governo brasileiro está empenhado em legalizar o aborto. Esse documento foi preparado pelo pe. Paulo Ricardo, que tem se exposto corajosamente na linha de frente das batalhas a favor da vida.

O endereço que envio a seguir direcionará para a página que contém um áudio do próprio pe Paulo Ricardo com uma explicação mais sucinta do plano do governo de burlar sorrateiramente a legislação brasileira e, ao final da página, um link para o documento a que me referi:
     
http://padrepauloricardo.org/episodios/governo-dilma-prepara-se-para-implantar-aborto-no-brasil

Tenho dois breves comentários para fazer sobre o assunto. Em primeiro lugar, espanta-me dolorosamente perceber tão claramente como os grupos promotores do aborto sabem utilizar as palavras para encobrir vergonhosamente as suas verdadeiras intenções. Outro mecanismo devastador é a sua capacidade de distorcer a linguagem de modo a conseguir acusar os seus adversários dos crimes que eles mesmos cometem. Um exemplo dessa linguagem retorcida é a seguinte frase da Norma Técnica do Atendimento Humanizado ao Aborto Provocado publicado pelo governo Lula em 2005:

"A atenção humanizada às mulheres em abortamento pressupõe o respeito ao direito da mulher de decidir sobre as questões relacionadas ao seu corpo e à sua vida. Em todo caso de abortamento, a mulher deve ser respeitada na sua liberdade, dignidade, autonomia e autoridade moral e ética para decidir, afastando-se preconceitos, estereótipos e discriminações de qualquer natureza, e evitando-se que aspectos sociais, culturais, religiosos, morais ou outros interfiram na relação com a mulher. Esta prática não é fácil, uma vez que muitos cursos de graduação e formação em serviço não têm propiciado dissociação entre os valores individuais (morais, éticos, religiosos) e a prática
profissional".

É bem verdade que a mulher tem mesmo o direito de decidir sobre as questões relacionadas ao seu corpo e à sua vida. Mas isso engloba tantas realidades, que questões relacionadas ao seu corpo e à sua vida poderiam ser, em concreto, a decisão de se suicidar ou de cometer um homicídio. Por isso, todo o direito está acompanhado de um dever. Todos temos o direito de decidir sobre questões relacionadas ao nosso corpo e à nossa vida, mas com o dever de respeitar a justiça devida a nós e aos outros. Assim como é uma falta de justiça infinita para com o próximo praticar um homicídio, o suicídio é do mesmo modo uma falta de justiça contra si mesmo (também infinita). Portanto, além de pressupor o direito de decidir, deve-se também pressupor o dever e a responsabilidade da decisão.

Não vou entrar no mérito da questão de o feto ser ou não um ser humano dotado de direitos. Mas se há dúvida sobre tal questão, então há também a possibilidade de o feto ser realmente um ser humano, e, nesse caso, o aborto é um homicídio, por definição. Veja que no documento não há nenhuma discussão sobre isso. Todo e qualquer questionamento é simplesmente taxado de preconceitos, estereótipos e discriminações de qualquer natureza. Veja que essa linguagem tira o foco daquilo que está realmente em jogo e abafa autoritariamente toda possibilidade legítima de dissensão, pois a qualifica já de antemão como uma discriminação.

Pede-se que " aspectos sociais, culturais, religiosos, morais ou outros interfiram na relação com a mulher". Essa é uma falácia que salta aos olhos a qualquer ser humano inteligente. É absolutamente impossível, em qualquer caso, que na sua relação com outro ser humano não intervenham concomitantemente aspectos sociais, culturais, religiosos, morais. A linguagem e as atitudes de um ser humano estão sempre, sem exceção, dotadas de  aspectos sociais, culturais, religiosos, morais. É absolutamente impossível destituir o ser humano desses aspectos na relação com o outro. O que se pode fazer, isso sim, e é isso o que o documento realmente pretende, é adulterar a verdadeira fisionomia social, cultural, religiosa e moral dos profissionais de saúde a fim de adequá-la às verdadeiras intenções do discurso: induzir o profissional de saúde a antepor uma legítima objeção de consciência. É verdade que o documento em questão está tratando de recomendações para a abordagem de uma paciente no pós-aborto, mas nada pode impedir o médico de alertá-la para a injustiça do ato cometido, e até repreende-la, se ele está convencido de que se trata de uma grave falta de justiça. Por outro lado, seria de fato uma injustiça da parte do médico negar-se a socorrer alguém em estado grave em decorrência de um pós aborto.        

Esse tipo de recurso linguístico é altamente sorrateiro, na medida em que pretende aniquilar convicções induzindo aquele que aceita o discurso de que a coisa mais ética a ser feita é negar as suas próprias convicções sem se dar conta de que, na verdade, as está negando.

De todas as frases que li nesse texto, a que mais me chamou à atenção foi a última, pois deixa bem claro que uma das intenções do discurso é promover "a dissociação entre os valores individuais (morais, éticos, religiosos) e a prática
profissional". Essa intenção é de uma monstruosidade alarmante. O primeiro exemplo que me veio à imaginação de um profissional desse tipo foi o de um oficial alemão, instruído em uma educação cristã, à frente de um campo de concentração.  E depois, em sua vida privada, gentil com a esposa e zeloso na educação dos filhos. Sim, esse é um exemplo bem claro de alguém que dissociou  os seus valores individuais da prática profissional. E pode ter certeza, quem faz isso, se não acaba se corrompendo, acaba enlouquecendo.


Por último, gostaria de citar uma frase que está no Evangelho, tendo sido pronunciada por Cristo e utilizada pelo papa João Paulo II no momento em que se manifestou pela primeira vez como papa. "Não tenhais medo". A principal estratégia dos homens mal intencionados é utilizar o medo para intimidar. Fazem ameaças, a fim de calar a boca dos que apontam claramente as suas injustiças para que recebam a punição que merecem. Mas não podemos ter medo, pois, na verdade, não há motivo para temer. Para isso é necessário ter a convicção de que, ainda que possam até tirar as nossas vidas, jamais vão nos fazer escravos da mentira, da injustiça e cúmplices das suas iniquidades. É preferível ser livre até a morte, se necessário, do que escravos da mentira.              




domingo, 22 de julho de 2012

Man's Search for Meaning de Viktor E. Frankl

Estou lendo um livro fabuloso, intitulado, na tradução para o português do Brasil pela editora Vozes, "Em Busca de Sentido", de Viktor E. Frankl. O título em inglês é "Man's Search for Meaning". A edição de 1984 possui três partes. A primeira é o relato da experiência do autor como prisioneiro em um campo de concentração. A segunda parte é um resumo dos fundamentos da logoterapia. A terceira parte é um apêndice intitulado a "Tese do Otimismo Trágico".

A logoterapia é um método de psicoterapia desenvolvido por Viktor E. Frankl. Ficou conhecida como terceira escola vienense de psicoterapia, depois da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler. Não vou me estender mais a respeito da logoterapia; para quem se interessar, recomendo fortemente a leitura desse livro.

Transcrevo aqui uma passagem do livro em que, através de um exemplo, Viktor Frankl mostra em que medida a psicanálise de Freud pode ser mal aplicada  para resolver as angústias que decorrem de problemas existenciais.

"Quero citar um exemplo. Um diplomata americano de alto escalão dirigiu-se a meu escritório em Viena a fim de continuar o tratamento psicoanalítico iniciado cinco anos antes com um analista de Nova Iorque. Logo de início perguntei-lhe por que ele pensava que deveria ser analisado, por que, em si, começara com a análise. Revelou-se que o paciente estava descontente com sua carreira e tinha extrema dificuldade em concordar com a política exterior dos Estados Unidos. Seu analista, no entanto, lhe havia dito repetidamente que ele devia tentar reconciliar-se com seu pai, porque o governo dos Estados Unidos bem como seus superiores eram "nada mais" que imagens paternas, e, consequentemente, a insatisfação com o seu emprego se devia ao ódio inconsciente contra o pai. Uma análise que já vinha durando cinco anos induzira o paciente a aceitar cada vez mais as interpretações de seu analista, até que, de tantas árvores de símbolos e imagens, ele não mais conseguiu ver a floresta da realidade. Após algumas poucas entrevistas, ficou claro que a sua vontade de sentido estava sendo frustrada por sua profissão e que na realidade ansiava engajar-se em uma outra espécie de trabalho. Como não tinha motivo para ele não largar sua profissão e abraçar outra, assim o fez, com os mais gratificantes resultados. Em sua nova ocupação, ele está satisfeito já faz mais de cinco anos, conforme relatou há pouco tempo. Duvido que nesse caso eu estivesse lidando com um caso neurótico, e essa é a razão por que pensei que ele não precisava de qualquer psicoterapia, nem mesmo de logoterapia, pela simples razão de, ne realidade, nem ser um paciente. Nem todo conflito é necessariamente neurótico; certa dose de conflito é normal e sadia. De forma similar, o sofrimento não é sempre um fenômeno patológico; em vez de sintoma de neurose, o sofrimento pode ser perfeitamente uma realização humana, especialmente se o sofrimento emana de frustração existencial. Eu negaria categoricamente que a busca por um sentido para a existência da pessoa, ou mesmo sua dúvida a respeito, sempre provenha de alguma doença ou mesmo resulte em doença. A frustração existencial em si mesma não é patológica ou patogênica. A preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial, mas de forma alguma uma doença mental. É bem possível que interpretar aquela em termos desta motive um médico a soterrar o desespero existencial do seu paciente debaixo de um monte de tranquilizantes. Sua função, no entanto, é guiar o paciente através das suas crises existenciais da crescimento e desenvolvimento. "
(Viktor E. Frankl, Em Busca de Sentido, Ed Vozes, 31 Edição, p 127-128) 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Bulgária, o país das flores

Em um domingo entrei em uma van contratada pela organização da conferência para nos levar de Sofia para Kiten, uma pequena cidade na costa do mar negro, não muito longe de Istambul. O dia estava nublado, mas quente e abafado por causa da humidade. É verão na Europa, e na Bulgária faz calor. Não tão insuportável quanto o verão no Rio de Janeiro.

O trajeto perfaz uma estrada que corta o país de oeste a leste. O país é montanhoso, sobretudo a oeste, onde o território contém uma boa parcela das montanhas dos balcãs. Cadeias de montanhas rochosas de modesta altura se estendem de oeste a leste, até as proximidades do mar Negro. A estrada foi construída em um vale com belíssimos campos repletos de plantações de girassóis. As casas das vilas rurais nas proximidades da estrada são simples e pobres, mas bonitas. Tem flores nas janelas, hortas no quintal e parreiras para enfeitar a entrada das casas. Como são pobres, nem sempre contem revestimento externo, e, se tem, nem sempre são pintadas. Montanhas de feno fazem lembrar as pinturas européias dos séculos passados.    

Em Kiten, um novo cenário se revela. Ruas movimentadas, pequenos prédios de cores vivas, parque de diversão improvisado, crianças nadando nas piscinas dos hotéis... Logo chegamos à entrada do hotel. Era um prédio que se destacava na pequena cidade de Kiten com os seus onze andares. De aparência simples e pouco acabamento, tinha uma arquitetura peculiar. Esse hotel pertencente a universidade me fez lembrar muito as colônias de férias da Associação de Funcionários Públicos de São Paulo. Apenas dois elevadores para todo o hotel, sendo que: (i) um deles estava quebrado; (ii) dois era o limite máximo de ocupantes no elevador e (iii) um deles fazia apenas andares ímpares e o outro apenas andares pares e, finalmente (iv) cada andar tinha seis apartamentos cada um com quatro camas! Mas o hotel não estava lotado nem os apartamentos. Fiquei sozinho no meu apartamento, pois o meu suposto colega de quarto mudou-se para o quarto do seu amigo. Menos mal...

Mas esses são apenas detalhes... Pelo preço da conferência estava até barato. As refeições eram boas e o quarto tinha até uma varanda com um largo varal para estender as roupas. Bom, a comida na Bulgária também é peculiar, mas bastante adaptável ao paladar brasileiro. Há uma diversidade muito grande de saladas. A salada de pepino com tomate não faltou em nenhuma refeição, nem mesmo no café da manhã. Com acréscimo de um queijo branco ralado típico da Bulgária, vira a "salada Chopska". Também é muito comum encontrar carne grelhada, de todos os tipos.  Há que tomar certo cuidado, pois no caso de a carne não ser grelhada, pode ser gordurosa demais... Além disso, há que tomar cuidado com a quantidade inumerável de pequenos quiosques vendendo churrasco grego com batata frita. Não me arrisquei... Mas Bulgária é famosa também pelo seu Yogurt e o que experimentei de fato era bom. Fui informado de que existe uma variedade de bactéria típica da Bulgária para produzi-lo.   

As primeiras impressões que tive sobre a Bulgária foram totalmente contrariadas após algum tempo em Kiten. Ali, onde a liberdade de um novo mundo livre deixou o verdadeiro espírito do povo aflorar, entendi melhor qual era a verdadeira fisionomia do povo búlgaro. E o que vi me lembrou um pouco um mundo de brinquedo, de menina, talvez. Cores muito vivas, muitas vezes o cor de rosa na fachada das casas, flores nas varandas, aromas de óleos e cosméticos de rosa, letreiros com fontes chamativas e cores quentes, bares com decoração extravagante, poltronas ostensivas em vez de bancos nos bares e restaurantes. Depois de um tempo, tudo começa a parecer irreal, quase ilusório, doce demais. Em todo canto, a cada metro quadrado, havia um quiosque repleto de roupas extravagantes à moda antiga penduradas em cabides para a montagem de fotos envelhecidas. Tão artificial que chegava a ser repulsivo.

O povo búlgaro é bonito, mas sempre há exceções, como em todo o lugar. Encontra-se ali uma variedade muito grande de fenótipos, o que é reflexo da confluência muito grande de diferentes povos na região ao longo da história. Mas o perfil dominante é europeu, e não turco ou asiático. Não há dúvida; milagrosamente, os búlgaros sobreviveram a uma dominação do império turco-otomano de mais de 500 anos. Mas sobre isso voltarei a falar depois.

Pelo incrível que pareça, o Mar Negro não é negro. Suas águas esverdeadas são mais transparentes e limpas do que a média das nossas praias paulistanas. E, no verão, as águas são quentes, como a do Nordeste. Acho que não se fica muito longe da verdade ao imaginar a costa do Mar Negro como a Flórida da antiga União Soviética. Eu e mais dois estudantes vindos da Suécia, um de origem australiana e outro de origem tcheca, no Mar Negro. E imaginar que esses dois estudantes descendiam de homens que tinham sido prisioneiros de guerra... Não era só imaginação, era fato. Um dos avós do Australiano foi prisioneiro dos japoneses; era obrigado a andar agachado na frente dos soldados japoneses para não por em evidência sua superioridade em estatura; caso contrário, era castigado com tapas e humilhações.      

Um estudante búlgaro me surpreendeu ao me perguntar sobre a fábrica de motores elétricos WEG. Fiquei quase emocionado quando ele me falou sobre as qualidades desses motores, elogiando as soluções propostas por seus engenheiros e implorando por mais informações a respeito dessa empresa. Não pude dizer nada além de que ela ficava em algum lugar de Santa Catarina. Acho que se me tivesse perguntado sobre samba poderia ter-lhe dado mais informações. Era um sujeito um tanto quanto peculiar, simpático, levemente autista, apaixonado pela engenharia dos motores elétricos. De acordo com ele, a Bulgária já foi uma grande potência em motores elétricos. Ao comentar com ele sobre a impressão que tive ao conhecer Sofia, me fez ver as coisas com outra perspectiva mais uma vez. Aqueles prédios toscos, que tinham me transmitido uma impressão não muito agradável, teriam sido construídos, segundo ele, em um período de pós-guerra, quando a uma grande quantidade de migrantes do campo arruinados pela guerra foi dada um chance de reconstruir a  vida na cidade, trabalhando nas fábricas. De acordo com ele, embora os prédios não sejam lá essas coisas em beleza, são robustos o suficiente para aguentar os abalos sísmicos. Sua visão favorável ao regime socialista ficou clara; na sua perspectiva, durante seus 23 anos de vida testemunhou e assistiu o país cair em uma grande depressão e mediocridade. A admirável indústria de motores elétricos simplesmente acabou. Uma significativa parcela da população búlgara emigrou para fora. Sobraram muitos ciganos e turcos, que, de acordo com ele, formam uma sociedade a parte. A propriedade dos búlgaros estaria constantemente ameaçada pelos ciganos.

Ao entrar em uma rede de restaurante "fast food" espalhada por vários pontos do país fiquei pasmado com as fotos de mulheres sensuais seminuas espalhadas por todos os cantos. Acho que isso faria qualquer brasileiro médio corar de pudor. Que a mulher seja explorada como objeto em propagandas na civilização ocidental moderna não é novidade para ninguém, mas aquilo era descarado demais para aquele tipo de ambiente, onde a qualquer momento poderia entrar marido e mulher com seus filhos. Nas propagandas e nas ruas de Sofia, nota-se em alguns lugares, à plena luz do dia, um ambiente carregado desse tipo de comércio sujo.  Os guias que me foram distribuídos junto com o material da conferência mostravam, ao lado da propaganda de um restaurante, uma propaganda de baixo nível como se fosse a coisa mais normal do mundo. Em alguns lugares sente-se no ar um clima de hedonismo corrosivo e putrefaço. Suspeito que o mesmo ocorra em muitos outros lugares desse universo do leste europeu. E também deste universo tupiniquim.

No entanto, vi também muitas famílias jovens, com mais de um filho, passando suas férias em Kiten. Suspeito que o mundo sempre foi palco de grandes contrastes. A loucura do mundo moderno é pensar que pode relativizá-los. Ao entrar em uma loja que vendia ícones orientais e jóias, uma belíssima atendente que falava inglês comentou um pouco sobre o modo como encarava o cristianismo. Diferentemente de nós, católicos, as verdades de fé e a crença em Jesus Cristo Filho de Deus não são tão relevantes. O cristianismo é apenas uma atitude, uma roupagem indispensável para a composição da cultura búlgara. Alguns santos búlgaros, com os seus atos heróicos de defesa aos pobres e à pátria, poderiam ser colocados no mesmo patamar ou acima de Jesus. Enfim,  Jesus seria apenas mais um entre esses homens santos, admiráveis, dignos de simpatia e veneração. O que o meu amigo búlgaro fez ao comentar a respeito do assunto foi apenas generalizar aquela atitude particular; a sua impressão, na perspectiva de alguém que se declarou agnóstico, era a de que o cristianismo era encarado pela maior parte das pessoas na Bulgária apenas como uma roupagem, sem a menor influência em suas vidas.

Há ainda tantas outras coisas para falar, mas vou deixar para a próxima postagem... To be continued...